domingo, 4 de abril de 2010

O que o dogma quis dizer é o que ele diz


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Para os católicos, os dogmas que a Igreja proclama são como as margens de um rio: eles canalizam a fé sob o sustentáculo da revelação. Os dogmas transmitem aquilo que é da vontade do próprio Deus para conhecimento dos homens. Nenhum conceito a mais. Nenhuma verdade inventada. Tudo tão somente restrito aos desígnios de Deus para com a humanidade. A Igreja Católica tem a missão de ser a guardiã do Depósito da Fé, de manter intactas, zelosamente guardadas as verdades de fé que Deus deu a conhecer. Ela é a portadora das verdades de fé, as quais Deus propõe no momento certo e oportuno ao entendimento humano.
 
Aquilo que é exposto nas fórmulas dogmáticas, por vezes, parece ser um desafio ao entendimento humano. Tais ensinamentos parecem obscuros mesmo quando submetidos ao mais acurado raciocínio humano. Para muitos, e muitas vezes, isso se dá não por que seja complexo o significado das palavras e expressões, mas por ser algo duro demais de se aceitar para os membros de uma sociedade atual pervertida em seus valores.

Mesmo se apresentando assim, quando alguém se deixa envolver pelos dons do Espírito Santo, tais expressões formuladas pela Igreja passam a ser para o fiel católico como o mais firme rochedo, a âncora para o barco no mar bravio, o alicerce mais profundo e mais seguro, construído com a mais perfeita engenharia para vir dizer que sim para aquilo que é sim, e que não para aquilo que é não. Assim, o homem que se diz católico, deve ter como premissa de fé, a missão de acolher de peito aberto aquilo que Deus quer ensinar.

Para o bom católico, não crer totalmente e sem vacilos em tais verdades é não se deixar guiar pelos autênticos caminhos ordinários que levam a Deus, é não fazer como aquela criancinha que confia nas mãos do pai ao se jogar do alto. É desacreditar que Cristo é Deus e que Ele veio aqui para mostrar seu plano. Dizer-se católico e não acreditar naquilo que a Igreja propõe como verdade de fé é brincar de ser católico, é brincar de ser autêntico cristão. É afirmar que Cristo é incapaz de estar com sua Igreja por todos os tempos conforme prometera: "E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!" (cf. Mt 28, 20b). É enganar-se!

Vale ressaltar que os homens em sua busca de um auto-convencimento podem ter a involuntária concepção de não-aceitação das verdades dogmáticas. Isto pode ser proveniente da dificuldade que se pode ter para entendê-las em seus porquês. A estes é preciso que se esclareça que não é imprescindível que se compreenda as minúcias do dogma.

A razão de existência do dogma é a de que ele seja crido, e não necessariamente a de que ele seja entendido completamente em sua essência e finalidade, pois que tal entendimento pode não ser suportável ainda ao intelecto humano (Cf. Jo 16,12). Não convém fazer objeções aos motivos que levaram a Igreja a declarar tal verdade, e sim, tão somente reconhecer que a Igreja teve a vontade de declará-la, porque assim quis o Espírito Santo ao usá-la como instrumento. Se o intelecto não alcançar uma resposta racional, a atitude deve ser a de crer sem restrições naquilo que a Igreja propõe como verdade de fé.

E por que são proclamados os dogmas? Principalmente para combater posições contrárias á fé que são levantadas contra a Igreja. Note-se bem que ela apenas os proclama para o devido conhecimento dos fiéis, pois que já são verdades imutáveis.

O termo dogma é relativamente novo. Antes, porém, de sua utilização no linguajar teológico, já se tinha a correspondente idéia representativa do dogma. Tal concepção de verdade de fé imutável remonta os primórdios da Igreja. Um dogma, per si, não é passível de dúvida. A dúvida sobrevém quando se tenta deformar o dogma. São elas - as proposições que deformam o dogma - que trazem consigo as dúvidas, exatamente por não serem verdades, nem vincularem-se devidamente à verdade de fé.

A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, quando quer definir algo, ela assim faz usando seu carisma próprio. Tal definição proclamada sem erro, permanece sem erro, pois Deus não se engana, nem nos engana. A Igreja pronuncia-se dogmaticamente também porque é o próprio assunto tratado que exige um palavrear inerrôneo, sem margem a dúvidas, com clareza, firmeza e concisão.

A asserção de que um entendimento inalcançado hoje possa vir a ser alcançado posteriormente é aceitável, pois, "passado o tempo, as coisas se explicam melhor". Muito sutil e perigosa pode se tornar uma generalização dessa tese, visto que buscar uma melhor explicação pode, desgraçadamente, vir a querer atribuir novos significados aos termos usados nas formulações dogmáticas. Contra isso é que, em sua formalização documental, a Igreja ainda hoje se utiliza do latim, língua que não mais se desenvolve por não haver nação alguma no mundo onde seu povo a utilize como língua vulgar.

A busca para a explicação de uma sentença não deve sair dos trilhos, daquilo que quer dizer em seu sentido literal. Este "passado o tempo, as coisas se explicam melhor" deve ser recebido como "passado o tempo, as coisas se tornam mais claras ao entendimento". Sim, as verdades duras e cruas em um dado momento da história, passam a ser mais efusivamente percebidas diante de um novo cenário, e o homem acalanta-se, enfim, ao entender melhor o porquê daquilo. É como o filho que vê o pai "impiedosamente" golpeando o tronco de uma mangueira porque ela insiste em não frutificar. No ano seguinte, ele vai entender que os golpes foram úteis àquela planta, ao vê-la carregada de frutas.

A nova teologia* muito tem desmerecido a fé. Muitos teólogos esquecem que a teologia também está submissa às definições da Igreja. Às vezes insiste-se em querer compreender os desígnios de Deus de uma forma intimista, em tempo e modo adaptados à vontade própria. Isso corrói a fé do homem, que quer não mais crer, mas, de qualquer forma, entender. Ter fé é crer, mesmo sem entender. Crê-se em Deus, mas não se entende Deus além do que Ele permite.

O dogma é verdade. E verdade para todos. Uma verdade que só é verdade para alguns, não é verdade. Ora, Deus é o único Deus de todos os homens. E essa afirmação não descamba para assegurar que o deus dos maometanos, dos budistas, dos hinduístas, na concepção de como é crido, seja o mesmo Deus dos católicos. Cada um deles, ao descreverem seu deus, apresentam um ser, em sua essência, diferente de Deus em sua realidade. Ou seja, se diz com razão que Deus é Deus dos católicos, dos mulçumanos, de Deus de todos os homens pelo fato de que reina sobre todos, e não porque supostamente corresponda ao mesmo deus. Isso é uma verdade para todos, embora alguns não a aceitem.

O mesmo se aplica às demais verdades atestadas como tal pela Igreja. Um dogma não é aplicado apenas àqueles a quem o reconhece como dogma, ele é verdade para todos.

 
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução Donum Veritatis, n. 24. Disponível em: <http://www.veritatis.com.br/article/4932 >. Acesso em: 8 out. 2008.
* Caracteriza-se aqui como nova teologia a linha de pensamento teológico que absorveu e passou a difundir muitos conceitos e ideologias do mundo moderno que se opõem a ensinamentos da Tradição cristã.

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