segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Imagem e a Semelhança da Santíssima Trindade




Fonte: Emmanuel-André, Pe. O Mistério da Santíssima Trindade.


A Imagem da Santíssima Trindade


Enquanto apenas um obscuro vestígio da Santíssima Trindade é impresso nas criaturas materiais, foi reservado às criaturas espirituais, ou seja, os anjos e os homens, trazer a imagem desta Trindade adorável. Desta imagem vem sua dignidade.

Assinalemos em primeiro lugar, com Santo Agostinho, que as Sagradas Escrituras não dizem que o homem é a imagem de Deus. Está escrito apenas que ele foi feito à imagem de Deus. Ser a própria imagem cabe ao Filho em relação a seu Pai. Ser feito à imagem pode ser dito das criaturas, que não alcançam a igualdade com o Criador, mas que se aproximam apenas por uma tênue semelhança.

Como o homem é feito à imagem de Deus? Não por seu corpo, mas por sua alma; por sua alma que é espírito, ou seja, um ser livre da matéria. Sendo independente da matéria, a alma é inteligente, possui esta sublime faculdade de conhecer, que traz para dentro de nós o reflexo de todo o universo visível e que nos torna capaz de formular um juizo sobre todas as coisas. Além disso a alma ama. O que ela conhece pela inteligência, ela abraça pela vontade; e se ela se abre ao conhecimento de tudo, ela também se dilata para tudo amar. Eis o que a torna imagem de Deus. Como espiritual, a alma é imagem do Pai; como inteligente, imagem do Filho; como amante ela é imagem do Espírito Santo. Ser, beleza, bondade formam o vestígio da Santíssima Trindade; espírito, inteligência e amor formam sua imagem.

Essas três propriedades de uma mesma alma não quebram sua unidade; ao contrário, elas a unem ainda mais. Elas se originam uma da outra na mesma ordem que as Pessoas divinas procedem uma da outra. A alma é inteligente porque ela é espiritual, ou seja, elevada acima da matéria. Os seres que são apenas materiais não têm esse olhar de inteligência que abrange o conjunto das coisas e estabelece seus relacionamentos. E a alma ama porque é inteligente; só amamos aquilo que conhecemos: "A medida do conhecimento, diz São Gregório, é a medida do amor".

Se a alma é à imagem de Deus por essas duas faculdades de conhecer e de amar, enraizadas no seu ser espiritual, ela o será ainda mais pelos atos de conhecimento e de amor que daí derivam. O que é exatamente conhecer? É formar em si a imagem imaterial de uma coisa. É, de certo modo, lhe dar novo nascimento dentro de si para a contemplar. E não há neste ato uma analogia com a geração do Verbo que é produzido da substância do Pai e que é a perfeita imagem de suas perfeições infinitas? O amor é um movimento do coração para o objeto amado, um laço espiritual que nos une a ele: não podemos assim compreender um pouco a processão inefável do Espírito Santo, o qual, se lançando, por assim dizer, entre o Pai e o Filho, os une um ao outro num laço indissolúvel?

Assinalemos ainda, que esses atos de conhecimento e de amor produzidos pela alma, ficam dentro dela e são inseparáveis da alma, assim como os atos divinos da geração do Verbo e da processão do Espírito Santo, brotando de Deus, ficam em Deus e não são outra coisa senão Deus. O que torna ainda mais clara e admirável a analogia com a alma. Apesar disso, não exageremos na comparação, pois, em muitos pontos ela torna-se imperfeita. Na alma, conhecimento e amor são fenômenos passageiros e variáveis, como imagens de movimento que se refletem num lago espelhado, como um vento que vem tremer o reflexo. As representações dos diversos objetos se sucedem na nossa inteligência e se expulsam uns aos outros; as afeições variam sem cessar no nosso coração, sem que possamos interferir, em muitos casos. Em Deus, ao contrário, um único Verbo compreende tudo, é consubstancial ao Pai que, imutável em si, renova todas as coisas; um único Espírito de Amor que abraça tudo, que não varia nunca e que é o próprio Deus.

Devemos assim reconhecer que, mesmo parecendo se aproximar do Criador, existe entre Ele e a criatura um abismo. Seria como comparar um ser vivo à sua imagem desenhada ou à sua sombra inconsistente. No entanto, o simples fato de ser à imagem de Deus, dá ao homem uma realeza sobre todas as criaturas materiais. Ele pode conhecer e amar a Deus; ele recebeu por isso o encargo de louvar e adorá-Lo em nome de todas as criaturas inferiores. Estas foram feitas para o homem e o homem foi feito para Deus.

A fé nos faz conhecer a Santíssima Trindade e desse conhecimento descobrimos em nós sua imagem. Estudando esta imagem, imperfeita que ela seja, aprofundamos nosso conhecimento da adorável e Santíssima Trindade.

A Semelhança da Santíssima Trindade

Quando Deus criou o homem, disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gen.I,26). Esta palavra "façamos" indica uma ação especial das três Pessoas divinas. Elas fizeram o homem à sua imagem ao fazê-lo espírito, inteligência e amor. Elas o fizeram à sua semelhança porque, infundindo a graça em sua alma, elas trouxeram um certo ambiente de família, pois a graça é uma qualidade divina que, infundida no centro da alma, a torna participante da natureza divina, como diz São Pedro claramente (II Pe.I,4).

"Deus – diz o Apóstolo – habita uma luz inacessível que nenhum homem jamais viu, que nenhum homem pode ver". A criatura racional poderia tudo fazer dentro de seu mundo, ela não poderia nunca se elevar, por suas próprias forças, nesta região onde reside a adorável Trindade, assim como o homem não pode alcançar os limites da atmosfera terrestre para se lançar no espaço incomensurável do céu (*). Da inteligência humana ou angélica para a essência divina, há uma distância infinita e, por isso, intransponível. Ora, aquilo que nossa natureza, mesmo antes do pecado, não poderia atingir, a graça nos alcança num piscar de olhos. "Ela nos faz penetrar – escreve São Paulo – até o interior do véu" (Heb.VI,19). Ela põe a alma em presença de Deus e, mesmo se na obscuridade da fé, os une. Esta união produz na alma uma admirável transformação, sobre a qual pediremos ao Apóstolo algumas explicações.

"A alma unida a Deus é um mesmo espírito com Deus" (ICor.VI,17). Antes ela era um espírito terrestre, agora é um espírito celeste. E sendo celeste, é à semelhança do Pai, de quem, antes, ela trazia somente a imagem.

Ela passa a ser admitida nos segredos de Deus pelo dom da fé que, posto na inteligência, a prepara para a clara visão da essência divina. Assim ela toma a semelhança do Filho, que é o espelho no qual se exprimem e se reproduzem substancialmente todas as inefáveis perfeições do Pai. Ela passa a ser unida ao princípio de toda a verdade. Escapando à incerteza das opiniões humanas, ela começa, mesmo que obscuramente, a ver todas as coisas na luz de Deus que não engana.

Enfim ela é elevada ao lado de Deus pelo dom da esperança, unida a Ele e vivificada pelo dom da caridade. Neste último, tornada toda amor, recebe a semelhança com o Espírito Santo que é o Amor substancial do Pai e do Filho. Unida ao princípio de todo bem e, por isso, tirada da inconstância do coração humano, ela acostuma-se a só amar nas criaturas os reflexos da bondade divina que aí reluzem.

Quando a alma, neste estado, faz um ato de fé, fica iluminada pela luz do Verbo eterno; quando faz um ato de amor, é como se o fogo do Espírito Santo a transfigurasse em Deus que, diz São João, é amor.

Uma santa a quem Deus mostrou em espírito uma alma em estado de graça mas ainda com muitas imperfeições, ficou tão impressionada pelo espetáculo que pensou que morreria pela força da atração que sentiu por uma beleza tão incompreensível. Podemos considerar o vestígio da Trindade nas criaturas, sem se elevar à menor noção da Santíssima Trindade. Podemos contemplar sua imagem na alma humana, sem entender nada do mistério das três Pessoas divinas. Mas não poderíamos ver uma alma em estado de graça sem penetrar imediatamente neste mistério inefável. Porque as três Pessoas habitam nesta alma, operam nela e, apesar de estarem veladas durante a vida presente, manifestam-se distintamente.

A Semelhança Consumada no Céu

O estado de semelhança da alma com Deus começa aqui na terra e é consumado na vida eterna. Nós seremos semelhantes a Deus (Jo.III,2) quando o vermos como Ele é. Logo, a semelhança na vida presente não é perfeita, absoluta.

Porque nos espantar? Aqui caminhamos pela fé, diz São Paulo, nosso estado é a fé, é de crer naquilo que não vemos ainda mas veremos um dia. Por isso, tudo em nós, inclusive a semelhança divina, é relativo ao estado de fé, e em conseqüência esta semelhança fica como que coberta por um véu.

Procuremos chegar a uma compreensão tão clara quanto possível desse mistério. Deus habita em todas as criaturas lhes dando o ser; ele habita mais especialmente nas criaturas racionais lhes dando a luz da inteligência e a vida do coração. Porém, de um modo todo especial, Ele habita na alma em estado de graça, associando-a, como diz São Pedro, à sua própria divindade. (IIPe.I,4)

Não se pode imaginar uma habitação mais íntima que esta última. Deus se põe no centro da alma e as três Pessoas se comunicam a ela com uma familiaridade prodigiosa. É a realização da palavra de Nosso Senhor: "Se alguém me ama, guardará minha palavra...e nós viremos a ele e faremos nele morada" (Jo.XIV,23).

A união com a alma não poderia ser mais íntima, pois é realizada pelo próprio Espírito Santo. As três Pessoas divinas se comunicam à alma na obscuridade da fé e sem se manifestar a ela. Sim, nesta vida, o mistério da presença divina, da comunicação com a alma, se faz como numa nuvem, ao mesmo tempo luminosa e sombria.

Na vida eterna, a obscuridade terá desaparecido, a nuvem terá se dissipado, o véu retirado. As três Pessoas da Santíssima Trindade se manifestarão à alma de dentro dela. Elas se manifestarão fazendo brotar, do seio da divindade, uma luz especial que se chama luz de glória. Então a alma verá em si mesma o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que estavam já presentes, mas invisíveis.

A semelhança com a adorável Trindade será então consumada. Sua inteligência será divinizada pela visão clara de Deus: ela a verá face a face (ICor.XIII,12), como o olho penetrado pela luz do dia. Que coisa maravilhosa! vendo a Deus ela verá todas as coisas em Deus, como num espelho. Ao mesmo tempo ela verá Deus em todas as coisas, dando a todas o ser, a vida e o movimento. A alma amará não somente todas as coisas em Deus, mas também Deus em todas as coisas (ICor.XV,28), de modo que todo seu amor terminará sempre em Deus. Assim a união de amor que a unia a essa fonte de vida se tornará definitivamente indissolúvel.

Por sua inteligência e por sua vontade, a alma bemaventurada viverá da própria vida da Santíssima Trindade. O espelho de sua inteligência será o Verbo, o espírito de seu coração será o Espírito Santo. Ela viverá dessa vida divina que, sendo perfeitamente simples, contém e sustenta a criação toda. Ela ficará presa em Deus, como uma gotinha num oceano de luz: Deus a penetrará de todos os lados, se refletirá nela, a transformará nele próprio de modo inefável, sobre o qual é preferível calar do que tentar dizer algo. Assim São Paulo, que viu esta transformação no terceiro céu, se contenta em dizer que ela é absolutamente inefável e inconcebível (IICor.XII,4).

Esta vida inefável e inconcebível está em germe na alma de todo cristão batizado: a glória é apenas a floração completa desta semente divina que é a graça de Deus. Semen Dei (I Jo.III,9)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...