terça-feira, 1 de setembro de 2015

O simbolismo dos números na Bíblia

 
por Santo Agostinho

A ignorância dos números também impede compreender quantidade de expressões empregadas nas Escrituras sob forma figurada e simbólica. Certamente, um espírito bem nascido sente-se levado a se perguntar o significado do fato de Moisés, Elias e o Senhor terem jejuado por quarenta dias (Ex 24, 18; I Rs 19,8; Mt 4, 2). Ora, esse acontecimento propõe um problema simbólico que só é resolvido por exame atento desse número. Compreende o número 40 quatro vezes 10 e, por aí, como que envolve o conhecimento de todas as coisas incluídas no tempo. Pois num ritmo quaternário que prossegue o curso do dia e do ano. Divide-se o dia em espaços horários da manhã, do meio-dia, da tarde e da noite. O ano estende-se nos meses da primavera, do verão, do outono e do inverno.

Ora, enquanto vivemos no tempo, devemos nos privar por abstinência e jejum dos prazeres que o tempo proporciona. É certo, aliás, que o próprio curso do tempo ensina-nos a menosprezar o tempo e a desejar a eternidade. Por outro lado, o número 10 simboliza o conhecimento do Criador e da criatura, pois 3 designa a Trindade do Criador e 7, a criatura, considerada em sua alma e em sua alma e em seu corpo. Com efeito, na alma, há três movimentos que levam a amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o espírito (Mt 22, 37). E no corpo, estão bem manifestos os quatro elementos que constituem. Consequentemente, este número denário move-nos à cadência do tempo. Isto é, voltando quatro vezes, adverte-nos para vivermos na castidade e na continência, desapegados dos deleites temporais, e prescreve-nos jejuar quarenta dias.

Eis o que nos explica a Lei personificada em Moisés; eis o que mostra a profecia, representada por Elias; eis o que nos ensina o próprio Senhor. Apoiando-nos no testemunho da Lei e dos Profetas, ele apareceu em plena luz, entre essas duas personagens, sob os olhos dos três discípulos tomados de espanto (Mt 17, 2-3). Em seguida, pode-se perguntar, do mesmo modo, como do número cinquenta, eminentemente sagrado em nossa religião devido a Pentecostes (At 2). E ainda, como esse número cinquenta multiplicado por três por causa das três épocas: aquela antes da lei, a época sob a lei e a sob a graça; somando de modo ainda mais eminente a mesma Trindade, refere-se ao mistério da Igreja já purificada, representada nos cento e cinquenta e três peixes que, depois da Ressurreição do Senhor, são recolhidos nas redes arremessadas à direita (Jo 21, 11).

É assim que por vários outros agrupamentos numéricos encontram-se escondidas nos Livros santos certas figuras que, devido à ignorância de muitos, ficam impenetráveis aos leitores. 
Extraído da obra “A doutrina cristã”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A rapidez do tempo

Por Pe. P. Huguet

Os anos temporais passam. Os seus meses reduzem-se em semanas. As semanas em dias, os dias a horas. As horas a momentos, que são os únicos que possuímos, mas que não gozamos senão à medida que acabam e tornam a nossa natureza mortal, a qual no entanto deve para nos ser amável. E visto esta vida estar cheia de miséria, não poderíamos ter consolação mais sólida do que a de estarmos certos de que aquela se vai dissipando para dar lugar à santa eternidade, que nos  está preparada na abundância da misericórdia de Deus, e à qual a nossa alma aspira incessantemente por contínuos pensamentos que sua própria natureza lhe sugere, embora não possa esperar senão por outro pensamento mais elevado que o autor da natureza sobre ela derrama.

Eu não estou atento à eternidade senão com muita suavidade, porque, digo eu, como é que a minha alma poderá estender o seu pensamento a este infinito se não tivesse alguma proporção com ele? Porém, quando conheço que o meu desejo corre com o meu pensamento para esta mesma eternidade, a minha alegria cresce sobremaneira. Porque sei que desejamos com um verdadeiro desejo senão coisas possíveis. O meu desejo de certificar-me pois de que posso ter a eternidade. Que me resta pois senão esperar possuí-la? E isto concede-se-me pela infinita bondade daquele que não criaria uma alma capaz de pensar e tender para a eternidade se não quisesse dar-lhe os meios de a conseguir.

Digamos pois muitas vezes: tudo passa, e após poucos dias desta vida mortal que nos restam, virá a infinita eternidade. Pouco nos importa que tenhamos aqui comodidades ou não, contanto que sejamos felizes por toda a eternidade. Seja esta eternidade santa que nos espera, a nossa consolação, e o sermos cristãos, membros de Jesus Cristo, regenerados com o seu sangue, porque só consiste a nossa glória neste divino Salvador ter morrido por nós.

Uma alma grande eleva os seus melhores pensamentos, afetos e desejos ao infinito da eternidade, e visto que é eterna, reputa em pouco o que não é. Tem por pequeno o que não é infinito, e elevando-se acima de todas as delícias, ou antes vis joguetes que esta vida nos apresenta, tem os olhos fixos na imensidade dos bens e anos eternos.

Ó, quanto é desejável a eternidade comparada com estas miseráveis e perecíveis vicissitudes! Deixemo-nos correr o tempo, com o qual corremos a pouco e pouco para sermos transformados na glória dos filhos de Deus. Ah! Quando penso como empreguei o tempo de Deus, aflige-me o pensar que ele não me queira dar a sua eternidade, pois que só a dará aos que empregaram bem o tempo.

Ó, Deus! Os anos correm imperceptivelmente uns após outros, e terminando a sua duração, terminam a nossa vida mortal, e acabando, acabam a nossa vida. Ó, como é incomparavelmente mais amável a eternidade! [...] Possais vós possuir este bem admirável da santa eternidade em tão alto grau quanto eu vos desejo! Que felicidade para a minha alma se Deus concedendo-lhe misericórdia, lhe patenteasse esta doçura.

Extraído da obra "Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales"

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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Vale a pena tornar-se leitor do blog Capela de Santo Agostinho




Indicamos aos nossos leitores o PortalBlog da Capela de Santo Agostinho, mantido pelos fiéis de Tradição Católica em Parnaíba, o qual disponibiliza informações acerca do catolicismo tradicional no norte do Piauí, ótimos textos doutrinais e espirituais, bem como o download de algumas edições do Almanaque Tradição Católica.

Agora com atualizações diárias. Vale a pena tornar-se leitor do blog Capela de Santo Agostinho.

domingo, 23 de agosto de 2015

A crise por que passa a Igreja e a confiança na Providência Divina


por Pe Christian Bouchacourt

A respeito das provas da vida, e particularmente daquelas que a Igreja atravessa, é preciso que vivamos o tempo presente sem buscar nos adiantarmos à hora de Deus, sem forçar a Providência. Guardemos no fundo das nossas almas uma firme confiança nesse socorro que nunca nos faltará se nos comportarmos como bons filhos de Deus.

Voltemos a ler no Antigo Testamento o livro de Daniel, capítulo 13: Deus salva a vida da casta Susana e a recompensa por sua confiança justamente quando a situação parecia perdida por causa dos falsos testemunhos dos dois anciãos, que foram finalmente condenados no lugar dela. Consideremos a realização da promessa de Nosso Senhor que tinha anunciado aos Apóstolos e aos discípulos que enviaria “outro Consolador para que ficasse eternamente convosco, o Espírito de verdade (...) que vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”. E de fato o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes.

Meditem também na oração que nos ensinou Nosso Senhor. Ele nos convida a pedir o pão de cada dia, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e não o que vamos a necessitar dentro de um mês ou de um ano. Pensemos também na promessa que fez aos que sofreriam por Ele: “Não estejais com cuidado de que modo respondereis ou que direis, porque o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que deveis dizer”. O provérbio popular “antes da hora ainda não é a hora” se inspira nessa promessa. Assim sendo, guardemos a paz e nos mantenhamos longe das inquietudes que perturbam a alma e a afastam do essencial.

Um dia, então, quando soar a hora de Deus, Roma manifestará à FSSPX seu reconhecimento por sua fidelidade e se apoiará nela para reconstruir a cristandade. Para acelerar a chegada desse dia, permaneçamos firmes na fé, sem compromissos com os erros que pululam na Igreja. Cumpramos nosso dever de estado, façamos penitência, estudemos a nossa santa religião e tenhamos confiança como Nossa Senhora à espera da ressurreição do seu Filho no dia seguinte à Sexta-Feira Santa.

Terminarei estas considerações deixando-lhes esta oração composta por Madame Elizabeth, irmã do Rei Luís XVI. Sabendo que seria condenada pela Revolução por ódio à fé, ela se preparava para os acontecimentos trágicos que a esperavam. Morreu, de fato, na forca, depois de ter recitado cada dia esta oração que lhe foi de grande ajuda e que poderíamos fazer nossa: “Desconheço, Senhor, o que me acontecerá hoje. Tudo o que sei é que nada do que me acontecer virá sem que tenhais previsto desde toda a eternidade. Isso me basta, meu Deus, para estar tranquila. Adoro os vossos desígnios eternos e me submeto de todo o coração; quero tudo, aceito tudo, faço-vos o sacrifício de tudo. Uno este sacrifício ao de vosso amado Filho, meu Salvador, pedindo-vos, por seu Sagrado Coração e por seus méritos infinitos, a paciência diante dos males e a perfeita submissão que vos é devida em tudo o que desejais e permitis”.

Que Deus os abençoe!

Padre Christian Bouchacourt
Superior do Distrito da América do Sul da FSSPX

Trecho final do editorial da Revista Iesus Christus nº139

sábado, 22 de agosto de 2015

Contra os hereges

Manuel Botelho de Oliveira
Que Lei segue, soberbo Calvinista?
que Igreja formas, cego Luterano?
que Deus adoras, pérfido Ariano?
que fé procuras, vário Donatista?

Não sabes tu que na imortal conquista
quem é Cristão submete o ser humano:
e se um Deus reconhece soberano,
na unidade da fé também se alista.

Não queiras obstinado que se veja
tua fé, tua lei, sem forma alguma
com que o Juízo teu em vão peleja.

Olha que a fé e a Igreja há de ser uma,
mas se tens outra Lei, tens outra Igreja,
e se tens várias, fé não tens nenhuma.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Em busca do verdadeiro catolicismo

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

No embate que hoje há entre o novo e o “de sempre”, no confronto do moderno contra o eterno, muitas implicações recaem sobre aquilo em que se deve crer. O avanço das novas doutrinas assumindo o lugar das verdades eternas, gerou dúvidas e incertezas em grande parte dos fieis, mesmo naqueles que se sentiam seguros na fé. E o mais desalentador para aquele que deseja ser um autêntico católico é ter que lançar-se no meio de tantas variantes doutrinais e práticas religiosas em busca do verdadeiro catolicismo.

São Vicente de Lerins, na obra Comonitório, expõe que “parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica – nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia – mas que, desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.”

A partir desse ensinamento, natural é ver que toda doutrina nova, desconexa da doutrina já estabelecida, não tem nada a ver com a religião revelada do céu.

Em nossa época, porém, um olhar atento faz perceber o quanto estamos rodeados de tantas e novas doutrinas, frutos de novas teologias e novas hermenêuticas provenientes de um novo “espírito”, que incita os fieis a se atualizarem na fé, abandonando doutrinas antigas, tentando fazer acreditar que estas já não são apropriadas para o nosso tempo.
Ao verdadeiro católico, não há motivo para envergonhar-se de ser membro de uma Igreja de vinte séculos, de sentir-se ultrapassado frente ao mundo moderno. Pelo contrário, só uma Igreja de vinte séculos de existência liga-se no tempo a Jesus Cristo, e nos indica ter sido fundada pelo próprio Deus que se fez homem.

Da mesma forma, não há porque desmerecer seus autênticos ensinamentos e práticas mais antigas. São Vicente de Lérins nos deixou uma eficaz regra outrora utilizada para saber se uma doutrina é verdadeiramente católica: Basta verificar se ela foi crida sempre, em toda parte e por todos os católicos. Portanto, são exatamente as novas doutrinas, que se espalham por aí, que não passam nesta regra.

É de temer e tremer quando vislumbramos tão explícito desprezo às palavras do apostolo Paulo “Ó Timóteo, guarda o depósito da fé, evitando as novidades profanas de palavras, e as contradições duma ciência de falso nome, professando a qual alguns se  desviaram da fé” (I Tm 6, 20-21).



Avancemos, pois, no conhecimento da Tradição Católica, a doutrina de sempre.

(Editorial de Tradição Católica nº03)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os pobres de espírito (CATENA ÁUREA)

“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus ” (Mt 5,3)

SANTO AGOSTINHO

A presunção de espírito representa o orgulho e a soberba. Costuma-se dizer, com toda propriedade, que os orgulhosos
tem um espírito grande porque o espírito é chamado de vento. Quem desconhece que dos orgulhosos se dizem inflados
como se estivessem cheios de vento? Portanto, aqui se entende por pobres de espírito os pobres que temem a Deus, isto é, aqueles que não tem o espírito inchado.

CRISÓSTOMO (Pseudo)

É o que diz claramente: “Bem aventurados os pobres de espírito” para manifestar assim que são mendigos os que sempre escutam a Deus. No texto grego diz: “Bem-aventurados os mendigos e os pobres”. Há muitas pessoas que só são
humildes por natureza, não pela fé, porque eles não imploram a ajuda de Deus . Porém, verdadeiramente humildes, são apenas aqueles que o são pela fé.

SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

Os pobres de espírito também podem ser aqueles que temem e tremem diante dos mandamentos de Deus, como o próprio Deus diz através de Isaías. O que mais pode ser simplesmente
humilde? Pode ser humilde aqui certamente o simples, mas pode ser que aquele que tenha alguma abundância também o seja.

SANTO AGOSTINHO

Os soberbos almejam as coisas da terra, mas o Reino dos Céus é dos humildes.

CRISÓSTOMO (Pseudo)

Assim como todos os vícios conduzem ao inferno, especialmente a soberba, assim todas as virtudes
conduzem ao céu, especialmente a humildade, porque é muito natural que seja exaltado o que se humilha.

SÃO JERÔNIMO

Bem aventurados os pobres de espírito, isto é, os que por obra do Espírito Santo se fazem pobres voluntariamente.

SANTO AMBRÓSIO

Aqui começa a bem aventurança no julgamento de Deus, que é
considerada a prostração humana.

Glosa


Aos pobres se oferecem oportunamente na vida presente as riquezas do céu.

(São Tomás de Aquino, na Catena Áurea)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O prazer de reler: meu artigo sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
Por esses dias morreu o conhecido ator Robin Williams. A Rede Globo andou reprisando uma de suas grandes atuações, o filme Sociedade dos Poetas Mortos. E eu, também andei relendo e, por achar oportuno, posto aqui novamente meu artigo-resenha sobre tal filme.


*          *          *


Sociedade dos Poetas, digo, da educação morta


Quem estudou Pedagogia ou área correlata e ainda não teve que fazer uma resenha do filme Sociedade dos Poetas Mortos? Em geral, o intento do professor é apresentar o filme como sendo inevitável caminho a ser percorrido para o total rompimento com os velhos paradigmas da educação, fazendo-se alcançar a evolução de tal ciência. Eis a minha resenha. Veja o filme, leia o texto e compare.

*          *          *

         “Sociedade dos Poetas Mortos” conta a história de uma escola, de um professor, de um aluno. A escola é um modelo de colégio interno tradicional regido por normas rígidas. O professor, John Keating, é um profissional que rompeu com as amarras do método de lecionar daquela época (1959) tido como arcaico, levando os alunos a seguirem seus sonhos. O aluno, Neil, foco principal da turma, se deixa levar pela filosofia apresentada pelo eloqüente professor e passa a viver um dilema entre a busca de seus sonhos e a vontade dos pais.
         Os métodos de ensino pouco convencionais do professor Keating envolvem a turma. Atitudes como mandar rasgar páginas dos livros fazem de Keating um modelo pretendido, chegando a receber dos alunos a expressão “Ó Capitão! Meu Capitão”. A maneira inusitada de “ensinar a pensar” induz aquela gente ainda sem uma personalidade definida a lançar-se a um mundo muitas vezes fantasioso e desconhecedor da crua realidade do mundo. Os alunos tomam conhecimento da “Sociedade dos Poetas Mortos” vivida pelo mestre em sua juventude e, num espírito aventureiro, fazem renascer a sociedade que tem como centro a poesia.
         O papel do professor como orientador foi por demais usado para incutir nos alunos a sua única ideologia, em detrimento do conhecimento amplo a que se possa chegar quando se prova das inúmeras formas de pensar e se busca na fonte de vários autores e várias correntes filosóficas. A criatividade estimulada nos alunos era dirigida e direcionada para nova concepção de vida que assumiriam e que já deveria viver dentro de cada um.
         O filme em pouco coaduna com a moral e a ética cristã, mas simplesmente enaltece o direito de se ter sonhos e de pretensamente vivê-los a qualquer custo.

         Verdadeiro e realista ao seu final, o filme apresenta o resultado já imaginável das conseqüências às quais se podem chegar ao se por em prática tal ideologia de vida: Mais alienado do que antes, e incapaz de conceber que na vida nem sempre os sonhos são produto de um imediatismo do querer, mas que pode advir da luta incessante para se conquistar tal intento com maturidade, perseverança e temor a Deus, as quais são virtudes supressas do roteiro, o aluno, Neil, desiste de batalhar por seu sonho da maneira mais banal e impensada para uma pessoa dotada de inteligência e faculdades normais. Ele suicida-se, falseando uma vitória sobre a dita opressão dos pais. Essa falsa vitória que se tentou apresentar ao final não deve ser uma válvula de escape para aqueles que foram educados para a vida.
Ps.: Nos noticiários, dizem, a morte do ator Robin Williams foi suicídio.

domingo, 10 de agosto de 2014

O fim e o que convém



por Santo Agostinho

Tu sabes muito bem que não é do ponto de vista dos convenientes, mas dos fins, que cabe distinguir as virtudes dos vícios. O conveniente é o que se deve fazer; o fim é aquilo por que se deve fazer. Portanto, quando alguém fez uma coisa que não parece ser pecado, se aquilo por que fez não é aquilo por que se deve fazer, este alguém é réu de pecado. Tu não atentas; tu separas pois os fins dos convenientes e pretendes  que se deva considerar como virtudes verdadeiras convenientes sem seus fins.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pode a Igreja morrer?

 por Dom Lourenço Fleichman

[...] Muitos já escreveram sobre a Paixão da Igreja. De Gustavo Corção, na década de 70, a Dom Marcel Lefebvre, nos anos 80, e depois, na pluma de muitos padres da Tradição

Parece claro que Nosso Senhor quis levar a sua Esposa, a Santa Igreja, a sofrer algo semelhante ao que Ele mesmo sofreu em sua Paixão. Como Jesus Cristo, a Igreja está sendo desfigurada há mais de 50 anos. Apresenta-se de tal forma flagelada em todo o seu Corpo, que mais parece uma Esposa das Dores, sem beleza, irreconhecível. 

Parece, de fato, possível, descrever a Paixão da Igreja nos mesmos moldes usados por Isaías para profetizar sobre a Paixão de Cristo, ou na descrição impressionante do Salmo 21 sobre o Cristo padecente. Assim vive a Igreja desde os anos 60, desde a morte do papa Pio XII, ocorrida em outubro de 1958.

Nesse ponto nos deparamos com o medo terrível de alguns autores de lidar com esta situação que me parece ser mais real do que metafórica. Nesse ponto desviam a atenção da realidade, afirmando que "as portas do Inferno não prevalecerão sobre ela" (S. Mateus, 16, 18), logo a crise há de passar e tudo voltará ao normal.

Me parece que não podemos agir assim. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, é mais divino do que a sua Igreja. Ele aceitou sofrer a Paixão medonha e iníqua para nos salvar. Mas foi além. Aceitou a morte. Ora, afirmar que a Igreja não pode morrer porque as portas do Inferno teriam prevalecido sobre ela, é o mesmo de afirmar que as portas do Inferno prevaleceram contra Cristo, o que seria uma grande heresia e uma blasfêmia.

Nós sabemos que Cristo morreu por nossos pecados, ressuscitou ao terceiro dia, e a morte não terá mais império sobre ele. Logo, podemos sim, afirmar que a Igreja poderá passar pela morte, já que é evidente que ela passa pela Paixão.

A questão seria, pois, de compreender em que consiste essa morte da Igreja. Morte de tal forma eficaz e fecunda que representaria para a vida social do Corpo Místico de Cristo, o que a morte física de Nosso Senhor representou para o início do Cristianismo. Porque Cristo morreu no início da obra da nossa Redenção; a Igreja morreria no fim dela. Jesus Cristo morreu para apagar e extirpar do mundo o Pecado original e suas consquências; a Igreja morreria para apagar e extirpar do mundo o Pecado terminal, essa realidade imaginada pelo gênio de Gustavo Corção no final do seu livro O Século do Nada, e que consistiria na obra da grande apostasia, último lance do demônio antes do grande combate de Nosso Senhor contra o Anti-Cristo.

Levemos nossa reflexão adiante, e consideremos que a morte de Nosso Senhor foi um acontecimento da sua natureza humana. De fato, Deus não morre. Jesus não morreu enquanto Deus, mas apenas enquanto homem. Morreu depois de ter ficado completamente desfigurado, irreconhecível, sem beleza, ou seja, sem que nada no seu Corpo manifestasse a Divindade que permanecia ali escondida, apagada, mas viva. Nessa hora Jesus lança seu último brado, oferece ao Pai o seu espírito, dá o último sopro de sua vida natural. Morre a natureza humana.

Levemos, pois, essa comparação à vida da Igreja. Como dissemos, há 50 anos que a Igreja é flagelada, desfigurada, cuspida, pregada a uma dura Cruz, que foi apagando dela toda beleza, ou seja, toda manifestação da sua seiva divina, da sua santidade, do seu sacerdócio, dos seus Sacramentos. Tudo isso foi demolido, vilipendiado, rebaixado e dessacralizado. A Paixão da Igreja nos mostra a Esposa de Cristo nua como Cristo na Cruz. Seus sacramentos já não são integralmente católicos, a pregação dos padres já não converte ninguém, a vida sacerdotal e religiosa está muito longe da santidade, e tudo se resume num amálgama rasteiro e sem vida sobrenatural.

Nesse momento, a morte da Igreja poderia advir pelo extermínio do sopro de vida humana que ainda lhe restaria. Cristo morreu assim, a Igreja pode, muito bem, morrer também. No momento em que a vida divina já não aparece mais, basta cessar a vida natural e humana, e a Igreja já não viveria mais.

Ora, me parece que a obra do papa Francisco consiste em tirar do resto de vida que ainda restava na Igreja, seu sopro natural. Levantou-se este estranho papa contra tudo o que é natural, as únicas coisas que ainda restavam na pregação dos seus predecessores.

Sobre o aborto, ele afirmou que não devemos mais tratar desse assunto; Sobre o adultério, ele afirmou que não se deve mais imputar o pecado, podendo comungar os divorciados que vivem em novo casamento.

Sobre a família, ele afirmou, ao aplaudir o discurso do Card. Kasper, que é preciso aceitar essa nova família do mundo moderno, regida pelo divórcio.

Sobre os graves pecados contra a natureza, ele induziu a sua prática ao afirmar que um padre não pode julgar o pecado de homossexualidade.

Sobre a Religião, sobre o culto que se deve prestar ao único e verdadeiro Deus, ele confirmou o ecumenismo de João Paulo II e de Bento XVI, retirando da Igreja até mesmo o pouco de prevalência que os outros ainda guardavam para ela.

Os papas que o precederam na obra nefasta de Vaticano II não ousaram negar a verdade da natureza das coisas. Demoliram a seiva sobrenatural, mas guardaram, ao menos tentaram guardar, a família, a luta contra o aborto, a condenação dos atos sexuais contra a natureza etc.

O que restava de vida natural na Igreja está desaparecendo. E não restará mais nada.

Nossa Esperança sobrenatural, no entanto, não nos permite desanimar. Ao contrário. Não sejamos fracos como foram os Apóstolos, que fugiram diante da morte de Cristo, e iam tristes pelo caminho, ou se esconderam no Cenáculo com medo dos judeus. Porque Cristo ressuscitou ao terceiro dia. A Igreja, ela também ressuscitará. A vida divina que não a abandona, mesmo quando o Corpo humano da Igreja morre como Cristo morreu, ressurgirá da morte para uma vida nova. 

Então estaremos no júbilo e na alegria. A Santa Igreja se apresentará a nós em seu Corpo glorioso, como Jesus se apresentou diante dos Apóstolos e de seus discípulos. Então terá chegada a hora do derradeiro combate contra o Anti-Cristo, e Jesus o derrotará, enfim, com o sopro da sua boca.

Trecho Retirado de: http://permanencia.org.br/drupal/node/4627
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