domingo, 8 de maio de 2011

Teologia positiva e teologia especulativa: O que foi verdadeiramente revelado e os refolhos do dogma - Pe. Maurílio Teixeira Leite Penido

Saber precário, a teologia é, todavia, um saber real. “A razão iluminada pela fé, quando procura cuidadosa, pia e sabiamente, alcança, com a divina graça, certa inteligência dos mistérios, que é frutuosíssima, ensina o Concílio Vaticano [I]. Nesse movimentar-se em demanda da compreensão da fé, a razão humana serve-se dos mais varados métodos – assim o exige a eminência e complexidade do Objeto – de sorte que, com o progresso dos tempos, se foram distinguindo, dentro do mesmo e único saber teológico, duas grandes províncias ou funções – teologia positiva ou histórica, teologia especulativa ou doutrinal – não já opostas nem mesmo separadas, porém unidas, irmanadas, pois que mutuamente se implicam.

A teologia positiva, ou histórica, visa determinar o que foi verdadeiramente revelado e qual a sua ordem de aparição no tempo. Para esse fim:

1º analisa os textos bíblicos, valendo-se de todos os recursos da filologia, crítica textual, história, arqueologia, etc.; 

2º estuda igualmente o dado revelado nos Santos Padres; a evolução teológica dos Padres e Doutores; 

3º comenta enfim as diversas definições e formulações da fé pela autoridade da Igreja. Na procura da ordem genética, serve-se como instrumento de eleição da história – sempre sob orientação da fé (e por isso mesmo é “teologia” e não história).

A teologia especulativa, ou doutrinal, colima explorar, na medida em que são acessíveis, os refolhos do dogma. Não se preocupa mais de saber o que Deus disse, mas de entender, quanto possível, o que ele disse.

Segundo o Concílio do Vaticano[I] essa intelecção da fé se deve processar, para que seja correta, segundo uma tríplice via. 

1º graças à analogia das coisas conhecidas naturalmente; assim tentou S. Agostinho antever algo da vida misteriosa da Trindade, considerando a vida de nossa alma, imagem de Deus;

2º procurando a ligação, o mútuo nexo dos mistérios entre si; assim aclaramos o mistério da Igreja, apelando para o mistério da Encarnação redentora;

3º descobrindo o laço que prende os mistérios ao fim derradeiro do homem; grande luz projeta sobre nosso destino a revelação do pecado original, da redenção, nos novíssimos.

Valendo-se desses diversos meios, a teologia especulativa procura entender, explicitar, sistematizar.

1º Num primeiro tempo, esforça-se por entender os enunciados da fé. O método da analogia investiga o sentido exato dos conceitos, imagens e figuras da Escritura e da Tradição, para transpô-las e proporcioná-las a Deus. Por exemplo: no evangelho de S. João, Jesus nos revela que ele é a vide e nós os sarmentos; pergunta o teólogo: que significação exatamente poderá ter essa imagem? Que podemos deduzir sobre nossas relações com Cristo? Ou ainda: dado pela fé que existe em Deus “paternidade” e “filiação”, como adaptar ao ser divino essas duas noções?

2º Num segundo tempo, tenta explicitar as verdades reveladas, já corretamente entendidas. Podemos dividir essa nova tarefa em dois momentos:

a)    Primeiro desvendar a ordem essencial, constitutiva, do dado revelado, a saber os nexos que prendem os mistérios entre si, de maneira a iluminá-los uns pelos outros, o que se faz descobrindo as raízes deste aqui naquele outro mais fundamental. É de fé, por exemplo, 

1º que Cristo é nossa Cabeça; 

2º que Cristo ressuscitou; 

3º que também nós ressuscitaremos.

Considerada isoladamente, cada uma dessas verdades é objeto de fé que adere e não argumenta; mas o papel da teologia será de descobrir as muitas relações dessas três verdades, fazendo ver que a última está inclusa nas duas outras, é pois consequência delas. Entenderemos então o “porquê” de nossa ressurreição pessoal; é por ser Cristo Cabeça do corpo de que somos membros que Ele, por sua vitória sobre a morte, deve nos arrastar consigo.

b)    Num segundo momento, solidário aliás do precedente, vamos procurar dilatar o campo do saber teológico, inferindo conclusões novas, dos princípios cridos pela fé. Está revelado, por exemplo, que, na Trindade, a segunda pessoa procede do Pai como Filho e como Verbo; logo, deduziremos, ela procede por via intelectual. Das premissas temos fé, da conclusão temos ciência teológica.

A conclusão teológica não é verdade de fé, porque não foi imediatamente revelada, e, ainda que o teólogo veja de maneira evidente sua inclusão real e necessária no imediatamente revelado, ele, na sua condição de teólogo particular, pode e deve perguntar ansioso se, fraco e falível como é, entendeu corretamente os princípios de fé, se lhes penetrou as conexões essenciais, se inferiu rigorosamente as consequências coarctou a vastidão da Verdade infinita à estreiteza de suas míseras ideias, minimizando o divino; se não turvou a limpidez diáfana da mensagem divina, com suas noções opacas e obscuras, divinizando quiçá o humano.

Assim, na Idade Média a muitos grandes e santos Doutores pareceu evidente que isentar Maria do pecado original seria pôr em cheque este dogma de fé: Cristo remiu todos os homens. Só vários séculos mais tarde, viria Pio IX explicar que a Imaculada Conceição, bem longe de constituir exceção à Universal Redenção, pois Maria foi preservada da culpa original em previsão dos merecimentos de Cristo Redentor.

Embora a conclusão teológica correta não seja verdade de fé, tampouco é mera verdade humana, porque estava implícita na palavra de Deus. Saber divino-humano, misto de fé e de razão, tal é a Sagrada Teologia. Divina, por serem revelados os princípios com que argumenta; humana, porque passamos às conclusões por um discurso que nos é próprio. Por outras palavras, a teologia é a maneira humana de estudar as coisas divinas.

Acontece, por vezes, que a conclusão a que chegam nossas deduções já foi, de outro lado, revelada, o que vem fortificar e confirmar o labor teológico. Encontramos, por exemplo, vários textos no evangelho, que atestam a ciência e vontade humanas em Cristo; porém se descobrirmos esta ciência e esta vontade, não já como imediatamente reveladas, mas como implícitas numa outra verdade revelada, a saber: Cristo é homem perfeito, temos então o trabalho da própria teologia. Forma-se destarte longa cadeia de proposições teologicamente demonstradas ou explicadas, por haver sido descoberto o nexo que as prende a outras verdades já reveladas pela fé.

Após haver entendido e deduzido, remata enfim seu esforço a sagrada teologia tentando sistematizar. Numa síntese suprema, ordena e hierarquiza os diversos elementos da doutrina cristã. O mais célebre e acabado desses sistemas foi por S. Tomás de Aquino.

Fonte: Pe. Maurílio Teixeira Leite Penido, na Obra “Iniciação à Teologia I – O Mistério da Igreja", pp. 39-42.

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