terça-feira, 27 de abril de 2010

Como, embora absoluta e soberanamente justo, Deus perdoa aos pecadores e tem misericórdia deles com justiça

Mas se tu és absoluta e soberanamente justo, ó Senhor, como podes perdoar aos maus? Como podes tu, suma e plenamente justo, cometer uma injustiça? Mas que tipo de justiça é, pois, essa de conceder a vida eterna a quem, ao contrário, merece a morte eterna? Por que, então, ó Deus bom – bom para os bons e para os maus -, por que salvas os maus, se isto não é justo? E tu não podes cometer injustiça! Será que isso fica para nós oculto na luz inacessível que tu habitas, pois a tua bondade é par nós incompreensível?

Realmente no profundíssimo segredo da tua bondade é que se encontra a nascente donde mana o rio da tua misericórdia. Apesar de tu seres absoluta e supremamente justo, também és benigno com os maus, justamente porque és total e supremamente bom. Serias, pois, menos justo, se não fosses benigno com os maus. De fato, é assaz mais justo aquele que é bom para com os bons e com os maus do que aquele que é bom apenas com os bons. E aquele que é bom, punindo e perdoando aos maus, é melhor que quem os pune apenas.
És, portanto, certamente misericordioso porque és total e supremamente bom. E como é evidente, por outra parte, o motivo por que tu distribuis o bem aos bons e o castigo aos maus, no entanto, torna-se para nós estranho e surpreendente que tu, completa e supremamente justo, sem precisar de nada, concedas os teus bens igualmente aos maus e aos ruins.

Oh! A imensidão de tua bondade, Senhor! Vemos donde brota a tua misericórdia, mas nossa visão não consegue ir mais além! Enxergamos donde mana o rio e não conseguimos divisar a nascente. Tu és, pois, misericordioso para com os pecadores devido à plenitude da tua bondade, todavia, permanece, para nós, escondida, na profundez da tua bondade, a razão por que és misericordioso.

Quando tu distribuis o prêmio aos bons e o castigo aos maus, parece que tu estás seguindo a lei da justiça; porém, quando dispensas aos maus os teus bens,porque assim o exige a tua suprema bondade, torna-se estranho que um ser, sumamente justo, como és tu, possa ter desejado isso. Oh! Misericórdia, com que abundante suavidade e com que suave abundância chegas até nós. Oh! Imensa bondade de Deus, com que grande amor os pecadores devem amar-te!

Com efeito, tu, Deus, salvas os justos com justiça os condena. Uns devem a sua salvação aos seus merecimentos, e outros a conseguem apesar das suas faltas. É porque nos primeiros tu reconheces o bem que lhes doaste e nos segundos perdoas o mal que odeias. Ó bondade imensa, que tanto excedes toda inteligência, faze com que recaia sobre mim a tua misericórdia, que procede de tão imensa riqueza! Que penetre em mim o que emana de ti: que a tua clemência me perdoe; e não te vingues segundo a justiça!

Embora, portanto, seja difícil compreender como a tua misericórdia possa separar-se da tua justiça, vemo-nos, todavia, obrigados a crer que o que emana da tua vontade nunca conflita com a justiça, que nunca se separa da tua bondade, mas com ela está sempre unida. Então, se tu és misericordioso porque és sumamente bom, e és sumamente bom porque sumamente justo, deve-se admitir que és verdadeiramente misericordioso porque és sumamente justo.

Ajuda-me, ó Deus, justo e misericordioso. Ajuda-me, pois busco a tua luz. Ajuda-me para que compreenda plenamente aquilo que digo.

Tu és verdadeiramente misericordioso porque és justo. Então a tua misericórdia nasce da tua justiça? Ou será por causa da tua própria justiça que perdoas aos pecadores? Se for assim, ó Senhor, ensina-me como isso possa acontecer. Ou será, talvez, pelo fato de que é justo que tu sejas tão bom até o ponto de que não possas ser concebido melhor e, também justo que operes com um poder tão grande para que não possas ser pensado mais poderoso? Haveria algo mais justo que isso? Certamente isso não aconteceria se a tua bondade consistisse apenas em premiar e não, ainda, em perdoar, e se tu tornasses bons somente os bons e não, também, os maus. É, pois, por este motivo que é justo que perdoes aos pecadores e que tornes bons também os maus.

Finalmente: aquilo que é feito sem seguir a justiça não deve ser feito; e o que não deve ser feito [se for feito] é contra a justiça. Se tu, portanto, te compadecesses dos maus, contra a justiça, é claro que não o devias fazer; e se tu não devesses ter misericórdia deles [e se a tivesses], tu serias misericordioso injustamente.

Ora, um raciocínio dessa espécie é falso; porém, é lícito crer que tu te compadeças dos maus sem ferir a justiça.

Santo Anselmo de Cantuária. Proslógio, cap. X.
Santo Anselmo, São Paulo: Nova Cultural, 2005, pp.143-146.

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