sábado, 30 de outubro de 2010

Para bem recitar vosso Rosário

São Luís Grignion de Monfort

Para bem recitar o Rosário, após invocar o Espírito Santo, colocai-vos, por alguns instantes, diante da presença de Deus (...).

Antes de cada dezena, concentrai-vos por alguns momentos, segundo a vossa disponibilidade, para considerar o mistério que estais a celebrar naquela dezena e pedi, sempre, que, por esse mistério e pela intercessão da Virgem Santíssima, uma das virtudes que mais se destacam nesse mistério ou a virtude mais necessária para a vossa redenção.

Cuidai, principalmente, para não cairdes nos dois erros mais comuns cometidos por aqueles que rezam o Terço ou o Rosário. O primeiro é o de rezar sem pensar numa intenção, de maneira que, se perguntardes qual a intenção pela qual rezam o Terço, não saberão responder. Assim, deveis sempre ter em vista, ao recitar o Rosário, o pedido de uma graça, uma virtude à qual desejais vos assemelhar, ou algum pecado que desejais destruir em vosso coração.

O segundo erro que habitualmente cometemos, ao rezar o santo Rosário, é o de não ter qualquer intenção ao recitá-lo, a não ser a de terminá-lo rapidamente. Isso decorre do fato de olharmos o Rosário como algo oneroso, que pesa sobre nossos ombros, quando não o rezamos e, mormente, quando dele fazemos um princípio de consciência, ou quando o recebemos como penitência e sem vontade própria.

São Luís Grignion de Monfort,
A eficácia maravilhosa do Santíssimo Rosário
 
  
  

 

 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Carta aberta a Dom Demétrio Valentini – Bispo Diocesano de Jales


por Diogo Ferreira

 
Excelência,
 
Sua Benção!
 
Como leigo Católico residente na circunscrição eclesiástica da Diocese de Jales venho respeitosamente tecer alguns comentários que reputo importantes acerca de um dos últimos artigos de Vossa Excelência, intitulado "Pela liberdade de consciência".
 
No referido texto Vossa Excelência parece reagir aos pronunciamentos de Bispos e Padres, secretarias e institutos religiosos que ultimamente têm conclamado os fiéis católicos a não contribuírem com o voto à candidatura de Dilma Roussef à Presidência da República.

Tanto assim que em meio a uma ode à liberdade de consciência Vossa Excelência pontua que se difundem "cartas procedentes de sub-comissões, de sub-regionais, ou cartas individuais de determinados bispos ou padres, e pretendem invocar sobre estes escritos a autoridade de toda a instituição, quando o Presidente da CNBB, D. Geraldo Lyrio Rocha já esclareceu, enfaticamente, que a CNBB não apóia nenhum partido e nenhum candidato, nem igualmente proíbe nenhum partido ou candidato.", aludindo aos vídeos e textos que se lançaram recentemente, como o de Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, Dom Alberto Taveira Correia, Dom Manoel Pestana, ou a nota da Comissão Episcopal representativa do Conselho Episcopal Regional Sul 1 da CNBB entre outros nobilíssimos Bispos e Padres.

Pode-se confirmar que o intento era mesmo o de defender mais especialmente a legitimidade de voto em Dilma Roussef observando o texto seguinte, publicado alguns dias depois no mesmo site da Diocese, em que se lê sob o título "o fato relevante" que, entre outras coisas "Esta autonomia frente à grande imprensa, se traduz também em liberdade diante das recomendações de ordem autoritária. Elas também já não influenciam. Ao contrário, parecem produzir efeito contrário. Quando (sic) mais o bispo insiste, mais o povo vota contra a opinião do bispo.".

Diante de tudo isso, sinto-me no dever moral de lançar algumas ponderações atinentes ao assunto, o que faço primeiramente a Vossa Excelência, mas também a tantos mais quantos tiverem lido os supracitados artigos, daí esta carta aberta.

O dever de todo católico de colaborar - conforme suas condições e estado de vida - ao Bem Comum na Polis é algo deveras relevante, e em vista de que "a Graça não destrói, mas aperfeiçoa a natureza"[1], esse mesmo católico encontra na Sã Doutrina e na disciplina da Igreja uma apurada e renovada força para cumprir com seus deveres de cidadania, bem como fazer valer seus direitos.

Assim é que, os problemas de ordem natural em crivo político e econômico, enquanto estão sob aspectos técnicos, carregam consigo uma maior liberdade decisória quanto a maneira de resolvê-los.

Entretanto, a face política dos problemas de ordem natural pode ter, e regularmente têm, um outro aspecto além do meramente técnico, trata-se do sobressalente aspecto moral, sobre o qual deve a Igreja instruir os fiéis, como múnus próprio entregue por Cristo aos Apóstolos e seus sucessores.

Por isso é que se lê na Encíclica Immortale Dei, de Leão XIII, a explicitação do que sempre fora crido:

"Destarte, tudo o que, nas coisas humanas, é de certo modo sagrado, tudo o que pertence à salvação das almas ou ao culto de Deus, que seja assim por natureza própria ou, ao invés,
se entenda como tal pela causa a que se refere, tudo isso abrange do poder e arbítrio da Igreja" (Denzinger-Hunermann, 2007, p. 678).

É ainda mais clara a Instrução Libertatis conscientia (título bem a calhar ao assunto em pauta), que sob o reinado do Papa João Paulo II e retomando as grandes chaves de leitura da Doutrina Social da Igreja, asseverou:

"Nesta missão, a Igreja ensina o caminho que o homem deve seguir neste mundo para entrar no Reino de Deus. Por isso, sua Doutrina abarca toda ordem moral e, particularmente, a justiça, que deve regular as relações humanas. [...] Quando propõe sua doutrina acerca da promoção da justiça na sociedade humana ou exorta os leigos ao engajamento, segundo sua vocação, a Igreja não excede seus limites [...] Na mesma linha, a Igreja é fiel à sua missão, quando denuncia os desvios, as servidões e as opressões de que os homens são vítimas; quando se opõe às tentativas de instaurar, seja por oposição consciente, seja por negligência culposa, uma vida social da qual Deus esteja ausente, enfim, quando exerce seu julgamento a respeito de movimentos políticos que pretendem lutar contra a miséria e a opressão, mas são contaminados por teorias e métodos de ação contrários ao Evangelho e ao próprio ser humano." (Idem, p. 1122)

Ora, o pedido de muitos Bispos e Padres para que os fiéis não incidam no erro de votar em candidatos que, pessoalmente ou por força do partido, defendam a legalização do aborto é totalmente justificado pela própria hediondez do crime que não pode ter chancela governamental sem grave prejuízo a toda a nação.
 
O partido dos trabalhadores conseguiu evidente destaque negativo nessa seara ao encaminhar, em 2004, um relatório ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que afirma o compromisso do governo do PT na luta em "revisar a legislação repressiva" contrária ao aborto no Brasil; o governo Lula, publica ainda em 2004, o plano nacional de políticas para mulheres, em que apresentava como algo de ação prioritária no item 36.1 do referido documento "revisar a legislação punitiva" do aborto, tais diretrizes conforme os dizeres do próprio documento oficial foram aprovados pelos ministros de estado e pelo presidente da República; em seguida, o governo por meio de sua base parlamentar na câmara dos deputados, lutou pela aprovação do projeto de lei nº 1135/91, de autoria dos ex deputados petistas Eduardo Jorge e Sandra Starling, que liberaria o aborto no país a ser financiado pelo governo com o dinheiro dos impostos, através do sistema único de saúde, e sem qualquer restrição; a rejeição do projeto de lei retro indicado ocorreu somente em 9 de julho de 2008 com parecer em contrário da Comissão de Constituição e Justiça, entretanto, para que não houvesse o arquivamento do mesmo, o deputado do PT José Genoíno apresentou o recurso 201/2008 solicitando a liberação do projeto para ser votado em plenário, apesar dos pareceres contrários de duas comissões internas da câmara, assim o deputado pretende que o projeto seja aprovado no momento oportuno, o que vale dizer, depois de manobras e visível maioria com mínimo legalmente possível de quorum.

Agora, o mais aviltante ainda está por vir: em 21 de dezembro de 2009, o governo Lula sanciona o Plano Nacional de Direitos Humanos, que apresenta como objetivo estratégico (item III) o apoio à aprovação de projeto de lei que descriminalize o aborto, além de defender projetos que equiparem ao casamento a união homossexual e propostas de retirada obrigatória de todos os símbolos religiosos de qualquer repartição pública. Isso também é reafirmado em 22 de fevereiro de 2010, em que o site oficial do PT publica a Resolução sobre as diretrizes de programa 2011 a 2014 (portanto a ser implantada com a eleição de Dilma Roussef, o apoio ao aborto é especialmente citado na diretriz nº 57 do documento).
 
Em 16 de Julho de 2010, um ministro e uma chefe de secretaria do governo, e "companheiros" de Dilma Roussef, assinaram em nome do Estado Brasileiro o denominado "Consenso de Brasília", em que se assume o compromisso pela legalização do aborto (item 6, alínea f).

Dilma Roussef, em recente entrevista filmada aos editores da revista "istoé" (que pode ser vista na íntegra quanto ao tema, até mesmo pelo youtube), se reportou ao aborto dizendo que o fato negativo do mesmo é apenas o de provocar dores na mulher, disse ela: "além de ser uma agressão ao corpo da mulher, dói... eu imagino que a mulher sai de lá baqueada (sic)", nenhuma palavra fora dita sobre o sofrimento e morte da criança no ventre, o que, além de tudo, mostra uma cruel insensibilidade.

O fato emblemático, entretanto, é outro, pois "nunca antes na história desse país", deputados tinham sido perseguidos e forçados a sair de um partido mediante processo disciplinar, por terem se mostrado contrários à legalização do aborto. Foi talvez uma das maiores façanhas ocorridas durante o governo petista: os deputados federais Luiz Bassuma e Henrique Fontes sofreram processo disciplinar no PT e foram punidos pelo partido por serem contrários à legalização do aborto! (de fato, o PT não é lugar para pró-vida). Isso fora possível, pois, no PT o aborto é programa de partido e fora institucionalizado como meta em Congresso Nacional partidário (definida a legalização do aborto a ser realizado nos hospitais públicos sem restrições, pelo III Congresso Nacional do PT, em 2007, entre outros anteriores e com confirmação posterior do Congresso de número IV, de 2009).
 
Tendo diante de si todas essas amostras de desrespeito ao bem natural mais fundamental que é a vida, em vista ainda da pretensão do PT de que esse bem mais fundamental possa ser diretamente atacado e tolhido através do aborto financiado pelo Estado via SUS, os religiosos conscientes e zelosos de seu dever opuseram-se a tal plano que "clama aos céus por vingança" conclamando os católicos a não contribuírem nessa tenebrosa empreitada.

Pois quem colabora com o pecado, mesmo por omissão, é réu da mesma culpa e prestará contas a Deus, assim ensina o Catecismo da Igreja. Muito claramente expressa essa lição do catecismo o Padre Marcelo Tenório:
 
"colaborar com o pecado grave, nem que seja por omissão é comete-lo também. O aborto é pecado grave que brada aos céus por justiça. Votar em qualquer candidato que o apóia é ser réu diante de Deus, é ficar com as mãos sujas do sangue dos inocentes que será derramado mais ainda se esta lei iníqua um dia for aprovada."[2]

Afinal, se lê na Lumen Gentium que tanto os clérigos quanto os leigos, por óbvio, "se devem guiar em todas as coisas temporais pela consciência cristã, já que nenhuma atividade humana, nem mesmo em assuntos temporais, se pode subtrair ao Domínio de Deus." (Idem, p. 958. parágrafo 36 do doc.).

Para atacar os prelados que atacaram o PT, Vossa Excelência repetidamente lançou mão em seu texto da expressão "liberdade de consciência" – com a qual, segundo Vossa Excelência, os católicos poderiam votar sem receio em Dilma Roussef.

Ocorre que a liberdade de consciência que Vossa Excelência evoca não se parece nesse ínterim com a sã liberdade católica, pois verdadeira liberdade não é aquela que se satisfaz em ser livre, mas sim aquela que se vale do ser livre para abraçar e prover a Verdade e o Bem.
 
Ou, noutras palavras, não se trata de obnubilar a consciência para usá-la de maneira contrária ao Bem sob a bandeira da liberdade, a isso melhor seria chamar libertinagem ou arbitrariedade.

A liberdade é um bem, mas é um bem "meio", e não um bem "fim" em si mesmo, ela deve estar a serviço da Verdade e do fim último do ser humano, Este sim Bem Absoluto, Deus mesmo.

Vale mais uma citação de Leão XIII, o grande Papa da Doutrina Social da Igreja, dessa vez na Encíclica Libertas Praestantissimum:

"Em conseqüência disso, numa verdadeira sociedade humana, a liberdade não consiste em cada um fazer o que bem entende,... mas nisto, que, por meio das leis civis, se possa viver mais facilmente de acordo com as prescrições da Lei Eterna." (Ibidem, p. 691).

Do contrário a liberdade se torna auto destrutiva e destruidora de seu fundamento terreno participado, o ser humano.

Desta forma a liberdade não tem a prerrogativa de tudo legitimar, nem foros absolutos.

Diga-se ainda que, nenhum dos clérigos que apontaram o dever moral do católico de não contribuir com a legalização do aborto, irá porventura coagi-los ou obriga-los por intermédio da força, isso sequer é factível no sistema de voto secreto e muito menos fora esse o intento que manifestaram os reverendíssimos religiosos, eles apenas alertaram sobre o grave problema ético que envolve a questão. De fato, a possibilidade de votar em partidos pró-aborto se mantém, por isso mesmo é que devemos reafirmar ao católico que não deve anuir nesse projeto contra a vida, ou seja, o dever de não votar nesses partidos é decorrência lógica da posição católica contra o aborto, é dever por coerência cristã... não uma obrigação imposta por armas e avessa ao exercício da liberdade de consciência, mas se trata exatamente de fomentar o uso consciencioso da liberdade de maneira autenticamente cristã.

Por tudo isso é que o católico não deve votar no PT e em políticos pessoalmente favoráveis ao aborto, pois o tema atinge o bem natural maior – que é a vida – daqueles mais indefesos, os nascituros.

Defender posição em sentido contrário e votar em candidatos legalizadores do aborto é se tornar ipso factum cúmplice (seja em maior ou menor grau) do assassinato de inocentes por nascer, pois a Santa Igreja Católica Apostólica Romana sempre proibiu o aborto e isso pode ser atestado historiograficamente já pelos documentos patrísticos.

Desde o 1º Catecismo Cristão (Didaché) que data do ano 90-100, está escrito 'não matarás criança por aborto, nem criança já nascida' [...] Em 220, Tertuliano diz uma frase genial: 'É homem o que deve tornar-se homem, tal como o fruto inteiro está contido na semente' (apologética, cap.9).[3]

A condenação foi reafirmada em vários Concílios no correr dos séculos: Concílio de Ancara (ano 314, cânone 20); Concílio de Lérida (ano 524,
cânone 2); Concílio de Constantinopla (ano 629, cânone 91); Concílio de Worms (ano 829, cânone 35). Também através de Bulas: Ephenatom (ano 1588), Sedes Apostólica,
do Papa
Gregório XIV (ano 1591) e Sedes Apostólica do Papa Pio IX (ano 1869) e assim, sempre, no exercício Perene do Magistério Eclesial.[4]
_____
De quem lhe agradece imensamente por ter ministrado meu Sacramento da Crisma, cuja Graça Divina comunicada me fez - ainda que muito pecador - um soldado do Senhor dos Exércitos, subscrevo-me suplicando que reveja vossa posição acerca do que escrevera.

Ad Maiorem Dei Gloriam.
 
Diogo Ferreira.

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[1] AQUINO, Santo Tomás. Summa Theologica, I, q. I, art. 8, ad. 2.
[2] Retirado de http://www.acidigital.com/noticia.php?id=20210
[3]MARTINS, Roberto Vidal da Silva. Aborto no direito comparado: uma reflexão crítica. In: A vida dos direitos humanos: bioética médica e jurídica.1999 p.409.
[4] Idem. p.409 e 410.
 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Desejo Implícito de se Unir à Igreja e a Necessidade do Batismo

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Observando o catecúmeno que segue a lei natural, há de se convir que, entre ele e a Igreja já se verifica uma determinada relação de afinidade. Ele já manifestamente deseja o batismo, a Igreja desde sempre deseja tê-lo como membro. Uma morte abrupta desse catecúmeno antes do lavacro ordinário ao qual se dirigia não parece ser potente o suficiente para romper o desejo de ambos. Se tal acometimento é, aparentemente, o bastante para impedir a ação normal da Igreja, certamente não o é para uma ação sobrenatural.

Sabe-se que Deus submete todos os acontecimentos deste mundo à sua divina providência, porém não é sensato imaginar que tal catecúmeno estaria imune de qualquer sinistro que atente contra sua vida, até que venha a se consumar seu batismo pelas vias normais. Muito pareceria "amarrar" Deus a uma única forma de agir, além de ser como que uma automática e mágica proteção que não indica ser apropriada para Deus. Eis, pois, que a providência divina atua infalivelmente e, Deus, misericordioso e justo, provê o necessário, ainda que de maneiras desconhecidas.

Muito se pode ouvir a alegação de que Deus salvaria um justo que morreu não-católico, usando de suas prerrogativas de ser soberano. Mas, por que se insiste aqui em apontar para uma ação sobrenatural que se consuma antes da morte e não após ela? Responde-se lembrando que é em vida que se dispõe do tempo da graça, e no caso do sacramento do batismo entende-se ser necessária uma ação prática que de fato se realize sensivelmente. Não se entende que possa acontecer após a morte a consumação daquilo que parece se identificar com o chamado batismo de desejo, o qual deve ter seus efeitos antes da morte. Ainda que se afirme que a ligação ao Corpo Místico de Cristo possa se dá no momento da morte, tal efeito batismal efetiva-se antes de findar o processo do morrer. Com sensatez, não convém imaginar que possa existir uma alma partícipe da Igreja celeste sem ter passado pela Igreja militante.

Há, certamente, um único Sacramento do Batismo (cf. Ef 4, 5), que se dá visivelmente pela água, e que tem seus efeitos consumados na alma, ainda que extraordinariamente, por Deus diante de um desejo digno e capaz, e que pode culminar com o martírio. Não obstante, observe-se que o ensinamento consensual advindo da produção dos teólogos, sobretudo daqueles que adotam os métodos escolásticos, dão sustentação às doutrinas do batismo de sangue e do batismo de desejo, tais como são assumidas na prática atual da Igreja.

Não é uma situação corriqueira se encontrar pessoas de proceder justo, desconhecedoras dos preceitos da fé, mas que cumprem a lei natural, a ermo e fora da Igreja Católica. Imagine-se um tal indivíduo tentando ser fiel àquilo que Deus lhe apresenta no coração: ao se deparar com tantos e tais disparates seja onde for que se encontre, em um país mulçumano, em uma tribo de índios ou em uma aldeia esquimó, certamente esse ignorante da fé católica se inquietará, visto que repugnará por sua racionalidade tais atrocidades que se chocam com sua consciência reta. Assim enfatiza o cônego José Luiz Villac: "Se já é tão difícil para nós, católicos, com todo o socorro dos ensinamentos e dos sacramentos da Igreja, nos mantermos fiéis a Deus e à sua lei, quanto mais difícil será para aqueles que não têm a dita de pertencer à Igreja católica".    

São Paulo, aos coríntios, alerta dizendo: "quando vos dirijo a palavra, não existe um sim e depois um não. O Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós, Silvano, Timóteo e eu, vos temos anunciado, não foi sim e depois não, mas sempre foi sim. Porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus". (II Cor 2, 18b-20). Todavia, infelizmente há um pensar teológico dos dias atuais onde se diz que "é inclusive algo muito forte de temática de discussões dentro da Igreja hoje a questão de que só se salvará aquele que for batizado. Definição essa, terminologia essa muito usada pela Igreja e que hoje a Igreja faz uma avaliação".

Na encíclica Humani Generis, Pio XII expõe que "quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais possível o significado dos dogmas e libertá-los da maneira de exprimi-los já tradicional na Igreja".

Ora, é dogma que o batismo é necessário à salvação, como se vê na incólume doutrina católica que perpassa todas as gerações sendo ensinada desde Jesus Cristo até os papas mais recentes, donde, no princípio, se ouviu do próprio Filho de Deus que "aquele que crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado" (Mc 16, 16), e, vinte séculos depois, continua-se ouvindo da Igreja: "O batismo, necessário para a salvação, é sinal e instrumento do amor da parte de Deus, que nos liberta do pecado original e comunica a participação na vida divina: por si, o dom destes bens às crianças não deve ser adiado" (grifou-se). 

Convém citar com maior ênfase o Concílio de Trento, que explicitamente decreta: "Se alguém disser que o Batismo é facultativo, isto é, não necessário para a salvação – seja excomungado" (grifou-se).

 
Notas:
VILLAC, José Luiz. É possível a salvação fora da Igreja Católica? Disponível em:
     <http://www.lepanto.com.br/DCSalv.html>. Acesso em: 11 nov. 2008.
2 MOTA, Gilza. Pronunciamento por ocasião da defesa de monografia do bacharelando em
teologia Raimundo Rodrigues Moraes intitulada "Uma visão cristã sobre o Batismo como
porta dos sacramentos na visão católica parnaibana", realizada em 25 out. 2008 no
auditório do Colégio Diocesano, em Parnaíba – PI. Disponível em vídeo-gravação de Pro-
Line Studio, registrado sob nº 0001 na biblioteca do curso de bacharelado em teologia da
Universidade Federal do Piauí em convênio com a Diocese de Parnaíba-PI.
3 PIO XII. Encíclica Humani Generis. Disponível em:
<http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_pxii_enc_
12081950_humani-generis_po.html>. Acesso em: 13 nov. 2008.
4 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução Pastoralis Actio. In: DENZINGER-
HÜNERMANN. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Marino. São Paulo: Loyola, 2007, n. 4674, p. 1103.
5 CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão VII: Sobre os sacramentos. n. 861, cân. 5. In: Concílio de
Trento (1543-1563): XIX Concílio Ecumênico (contra os inovadores do século XVI).
Disponível em: <http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=
concilios&artigo=trento&lang= bra#sessao7>. Acesso em: 6 nov. 2008.
 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ora, vamos! O concílio se enganou!




Em 1987, Dom Lefebvre já tinha, numa entrevista, reclamado que se esclarecessem as contradições, mesmo os erros [do concílio]. 

Perguntaram-lhe então: «[...] a única solução do "caso" Lefebvre que podeis aceitar parece ser uma desautorização pública do Vaticano II pelo Soberano Pontífice. Mas, pensa ver o Papa, numa manhã de Domingo, anunciar aos fiéis, na Praça de São Pedro que, depois de mais de vinte anos, concluiu-se que o concílio se enganou e que é necessário, pelo menos, anular dois decretos votados pela maioria dos Padres e aprovados pelo Papa?»

Ele respondeu: «Ora, vamos! Em Roma, saberiam muito bem encontrar uma modalidade mais discreta… O Papa poderia afirmar, com autoridade, que alguns textos do Vaticano II têm necessidade de serem melhor interpretados à luz da Tradição, de modo que é preciso mudar algumas frases, para os tornar mais conformes ao Magistério dos Papas precedentes. Seria necessário que se dissesse, claramente, que o erro não pode ser senão "tolerado", mas que não pode ter "direitos"; e que o Estado neutro no âmbito religioso não pode, nem deve, existir.»

Trecho do texto retirado de Fideliter, n° 194, Mar-Abr 2010, APUD Semper – revista da FSSPX de Portugal
Adaptado ao português do Brasil
Fonte: http://www.fsspx.com.br/exe2/?p=1208
 
 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja, poderia salvar-se?

A pergunta e sua devida resposta são do Catecismo de São Pio X, de 1905. A reflexão  ilustrada por uma analogia é uma tentativa de expormos uma breve explicação.

"Mas quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja, poderia salvar-se? Quem, encontrando-se sem culpa sua - quer dizer, em boa fé - fora da Igreja, tivesse recebido o batismo, ou tivesse desejo, ao menos implícito, de o receber e além disso procurasse sinceramente a verdade, e cumprisse a vontade de Deus o melhor que pudesse, ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma dEla, e portanto no caminho da salvação".

Nessa exposição catequética, distinguem-se duas situações diferentes: "tivesse recebido o batismo" e "ou tivesse o desejo, ao menos implícito, de o receber". Importa reconhecer que ambas possam possibilitar a um mesmo encaminhamento, qual seja, de estarem "no caminho da salvação". Percebe-se que falta algo a cada um. Certamente que o batismo, por si só, não garante a salvação, mas é um requisito indispensável que não dispensa a busca sincera pela verdade e o cumprimento da vontade de Deus o melhor que possa. Da mesma forma, quem tem apenas o desejo implícito ou explícito do batismo, subtendendo-se como aquele que já busca sinceramente pela verdade e cumpre a vontade de Deus o melhor que possa, falta-lhe o batismo. Uma analogia pode ser apresentada aqui para ilustrar a reflexão: Duas pessoas têm a missão de percorrer um longo caminho que dá para uma porta que se deve entrar. A primeira já tem a chave que abre a porta, porém é necessário deslocar-se pelo caminho para chegar até a porta. A segunda já está se deslocando rumo à porta, mas é preciso que alguém lhe dê a chave que a permitirá abri-la.
 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sobre a Ignorância Invencível: Passagens Bíblicas que Abordam a Temática da Ignorância


        Percebem-se diversas palavras da Bíblia seguindo o mesmo tom dos textos magisteriais que não aplicam atenuantes quanto às falhas praticadas por ignorância. E vão ainda além, como nas citações seguintes:
  1. Deus priva alguns homens de certos conhecimentos: 

    "Por esse tempo, pôs-se Jesus a dizer: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos". (Mt 11,25).

  2. A ignorância afasta da vida de Deus: 

    "Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da vida de Deus". (Ef 4, 17-18).

  3. Não é justificada a mentira cometida por ignorância, mas deve ser motivo de envergonhar-se: 

    "Não contradigas de nenhum modo a verdade, envergonha-te da mentira cometida por ignorância". (Eclo 4, 30).


  4. Preces insistentes para ser preservado da ignorância: 

    "Senhor, meu pai e soberano de minha vida, não me abandoneis ao conselho de meus lábios, e não permitais que eles me façam sucumbir. Quem fará sentir o chicote em meus pensamentos, e em meu coração a doutrina da sabedoria, para eu não ser poupado nos pecados por ignorância, a fim de que esses erros não apareçam? Para que não aumentem as minhas omissões, e não se multipliquem as minhas ignorâncias, e eu não caia diante de meus adversários, e não escarneça de mim o meu inimigo?" (Eclo 23, 1-3).


  5. Deus tira da ignorância os dignos de confiança, e não simplesmente os perdoa por causa dela:

    "Dou graças àquele que me deu forças, Jesus Cristo, nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança e me chamou ao ministério, a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância". (Tm 1, 12-13).


  6. A garantia de que a voz de Deus é ouvida em todo o mundo:

    "Por toda a terra correu a sua voz, e até os confins do mundo foram as suas palavras (Sl 18,5)."


  7. E ainda, a certeza de que conhecem a Deus aqueles que são Suas ovelhas: 

    "Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim" (Jo 10,14. Grifou-se).
     

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O termo "Ignorância" nos textos doutrinários

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Coloquemos em relevo alguns aspectos acerca do termo "ignorância", quando utilizado em documentos do magistério. A sua aplicação em geral atribui severas e devidas conseqüências aos ditos ignorantes. Excetuando-se os textos que tratam especificamente da ignorância invencível, busque-se encontrar aqui o sentido ao qual o Magistério recorre ao utilizar o termo ignorância em seus escritos formais.
  1. Nas palavras do Santo Papa Pio X, os ignorantes padecem sua perpétua desgraça: "Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padecem sua perpétua desgraça por ignorar os mistérios da fé que necessariamente se devem saber e crer para que alguém se conte entre os eleitos". (grifou-se).

  2. Na Instrução Fidei Donum, tem-se que as almas dos ignorantes têm uma sorte lastimável: "E, finalmente, entristeçam-se com a sorte lastimável de inúmeras almas; em especial dos jovens que, vítimas dos ateus de nossos tempos, crescem, tristemente mantidos na ignorância das coisas divinas". (grifou-se).

  3. O Papa João XXIII, afirma que a ignorância é a causa e a raiz de todos os males: "A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade" (grifou-se).

  4. Na Adiutricem Populi, encontra-se que se deve preservar da ignorância: "Fizemos observar que não última entre as vantagens do santo Rosário é fornecer ao cristão um meio prático e fácil para alimentar a sua fé e preservá-la da ignorância e do perigo do erro." (Grifou-se).

  5. Na Magnae Dei Matris, a constatação de que a ignorância é antes um perigo que um atenuante de culpa:

    E já por toda parte o campo do Senhor, como que talado por uma terrível peste, quase se asselvaja, pela ignorância da religião, pelo erro e pelos vícios. [...] Para preservar seus filhos deste gravíssimo perigo da ignorância, a Igreja não descura nenhum dos meios que a sua vigilância e a sua solicitude lhe sugerem (grifou-se).

  6. No Motu Proprio Boni Pastoris, o Papa faz exigências, não isentando aqueles que tentam em contrário, ainda que o faça por ignorância: 

    Isto declaramos e estabelecemos, decretando que a presente Carta seja sempre e permaneça firme, válida e eficaz; tenha sempre pleno efeito, e que agora e no futuro sirva plenamente a todos a quem isto interesse ou possa vir a interessar; que assim se deve legitimamente julgar e definir; e que a partir deste momento, deve considerar-se nulo e inválido tudo quanto, cientemente ou por ignorância, por qualquer pessoa e em virtude de qualquer autoridade, fosse tentado em contrário (grifou-se).

  7. Leitura análoga vê-se ao final da Divini Amoris Scientia, de João Paulo II :

    Tendo realizado isto no modo devido, estabelecemos que esta Carta Apostólica seja religiosamente acolhida e tenha pleno efeito, tanto agora como no futuro: além disso, seja considerado como julgado e definido legitimamente, e seja nulo e sem fundamento quanto de diverso a respeito disto possa ser atentado por alguém, qualquer que seja a autoridade, de modo consciente ou por ignorância (grifou-se).

sábado, 18 de setembro de 2010

Ignorância Invencível: Doutrina Dedutiva ou Revelação?

Observando-se o dogma "Fora da Igreja não há salvação", que posicionamento coerente com a fé deve-se assumir diante dos casos dos que ignoram o evangelho?

Pode-se encarar a doutrina da ignorância invencível como sendo aquela que trata de buscar uma resposta exigida para uma situação, no mínimo, escandalosa para a mente humana: A possibilidade de que alguém possa ser condenado sem conhecer a Deus, a Igreja e a doutrina que se deve seguir.

Ainda que se reconheça a existência e a atualidade do dogma Fora da Igreja não há salvação, a doutrina da ignorância invencível pleiteia a possibilidade de poder vir a salvar-se aquela alma que, não tendo tido absolutamente a oportunidade de conhecer em vida os preceitos e obrigações relativos à fé, tenha vivido sobre os ditames da consciência e da lei natural infusa no homem, mesmo sem pertencer à Igreja. Supõe-se que esta proposta possa ter sido o resultado da seguinte dedução: Deus, que é justo, não condenará aquele "bom homem" que não teve culpa por não saber o que deveria ter feito.

Ora, uma doutrina que, de tão próxima, chega a tocar o dogma, não pode estagnar-se em uma conclusão simplista. No histórico de desenvolvimento da doutrina da Igreja, não se enumera a ignorância invencível entre os artigos de fé revelados. Verifica-se mesmo que até meados do século XVI não havia documento magisterial algum que contemplasse potencialmente o tema da possibilidade da salvação daqueles que não se uniram à Igreja porque a desconheciam.

Resta, então, que se tenha a ignorância invencível como uma doutrina que, por natureza, deva caminhar harmoniosamente com o dogma. E não poderia ser de outra forma. Ainda que se exija grande exercício teológico, é necessário que a ignorância invencível deva se constituir em doutrina que respeite a doutrina dos dogmas, a eles não ferindo absolutamente.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Não me deixastes morrer quando me achava em estado de pecado

SANTO AFONSO DE LIGÓRIO, no livro "Preparação para a morte" - CONSIDERAÇÃO III - PONTO I - AFETOS E SÚPLICAS

Meu Senhor e Deus de infinita majestade! Envergonho-me de aparecer ante vossa presença. Quantas vezes injuriei vossa honra, preferindo à vossa graça um indigno prazer, um ímpeto de cólera, um pouco de barro, um capricho, um fumo leve! Adoro e beijo vossas santas chagas, que vos infligi com meus pecados. Pelas mesmas espero meu perdão e salvamento. Fazei-me conhecer, ó Jesus, a gravidade da ofensa que cometi, sendo como sois a fonte de todo o bem e eu vos abandonei para saciar-me em águas corruptas e envenenadas. Que me resta de tantas ofensas, senão angústia, remorsos e méritos para o inferno? "Meu pai, não sou digno de chamar-me vosso filho" (Lc 15,21). Não me abandoneis, pai.

Verdade é que não mereço a graça de chamar-me vosso filho. Mas morrestes para salvar-me. Dissestes, Senhor: "Convertei-vos a mim e eu me voltarei para vós" (Zc 1,3). Renuncio, pois, a todas as minhas satisfações. Deixo no mundo quantos prazeres se me podem oferecer e me converto a vós.

Perdoai-me, pelo sangue que derramastes por mim. Senhor, arrependo-me e vos amo sobre todas as coisas. Não sou digno de vos amar, mas vós, que mereceis tanto amor, não desprezeis o amor de um coração que em outro tempo vos desprezava. A fim de que vos amasse, não me deixastes morrer quando me achava em estado de pecado.

Quero amar-vos na vida que me resta, e não amar a nada mais que a vós. Assisti-me, meu Deus; dai-me o dom da perseverança e o vosso santo amor.

Maria, meu refúgio, recomendai-me a Jesus Cristo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Assim costumam morrer aqueles que pensam pouco na morte – Santo Afonso de Ligório



Do livro: Preparação para a morte - CONSIDERAÇÃO III - PONTO I 

Que é nossa vida? Assemelha-se a um tênue vapor que o ar dispersa e desaparece completamente. Todos sabemos que temos de morrer. Muitos, porém, se iludem, imaginando a morte tão afastada que jamais houvesse de chegar. Jó, entretanto, nos adverte que a vida humana é brevíssima: "O homem, vivendo breve tempo, brota como flor e murcha" (Jó 14,1-2). Foi esta mesma verdade que Isaías anunciou por ordem do Senhor. "Clama — disse-lhe — que toda a carne é erva... verdadeira erva é o povo; seca a er-va, e cai a flor" (Is 40,6-8). A vida humana é, pois, semelhante à de uma planta. Chega a morte, seca a erva; acaba a vida e murcha, cai a flor das grandezas e dos bens terrenos.

A morte corre ao nosso encontro mais rápido que um corredor. E nós, a cada instante, corremos para ela (Jo 9,25). A cada passo, a cada respiração chegamos mais perto da morte. "Este momento em que escrevo — disse São Jerônimo — faz-me caminhar para a morte." "Todos temos de morrer, e nós deslizamos como a água sobre a terra, a qual não volta para trás" (2Sm 14,14). Vê como corre o regato para o mar; suas águas não retrocedem; assim, meu irmão, passam teus dias e cada vez mais te acercas da morte. Prazeres, divertimentos, faustos, lisonjas e honras, tudo passa. E o que fica? "Só me resta o sepulcro" (Jó, 17,1). Seremos lançados numa cova e, ali, entregues à podridão, privados de tudo. No transe da morte, a lembrança de todos os gozos que em vida desfrutamos e bem assim das honras adquiridas só servirá para aumentar nossa mágoa e nossa desconfiança de obter a salvação eterna. Dentro em breve, o pobre mundano terá que dizer: minha casa, meus jardins, esses móveis preciosos, esses quadros raríssimos, aqueles vestuários já não serão para mim! "Só me resta o sepulcro".

Ah! com que dor profunda há de olhar para os bens terrestres aquele que os amou apaixonadamente! Mas essa mágoa já não valerá senão para aumentar o perigo em que se acha a salvação. A experiência nos tem provado que tais pessoas, apegadas ao mundo, mesmo no leito da morte, só querem que se lhes fale de sua enfermidade, dos médicos que se possam consultar, dos remédios que os aliviem. Mas, logo que se trata da alma, enfadam-se e pedem descansar, porque lhes dói a cabeça e não podem ouvir conversação. Se, por acaso, respondem, é confusa-mente e sem saberem o que dizem. Muitas vezes, o confessor lhes dá a absolvição, não porque os acha bem preparados, mas porque já não há tempo a perder. Assim costumam morrer aqueles que pensam pouco na morte.
 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A verdade está sempre com a maioria? - Homilia contra os que consideram o número como prova da verdade - Santo Atanásio

De Deus devemos esperar a força e as luzes necessárias para combater a mentira e o erro e a Ele recorreremos para obtê-las. Ele é o Deus da Verdade, Ele nos tirou do seio do erro e da ilusão, Ele nos diz no fundo do coração: "Eu sou a Verdade", Ele sustenta nossa esperança e anima nosso zelo, quando nos diz: "Tende confiança, Eu venci ao mundo."
 
Depois disso, como não sentir compaixão pelos que só medem a força e o poder da Verdade pelo grande número? Esqueceram, portanto, que Nosso Senhor Jesus Cristo não elegeu senão doze discípulos, gentes simples, sem letras, pobres e ignorantes, para opô-los, ao mundo inteiro , e que não lhes deu, como única defesa, senão a confiança Nele?...
 
Quão admirável é à força da Verdade! Sim, a Verdade é sempre vencedora, ainda que esteja sustentada por um número muito pequeno. Não ter outro recurso senão o grande número,recorrer a ele como a uma muralha contra todos os ataques, e como a uma resposta para todas as dificuldades, é reconhecer a debilidade de sua causa, é convir na impossibilidade em que se está de defender-se, é, numa palavra, reconhecer-se vencido....

Que vosso grande número me apresente a Verdade em toda sua pureza e seu brilho, estou disposto a render-me e minha derrota é segura; mas que não me dê como prova e razão nada mais que seu próprio grande número e sua autoridade: é querer causar terror e dar medo, mas de nenhum modo persuadir-me quando dez mil homens se tivessem reunido para fazer-me acreditar em pleno dia que é de noite, para fazer-me aceitar uma moeda de cobre por uma moeda de ouro, para persuadir-me a tomar um veneno descoberto e conhecido por mim, como um alimento útil e conveniente, estaria obrigado por isso a crer-lhes?
 
Portanto, já que não estou obrigado a acreditar no grande número, que está sujeito ao erro nas coisas puramente terrestres, por que quando se trata dos dogmas da religião e das coisas do céu, estaria eu obrigado a abandonar aos que estão afeiçoados à Tradição de seus Pais, aos que crêem com todos os que foram antes que eles... Por que, digo, estaria eu obrigado a abandoná-los para seguir a uma multidão que não dá nenhuma prova do que afirma? ...
 
"Não sigais a multidão para fazer mal, nem o juízo te acomodes ao que parece do maior número, se com isso te desvias da verdade"
 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Por Que Nem Todos se Salvam?

 
 
A salvação não é um direito que se tem enquanto ser humano, mas é um prêmio que se recebe por responder positivamente ao plano de Deus para cada um, pois, Ele espera que cada um o reconheça como Deus, siga sua lei e se sirva dos meios de santificação que deixou.

"Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam, porque nem todos O reconhecem, nem todos seguem a sua lei, nem todos se servem dos meios de santificação que nos deixou. Para nos salvarmos não basta que Jesus Cristo tenha morrido por nós, mas é necessário que sejam aplicados, a cada um de nós, o fruto e os merecimentos da sua Paixão e morte, aplicação que se faz, sobretudo, por meios dos Sacramentos, instituídos para este fim pelo mesmo Jesus Cristo; e como muitos ou não recebem os Sacramentos, ou não os recebem com as condições devidas, eles tornam inútil para si próprios a morte de Jesus Cristo" (PIO X. Catecismo maior de São Pio X. Anápolis: Edições Santo Tomás, 2005, n. 112-113, p. 58).

Percorre-se longo caminho na empreitada em busca da salvação. Deus, efetivamente, quer que o homem realize a missão que lhe cabe, porquanto Ele sempre provê o necessário para tal.
 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Coincidência entre os membros da Igreja Visível e da Igreja Invisível. Alguns textos magisterias a serem observados


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
 
Hoje, se tem desenvolvida teologicamente uma teoria que milita ampliar o conceito de Igreja para que se sustente a letra do dogma Fora da Igreja Não Há Salvação. Diante da solidez da afirmação dogmática, arquitetou-se incrementar o número dos que integram a Igreja e assim poder continuar afirmando que fora da Igreja (bem mais ampla do que é realmente) não há salvação. Com isso, a problemática passou a ter seu foco principal voltado para uma questão de eclesiologia mais ampla, o que, conseqüentemente, tornou ainda mais complexa a discussão do tema nos dias atuais, levando analistas a abdicarem da árdua tarefa do aprofundamento exigido e a aceitar passivamente tal teoria.

Porém, colocada à devida prova, rapidamente se constata que essa teoria amplia indevidamente o número dos que se qualificam como membros integrantes da Igreja. Mas, como a doutrina da Igreja não se restringe às atuais propostas teológicas, recorre-se ao Catecismo Romano, o qual apresenta de forma bastante precisa quem não deve ser contado entre os integrantes da Igreja:

Só três classes de homens são excluídos da comunhão com a Igreja. Em primeiro lugar, os infiéis; em segundo, os hereges e cismáticos; por último, os excomungados. Os pagãos, realmente, porque nunca estiveram no seio da Igreja; não a conheceram, nem se tornaram participantes de nenhum Sacramento, na comunidade do povo cristão. Os hereges e cismáticos, porque apostataram da Igreja. Pertencem tampouco à Igreja, como os desertores fazem parte do exército, que abandonaram. É certo todavia, que continuam sob o poder [coercitivo] da Igreja, que os pode julgar punir e excomungar. Afinal, os excomungados, que são excluídos judicialmente da Igreja, que os pode julgar punir, e excomungar. (CATECISMO ROMANO. Redigido por decreto do Concílio Tridentino. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2006, p. 162).

Há não poucas iniciativas de se tentar assinalar uma divisão e uma não-coincidência entre a Igreja visível e a Igreja invisível. Porém, catalogamos mesmo a Lumen Gentium, que chega a dizer explicitamente o contrário:

A sociedade provida de órgãos hierárquicos e o Corpo Místico de Cristo, a assembléia visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida dos bens celestes, não devem ser considerados duas coisas, mas formam uma só realidade complexa. (Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 8. In: Compêndio do Vaticano II. Constituições, decretos, declarações. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 46).

Leão XIII, na encíclica Satis Cognitum, enfatiza tal questão, esclarecendo como se dá essa união:

Cristo é uno pela união das duas naturezas e nas duas naturezas, a visível e a invisível. Analogamente Seu Corpo Místico não seria a verdadeira Igreja se seus elementos visíveis não recebessem a força e a vida dos dons sobrenaturais e dos outros elementos invisíveis, dos quais nasce sua própria essência e natureza. (LEÃO XIII. Encíclica Satis Cognitum, n. 4).

Pio XII, em sua encíclica Mystici Corporis, também contribui para maior elucidação e reto entendimento:

Se a Igreja é um corpo, deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo aquela sentença de Paulo: "Nós, muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm 12, 5). E não só deve ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível, como afirma nosso predecessor de feliz memória Leão XIII, na encíclica "Satis cognitum": "Pelo fato mesmo que é um corpo, a Igreja torna-se visível aos olhos". Estão pois longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma, que não se pode tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa "pneumática" que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé.
(PIO XII. Encíclica Mysticy Corporis, n. 14. In: Documentos de Pio XII: Trad. Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1998, p. 147).


Não se quer dizer que todos dentro da Igreja estejam salvos. O Catecismo Romano deixa bem claro este ponto:

Há, porém, na Igreja militante duas categorias de homens: bons e maus. Certo é que os maus participam com os bons, dos mesmos Sacramentos, professam a mesma fé, mas não lhes são semelhantes nem na vida, nem nos costumes. Os bons, na Igreja, são aqueles que estão unidos e ligados entre si, não só pela profissão de fé e participação dos sacramentos, mas também pelo espírito da graça e pelo elo da caridade. Deles é que se declarou: "O Senhor sabe quem são os seus". (2 Tm 2, 19). Nós homens podemos conjeturar, mas nunca saber com certeza, quais são os que pertencem ao número dos justos. (CATECISMO ROMANO. Redigido por decreto do Concílio Tridentino. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2006, p. 161).

Essa mesma proposta também é endossada pelo Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã:

Não basta para nos salvarmos sermos de qualquer maneira membros da Igreja Católica, mas é preciso que sejamos seus membros vivos. Os membros vivos da Igreja são todos os justos e só eles, isto é, aqueles que estão atualmente em graça de Deus. Membros mortos da Igreja são os fiéis que estão em pecado mortal. Quem, sendo muito embora membro da Igreja Católica, não pusesse em prática os seus ensinamentos, seria membro morto, e portanto não se salvaria, porque para a salvação de um adulto requer-se não só o Batismo e a fé, mas também as obras conformes à fé. (PIO X. Catecismo maior de São Pio X. Anápolis: Edições Santo Tomás, 2005, n. 165-171, p. 69-70).

Portanto, erram aqueles que diminuem as condições exigidas para o homem se fazer apto a ver Deus face a face no além-físico, e relativizam os preceitos da fé católica.
 

sábado, 19 de junho de 2010

Matéria, forma e efeito dos sete sacramentos - Bula Exsultate Deo – 22/11/1439 – Concílio de Florença (DZ 1310-1328)



Em quinto lugar, para facilitar a compreensão aos armênios de hoje e de amanhã, redigimos nesta brevíssima fórmula a doutrina sobre os sacramentos. Os sacramentos da nova Lei são sete: batismo, confirmação, Eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio, e diferem muito dos sacramentos da antiga Lei. Aqueles, de fato, não produziam a graça, mas significavam somente que ela teria sido concedida pela paixão de Cristo; estes nossos sacramentos, ao contrário, não apenas contêm em si a graça, como também a comunicam a quem os recebe dignamente.

Destes, os primeiros cinco são voltados para a perfeição individual de cada um, os últimos dois para o governo e a multiplicação de toda a Igreja. Pelo batismo de fato, nós renascemos espiritualmente; com a confirmação crescemos na graça e nos robustecemos na fé. Uma vez renascidos e fortificados, somos nutridos com o alimento da divina Eucaristia. Se com o pecado adoecemos na alma, somos espiritualmente curados pela penitência; espiritualmente e também corporalmente, segundo o que mais aproveita à alma, pela extrema-unção. Com o sacramento da ordem a Igreja é governada e se multiplica espiritualmente, mediante o matrimônio aumenta corporalmente.

Todos estes sacramentos constam de três elementos: das coisas, que constituem a matéria, das palavras, que são a forma, e da pessoa do ministro, que confere o sacramento com a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz. Se faltar um destes elementos, não é efetuado o sacramento.

Entre esses sacramentos há três – batismo, confirmação e ordem – que imprimem caráter indelével, ou seja, um sinal espiritual que distingue <quem o recebe> dos outros, pelo que não podem ser reiterado na mesma pessoa. Os outros quatro não imprimem o caráter e portanto se admite repeti-los na mesma pessoa.

O primeiro de todos os sacramentos é o batismo, porta de ingresso à vida espiritual; por meio dele nos tornamos membros de Cristo e do corpo da Igreja. E como por causa do primeiro homem a morte entrou no mundo [cf. Rm 5, 12], se nós não renascermos da água e do Espírito, não poderemos, como diz a verdade, entrar no reino de Deus [cf. Jo 3, 5].

Matéria deste sacramento é a água pura e natural, não importa se quente ou fria.

A forma são as palavras: "Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Não negamos, porém, que também com as palavras: "Seja batizado o tal servo de Cristo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", ou com as palavras "O tal, com as minhas mãos, é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", se administre o verdadeiro batismo. De fato, a causa principal da qual o batismo tira sua eficácia é a santa Trindade, enquanto a causa instrumental é o ministro, que exteriormente confere o sacramento; se o ato conferido pelo mesmo ministro se exprime com a invocação da santa Trindade, é realizado o sacramento.

Ministro deste sacramento é o sacerdote, a quem por ofício compete batizar; mas em caso de necessidade pode administrar o batismo não só um sacerdote ou um diácono, mas também um leigo, uma mulher e até um pagão ou herege, mas que use a forma da Igreja e queira fazer o que faz a Igreja.

Efeito deste sacramento é a remissão de toda culpa original e atual e de toda pena relativa. Não se deve, portanto, impor aos batizados nenhuma penitência pelos pecados anteriores ao batismo, e os que morrem antes de cometer qualquer culpa são recebidos logo no reino dos céus e acedem à visão de Deus.

O segundo sacramento é a confirmação, cuja matéria é o crisma consagrado pelo bispo, composto de óleo, que significa a luz da consciência, e de bálsamo, que significa ao perfume da boa fama.

A forma são as palavras: "Te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

O ministro ordinário é o bispo. E, enquanto para as outras unções basta um simples sacerdote, esta só o bispo pode conferi-la, porque só dos Apóstolos, de quem os bispos fazem as vezes, se lê que davam o Espírito Santo com imposição da mão, como mostra a leitura dos Atos dos Apóstolos: "Quando os apóstolos que estavam em Jerusalém souberam que a Samaria tinha acolhido a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Quando eles chegaram, rezaram por eles para que recebessem o Espírito Santo, pois não tinha ainda descido sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados no nome do Senhor Jesus. Então impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo" [At 8, 14-17]. A confirmação, na Igreja, tem mesmo o lugar daquela imposição da mão. Lê-se, todavia, que alguma vez com licença da Sé Apostólica e por um motivo razoável e urgentíssimo, também um simples sacerdote tenha administrado o sacramento da confirmação com crisma consagrado pelo bispo.

O efeito deste sacramento, já que por ele é conferido o Espírito Santo para a fortaleza, como foi dada aos apóstolos no dia de Pentecostes, é que o cristão possa corajosamente confessar o nome de Cristo. Por isso, o confirmando é ungido sobre a fronte, sede do sentido de vergonha, para que não se envergonhe de confessar o nome de Cristo e sobretudo a sua cruz, que segundo o Apóstolo é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos [cf. 1 Cor 1, 23]; e por isso é marcado com o sinal da cruz.

O terceiro sacramento é a Eucaristia, cuja matéria é o pão de trigo e o vinho de uva, ao qual antes da consagração se deve acrescentar alguma gota de água. A água é acrescentada porque, segundo o testemunho dos santos Padres e Doutores da Igreja, exposto nas precedentes discussões, se crê que o Senhor mesmo tenha usado vinho misturado com água na instituição deste sacramento.

E também, porque isto convém ao memorial da paixão do Senhor. Pois o bem-aventurado Papa Alexandre, quinto <sucessor> depois do bem-aventurado Pedro, diz: "Nas oblações dos sacramentos apresentadas ao Senhor durante a celebração da Missa, sejam oferecidos em sacrifício apenas o pão e o vinho misturado com água. Não se deve, pois, oferecer no cálice do Senhor só o vinho ou só a água, mas ambos, justamente porque se lê que uma e outra coisa, isto é, o sangue e a água, jorraram do lado de Cristo [cf. Jo 19, 34]".

Além disso, significa o efeito deste sacramento: a união do povo cristão a Cristo. A água, de fato, significa o povo, segundo a expressão do Apocalipse: muitas águas, muitos povos [cf. Ap 17, 15]. E o Papa Júlio, o segundo <sucessor> depois do bem-aventurado Silvestre, diz: "O cálice do Senhor deve ser oferecido, segundo as disposições dos cânones, com água e vinho misturados, porque na água se prefigura o povo e no vinho se manifesta o sangue de Cristo; quando, portanto, se mistura no cálice a água com vinho, o povo é unido a Cristo, e a multidão dos fiéis é coligada e juntada àquele em que crê".

Se, portanto, quer a santa Igreja Romana instruída pelos beatíssimos apóstolos Pedro e Paulo, quer todas as outras Igrejas de latinos e gregos, iluminadas por esplêndidos exemplos de santidade e de doutrina, têm observado desde o início da Igreja, e ainda observam, este rito, parece incorreto que alguma outra região discorde daquilo que é universalmente observado e racionalmente fundado. Decretamos,pois, que também os armênios se conformem a todo o resto do mundo cristão e que seus sacerdotes, na oblação do cálice, acrescentem alguma gota de água ao vinho, como foi dito.

A forma deste sacramento são as palavras com as quais o Salvador o produziu. O sacerdote, de fato, produz este sacramento falando in persona Christi. E em virtude dessas palavras, a substância do pão se transforma no corpo de Cristo e a substância do vinho em sangue. Isto acontece, porém, de modo tal que o Cristo está contido inteiro sob a espécie do pão e inteiro sob a espécie do vinho e, se também estes elementos são divididos em partes, em cada parte da hóstia consagrada e de vinho consagrado está o Cristo inteiro.

O efeito que este sacramento opera na alma de quem o recebe dignamente é a união do homem ao Cristo. E como, pela graça, o homem é incorporado a Cristo e unido a seus membros, segue-se que este sacramento, naqueles que o recebem dignamente, aumenta a graça e produz na vida espiritual todos os efeitos que o alimento e a bebida materiais produzem na vida do corpo, alimentando-o, fazendo-o crescer, restaurando-o e deleitando-o. Neste sacramento, como diz o Papa Urbano [IV], recordamos a grata memória do nosso Salvador, somos afastados do mal e confortados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e graças.

O quarto sacramento é a penitência, do qual são como que a matéria os atos do penitente, distintos em três grupos: o primeiro é a contrição do coração, que consiste na dor do pecado cometido acompanhada do propósito de não pecar para o futuro. O segundo é a confissão oral, na qual o pecador confessa integralmente ao seu sacerdote todos os pecados de que tem memória. O terceiro é a penitência pelos pecados, segundo o arbítrio dos sacerdote; à qual se satisfaz especialmente por meio da oração, do jejum e da esmola.

A forma deste sacramento são as palavras da absolvição que o sacerdote pronuncia quando diz: "Eu te absolvo". O ministro deste sacramento é o sacerdote, que pode absolver com autoridade ordinária ou por delegação do superior. O efeito deste sacramento é a absolvição dos pecados.

O quinto sacramento é a extrema-unção, cuja matéria é o óleo de oliveira , consagrado pelo bispo. Este sacramento não deve ser administrado senão a um enfermo para o qual se teme a morte; ele deve ser ungido nestas partes: sobre os olhos por causa da vista, sobre as orelhas por causa da audição, sobre as narinas por causa do olfato, sobre a boca por causa do gosto e da palavra, sobre as mãos por causa do tato, sobre os pés por causa dos passos, sobre os rins por causa dos prazeres que ali residem.

A forma do sacramento é esta: "Por esta unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor te perdoe tudo quanto cometeste com a vista"; expressões semelhantes se pronunciarão ao ungir as outras partes.

O ministro deste sacramento é o sacerdote. O efeito é a saúde da mente e, se aproveita à alma, também a do corpo. Deste sacramento o bem-aventurado apóstolo Tiago diz: "Há entre vós um enfermo? Que mande vir os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele ungindo-o com o óleo no nome do Senhor. E a oração feita com fé salvará o enfermo: o Senhor o aliviará e, se estiver com pecados, lhe serão perdoados" [Tg 5, 14].

O sexto é o sacramento da ordem, cuja matéria é aquilo cuja transmissão confere a ordem. Assim o presbiterado é transmitido com a entrega do cálice com vinho e da patena com o pão; o diaconado com a entrega do livro do Evangelho; o subdiaconado com a entrega de um cálice vazio tendo em cima uma patena vazia. E, de modo análogo, para os outros <graus>, pela entrega das coisas inerentes ao ministério correspondente.

A forma do sacerdócio é a seguinte: "Recebe o poder de oferecer o sacrifício na Igreja pelos vivos e pelos mortos, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo". Para as outras ordens será usada a forma a referida por extenso no Pontifical Romano. Ministro deste sacramento é o bispo. E efeito consiste no aumento da graça para que o ordenando seja um digno ministro de Cristo.

O sétimo é o sacramento do matrimônio, símbolo da união de Cristo e da Igreja, segundo as palavras do Apóstolos: "Este mistério é grande, digo-o em referência a Cristo e à Igreja" [Ef 5, 32]. Causa eficiente do sacramento é, segundo a regra, o mútuo consentimento expresso em palavras e presencialmente.
Atribui-se ao matrimônio um bem tríplice. O primeiro consiste em aceitar a prole e educá-la para o culto de Deus; o segundo, na fidelidade que um cônjuge deve observar em relação ao outro; o terceiro, na indissolubilidade do matrimônio, porque esta significa a união indissolúvel de Cristo e da Igreja. De fato, se bem que, por motivo de fornicação, seja permitido a separação de cama, não é permitido, porém, contrair outro matrimônio, pois o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo.
[...]
Depois de explicado tudo isso, os referidos oradores dos armênios, em seu próprio nome, <em nome> dos seus patriarcas e também de todos os armênios, aceitam, recebem e abraçam, com toda a devoção e obediência, este mui salutar decreto sinodal, com todos os seus capítulos, declarações, definições, ensinamentos, preceitos e estatutos e toda a doutrina neles contida, bem como tudo aquilo que sustenta e ensina a santa Sé Apostólica e a Igreja romana. Além disso, aceitam com veneração os Doutores e santos Padres aprovados pela Igreja romana. Qualquer pessoa ou doutrina por esta reprovada e condenada, também eles a consideram reprovada e condenada.

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