sábado, 30 de abril de 2011

As Canonizações no Magistério Pontifício de Ontem e de Hoje

por Pe. Álvaro Calderón
 
A Igreja sempre rendeu culto público aos santos, primeiro a seus mártires e posteriormente, a partir do século IV, aos confessores. Ainda que somente o Papa tenha autoridade para julgar se algum servo de Deus pode ser honrado como santo pela Igreja universal, durante os dez primeiros séculos foi a piedade do povo cristão que os canonizava, mais ou menos dirigida pelos seus Bispos e com o consentimento tácito dos Pontífices Romanos. Mas como não faltaram abusos e negligências, os Papas começaram a exercer um controle maior nestes processos, terminando por reservar para si a faculdade de canonizar os santos.

O primeiro documento que menciona esta reserva é um decreto de Alexandre III, do ano de 1170. A vida exemplar dos santos é uma das notas que distingue a Igreja de toda outra falsa religião, e para confusão daqueles que negam, os procedimentos pelos quais os Papas acordaram as canonizações foram desde sempre extremamente rigorosas.

Até 1588, as canonizações, realizadas sempre como um processo judicial entre um « postulador » como defensor e o « promotor da fé » como fiscal, eram competência da Rota Romana; mas neste ano Sixto V instituiu a Sagrada Congregação dos Ritos com competência exclusiva para estes processos, que unificou e aperfeiçoou os procedimentos seguidos. Todavia, Urbano VIII, em 1625, proibiu que se prestasse culto a alguém que não tivesse sido canonizado ou beatificado pela Santa Sé, com exceção dos casos de culto admitido desde sempre.

O procedimento, enriquecido pela experiência dos séculos, esta descrito no essencial pelo Código de Direito Canônico de 1917. Posteriormente, Pio XI instituiu em 1930 a Seção Histórica para as causas antigas, promulgando em 1939 umas Normas para estes casos, e Pio XII estabeleceu um colégio de médicos peritos.

Até esta data, todo procedimento tinha duas etapas:

1ª- A que termina na beatificação, dividida em duas partes, o processo ordinário e o processo apostólico;

2ª- A que conduz à canonização. O processo ordinário ou antiprocesso, chamado assim porque se realiza debaixo da autoridade do Bispo do lugar, tem como fim introduzir a causa ante a S.C. de Ritos, e consta de três partes:
  1ª- A busca meticulosa de todos os escritos do servo de Deus;
  2ª-O processo informativo que busca demonstrar a fama de santidade;
  3ª- O processo de ausência de culto, de acordo com o decreto de Urbano VIII. Antes de seguir com o processo informativo, os escritos devem ser revisados para a S.C. de Ritos, de onde são submetidos a um rigoroso exame: "Não é necessário que as obras do servo de Deus contenham erros formais contra o dogma ou a moral para deter definitivamente uma causa de canonização; basta que se lhe encontrem novidades suspeitas, questões frívolas, ou ainda alguma opinião singular oposta ao ensinamento dos Santos Padres e ao sentimento comum dos fiéis".

O processo apostólico ou processo propriamente dito, realizado sob a autoridade do Papa por intermédio da S.C.de Ritos, tem dois grupos de procedimentos, os de instrução e os de cognição. Os de instrução se realizam nas dioceses por mandato da S.C.de Ritos, e são dois: primeiro se refaz o da fama de santidade; depois se examinam as virtudes (se a causa não for de mártir) ou o martírio, e os milagres. Os processos de cognição se realizam em Roma, e são em números de quatro:

1º-Sobre a heroicidade das virtudes;
2º-Sobre o martírio e sua causa;
3º-Sobre os milagres;
4º-Última sessão cautelar, chamada « de tuto », pela qual se decreta que se pode proceder "com segurança" a beatificação.

Para chegar até a canonização não existem novos processos nem revisão do que foi feito, bastam duas condições: a beatificação e a aprovação de novos milagres. O postulador deve aportar as provas dos novos milagres a pedir a revalidação da causa; se a S.C.de Ritos concede se estende o decreto « de tuto » pelo qual se determina que se pode proceder à canonização; existe todavia um triplo consistório no qual o Papa se reúne com os cardeais e Bispos; e finalmente, se é sua vontade, o Romano Pontífice dita a Bula de canonização com data da cerimônia litúrgica solene na basílica de São Pedro, no Vaticano.

Em 1967 Paulo VI faz uma reorganização da Cúria pela Constituição Apostólica Regimini Ecclesiae Universae, que toca também a S.C.de Ritos, mas sem modificar de maneira significtiva seus procedimentos. A primeira simplificação de monta se leva a cabo pelo Motu Proprio Sanctitas Clarior, de 19 de março de 1969. Por este ato o Papa delega aos Bispos e conferências episcopais a autoridade necessária para introduzir a causa e realizar os processos de instrução, autoridade que residia até então na Congregação Romana. Estes processos ficaram reduzidos a três:

1º-Sobre os escritos do servo de Deus;
2º-Sobre a vida e virtudes, ou sobre o martírio; e conjuntamente sobre a ausência de culto;
3º-Sobre os milagres.

Até esse momento os processos de instrução eram levados a cabo por mandatários dotados de cartas dimisoriais da S.C.do Ritos; agora, se o Bispo está em condições de constituir diocesanos com oficiais especializados, pode instruir ali os processos; se não, deve recorrer aos tribunais constituídos ad hoc pela conferência episcopal. Estas inovações, comenta Mons. Antonelli, secretário da S.C. de Ritos, "abrem, indiscutivelmente, uma nova época na história das causas de beatificação e canonização”. Dois meses depois, pela Constituição Apostólica Sacra Rituum Congregatio, de 8 de maio de 1969, Paulo VI divide a S.C. de Ritos em outras duas congregações, uma « para o Culto Divino » e outra « para as Causas dos Santos », dando a esta última uma organização adequada aos novos procedimentos.

A Segunda modificação importante dos processos vem dada pela Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister, de João Paulo II, publicada em 25 de Janeiro de 1983 juntamente com a Constituição Apostólica Sacrae Diciplinae Leges pela qual se promulga o novo Código de Direito Canônico. Esta nova legislação, completada por um Decreto da S.C. para a Causa dos santos de 7 de Fevereiro, substitui totalmente a anterior, pois o novo Código já não legisla nessa matéria: "As causas de canonização do servos de Deus- diz o cânon 1403 § 1- se regem por uma lei pontifícia peculiar”. De acordo com o estabelecido por Paulo VI, cumprindo com um objetivo duplo. Prático o primeiro: "Desde as recentes experiências, enfim, Nos pareceu oportuno revisar esta Congregação para a Causa dos Santos a fim de responder às exigências dos sábios e aos desejos de nossos irmãos no episcopado, que pediram muitas vezes que fosse facilitado o procedimento, conservando sempre a solidez das investigações em matéria tão importante".

O segundo doutrinal: "Nós pensamos também, a luz do ensinamento sobre a colegialidade do Concílio Vaticano II, que convém verdadeiramente associar mais os Bispos à Sé apostólica no estudo das causas dos santos”. Agora o Papa reconhece aos Bispos o direito de introduzir as causas de canonização e instruir os processos, sem necessidade das autorizações da Congregação Romana todavia exigidas sob Paulo VI. Já não é necessário submeter todos os escritos ao exame teológico, senão somente aquele que tenham sido publicados; os censores teólogos são nomeados pelos Bispos; se facilitam os modos como podem dispor os testemunhos; o antigo processo de « não culto » fica reduzido a uma simples inspeção ocular por parte do Bispo dos lugares em que poderia haver culto indevido. Uma vez terminado o processo de instrução, se enviam suas atas para Roma. A S.C.para as Causas dos Santos corresponde "estudar as causas a fundo": verifica que todos tenham sido realizados segundo as normas; prepara um informe ou « positio » sobre virtudes ou martírios e outros sobre milagres para serem examinados por consultores teólogos e peritos; estes redigem os últimos informes de conclusões para ser discutidos na assembleia de cardeais e Bispos. Finalmente tudo se submete ao juízo do Soberano Pontífice.

É de nota que a nova legislação não menciona a beatificação como etapa intermediária. Segundo canonistas, deixa em aberto, assim, a possibilidade de devolver aos Bispos, com ordem a promover a colegialidade, o poder de beatificar que tiveram nos primeiros séculos.

Se fizermos uma comparação global entre o que representava as canonizações no magistério dos Papas de ontem com o que supõe hoje segundo a nova legislação, podemos resumir as diferenças dizendo que agora já não são um acontecimento « extraordinário » na atividade do Romano Pontífice. Em primeiro lugar, e tomando a expressão « extraordinário » em seu sentido mais comum, a simplificação dos processos fez aumentar a frequência das canonizações de tal maneira que já não são vistas como algo fora do comum na vida do Papa.

Segundo o Index ac Status Causarum, publicado pela S.C. para as Causas dos santos em dezembro de 2000, desde Clemente VIII (1594) até Pio XII inclusive (1958), a S.C. de Ritos canonizou 215 santos, pouco mais de um a cada dois anos. Pio XII canonizou 33 santos em seus 19 anos de pontificado. Paulo VI realizou 3 canonizações antes da primeira simplificação do processo (na 1ª canonizou os 22 mártires de Uganda) e 18 nos oitos anos seguintes (entre eles 40 mártires ingleses), 81 santos canonizados no total. Com João Paulo II a frequência aumenta notavelmente. Em seus primeiros dez anos de pontificado, de 1978 a 1988, canonizou 254 beatos (entre eles os 103 mártires da Coréia) e beatificou 300 servos de Deus, a maioria dos mártires (60 do século XX).Em 1999 os canonizados pelo atual Pontífice somavam 295 e os beatificados 934.Nos últimos anos as canonizações aceleraram-se ainda mais. O Padre Pio de Pietrelcina é o santo nº 462 de João Paulo II. "Se diz às vezes - explicava o Papa no consistório, em 13 de junho de 1994 - que hoje realizam-se demasiadas beatificações. Mas isto ademais de refletir a realidade que, graças a Deus, é como é, corresponde também ao desejo expresso pelo Concílio Vaticano II.Tanto se difundiu o Evangelho no mundo, e tão profundas são as raízes fincadas por sua mensagem, que precisamente o grande número de beatificações reflete vivamente a ação do Espírito Santo e a vitalidade que brota Dele no campo que mais essencial é para a Igreja, a saber, o da santidade".

Mas devemos ir mais a fundo, porque se as canonizações deixaram de ser acontecimentos « extraordinários » enquanto a sua frequência, algo tem que significar isto enquanto sua natureza teológica. Os teólogos chamam magistério « extraordinário » do Papa primeira e principalmente às definições « ex cathedra » em matéria relativa a doutrinas de fé e costumes. Suas outras atividades, já relativas à doutrina como os ensinamentos dados em discursos ou cartas encíclicas, relativas a fatos concretos como as decisões disciplinares, constituem o magistério pontifício ordinário. Em matéria de doutrina, o Papa é infalível em seu magistério extraordinário, ou seja, quando profere sentença definitiva « ex cathedra »; os demais ensinamentos dados de modo ordinário não são infalíveis por si mesmas, ainda que podem chegar a tornar-se quando alcança um peso equivalente pela frequente repetição ou porque terminam impondo-se a toda a Igreja. Nos juízos relativos a fatos concretos, por sua vez, o Papa não goza de infalibilidade: "Nas sentenças relativas a fatos particulares - diz São Tomás - , como no que diz respeito a posses, crimes ou coisas assim, é possível que haja erros no juízo da Igreja por causa de falsos testemunhos”. Ainda que as canonizações tenham como objeto um fato concreto - que tal ou qual cristão alcançou a santidade e está no céu - , porém, dada a maneira como os santos são propostos ao culto pelo magistério, os teólogos as consideram como algo intermediário entre as sentenças doutrinais e aquelas sobre os fatos particulares, e opinam que também nelas se da a infalibilidade: "A canonização dos santos - segue dizendo São Tomás no mesmo lugar - é algo intermediário entre estas duas [espécies de sentenças].Como a honra que tributamos aos santos é certa profissão de fé pela qual cremos na glória dos santos, deve-se acreditar piedosamente que tampouco nisto, pode errar o juízo da Igreja".

Haveria então que considera-las também hoje, apesar de que ocorram « ordinariamente », como atos que pertencem ao magistério pontifício « extraordinário »?Para julgar se um ato do magistério pontifício deve considerar-se ordinário ou extraordinário, deve-se ter presente o seguinte critério teológico: Ou o carisma da infalibilidade não depende do empenho que o Papa ponha para certificar-se da verdade de seus atos, senão somente da assistência do Espírito Santo ao qual o Pontífice acode segundo sua livre vontade; sem embargo, para não tentar a Deus, o Papa obra em cada caso como costumava fazer qualquer outro mestre humano: « humano more ».

Quer dizer que quando o Papa ensina de modo ordinário, sem especialíssimas diligências e solenidades, não tem intenção de infalibilidade; mas quando pretende dar sentença definitiva, investiga, pede conselho e obra como se tivera que evitar todas as possibilidades de errar somente pelas forças de suas próprias luzes. Estas diligências feitas de modo humano são claro indícios do grau de autoridade que o Romano Pontífice outorga a cada um de seus atos. Quando os Papas, até o século XI ou XII, retirarão definitivamente aos Bispos a faculdade de julgar em matéria de santidade e tomaram em suas próprias mãos a condução dos processos de canonização, estabelecendo mil cautelas para certificar pessoalmente - por meio de oficiais e organismos da mesma Cúria Romana - a realidade dos fatos; então ali viram os teólogos o compromisso pleno da autoridade pontifícia, julgando que estes atos se acercam tanto às definições « ex cathedra » que também deviam incluir-se entre os atos solenes do magistério extraordinário.

Em contrário, Roma voltou a deixar aos Bispos a responsabilidade de julgar os fatos por si mesmos ou pelos instrumentos por ele estabelecidos. Consideradas as coisas « humano more », segundo as regras dos juízos humanos, o Romano Pontífice já não pode dizer: Eu mesmo dou testemunho que tal pessoa levou uma vida cristã exemplar, porque enviei gente de minha confiança para certificar-se dos fatos e os fiz estudar por teólogos selecionados por mimadora seu testemunho sobre os fatos concretos não é imediato, senão mediado pelos Bispos: Eu dou testemunho que, segundo as atas chegadas a meu poder e confiando na prudência e honestidade dos procedimentos diocesanos, tal pessoa chegou à santidade. O valor de uma sentença dada nestas condições é evidentemente muito menor, porque, por um lado, a autoridade científica de um tribunal diocesano é muito menor que a da Congregação Romana, que seleciona seus membros entre os mais excelentes do mundo inteiro; ademais, o Bispo diocesano tem necessariamente muito mais interesse que sua diocese conte com santos canonizados, sendo juiz menos imparcial que o Pontífice Romano; por último e principalmente, porque a diferença da sentença em matéria doutrinal, na qual não importa de quem se tenha aprendido desde que seja verdade, a sentença a respeito de fatos concretos depende completamente da correta observação presencial.

O regresso a uma situação semelhante a dos primeiros séculos, em que o Papa não julga imediatamente por si mesmo senão que confirma o juízo dos Bispos, situação desejada com vistas a promover a colegialidade, faz com que o juízo teológico acerca do grau de autoridade das canonizações tenha que mudar porque, como dissemos, o « modo humano » como o Papa procede em seus juízos é indício claro do grau no qual compromete sua autoridade como Vigário de Cristo. As canonizações, então, no magistério Pontifício de hoje já não podem ser consideradas atos pertencentes ao Magistério extraordinário do Romano Pontífice, senão mais propriamente atos próprios de seu Magistério Ordinário.

Não tivemos notícia de trabalhos teológicos sobre este ponto, e o que afirmamos pode surpreender a algum católico instruído no que ensina a teologia desde sempre. Mas devemos entendê-lo no marco da nova pedagogia que tomou o magistério desde o Concílio Vaticano Sias definições « ex cathedra » do magistério extraordinário constituem o exercício mais absoluto que uma autoridade possa ter sobre a terra, e o homem contemporâneo, muito influenciado pelo espírito democrático, sente um instintivo horror ante tudo o que se lhe impõe sem antes consulta-lo.

Por isso, os últimos Papas julgaram conveniente não recorrer ao « magister dixit » pitagórico senão ao « diálogo » socrático, exercendo o magistério somente de maneira ordinária, confinado na assistência do Espírito Santo para que, pouco a pouco, se vá impondo a verdade em cada caso. Ainda no ato que João Paulo II impôs maior autoridade, como foi o caso da declaração sobre a impossibilidade da ordenação sacerdotal de mulheres, não quis dirimi-lo por uma definição pontifícia « ex cathedra », senão apenas assinalando que já anteriormente "havia sido proposta pelo magistério ordinário e universal”. Da mesma maneira, por julgar mais conveniente para a sensibilidade do homem que também as canonizações tenham-se voltado a fazerem-se hoje de maneira colegial.

 

Fonte: Guarde a Fé - Boletim da Fraternidade Sacerdotal São Pio X; Nº 10 - Janeiro e Fevereiro de 2003

Maomé e sua religião – por Dom Bosco

por Dom Bosco, no livro História Eclesiástica.

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta.


Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era.

O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632. 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Realidade da Canonização: um olhar sobre a História

Na origem, encontramos o exercício espontâneo de um culto público dado a um fiel falecido, exprimindo a santidade deste e dando em exemplo suas virtudes. O primeiro culto foi dado aos santos mártires, o povo recolhia relíquias dessas vítimas da perseguição, edificava altares sobre seus túmulos e os padres ali celebravam a missa. Os primeiros exemplos remontam ao século II e a prática é universal no século III. Este culto devia ser autenticado pelo bispo: a disciplina distingue de fato os mártires reconhecidos e aqueles que não o são.
 
Foi somente no século IV que a canonização se estendeu àqueles que, mesmo não tendo tido a ocasião de derramar seu sangue pela fé, ilustrou-se de virtudes eminentes. A disciplina não varia: é aos bispos que incumbe reconhecer a santidade; mas, sobretudo no fim do século XI, os papas reclamam, para maior segurança, que o exame das virtudes e dos milagres se faça num quadro de um concílio, de preferência um concílio geral. Qual é o estatuto jurídico desse reconhecimento oficial: trata-se de uma beatificação ou de uma canonização? Os testemunhos que nos deixou a história não nos permite saber com toda a certeza. Mas, se levamos em conta uma razão teológica necessária, parece muito provável que se tratava de simples beatificações, o poder de um bispo não ultrapassando os limites de sua diocese. "O culto só se elevava à dignidade de uma canonização se passasse de diocese em diocese e se estendesse à Igreja universal, com o assentimento expresso ou tácito do Soberano Pontífice". Ou seja, se é admitido explicitamente que somente o bispo pode proceder a uma beatificação, no que concerne a canonização a disciplina em uso implica que somente o papa seja provido da competência necessária.
 
Acha-se enfim uma Constituição do papa Alexandre III, datada de 1170, inserida no Corpus júris canonici que mostra explicitamente a regra disciplinar: a faculdade de decretar as beatificações na sua diocese é retirada dos bispos e reservada ao Soberano Pontífice; e então, a fortiori, a canonização propriamente dita continua prerrogativa do Soberano Pontífice. Esta prática, sabemos, não se fez de imediato e em todos os lugares conforme a esse princípio, e os bispos sempre consideraram a Constituição de Alexandre III como letra morta.
 
A controvérsia foi definitivamente encerrada pelos decretos do papa Urbano VIII de 13 de março e de 2 de outubro de 1625, de início promulgadas em Roma e depois publicadas com uma confirmação especial no breve Coelestis Jerusalém cives de 5 de julho de 1634. A partir desse momento, está fora de contestação, de fato como de direito, que somente o Soberano Pontífice pode proceder às beatificações e as canonizações.
 
Notemos que quando ele opera essa promulgação o papa pode recorrer a instrumentos que vão interferir anteriormente na canonização propriamente dita, fazendo o papel de conselhos destinados a esclarecer a prudência do legislador:
 
- há o processo regularmente instruído: ele desemboca sobre a canonização formal. Esta pode se definir como a sentença que termina um processo regularmente aberto e segue com todo o rigor do procedimento para constatar juridicamente a heroicidade das virtudes praticadas pelo servidor de Deus e a verdade dos milagres pelos quais Deus manifestou essa heroicidade. Essa sentença é ordinariamente dada pelo Soberano Pontífice durante uma solenidade particular;
 
- há também, no curso da história, o culto espontâneo da piedade popular: quando o papa se contenta de autenticar, trata-se de uma canonização equipolente. Esta se define, então, como a sentença que não termina um processo de canonização, mas que o Soberano Pontífice emite para ratificar o culto que, desde um tempo imemorável é publicamente dado a um servidor de Deus. É necessário que as virtudes heróicas e os milagres desse servidor de Deus, mesmo não tendo sido juridicamente constatadas, tenham sido trazidas por narrativas dignas de fé e façam o objeto da crença geral do povo cristão. Essa sentença é considerada como dada quando a Santa Sé impõe de precepto à Igreja universal a celebração da missa e a recitação do ofício em honra desse santo. É nessa espécie de canonização que se arrumam a maior parte das que foram cumpridas antes de 1170 e é também nessa categoria que figuram os casos duvidosos.
 
Excerto do texto de responsabilidade da Fraternidade São Pio X publicado no Boletim Eletrônico DICI, em francês. Fonte: http://www.capela.org.br/Crise/canoniza.htm
 

domingo, 24 de abril de 2011

Intenções para a reza do santo terço, da Páscoa de 2011 até o Pentecostes de 2012

Fazem parte das minhas intenções do santo terço que rezarei desde a Páscoa de 2011 até o Pentecostes de 2012:
  • Para que o Papa e os bispos do mundo inteiro consagrem a Rússia ao Imaculado Coração de Maria e promovam essa santa devoção;
  • Para que a Igreja seja libertada dos males que a oprimem ou que a ameaçam em um futuro próximo;
  • Para que as Autoridades possam exercer seus deveres salvíficos para as com as almas;
  • Para que as almas espalhadas pelo mundo possam ouvir a Boa Nova que converte, receber os Sacramentos que salvam, e encontrar o único aprisco;
  • Para que a Igreja encontre novamente o seu esplendor e a sua beleza espiritual;
  • Para que o manto modernista que cobre a Igreja – pelo menos desde o Vaticano II – seja rasgado;
  • Para que esta prova terrível seja abreviada;
  • Para que venha logo o Triunfo do Imaculado Coração de Maria;

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo? – São Tomás de Aquino


Parece que haveria outro modo mais conveniente de libertação humana do que a paixão de Cristo, pois: 

1. Com efeito, a natureza em sua operação imita a obra divina, pois é movida e regulada por Deus. Ora, a natureza não emprega dois meios quando apenas um é suficiente. Logo, como Deus poderia libertar o homem somente por meio de sua vontade, parece não ter sido conveniente que para a libertação humana acrescentasse a paixão de Cristo. 

2. Além disso, o que se faz segundo a natureza realiza-se de modo mais conveniente do que o que se faz com violência, pois a violência é "de certo modo um rompimento ou um desvio do que se comporta conforme a natureza", como se diz no livro Do Céu. Ora, a paixão de Cristo levou a uma morte violenta. Logo, seria mais conveniente que Cristo libertasse o homem morrendo de morte natural e não pelo sofrimento. 

3. Ademais, parece muito conveniente que o detentor violento e injusto seja despojado por uma força superior. É o que diz Isaías: "Gratuitamente fostes vendidos, sem dinheiro sereis resgatados" (52, 3). Ora, o diabo não tinha nenhum direito sobre o homem, a quem enganara de modo fraudulento e, com certa violência, o mantinha em escravidão. Logo, parece ter sido muito conveniente que Cristo tivesse despojado o diabo apenas pelo próprio poder, sem a paixão. 

Em sentido contrário, Agostinho diz: "Não houve outro modo mais conveniente de sanar nossa miséria do que pela paixão de Cristo". 

RESPONDO. Um modo é tanto mais conveniente para atingir um fim quanto mais ocorrem, por meio dele, resultados adequados a esse fim. Ora, o fato de o homem ter sido libertado pela paixão de Cristo teve muitas conseqüências apropriadas à sua salvação, além da libertação do pecado. 

Primeiro, o homem conhece, por esse fato, quanto Deus o ama, sendo assim incentivado a amá-lo também, e é aí que está a perfeição da salvação humana. É o que diz o Apóstolo na Carta aos Romanos: "Nisto Deus prova o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos inimigos" (5, 8-9). 

Segundo, deu-nos exemplo de obediência, de humildade, de constância, de justiça e das demais virtudes que demonstrou na paixão de Cristo, necessárias todas para a salvação humana. É o que diz a primeira Carta de Pedro: "Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos suas pegadas" (2, 21). 

Terceiro, Cristo, por sua paixão, não apenas livrou o homem do pecado, mas também lhe mereceu a graça santificante e a glória da bem-aventurança, como abaixo se dirá. 

Quarto, mostra-se ao homem, por esse fato, que é ainda mais necessário ele se manter imune do pecado, segundo a primeira Carta aos Coríntios: "Alguém pagou o preço do vosso resgate. Glorificai e levai a Deus em vosso corpo" (6, 20). 

Quinto, esse fato trouxe maior dignidade ao homem. Ou seja, como o homem fora vencido e enganado pelo diabo, seria também um homem a vencer o diabo; e como o homem merecera a morte, seria também um homem, ao morrer, que venceria a morte, como diz a primeira Carta aos Coríntios: "Rendamos graças a Deus, que nos dá a vitória por Jesus Cristo" (15, 57). 

Portanto, foi mais conveniente que fôssemos libertados pela paixão de Cristo do que somente pela exclusiva vontade de Deus.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que: 

1. Também a natureza, para produzir alguma coisa de modo mais conveniente, usa vários meios para um só objetivo, como dois olhos para ver. E o mesmo se observa em outros casos. 

2. Afirma Crisóstomo: "Cristo viera destruir não a sua morte, a que não estava sujeito, uma vez que é a vida, mas a morte dos homens. Por isso, não morreu de morte natural, mas suportou a morte que os homens lhe infligiram. E se seu corpo ficasse doente e diante de todos perdesse a vida, seria um contra-senso ter o próprio corpo corroído pela doença justo aquele que viera curar as doenças dos outros. E se tivesse morrido sem doença alguma, isolado em algum canto, e depois se manifestasse, ninguém lhe daria crédito, ao falar de sua ressurreição. Pois como se manifestaria a vitória de Cristo sobre a morte se ele, sofrendo-a diante de todos, não provasse que a tinha extinto pela incorrupção de seu corpo?

3. Embora o diabo tenha investido contra o homem de modo injusto, o homem, por causa de seu pecado, fora com justiça abandonado por Deus sob a escravidão do diabo. Portanto, foi conveniente que o homem, pela justiça, fosse libertado da escravidão do diabo, tendo Cristo, com sua paixão, dado satisfação por ele. 

Isso foi também conveniente para vencer a soberba do diabo, que é o desertor da justiça e o amante do poder, a fim de que Cristo "vencesse o diabo e libertasse o homem, não apenas pelo poder de sua divindade, mas também pela justiça e abatimento da paixão", como diz Agostinho. 

Suma Teológica III, 46, 3.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tal qual a sentença de Judas

Pelo Padre Manoel José Gonçalves Couto, no livro "Missão Abreviada".

Judas, vindo por capitão dos que vinham prender a Jesus Cristo, chegou-se ao Senhor, e lhe disse: "Deus te salve, Mestre"; e abraçando-o, lhe deu um beijo de falsa paz em seu divino rosto. E o divino Jesus lhe respondeu: "Amigo, a que vieste?"

Judas na verdade fez o que quis, entregou a Jesus Cristo. Porém depois qual foi o seu destino? Bem o sabeis. Foi arrepender-se, desesperar, enforcar-se, e finalmente cair no inferno! Pois o mesmo tem de acontecer aos pecadores que se não querem emendar. Eles agora vão fazendo o que querem. Vão seguindo à rédea solta as suas paixões desordenadas. Não olham a Deus, nem aos seus preceitos. Nem lhes importa a eternidade. São como as criaturas irracionais que não tratam do Céu nem do inferno, mas depois qual será o seu destino?

Será tal como o de Judas, porque se portam como Judas... Quando Judas entregou a Jesus Cristo no horto, o Senhor lhe disse: "A que vieste?" Pois o mesmo há de dizer a essas almas pecadoras, quando sem veste nupcial da divina graça elas quiserem entrar lá no Reino dos Céus... A que vindes? Que pretendes deste Reino? Em que empregastes o vosso tempo? A quem servistes vós? Não foi às paixões, ao mundo e ao demônio? Pois então sois do demônio, não é aqui o vosso lugar. Apartai-vos já de mim. Ide com o demônio para o fogo eterno!!

Que responderás, pecador, quando Jesus te disser: Eu criei-te à minha imagem e semelhança. Eu dei-te a luz da fé, e fiz-te cristão. Eu remi-te com o meu próprio sangue. Por ti jejuei, trabalhei, caminhei, e suei gotas de sangue. Por ti sofri muitas perseguições, e muitos açoites. Levei muitas bofetadas, ouvi muitas blasfêmias, e sujeitei-me aos maiores tormentos. Esta cruz e estes cravos que aqui aparecem, são testemunhos. Estas chagas de mãos e pés, que no meu corpo observas, são testemunhos. São testemunhos o Céu e a terra, diante de quem padeci. Portanto, que queixas tiveste de mim para me deixares, e seguir o demônio?...

Eu chamei-te muitas vezes pelas vozes dos meus Ministros, e tu não me quiseste ouvir. Eu bati muitas vezes às portas do teu coração, e tu não me quiseste abri-las. Estendi muitas vezes as minhas mãos para te abraçar, e tu não quiseste olhar para elas. Tu desprezaste as minhas promessas e ameaças. Obedeceste sempre ao demônio. Pois então vai já com o demônio para o fogo eterno!!

E qual de vós, meus irmãos, terá esta sentença? Pois há de ser aquele que fizer como Judas. Aquele que vender a alma ao demônio pelo pecado mortal, e com tempo não reformar a sua vida. Portanto, preparai-vos, porque não sabeis o dia nem a hora em que sereis chamados a contas.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A verdade que se crê e sua proximidade com a verdade objetiva


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Crer que se está na verdade é geralmente a concepção dos seguidores de cada um dos mais diferentes segmentos religiosos. Tendo por certo que a objetividade da verdade é incompatível com tantas manifestações que se opõem, tentemos apresentar a proximidade da postura assumida em relação à verdade objetiva:

Verdade Involuntária: nasceu-se aí, e assumiu-se, e aceitou-se, e acomodou-se, embora se detecte bastante coisa com claros caracteres de inverdade.

Verdade desinteressada: Das verdades que encontrou é a que acha mais parecida com cara de Verdade.

Verdade "ainda-em-busca": Opta pelo que de melhor encontrou, mas não se convenceu. "Por enquanto fico com essa".

Verdade "aqui está bom": Deixa como está!

Verdade "não é possível que eu esteja errado!": tem medo do que certamente descobrirá...

Verdade evidente: revelada por Deus aos homens, manifesta na obra criada, reconhecida e abraçada pela fé. Veem sem obscuridade. São impulsionados a defendê-la com uma força tremenda que lhe pede mesmo que dê a própria vida.

Verdade falsa evidente: efetivamente deformada nos próprios conceitos bases.

Verdade ideológica: Primeiro escolhe-se a vertente, depois defende-se ferrenhamente. Se perde uma batalha, trabalha para construir uma vitória utópica.

Verdade conveniente: defende-se o que convém.

Verdade criada: por não se aceitar nada do que encontrou, constrói a sua própria.

Verdade em conversão: após um entalhe do Escultor, passa por momentos sóbrios de encantamento com a verdade, que ainda está incompleta.

Verdade por formalismo: mais superficial de todas, escolheu-se pra não ficar sem.

Verdade da maioria: Maria-vai-com-as-outras, junta-se sempre ao maior rebanho.

Verdade enganadora: nem mesmo eu que defendo-a, não acredito.

Quem me ajuda a classificar:
Protestantes, islamitas, carismáticos, progressistas, tradicionalistas, sedevacantistas, ateus, índios...

Ou apontar outras "verdades":

(Podem completar o texto usando os comentários). 


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os homens são guardados por anjos? – São Tomás de Aquino, na Suma Teológica

Parece que os homens não são guardados por anjos: 

1. Com efeito, delegam-se guardas àqueles que não sabem ou não podem guardar a si mesmos, como às crianças e doentes. Ora, o homem, tendo o livre-arbítrio, pode guardar a si mesmo, e sabe, graças ao conhecimento natural da lei natural. Logo, o homem não é guardado pelo anjo. 


2. Além disso, parece inútil uma guarda mais fraca onde existe uma mais forte. Ora, os homens são guardados por Deus, conforme o Salmo 121: "Ele não cochilará nem dormirá, o que guarda Israel". Logo, não é necessário que o homem seja guardado pelo anjo. 


3. Ademais, a perda do que é guardado redunda em negligência do guarda. Por isso se diz no livro dos Reis: "Guarda este homem! Se ele vier a faltar, tua alma responderá pela dele" (20, 39). Ora, muitos homens perecem todos os dias caindo em pecado, sem que os anjos possam socorrê-los por meio de aparições, milagres ou coisas semelhantes. Logo, os anjos seriam negligentes, se de fato os homens fossem confiados à sua guarda. Logo, os anjos não são guardas dos homens.


EM SENTIDO CONTRÁRIO, diz o Salmo 91: "Ele ordenou a seus anjos guardar-te em todos os teus caminhos" (v. 11).


RESPONDO. Conforme a razão da divina providência, isso se encontra em todas as coisas, a saber, que as coisas móveis e variáveis são movidas e regidas pelas imóveis e invariáveis. Assim, todos os seres corporais o são pelas substâncias espirituais imóveis; e os corpos inferiores pelos superiores, substancialmente invariáveis. Nós mesmos nos regulamos por princípios que julgamos invariáveis a respeito de conclusões nas quais podemos opinar diversamente. Quando se trata do agir é claro que o conhecimento e o sentimento do homem podem variar de muitos modos e assim se afastar do bem. Daí a necessidade de se delegarem anjos para a guarda dos homens, para dirigi-los e movê-los ao bem.


Quanto às objeções iniciais, portanto:


1. Deve-se dizer que graças ao livre-arbítrio, o homem pode de algum modo evitar o mal, mas não suficientemente, pois sua afeição para o bem é enfraquecida por causa das muitas paixões da alma. Assim também o conhecimento universal da lei natural que o homem tem naturalmente, de certo modo o orienta para o bem, mas não suficientemente. De fato, ao aplicar os princípios universais do direito aos casos particulares, engana-se de muitas maneiras. Por isso diz o livro da Sabedoria: "Os pensamentos dos mortais são tímidos, incertas nossas providências" (9, 14). Portanto, o homem necessita da guarda dos anjos.


2. Deve-se dizer que duas são as condições para se agir bem: primeiro, que o afeto se incline ao fim; isso faz em nós o hábito da virtude moral. Segundo, que a razão encontre os caminhos convenientes para realizar o bem da virtude; e isso o Filósofo atribui à prudência. Ora, quanto à primeira, Deus guarda imediatamente o homem infundindo a graça e as virtudes. Mas, quanto à segunda, Deus guarda o homem como mestre universal, cuja instrução chega ao homem pelo serviço dos anjos, como acima foi dito (Questão 111, a. 1). 


3. Assim como os homens se desviam da natural inclinação para o bem por causa da paixão do pecado, assim também se desviam das sugestões dos anjos bons, dadas invisivelmente ao iluminá-los para agir bem. Se, pois, os homens se perdem, isso não deve ser imputado à negligência dos anjos, mas à maldade humana. Que alguma vez apareçam visivelmente aos homens fora da lei comum, isso é por especial graça de Deus; como também que se façam milagres fora da lei da natureza.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

“... hoje temos de tudo: padres cantores, psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES” – Pe. Leonardo Holtz


Na atual crise da Igreja, vejo bastante oportuna a máxima divulgação desta carta.

Texto Retirado do blog Fratres in Unum no link: http://fratresinunum.com/2011/04/04/carta-do-padre-leonardo-holtz-a-dom-orani-joao-tempesta/


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Carta do Padre Leonardo Holtz a Dom Orani João Tempesta


Apresentamos a carta enviada em janeiro deste ano pelo Reverendíssimo Padre Leonardo Holtz a Dom Orani João Tempesta, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro. Agradecemos ao Padre Leonardo o envio para divulgação e a confiança depositada neste site.

* * *

Excia. Rev.ma

Dom Orani João Tempesta, O.Cist.,

Arcebispo do Rio de Janeiro

Pax!

"É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo." (Gl 1,10)

Há muito que desejo dirigir a V. Excia. estas palavras, mas não julguei ter ainda chegado a hora. Sei que V. Excia. já tem muitos assuntos com o que se ocupar e lamento profundamente ter que trazer mais um peso a V. Excia., contudo, era necessário que eu o fizesse, pois o que está em jogo é a minha vocação Sacerdotal e, até mesmo, a minha fé católica e a eterna salvação de minha alma. Afinal, "de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?" (Mt 16,26)

D. Orani, preciso deixar a Arquidiocese do Rio de Janeiro e, desta vez, será definitivamente. Peço que V. Excia. não me julgue sem conhecer meus motivos.

Tenho atualmente trinta anos de idade e seis de ministério Sacerdotal. Vejo com clareza e profunda tristeza a terrível crise que se instaurou na Santa Igreja e, principalmente, no clero de uma forma geral. A disciplina eclesiástica foi deixada de lado e o que vigora hoje é um relativismo que arrefece a fé. Perdemos fiéis, as vocações estão diminuindo… por quê? Simples: porque o jovem deseja encontrar na vida religiosa aquilo que ele não encontra na vida secular. Mas hoje se vê os religiosos agindo como os seculares, então, muitos jovens chegam à seguinte conclusão: não preciso ser um religioso para fazer o que os religiosos de hoje em dia fazem! Por que muitas congregações religiosas de hoje não tem mais vocações? Vamos culpar os "tempos modernos"? Vamos dizer que "os jovens de hoje não querem mais compromisso" como os jovens de outrora? Por que nossas paróquias e santuários estão repletos de fiéis nas missas (especialmente nas missas-show), mas as pastorais estão vazias? Por que nossos fiéis não sabem mais o catecismo? Por que as quadras de samba e as praias estão muito mais bem freqüentadas do que nossas paróquias? Creio que muitos saibam as respostas dessas perguntas, mas muito poucos tem a CORAGEM de admitir, pois é muito mais confortável colocar remendos do que derrubar tudo e reconstruir.

Ingressei no Seminário Arquidiocesano de São José aos 12 dias do mês de Fevereiro de 1997. Tinha acabado de completar 17 anos no dia anterior. Recebi a investidura da batina uma semana antes de Cinzas. Que dia feliz! Recebemos a batina numa cerimônia bonita que foi feita pelo padre Reitor, mas logo que acabou a cerimônia tivemos que tirá-la e guardá-la no armário. Sempre me faço uma pergunta: Exatamente para que o nosso Seminário mantém uma cerimônia de recepção de batinas, se ninguém pode usá-la depois como seu hábito cotidiano e sim como um paramento ocasional? Sabe, D. Orani, eu sempre gostei de vestir minha batina. Sei que eu não era muito bem visto no seminário por causa disso. Eu não usava batina direto dentro do seminário, em parte para não causar problemas com meus superiores, e em parte por escrúpulo e respeito humano. Há muitos que dizem o famigerado bordão "o hábito não faz o monge", o que é uma bela desculpa para a indisciplina dos padres de hoje. O mais interessante é que não vemos uma muçulmana sem a burca, ou uma "mãe-de-santo" sem seus trajes ou mesmo um militar em serviço sem seu uniforme, mas nossos clérigos insistem em se apresentar como leigos. É claro que se nem os padres dão o exemplo, como os fiéis vão poder se portar bem? Tenho que suportar as mulheres mal vestidas, os decotes e mini-saias dentro da igreja. Isso para não falar que destruíram o piedoso uso do véu. Reina a vaidade! Os homens não ficam atrás. Deus sabe como tenho vontade de negar a Santa Comunhão aos homens que vem de bermuda à Igreja. A Santa Batina é o manto sagrado de Nosso Senhor que nos protege de muitos males, sem falar que para nós, religiosos, ela é um constante lembrete de nossa consagração e um excelente exercício da virtude da humildade e de mortificação. Nosso Senhor já dizia: "o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26, 41). Quanto bem a batina pode fazer ao sacerdote! Um sacerdote de batina necessariamente vai ponderar melhor seus atos; não pode freqüentar todos os ambientes; deve conter os olhares curiosos, as palavras ociosas, as excessivas familiaridades. Ele deve portar-se bem SEMPRE, pois, carrega consigo a Imagem da Igreja, Esposa do Cordeiro, sem ruga e sem mancha. Depois do Concílio foi feito um trabalho de "destruição" da imagem do sacerdote. Querem convencer os católicos (e o mundo inteiro) de que o padre é um homem comum e que, portanto, deve se vestir como um homem comum. Disseram-me no seminário certa vez que o Concílio permitiu que os padres tirassem a batina para "facilitar o ministério pastoral, pois vestindo uma veste comum, isso facilitaria a entrada do padre em ambientes hostis à fé para que lá ele pudesse exercer o apostolado". Quanta ingenuidade (para não dizer leviandade)! Que sutil armadilha do demônio! Se isso fosse verdade as praias, as boates, casas noturnas masculinas (gls), as casas de show eram para estar mais que evangelizadas! Que diriam os jesuítas europeus que enfrentaram o calor, a mata, os mosquitos e outros contratempos na evangelização da América Latina? E sem tirar seu hábito! Por acaso eles ficaram nus para "dialogar" com os índios? Depois nós "choramos o leite derramado" quando surgem os escândalos que mancham e envergonham o nome da Santa Igreja. De que adianta Sua Santidade, Bento XVI, pedir perdão às vítimas dos abusos de pedofilia se ele, que tem o poder das chaves, não impõe uma disciplina mais rígida aos padres e não exige uma seleção mais severa e uma formação mais sólida nos seminários? Será que se esses padres recebessem uma boa formação, se alguém lhes tivesse falado de sacrifício, mortificação, vida espiritual, se alguém tivesse ensinado a eles que o ministério que receberam é sublime demais e que eles, sem ser diferentes dos demais homens, não são exatamente iguais, será que teríamos tantos escândalos? É triste, D. Orani, mas hoje temos de tudo: padres cantores, psicólogos, jornalistas, artistas, mas temos poucos padres PADRES! Encontramos padres em todos os ambientes hoje, mas, se bobearmos, só não os achamos nas paróquias. Soube que existe um padre que não rezava a Missa da primeira sexta-feira do mês em sua paróquia; as senhoras do Apostolado da Oração para obrigá-lo a rezar a Missa, fazem uma "vaquinha" todo mês e lhe dão uma espórtula. Isso porque ele afirma que só celebra durante a semana se houver intenções marcadas. Mas, mediante uma espórtula, abre-se uma exceção. Não vou consertar o mundo, Excelência, mas fico perplexo com tanta hipocrisia!

No meu segundo ano de seminário, eu estava retornando da minha pastoral dominical e estava usando minha batina. Encontrei-me na rua com um padre formador. O cumprimentei. Ele me olhou, mas não acenou e nem fez o menor sinal de retribuição. Quando cheguei ao seminário, recebi um recado de que o próprio queria me ver. Fui até o padre e ele me segurou pelo braço, com agressividade e, me machucando, perguntou por que eu estava de batina na rua. Me disse coisas horríveis, disse-me que eu gostava de "aparecer" e que eu era um "carreirista". Que atitude paternal, não? Digna de um formador de seminário! Um homem emocionalmente desequilibrado, metido a psicólogo, com uma psicologia de porta de banheiro, formando os futuros padres da nossa Arquidiocese! E pior: esse senhor, ainda por cima, é um herege! Ele afirmava com todas as letras que a Santa Missa é apenas um "culto de louvor" e não um sacrifício. Certa vez, após o ofertório, ele disse: "Orai irmãos para que o nosso culto de louvor seja aceito por Deus Pai todo-poderoso", eu me levantei me retirei da capela na mesma hora. Ele foi atrás de mim logo depois para me perguntar por que eu saí da capela no meio da Missa. Eu respondi: "Não, padre, eu não saí no meio da 'Missa', mas sim no meio do 'culto de louvor'. Se fosse a Missa eu teria ficado na capela". O mesmo sacerdote afirmava também que os Sacramentos não são sete, mas que são muito mais. Quando ele afirmou isso em sala de aula eu, perplexo, levantei a mão e perguntei: "mas se o senhor perguntar na prova e eu responder o que eu aprendi no catecismo, que os sacramentos são SETE, o senhor vai me descontar pontos?" Ele mandou que eu me retirasse da sala de aula.

Sempre ouvia as histórias de minha avó que dizia que no tempo dela a Missa era em latim e que o padre ficava de costas aos fiéis, mas eu não tinha a menor noção do quanto tinham mudado a Santa Missa. Na minha cabeça pueril tratava-se apenas de uma questão estética e lingüística. Como eu estava enganado! Esse assunto no seminário era uma espécie de TABU. Simplesmente não se falava. Foi, então, numa bela tarde que a Graça Divina me conduziu à biblioteca do seminário e ali encontrei um belo livro vermelho, grande, antigo e a lombada trazia em dourado as palavras MISSALE ROMANUM. Pesquisei um pouco, mas não reconheci aquela Missa. Por isso, retirei o Missal e o levei direto ao meu diretor espiritual para fazer algumas perguntas. As únicas respostas que obtive foram: "Sim isso é um Missal antigo" e, logo depois, "coloca aonde você pegou". Encontrei na mesma sessão os breviários, os rituais e fiquei encantado. Mas afinal, porque a Missa tinha mudado? Por que tudo aquilo estava ali abandonado? E comecei a pesquisar cada vez mais. Mas, quando alguém percebeu meu repentino interesse (e o de alguns outros colegas) pelos livros tradicionais, misticamente, um belo dia, a estante inteira DESAPARECEU. Ainda assim conseguimos salvar um antigo breviário com o qual eu e mais dois rapazes nos reuníamos à noite (escondidos) para rezar as Completas no rito de S. Pio V, com medo de sermos vistos como se estivéssemos fazendo algo proibido ou vergonhoso. Fico muito triste de constatar que hoje se fala tanto em "liberdade religiosa" e de "diálogo", mas quando se fala em Concílio de Trento aí todo o diálogo desaparece. Há uma profunda aversão a tudo o que é antigo; há uma sede insaciável de novidade.

Outra coisa que me deixava furioso dentro do seminário era aquela SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS. Sempre achei isso uma aberração! Como pode um bando de protestantes hereges serem convidados a pregar dentro de um seminário católico? O mais engraçado da história (para não dizer 'trágico') é que se retirava o Santíssimo Sacramento do Sacrário e as imagens de Nossa Senhora e S. José também iam parar na sacristia. Mas se o protestante está vindo na MINHA CASA eu tenho que tirar as imagens e o Santíssimo Sacramento por que? Eu preferia, nessas ocasiões, me retirar e ficar no meu quarto a presenciar aquilo. Não entendo o ecumenismo. Não o entendo por que isso NUNCA nos levou a lugar algum! Diziam que essa postura iria ajudar a trazer os hereges e os apóstatas à verdadeira fé, mas o que temos visto é mais e mais apostasia. Quantos fiéis não abandonaram a fé e se uniram a essas seitas? Contra fatos não há argumento e o FATO é que após o Vaticano II e seus movimentos ecumênicos as seitas triplicaram como um estouro da boiada!

Também me incomodava o fato de que leigos estudavam filosofia e teologia com os seminaristas; mulheres participavam da vida cotidiana dos seminaristas… muito impróprio. E os "passeios" das turmas e as "convivências" em Itaipava? Eram ótimas ocasiões onde os seminaristas mostravam REALMENTE quem eram; as músicas que se ouviam, as letras que se cantavam, as palavras ociosas, as brincadeiras nem sempre inocentes e sem segundas intenções… ali já estava um retrato do clero que viria depois: gente que tem SIM suas qualidades humanas, mas que não receberam uma formação que os ajudasse a se exercitar nas virtudes que um sacerdote deve ter. Tinha colegas que ficavam inquietos e impacientes nas Missas, ofícios e outras orações na capela do seminário. Alguns resmungavam (de forma audível) torcendo para que os ofícios terminassem logo. Nunca entendi bem aquilo. Se a pessoa não gosta de rezar, se tem pressa que o ofício termine, vai ser padre pra quê?

Não sou nenhum santo, D. Orani, mas sempre tive consciência da grandeza que é o ministério Sacerdotal, mesmo quando dava meus passos errados. Ainda os dou muitas vezes, mas me confio no Sacramento da Confissão e nos exercícios de mortificação e luto para tentar ser um sacerdote santo.

Em 2001 fui Ordenado Diácono por Dom Eusébio, mas sempre tive o desejo de ser Ordenado no Rito Tradicional. Dom Eusébio sabia disso, pois eu mesmo disse a ele. Como naquele período as negociações entre Campos dos Goytacazes (RJ) e a Santa Sé tinham acabado de acontecer, fui a Campos conversar com Dom Fernando Arêas Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney. Tinha intenção de pedir transferência para a Administração Apostólica. Mas voltei de lá muito triste, na verdade, decepcionado! Dom Rifan me disse: "É melhor o senhor ficar onde está. Quem sabe com o seu pensamento tradicional o senhor não possa ser uma influência positiva para o clero carioca?" (Sic!) Não entendia como ele podia rejeitar um padre tradicional já que havia tão poucos.

Bem, como Diácono, ninguém podia me impedir de usar a batina em tempo integral, afinal eu já era oficialmente um clérigo. Mas D. Eusébio me chamou para conversar e me pediu que eu a tirasse. Tentei argumentar com o Cânone 284, mas, ainda assim, ele mandou que eu tirasse a batina para "ficar igual aos outros". É claro que, por obediência, eu a retirei. Dom Eusébio ainda me disse que eu deveria ter algum problema de ordem psicológica e determinou que eu fizesse sessões de terapia com Dom Wilson Tadeu Jönk, que é psicólogo, o que foi, obviamente, uma grande perda de tempo tanto para mim, quanto para o bispo. Sempre no final das sessões, deixávamos marcada a próxima. Certa vez Dom Wilson marcou numa terça-feira de carnaval. Eu disse a ele "Mas é uma terça de carnaval!" e ele me respondeu: "Eu não vou sair no bloco, você vai? Se não vai, então não vai encontrar problemas de vir até o palácio". Todo mundo que me conhece sabe como eu detesto sair à rua nos dias de carnaval, primeiramente por medo da violência e depois porque as pessoas me vêem de batina e pensam se tratar de uma fantasia ridícula de carnaval. Mas eu fui assim mesmo. NUNCA vou me esquecer desta cena: cheguei ao palácio e Dom Wilson estava numa salinha do segundo andar com as pernas apoiadas numa mesinha de centro assistindo TV. Tinha se esquecido por completo do nosso encontro e disse que não era um dia apropriado para fazer isso, que eu deveria ter me enganado. Senti-me muito humilhado, mas ofereci isso como sacrifício a Nosso Senhor pela conversão do clero (dele em especial). Tanta gente fazendo coisa errada (desvio de dinheiro, problemas morais seríssimos) e o arcebispo perdendo tempo com um diácono só porque ele queria ser um padre que reza a Missa de Trento? Francamente! Nosso Senhor estava absolutamente certo quando disse: "Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo." (Mt 23,24)

Fui Ordenado Sacerdote em 17 de Abril de 2004. Fui logo de cara enviado como coadjutor numa paróquia onde o pároco era muito grosseiro com o povo e os fiéis tinham se afastado em sua maioria. A desculpa dada era "porque ele era velho". Então todo velho tem que ser grosseiro e mal-amado? Ele queria a todo custo que eu imitasse os abusos que ele introduzia na Missa (ele tinha mania de apagar as luzes da igreja e acender uns holofotes coloridos na hora da consagração) ao que eu disse: "reze a Missa do jeito que o senhor quiser, mas eu a rezarei como está no Missal!" Parece que os senhores bispos tem um enorme problema em transferir párocos que estão há muitos anos numa comunidade, mesmo que estes estejam fazendo um mal monumental às almas e afastando os fiéis da Igreja. Os bispos conseguem ter pena de UM, mas são incapazes de ver que MUITOS estão a sofrer por causa daquele um.

Fui transferido para outra paróquia, para ser coadjutor de um sacerdote mais jovem. Fui bem recebido pelo pároco. Cheguei no dia exato em que estava acontecendo o tradicional mutirão de confissões preparatórias para a Páscoa. Atendemos até 1 hora da manhã mais ou menos. Após o jantar os padres foram embora e, quando só restamos nós dois, então conversamos. Ele me perguntou se eu tinha gostado da comunidade, e, então, me disse: "Bem, seja bem-vindo aqui então. Vou logo te avisando, eu quero um coadjutor aqui pra trabalhar. O que você vai fazer com seu tempo pessoal é problema seu desde que você cumpra suas obrigações. Você não vai morar comigo aqui na casa paroquial. Temos uma capela que tem sua casa própria. Vou te dar as chaves e você vai morar lá. Assim, se você quiser, pode ter suas visitas íntimas; Só toma cuidado para não arrumar um filho." Chorei o resto da madrugada inteira. Chorei, D. Orani, por que me lembrei das palavras de Nosso Senhor ao Santo Padre Pio falando sobre os sacerdotes: "Vede como me tratam como açougueiros?". Uma vez, num sábado, eu estava sentado ao confessionário e deveria ter umas dez pessoas na fila. O Pároco chegou de repente e pediu que as pessoas voltassem outro dia, porque ele precisava muito de mim. Os fiéis foram embora e eu o ajudei a fechar a igreja. Perguntei então aonde íamos e que tipo de ajuda ele precisava de mim. Quando ouvi a resposta fiquei estarrecido, não acreditava no que eu estava ouvindo: "preciso que você vá à concessionária comigo para me ajudar a escolher meu carro novo". Pena que muitos padres não acreditem mais no castigo dos Céus, porque ele veio: exatamente uma semana depois ele capotou com o carro novo na Avenida Brasil. Graças a Deus não se feriu gravemente, mas o carro deu perda total!

Em 2007 pedi a Dom Eusébio que me permitisse fazer uma experiência no recém-criado IBP (Instituto Bom Pastor). Fui então para S. Paulo e morei lá um pouco tempo. A convivência lá era muito boa, contudo, o que garantia a permanência do IBP em São Paulo, era o apoio econômico do Professor Orlando Fedeli e da sua Associação Cultural Montfort. Chegou um período que os padres e os seminaristas que lá estávamos, julgamos que a Montfort influenciava muito dentro do seminário e que se fazia necessária uma clara distinção entre as duas instituições: Montfort e IBP. Aliás, nós padres, muitas vezes sentíamos que só servíamos para ministrar sacramentos e mais nada. Até nossos sermões foram muitas vezes submetidos a julgamentos. Outro fato que me levou a desacreditar no IBP foi que o superior geral, o Padre Phillipe Laguérie, que deveria tomar uma medida firme para diminuir a influência da Montfort dentro da casa do IBP, não o fez, sobretudo depois de uma visita do Prof. Fedeli a Bordeaux (França) e uma conversa com Pe. Laguérie. Bem, um superior geral que não toma medidas firmes e se deixa vencer pelo respeito humano não é digno da minha confiança. Por esses e outros motivos, retornei ao Rio de Janeiro.

Vim para a Paróquia Bom Pastor, inicialmente como coadjutor do meu irmão e, depois, como Pároco. Mas estou numa terrível crise de consciência desde então. D. Orani. Juro ao senhor que eu tentei de TUDO para me enturmar com o clero daqui. Pensei comigo mesmo "E se eu estiver sendo rígido demais? E se eu tentasse ser mais maleável para tentar me enturmar melhor?" Fiz muitas tentativas para me entrosar com o restante do clero. Tirei minha batina e o senhor sabe muito bem disso. O senhor mesmo já me viu sem batina algumas vezes… Cedi muitas vezes, me calei muitas vezes quando eu não concordava com algo; como dizia São Paulo: "fiz-me tudo para todos na esperança de salvar alguns" (1Cor 9,22). Mas descobri uma coisa: cheguei à conclusão de que com o MODERNISMO não existe diálogo! É inútil! É o mesmo que "pôr um remendo novo em roupa velha" (cf. Mt 9,16). Eu abri mão do que é justo, bom e honroso, mas não há reciprocidade… ninguém ficou mais tradicional nem obedeceu mais à disciplina da Igreja por causa disso. No final, eu é que estava virando um progressista! Ouvi este sábio pensamento uma vez: Dez laranjas boas não CURAM uma que está podre, mas é precisamente a ÚNICA PODRE que vai contaminar TODAS as outras dez. Coisas ruins sempre se aprende com mais rapidez e facilidade que as coisas boas. Destruir é bem mais rápido que (re)construir. É por esse motivo que eu não posso mais ficar aqui, D. Orani. Não pense que faço isso sem dor na consciência. Mas chegou a hora (e já até passou) de eu deixar de lado o respeito humano e dizer o que eu realmente penso e ficar em paz com minha consciência.

Primeiramente, como católico, eu não estou obrigado a aceitar o Concílio Vaticano II, uma vez que este foi um concílio pastoral e não um concílio dogmático.

- Quanto à Missa, não nego a validade da nova missa, contudo afirmo que ela é ambígua e não expressa, como a de S. Pio V, os principais dogmas católicos. Confesso que celebro com muita relutância a missa segundo o Novus Ordo (de Paulo VI). Não posso aceitar o ofertório do Novus Ordo que é uma berakah judaica. É claramente uma ceia e não um sacrifício! Há muito tempo que eu o substituo pelo Ofertório Tradicional. Faço esta e outras modificações para que a missa nova seja o mais suportável possível para mim e possa expressar o mais possível os nossos dogmas de fé. Contudo isso me incomoda muitíssimo, pois sei que não tenho a graça de estado para modificar um rito. Mas em consciência, não posso continuar a celebrar esse rito!

- Também quanto aos Sacramentos (Batismo, Confissão, Matrimônio e Extrema Unção) e o Breviário eu faço no rito antigo já faz algum tempo.

- Não compreendo e não aceito a concelebração eucarística! Enfim, D. Orani, minha presença aqui mais atrapalha do que ajuda esta Arquidiocese. E atrapalha também a mim e ao meu crescimento espiritual, pois é muito cansativo viver num eterno conflito. Cada reunião do clero é uma nova batalha. Tenho evitado ir às cerimônias e encontros da Arquidiocese, pois assim eu peco menos. Fui ao aniversário de 90 anos de Dom Eugênio exclusivamente para pecar: "você meu amigo de fé, meu irmão camarada" cantado para um Cardeal, durante a Santa Missa numa Catedral? Elba Ramalho cantando "Asa Branca" no presbitério? Desculpe, Dom Orani, é demais para mim. Perdoe meu desabafo. Desculpe o transtorno. Não me queira mal. Sinto-me uma ave solitária aqui… pelo menos se eu for, poderei ajuntar-me ao bando dos de minha espécie.

Estou me unindo à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Devo passar algum tempo no seminário na Argentina para refazer algumas matérias da Teologia (principalmente da teologia moral que é muito fraca no seminário do Rio) e, depois seguir, como missionário, onde os senhores bispos da Fraternidade me enviarem.

Não me tome por cismático e nem herege. Afinal, como Mons. Lefèbvre dizia: "não fundamos uma religião nova, não criamos novos sacramentos, não criamos uma nova missa, não inventamos liturgia própria, apenas queremos conservar, seguir e ensinar aquilo que a Igreja SEMPRE ensinou".

Mais uma vez peço perdão pelo transtorno e humildemente peço vossa bênção e vossas orações.

In Iesu et Maria,

Rio de Janeiro, 25 de Janeiro de 2011

Festa da Conversão de São Paulo
 
Pe. Leonardo Holtz Peixoto 


sábado, 2 de abril de 2011

Instrução sobre o pecado nas pessoas espirituais

"Eu antes quero absolver na primeira confissão geral trinta milheiros de pecados mortais, do que depois um só cometido de propósito, e com plena advertência. Tais pecados em pessoas espirituais não se perdoam sem muitas penitencias e grandes arrependimentos; para assim dizer é necessário um fervor extraordinário para recuperar o que está perdido..." - Padre Manoel José Gonçalves Couto

O pecado nas pessoas espirituais é gravíssimo!
Depois de uma confissão geral...
Depois de frequentar muito a oração e os sacramentos...
Depois de muitas instruções, desenganos e conselhos...
Depois de muitas luzes e benefícios divinos...
Tornar a cair em algum pecado mortal, de propósito e com plena advertência, este pecado, meus irmãos, é gravíssimo, e de todos o mais agravante, e o seu perdão é moralmente impossível!

O perdão deste pecado é mais dificultoso do que o de cem mil pecados mortais na primeira confissão geral!!
Não vos admireis desta doutrina, nem vos pareça rigorosa, porque é de Jesus Cristo e do Apóstolo.
Que diz Jesus Cristo?
Falando de uma pessoa espiritual, diz: 

"Se os meus inimigos me ofendessem, alguma razão teria de os sofrer; porém que me ofendas tu, que professas estar unido comigo por espírito!
Tu, que me conheces com a luz da fé;
Tu, a quem sustento à minha mesa com a doce iguaria do sacramento; eis o que mais agrava a tua culpa e provoca a minha justiça. E é o que não posso sofrer".
E o que diz mais?
"Quem lança mão não arado, e torna a olhar para trás, não é apto para o Reino de Deus".
Logo perde-se.
E o que diz o Apóstolo, falando também das pessoas espirituais?
Diz ele:
"Aqueles que uma vez já foram alumiados, e provaram a doçura dos dons de Deus, participando do Espírito Santo, e provando a suavidade das virtudes, e contudo tornaram a cair, é impossível que outra vez se renovem com a verdadeira penitência"!! 

"É impossível", quer dizer, é moralmente impossível, isto é, muito e muito dificultoso!!
Muitos santos venera a Santa Igreja, que primeiro foram pecadores e bem escandalosos; mas depois de convertidos, quantos tornaram a se desconverter?
Poucos haveis de citar. 

Agora, tudo são conversões e confissões gerais por essas missões (por esta quaresma); e daqui por um ano, ou ainda menos, tudo serão pessoas desconvertidas e ainda mais obstinadas. Ó almas infelizes, que assim o tendes experimentado, ou se assim vos acontecer, desenganai-vos, a vossa salvação é moralmente impossível, diz o Apóstolo; é muito e muito dificultosa!! 

Uma culpa em uma pessoa espiritual é a mais agravante e abominável, porque esta pessoa devia amar e honrar a Deus mais que as outras pessoas; porque deus mais que outras a tinha já honrado e amado. Ó quantas vezes Deus já a teria visitado pela sagrada comunhão, e posto à sua mesa! Que graças lhe teria dado, e que benefícios lhe teria concedido! O Padre Eterno a tratava por sua filha; o Divino Verbo por sua esposa; O Divino Espírito Santo habitava nela; finalmente, ela era um santuário de Deus vivo. 

Mas que mudança a mais fatal! Tornou a pecar mortalmente; crucificou de novo a Jesus Cristo seu Divino esposo, que tanto a amava; é outra vez com o demônio, é mesmo a casa dos demônios, e anda em guerra com o mesmo Cristo! Que ingratidão a mais feia! Que sentidas lágrimas não deve chorar esta alma pecadora por ter perdido a joia da divina graça, e a amizade do seu Deus; por se ver outra vez com o demônio, e os seus trabalhos todos perdidos!! 

Isto mesmo aconteceu ao Rei David; porém depois as suas lágrimas lhe serviam de pão de dia e de noite; e falando com a sua alma, dizia: "Aonde está o teu Deus? Alma minha, aonde está o teu Deus?"
E vós, ó almas infelizes, vós que já fostes justas, mas agora andais outra vez com o demônio, que me dizeis? Onde está o vosso Deus? Ai que fugiu de vós; fugiu do vosso coração para dar lugar ao demônio! Deus já não é convosco, porque vós já sois com o demônio! 

Onde estão as vossas boas obras? Perdeste tudo, as vossas confissões, as vossas comunhões, as vossas orações, missas, esmolas, penitências, merecimentos, alegrias, consolações do céu, perdeste tudo; o demônio, que entrou na vossa alma quando caístes no pecado, matou a mesma alma, e roubou-lhe tudo; tudo quanto tínheis lucrado talvez em vinte, trinta ou mais anos!! 

E agora que remédio? Que o diga o Apóstolo; "é moralmente impossível." E na verdade quem dará tempo para lucrar outra tanta riqueza espiritual? Desenganai-vos, meus irmãos; andar a coxear na vida espiritual, ora na graça, ora no pecado; hoje com Deus, amanhã com o demônio; esta vida é vida de condenados e o caminho do inferno!! 

É para Deus, e para sempre; eu antes quero absolver na primeira confissão geral trinta milheiros de pecados mortais, do que depois um só cometido de propósito, e com plena advertência. Tais pecados em pessoas espirituais não se perdoam sem muitas penitencias e grandes arrependimentos; para assim dizer é necessário um fervor extraordinário para recuperar o que está perdido, e também desagravar sua Majestade Divina tão enormemente ofendida. 

Portanto, temei e tremei vós, ó almas justas, não torneis a cair, porque depois com dificuldade se dá o remédio, e é moralmente impossível. 

Padre Manoel José Gonçalves Couto, no livro "Missão Abreviada".
 

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