quarta-feira, 20 de abril de 2011

Haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo? – São Tomás de Aquino


Parece que haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo, pois: 

1. Com efeito, a natureza em sua operação imita a obra divina, pois é movida e regulada por Deus. Ora, a natureza não emprega dois meios quando apenas um é suficiente. Logo, como Deus poderia libertar o homem somente por meio de sua vontade, parece não ter sido conveniente que para a libertação humana acrescentasse a paixão de Cristo. 

2. Além disso, o que se faz segundo a natureza realiza-se de modo mais conveniente do que o que se faz com violência, pois a violência é "de certo modo um rompimento ou um desvio do que se comporta conforme a natureza", como se diz no livro Do Céu. Ora, a paixão de Cristo levou a uma morte violenta. Logo, seria mais conveniente que Cristo libertasse o homem morrendo de morte natural e não pelo sofrimento. 

3. Ademais, parece muito conveniente que o detentor violento e injusto seja despojado por uma força superior. É o que diz Isaías: "Gratuitamente fostes vendidos, sem dinheiro sereis resgatados" (52, 3). Ora, o diabo não tinha nenhum direito sobre o homem, a quem enganara de modo fraudulento e, com certa violência, o mantinha em escravidão. Logo, parece ter sido muito conveniente que Cristo tivesse despojado o diabo apenas pelo próprio poder, sem a paixão. 

Em sentido contrário, Agostinho diz: "Não houve outro modo mais conveniente de sanar nossa miséria do que pela paixão de Cristo". 

RESPONDO. Um modo é tanto mais conveniente para atingir um fim quanto mais ocorrem, por meio dele, resultados adequados a esse fim. Ora, o fato de o homem ter sido libertado pela paixão de Cristo teve muitas conseqüências apropriadas à sua salvação, além da libertação do pecado. 

Primeiro, o homem conhece, por esse fato, quanto Deus o ama, sendo assim incentivado a amá-lo também, e é aí que está a perfeição da salvação humana. É o que diz o Apóstolo na Carta aos Romanos: "Nisto Deus prova o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos inimigos" (5, 8-9). 

Segundo, deu-nos exemplo de obediência, de humildade, de constância, de justiça e das demais virtudes que demonstrou na paixão de Cristo, necessárias todas para a salvação humana. É o que diz a primeira Carta de Pedro: "Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos suas pegadas" (2, 21). 

Terceiro, Cristo, por sua paixão, não apenas livrou o homem do pecado, mas também lhe mereceu a graça santificante e a glória da bem-aventurança, como abaixo se dirá. 

Quarto, mostra-se ao homem, por esse fato, que é ainda mais necessário ele se manter imune do pecado, segundo a primeira Carta aos Coríntios: "Alguém pagou o preço do vosso resgate. Glorificai e levai a Deus em vosso corpo" (6, 20). 

Quinto, esse fato trouxe maior dignidade ao homem. Ou seja, como o homem fora vencido e enganado pelo diabo, seria também um homem a vencer o diabo; e como o homem merecera a morte, seria também um homem, ao morrer, que venceria a morte, como diz a primeira Carta aos Coríntios: "Rendamos graças a Deus, que nos dá a vitória por Jesus Cristo" (15, 57). 

Portanto, foi mais conveniente que fôssemos libertados pela paixão de Cristo do que somente pela exclusiva vontade de Deus.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: 

1. Também a natureza, para produzir alguma coisa de modo mais conveniente, usa vários meios para um só objetivo, como dois olhos para ver. E o mesmo se observa em outros casos. 

2. Afirma Crisóstomo: "Cristo viera destruir não a sua morte, a que não estava sujeito, uma vez que é a vida, mas a morte dos homens. Por isso, não morreu de morte natural, mas suportou a morte que os homens lhe infligiram. E se seu corpo ficasse doente e diante de todos perdesse a vida, seria um contra-senso ter o próprio corpo corroído pela doença justo aquele que viera curar as doenças dos outros. E se tivesse morrido sem doença alguma, isolado em algum canto, e depois se manifestasse, ninguém lhe daria crédito, ao falar de sua ressurreição. Pois como se manifestaria a vitória de Cristo sobre a morte se ele, sofrendo-a diante de todos, não provasse que a tinha extinto pela incorrupção de seu corpo?

3. Embora o diabo tenha investido contra o homem de modo injusto, o homem, por causa de seu pecado, fora com justiça abandonado por Deus sob a escravidão do diabo. Portanto, foi conveniente que o homem, pela justiça, fosse libertado da escravidão do diabo, tendo Cristo, com sua paixão, dado satisfação por ele. 

Isso foi também conveniente para vencer a soberba do diabo, que é o desertor da justiça e o amante do poder, a fim de que Cristo "vencesse o diabo e libertasse o homem, não apenas pelo poder de sua divindade, mas também pela justiça e abatimento da paixão", como diz Agostinho. 

Suma Teológica III, 46, 3.

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