sexta-feira, 16 de abril de 2010

Nos reconheceremos no céu

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Muita confusão se faz com a parábola da mulher que enviúva de sete maridos (Cf. Mc 12, 18-27). Sabendo que nenhum deles será seu esposo no reino dos céus, se conclui erradamente que tal mulher não reconheceria nenhum deles no céu, resultando daí que ninguém reconheceria no céu as pessoas que conheceu na terra.

Certa feita, por ocasião de uma palestra que proferi sobre as realidades escatológicas, por muito relutarem em tal entendimento, me foi preciso elaborar um texto argumentativo para elucidação da questão, com o qual dou prosseguimento.
 
É necessário apenas pensar com sensatez e estar disposto a não agir contra a própria consciência para aceitar que, tendo nós recebido o prêmio da glória celeste, por certo veremos Deus face a face, e, não obstante, continuaremos a ter a possibilidade de ver nossos amigos, parentes e demais pessoas que obtiverem a salvação. Repita-se: é necessário apenas pensar com sensatez e disposição para não agir contra a própria consciência.

Ver Deus face a face por parte daqueles que alcançam a salvação é uma verdade explícita na doutrina da Igreja. Desde o enunciado dogmático da Constituição Benedictus Deus, de Bento XII, promulgada em 1336, o cristão já não se sentirá inseguro nesta questão porque tal verdade faz parte do depósito da fé, e porque assim se faz, foi que Deus quis que soubéssemos pela Revelação.

Uma outra verdade que Deus, na sua infinita sapiência, quis que soubéssemos ainda aqui na terra é que através do batismo nós passamos a ter comunhão com todas outras pessoas que também receberam o batismo válido - a Comunhão dos Santos. Desta verdade também precisamos para argumentar o que se propõe aqui: nos reconheceremos no céu.
    
Então:

    1) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu não por ser conteúdo de formulação dogmática explicita como tal, mas porque a afirmação contrária fere o dogma da Comunhão dos Santos, ao se entender que não haveria comunhão plena entre os santos se não se pudesse comunicar com eles, identificando-os como os conhecemos na terra;

    2) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque a afirmação contrária fere o dogma da Ressurreição da Carne, o qual diz explicitamente que na ressurreição passaremos a ter um corpo transformado em corpo glorioso, e não que daremos início a uma nova existência onde será desprezado todo o conhecimento que adquirimos em nossa peregrinação terrestre;

    3) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque tal afirmação não fere nenhum dogma da Igreja de Cristo;

    4) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque tal reflexão é por demais assumida por teólogos que velam pela ortodoxia e fidelidade ao Magistério da Igreja;

    5) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque não encontramos nas exposições do autêntico Magistério da Igreja nem mesmo nenhum indício de que se deva ter entendimento diverso;

    6) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu diante da improvável ação de Deus em aniquilar a nossa lembrança, a nossa memória, sobre os acontecimentos de nossa vida e pessoas que conhecemos aqui na terra. Se aceitássemos que Deus assim agisse, estaríamos remontando a crença espírita, onde nada se sabe sobre aquilo que foi a nossa "vida vivida anteriormente". Doutrina esta condenada pela Igreja;

    7) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque a nossa comunhão na Pátria Celeste será potencializada, plenificada, infinitamente maior que a comunhão imperfeita que temos hoje. Portanto, se já nos conhecemos aqui, passaremos a nos conhecer mais e melhor. Inclusive passaremos a conhecer as pessoas a quem não conhecíamos na terra.

    8) Afirmamos com segurança que nos reconheceremos no céu porque nas imagens bíblicas que se referenciam ao Paraíso - o Jardim do Éden, o festim de casamento, o banquete, etc..., - há prefiguração de pessoas que se conhecem e se comunicam;

    Enfim...

    Poder-se-ia enumerar várias e várias outras argumentações para tal aceitação. Satisfazemo-nos com estas, pois, rebuscando o parágrafo 89 do Catecismo da Igreja Católica sabemos que, se nossa vida for reta, nossa inteligência e nosso coração estarão abertos a acolher a luz da verdade.
 

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