terça-feira, 31 de maio de 2011

A promulgação da Missa Tridentina: o ápice da liturgia alcançado

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Foi o texto da Bula Quo Primum Tempore, promulgada em 1570 pelo Papa Pio V, que canonizou a chamada Missa Tridentina. Poucos são os documentos magisteriais que expressam tamanho vigor jurídico em sua letra. Dela se lê em alguns excertos:

•    “E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por nós.” ( nº 6.)
•    Além disso, em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre.” (nº 8);
•    “... a presente bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida , em toda a sua força”. (nº 9);
•    “Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição. Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem aventurados apóstolos Pedro e Paulo”. (nº 14); [2]

Com observações tomadas a partir do Estudo histórico-litúrgico do Missal Romano do Pe. Raymond Dulac[2] pode-se entender que, com os ordenamentos da Bula Quo Primum Tempore, o Papa Pio V formalmente como que estabeleceu que o ápice da Liturgia havia sido alcançado e, portanto necessitando apenas de ser preservado e repassado às futuras gerações.

Todo o caminhar histórico da liturgia católica pode ser resumido em um processo de desenvolvimento e unificação do rito romano. Mas, essa harmonia litúrgica vivenciada pela Igreja desde sua instauração foi fortemente abalada em meados do século XX, com o acontecimento do Concílio Vaticano II e sua proposta de Aggiornamento, termo que conclama a pretensa necessidade de atualização/modernização da Igreja frente ao mundo moderno, aos moldes de filosofias e ideologias desconexas do modo como ela sempre se portou e se pronunciou ao mundo em seus anteriores séculos de existência. Este desejo de alguns em favor da modernização, que adentrou a Igreja, exigiu a reforma dessa liturgia, e, hoje, nos é exigido um debruçar na ciência histórica para alargarmos o entendimento dos pontos motivadores, de fatos intrigantes e o que resultou para o catolicismo produzido por essa reforma litúrgica.

[1] SÃO PIO V, Papa. In: A Missa de São Pio V: Bula Quo Primum Tempore e comentários. Niterói: Permanência, 2005, pp. 7-11.
[2] Cf. DULAC, Raymond. Estudo Histórico-Litúrgico do Missal Romano. In: Id Ibid, pp. 26-37


sábado, 28 de maio de 2011

As conclusões teológicas apresentam notável importância: servem para se aprofundar as verdades reveladas


As Conclusões Teológicas

Chama-se “conclusão teológica” uma verdade religiosa, deduzida de duas premissas, das quais uma é formalmente revelada e a outra só é conhecida pela razão. Derivando-se tais verdades por uma raiz da Revelação, são chamadas virtualmente reveladas (vitualiter revelatae).

 
Quanto ao modo da revelação, uma verdade pode ser revelada:
a)    Imediata e formalmente, como, por ex., a Criação (Gn 1,1), a Encarnação (Jo 1, 14), a Trindade (Mt 28, 19);
b)    Imediatamente mas de modo obscuro, como a parte no todo e o particular no geral, por ex., a procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho, a infalibilidade do Papa;
c)    Só virtual e implicitamente, de modo que só se podem conhecer tais verdades por meio de raciocínio ou de silogismo.

 
Nos dois primeiros casos temos um verdadeiro dogma, enquanto no último só temos uma conclusão teológica. Exemplos de conclusões teológicas: Cristo é, mesmo como homem, Filho natural de Deus e não Filho adotivo; a unidade da ação externa das três Pessoas divinas; a unidade da procedência do Espírito Santo; o poder de ensinamento da  Igreja concernente às “verdades católicas”.


Para a Dogmática, as conclusões teológicas apresentam notável importância: servem para se aprofundar as verdades reveladas, para lhes conhecermos melhor sua conexão e sistematizá-las; tudo isto nos proporciona a chave para descobrirmos novas verdades e resolvermos não poucas questões, para as quais a Revelação não tem respostas claras e precisas. Em última análise, à Igreja pertence decidir quais as verdades que devemos considerar como conclusões teológicas. E que fé devemos prestar a estas verdades? A maior parte dos Tomistas, com muitos outros teólogos, respondem que se podem, e, portanto, se devem, crer somente com fé eclesiástica e não divina. Exemplos de declarações oficiais sobre conclusões teológicas encontram-se na Constituição “Actuorem Fidei” de Pio VI, contra o Sínodo de Pistóia. As 85 proposições condenam, na maioria, conclusões falsas (Denz. 1501 ss).

por Bernardo Bartmann, na Obra Teologia Dogmática Vol I, pp. 20-21.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Consagre-se o mundo e espere que, um dia, o salve um milagre da Virgem Maria" - letra do canto mariano “A 13 de maio” (Ave de Fátima)

Estive à procura da letra do canto mariano “A 13 de maio” (cujo título original consta ser ‘Ave de Fátima’) e encontrei no sítio do santuário português uma versão bem mais extensa e diferente das versões cantadas normalmente aqui no Brasil. Nos tempos em que vivemos, de cruzadas de oração pela Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, chamou-me bastante atenção o conteúdo destas quatro estrofes:
 
“Consagre-se o mundo
E espere que, um dia,
O salve um milagre
Da Virgem Maria.


Sigamos, orando,
De terço na mão,
A santa Mensagem
De reparação.

Olhemos o Papa
Que sofre e que chora.
Por ele imploremos
A Nossa Senhora.

A Igreja não morre
Mas tem de contar
Com almas ardentes
Que a saibam amar.”

O link com a partitura completa é

http://www.santuario-fatima.pt/files/1786_CD-Canticos_marianos-A6_4424163d7eb7e.pdf

Segue abaixo a letra completa:

.....................................................

AVE DE FÁTIMA
Harm: A. Cartageno

A treze de maio
Na cova da Iria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria.

AVE, AVE, AVE MARIA
AVE, AVE, AVE MARIA

A Virgem Maria
Cercada de luz,
Nossa Mãe bendita
E Mãe de Jesus.

Foi aos Pastorinhos
Que a Virgem falou.
Desde então nas almas
Nova luz brilhou.

Com doces palavras
Mandou-nos rezar
A Virgem Maria
Para nos salvar.

Mas jamais esqueçam
Nossos corações
Que nos fez a Virgem
Determinações.

Falou contra o luxo
Contra o impudor
De imodestas modas
De uso pecador.

Disse que a pureza
Agrada a Jesus
Disse que a luxúria
Ao fogo conduz.

A treze de Outubro
Foi o seu adeus
E a Virgem Maria
Voltou para os céus.

À Pátria que é vossa,
Senhora dos céus,
Dai honra, alegria
E a graça de Deus.

À Virgem bendita
Cante seu louvor
Toda a nossa terra
Num hino de amor.

Todo o mundo a louve
Para se salvar,
Desde o vale ao monte,
Desde o monte ao mar.

Ah! Dêmos-lhe graças
Por nos dar seu bem,
À Virgem Maria,
Nossa querida Mãe!

E para pagarmos
Tal graça e favor,
Tenham nossas almas
Só bondade e amor.

Ave, Virgem Santa
'Strela que nos guia!
Ave, Mãe da Igreja!
Oh! Virgem Maria!

Ao peito sem mancha
Num doce clarão,
Maria nos mostra
O seu Coração.

Do seu Coração
Nos vem o penhor
De a terra deserta
Florir em amor.

Consagre-se o mundo
E espere que, um dia,
O salve um milagre
Da Virgem Maria.

Sigamos, orando,
De terço na mão,
A santa Mensagem
De reparação.

Se é belo cobrirmos
A Virgem de flores,
Mais belo é rezarmos
Pelos pecadores.

Deus manda os seus Anjos
E em guarda nos traz.
O Anjo da Pátria
É o Anjo da Paz.

Olhemos o Papa
Que sofre e que chora.
Por ele imploremos
A Nossa Senhora.

A Igreja não morre
Mas tem de contar
Com almas ardentes
Que a saibam amar.

Quem vem de romagem,
Em Fátima sente
Que, acima de tudo,
Jesus é presente.

Jesus é presente
Em luz e perdão
E, todo por todos
Se faz comunhão.

Cantemos. Quem canta
A vida alumia.
Cantemos! Cantemos
À Virgem Maria!




quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Desenvolvimento da Liturgia da Santa Missa

Por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
 
Aos olhos dos homens de hoje a Santa Missa pode ser vista como sendo uma celebração composta por um conjunto de ritos. De fato, às ações realizadas por Jesus e seus apóstolos na última ceia, foram juntados diversos ritos que favorecessem a vivência daquele santo momento. O Concílio de Trento esclareceu:


“Já que a natureza humana é tal, que não pode, facilmente e sem socorros exteriores, elevar-se a meditar as coisas divinas, por isso a Igreja, piedosa Mãe que é, instituiu certos ritos para se recitarem na missa, uns em voz submissa, outros em voz alta. Juntou a isto cerimônias, como bênçãos místicas, luzes, vestimentas e outras coisas congêneres da Tradição apostólica, com que se fizesse perceptível a majestade de tão grande sacrifício, e para que o entendimento dos fiéis se excitasse, por meio destes sinais visíveis da religião e da piedade, à contemplação das coisas altíssimas que se ocultam neste sacrifício.” (CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão XXII: Doutrina sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, n. 943)


 
Vejamos a explicação exposta no boletim “Guarde a fé”, da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – Brasil  (Janeiro/fevereiro de 2008, n.39, p.6):



“Desde logo, bem sabemos que a Missa antiga não nos foi dada toda pronta. Ela conservou o essencial das celebrações feitas pelos Apóstolos por ordem de Cristo; e se foram aderindo novas orações, louvores e precisões, para explicar melhor o mistério eucarístico e preservá-lo das negações heréticas.
 
Assim, a Missa foi elaborada progressivamente, em torno a um núcleo primitivo que nos legaram os Apóstolos, testemunhas da instituição de Cristo. Como uma moldura que sustenta uma pedra preciosa ou o tesouro confiado à Igreja, a santa Missa foi pensada, ajustada, ornada como uma música. O melhor foi escolhido, como na construção de uma catedral. 


Explicitou com arte o que tinha de implícito em seu mistério. Podemos dizer que, como a semente de mostarda, lançou ramos, porém já estava tudo contido na semente.Esta progressiva elaboração ou explicação foi concluída, quanto ao essencial, na época do Papa São Gregório, no século VI. Só se acrescentou posteriormente alguns complementos secundários. Este trabalho dos primeiros séculos do cristianismo realizou assim uma obra de fé para pôr ao alcance da inteligência humana, a instituição de Cristo, na sua verdade reconhecida.”

Aquilo que podemos enunciar como sendo o núcleo da celebração da Santa Missa, que foi ensinado pelo próprio Cristo na última ceia, recebeu durante o período histórico de maior expansão da Igreja primitiva uma incorporação de ações litúrgicas que culminaram por montar uma verdadeira cerimônia religiosa, pois que a simples repetição dos gestos da Quinta-Feira Santa unida a um conjunto de ritos tornou-se a expressão maior do culto devido a Deus.


Fazem alusão a essa evolução da liturgia a Didaqué – doutrina dos doze apóstolos -, a primeira epístola de Clemente aos Coríntios, a Epístola de Barnabé, as cartas de Santo Inácio, de São Justino, de Santo Irineu, e outros documentos históricos reconhecidos.


Durante os três primeiros séculos da era cristã, se desenvolveram em algumas regiões um certo número de ritos típicos de cada povo, mas rigorosamente idênticos em sua essencialidade, pois fluíam da instituição de Cristo. O sacerdote realizava “isto”  que o Senhor havia realizado na última Ceia.


O rito romano, que inicialmente era celebrado somente em Roma, era o tronco comum original de todos os ritos e se estendeu por todo o ocidente.


Ao ofertório, cânon, fração e comunhão - partes não mutáveis da liturgia que estão diretamente ligados ao ato do Sacrifício - ajuntavam-se outros ritos que completavam e ornamentavam sua significação religiosa.


A ideologia trazida pela reforma protestante de Martinho Lutero, trouxe uma nova concepção do ato de culto a Deus ao estabelecer uma expressão destoante do conceito de sacrifício. Foi então que o Concílio de Trento dogmaticamente repugnou tal proliferação de abusos que favoreciam heresias. O Papa São Pio V, pelas decisões deste concílio, realizou então a unificação dos Missais, purificando-os de qualquer erro, reconduzindo o rito romano ao tipo original e tornando-o obrigatório para todos, respeitando, no entanto, os costumes legítimos.


 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Entendendo o que é a Santa Missa


Por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
 
A Santa Missa é a renovação do sacrifício de Jesus Cristo de forma incruenta, sem derramamento de sangue. É o mesmo momento do Calvário tornado presente no altar, sendo revivido, misticamente.

 
Tentemos traduzir didaticamente o que nos é possível em mais fáceis palavras aos que não lidam com a teologia. Tentemos:


O catolicismo traz em seu legado que o momento mais importante da história, em todos os tempos, foi aquele em que Jesus Cristo se deu na cruz para a remissão da humanidade. Esse ato de amor infinito era necessário para a satisfação da Justiça Divina em virtude do pecado do homem.


Ora, por desígnio do próprio Deus Filho, quis Ele que tal momento fosse perpetuado, para que pudesse ser vivido por todas as gerações posteriores, vivido e revivido por todos que habitam todo o orbe da terra.


O documento do Magistério da Igreja Católica que mais efusivamente define a Santa Missa é o DECRETO SOBRE A SANTA MISSA, do Concílio de Trento quando, em 17 de setembro de 1562, expôs a doutrina sobre o santíssimo Sacrifício da Missa:


“[...] na última ceia, na noite em que ia ser entregue, querendo deixar à Igreja, sua amada Esposa, como pede a natureza humana, um sacrifício visível que representasse o sacrifício cruento a realizar uma só vez na Cruz, e para que a sua memória durasse até a consumação dos séculos e a sua salutar virtude fosse aplicada para remissão dos nossos pecados quotidianos, declarando-se sacerdote perpétuo segundo a ordem de Melquisedec (Sl 109, 4), ofereceu a Deus Pai o seu corpo e sangue sob as espécies do pão e do vinho e, sob as mesmas espécies, entregou Corpo e Sangue aos Apóstolos que então constituiu sacerdotes do Novo Testamento para que o recebessem, mandando-lhes, e aos sucessores deles no sacerdócio, que fizessem a mesma oblação: Fazei isto em memória, de mim (Lc 22, 19; l Cor 11, 24), como a Igreja Católica sempre entendeu e ensinou [cân. 2].
[...] neste divino sacrifício, que se realiza na Missa, se encerra e é sacrificado incruentamente aquele mesmo Cristo que uma só vez cruentamente no altar da cruz se ofereceu a si mesmo.” (CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão XXII: Doutrina sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, n. 938-940.)

Esta é a essência da Santa Missa, um sacrifício: o único sacrifício de Cristo na cruz sendo revivido.
 
Note-se que Cristo:
1º - antecipou o momento do seu sacrifício por ocasião da última ceia – que se configurou como sendo a primeira Missa;
2º - viveu tal momento de forma cruenta no calvário, e;
3º - mandou que o fosse feito posteriormente.

Dessa forma se caracteriza o milagre da perpetuação de um momento. É esse o ensino tradicional da Igreja Católica.

 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Católico Verdadeiro e o Herege – por São Vicente de Lerins

De tudo o que dizemos, parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica – nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia – mas que, desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.

Sabe que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, e que constitui, antes, uma tentação, instruído especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo: “Pois é conveniente que até haja heresias, para que também os que são de uma virtude provada sejam manifestados entre vós”. Como se dissesse: Deus não extirpa imediatamente os autores de heresias para que os que são de uma virtude provada se manifestem, isto é, para mostrar até que ponto se é tenaz, fiel e constante no amor à fé católica.

São Vicente de Lerins, na obra Comonitório

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A base da teologia não é a capacidade de invenção do teólogo, mas a fidelidade à Revelação

CONCEITO DA SAGRADA TEOLOGIA
 

Por Pe. Maurílio Texeira Leite Penido

Sem fé sobrenatural não há Teologia cristã. O que pois aqui deixamos escrito, não se destina a levar incrédulos à crença, mas apenas esclarecer os crentes que já aderem às verdades católicas e desejam aprofundá-las na medida do possível. Como nos bastaria um assentimento cego, sem esforço de compreensão do conteúdo da fé? Não somos papagaios; somos seres dotados de inteligência. Tendo Deus falado, quis comunicar verdades e não vocábulos sem sentido. Incumbe-nos, portanto, penetrar e assimilar os dogmas que a Igreja propõe como revelados por Deus. Elevada pela fé à ordem da ciência divina, é normal que a inteligência, assim divinizada, queira atuar; ora, para a inteligência atuar é compreender.

 
Passamos destarte, sem hiato, do simples assentimento a um saber inteligível: á fé desabrocha em teologia. Começamos por crer, e depois, dentro da fé, tentamos chegar a uma certa intelecção.

 
Como foi dito, os mistérios são tão obscuros para nós, que não logramos demonstrá-los nem mesmo ‘entendê-los com evidência; mas em si, os mistérios são uma festa de luz. E nossa inteligência, com o divino auxílio, pode captar, fugidiamente, alguns desses raios. No âmago da fé vibra um anseio de inteligibilidade que visa conhecer-lhe as condições históricas, penetrar-lhe os enunciados, descobrir o nexo que une os diversos mistérios que ela crê, manifestar-lhe enfim as recônditas implicações. Eis a teologia.

 
À primeira vista, afigura-se-nos empresa de todo impossível. Infinita é a desproporção entre a inteligência humana e o ser divino; como, pois, transpor em conceitos humanos a verdade divina, tal qual vive na mente de Deus?

 
Impossível com efeito, porém a suposição é irreal, porquanto o próprio Deus fez a transposição de sua verdade em conceitos humanos. Pobres, paupérrimos são estes, porém foi o mesmo Deus que os escolheu e assim lhes garantiu o valor. Revelar é mui precisamente o ato pelo qual Deus traduz, em linguagem acessível aos homens, a sua vida misteriosa. Nosso papel não será de nos afanar à procura da visão direta do ser incriado, a fim de expressá-lo tal qual ele se conhece a si mesmo; nosso papel será de atingir a realidade sobrenatural através dos conceitos emanados do próprio Deus, e por ele dotados de força suficiente para elevar nosso conhecimento até o transcendente.

 
Fórmulas divinas, por virem do alto e serem veículo de celeste mensagem; fórmulas humanas também, porque Deus se vale de vocábulos que estejam a nosso alcance. Adapta-se às condições humanas que fazem de nós seres ensinados: “A fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rom 10, 17). Ainda no descobridor genial, mínimo é o número de verdades que ele encontra por esforço próprio, em confronto com o imenso acervo de coisas que ele vai continuamente aprendendo. Em matéria de fé, seremos também perpetuamente ensinados, e o maior dos sábios está em igualdade de condições com a velhinha analfabeta.

 
Mas se Deus nos quer amestrar, forçoso é que se sirva de palavras humanas, inteligíveis, capazes de nos instruir, comunicando-nos a verdade divina. Senão por que haveria Deus falado?

 
Diante dessas palavras inspiradas, desse “dado revelado”, a teologia se coloca, não mais para aderir apenas — como a simples fé — mas para fazer delas os primeiros princípios de uma disciplina racional; vai tentar aprofundar-lhes o sentido e inferir, dos dados revelados, as verdades inúmeras de que estão prenhes.

 
Analogamente, as ciências empíricas procuram analisar, concatenar os fatos (por exemplo, os fenômenos vitais), enquanto as ciências racionais deduzem da definição do triângulo ou do círculo, por exemplo, os diversos teoremas sobre essas figuras.

 
Grande diferença, todavia, separa a Sagrada Teologia das ciências profanas; estas partem de dados empíricos ou racionais, tendem à completa inteligibilidade e não raro a atingem; a teologia, pelo contrário, parte de dados metempíricos e transracionais; por mais progrida, nunca se poderá libertar da penumbra que a envolve qual aura sagrada.

 
Erro capital seria imaginar que a fé representa tão só o ponto de partida a ser transposto; atingida por ela a existência dos mistérios, poderíamos racionalizá-los plenamente. Não, a fé é a fonte perene donde a teologia haure a vida; seus primeiros princípios são os artigos de fé e sua guia constante é ainda a fé.

 
Fácil entender por que a teologia não se pode eximir da tutela da fé: embora Deus haja falado com palavras humanas, a realidade por elas designada é a divindade mesma, inco-mensurável ao fraco poder de compreensão de nosso intelecto; bem mais, fora de toda proporção com a inteligência ainda do mais alto dos anjos. Daí, a impossibilidade estrita de demonstrarmos os mistérios. Na melhor hipótese logramos encontrar e propor verossimilhanças, razões de conveniência, probabilida¬des, indícios. Jamais resolveremos a verdade de fé em propo¬sições evidentes.

 
Por isso mesmo o teólogo está sempre atento aos mínimos ensinamentos da Igreja docente. Ele desconfia dos siste¬mas próprios, de suas deduções, ainda as mais engenhosas; não perde de vista, um momento sequer, que a regra da fé é crer o que crê a Igreja.

 
Donde, a inconsequência dos que examinam a teologia católica como se aprecia um sistema filosófico e, encontrando nela dificuldades e obscuridades sem conta, alijam-na. Esquecem esses as condições especialíssimas nas quais trabalha o teólogo; ele não constrói um edifício humano, mas um saber sagrado que, como tal, repousa sobre a mensagem divina, a qual temos o dever de acolher, por mais ultrapasse nossa inteligência.

 
A base da teologia não é a capacidade de invenção do teólogo, mas a fidelidade à Revelação.


Pe. Maurílio Teixeira Leite Penido. 
O Mistério da Igreja. Petrópolis: Ed. Vozes, 1956. Pg. 37-39.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O que é possível fazer pela fé - Hebreus, capítulo 11

A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê.
Foi ela que fez a glória dos nossos, antepassados.
Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível.
Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício bem superior ao de Caim, e mereceu ser chamado justo, porque Deus aceitou as suas ofertas. Graças a ela é que, apesar de sua morte, ele ainda fala.
Pela fé Henoc foi arrebatado, sem ter conhecido a morte: e não foi achado, porquanto Deus o arrebatou; mas a Escritura diz que, antes de ser arrebatado, ele tinha agradado a Deus (Gn 5,24).
Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram.
Pela fé na palavra de Deus, Noé foi avisado a respeito de acontecimentos imprevisíveis; cheio de santo temor, construiu a arca para salvar a sua família. Pela fé ele condenou o mundo e se tornou o herdeiro da justificação mediante a fé.
Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança. E partiu não sabendo para onde ia.
Foi pela fé que ele habitou na terra prometida, como em terra estrangeira, habitando aí em tendas com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa.
Porque tinha a esperança fixa na cidade assentada sobre os fundamentos (eternos), cujo arquiteto e construtor é Deus.
Foi pela fé que a própria Sara cobrou o vigor de conceber, apesar de sua idade avançada, porque acreditou na fidelidade daquele que lhe havia prometido.
Assim, de um só homem quase morto nasceu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e inumerável como os grãos de areia da praia do mar.
Foi na fé que todos (nossos pais) morreram. Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido, viram-no e o saudaram de longe, confessando que eram só estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Gn 23,4).
Dizendo isto, declaravam que buscavam uma pátria.
E se se referissem àquela donde saíram, ocasião teriam de tornar a ela...
Mas não. Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se dedigna de ser chamado o seu Deus; de fato, ele lhes preparou uma cidade.
Foi pela sua fé que Abraão, submetido à prova, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac (Gn 21,12).
Estava ciente de que Deus é poderoso até para ressuscitar alguém dentre os mortos. Assim, ele conseguiu que seu filho lhe fosse devolvido. E isso é um ensinamento para nós!
Foi inspirado pela fé que Isaac deu a Jacó e a Esaú uma bênção em vista de acontecimentos futuros.
Foi pela fé que Jacó, estando para morrer, abençoou cada um dos filhos de José e venerou a extremidade do seu bastão.
Foi pela fé que José, quando estava para morrer, fez menção da partida dos filhos de Israel e dispôs a respeito dos seus despojos.
Foi pela fé que os pais de Moisés, vendo nele uma criança encantadora, o esconderam durante três meses e não temeram o edito real.
Foi pela fé que Moisés, uma vez crescido, renunciou a ser tido como filho da filha do faraó,
preferindo participar da sorte infeliz do povo de Deus, a fruir dos prazeres culpáveis e passageiros.
Com os olhos fixos na recompensa, considerava os ultrajes por amor de Cristo como um bem mais precioso que todos os tesouros dos egípcios.
Foi pela fé que deixou o Egito, não temendo a cólera do rei, com tanta segurança como estivesse vendo o invisível.
Foi pela fé que mandou celebrar a Páscoa e aspergir (os portais) com sangue, para que o anjo exterminador dos primogênitos poupasse os dos filhos de Israel.
Foi pela fé que os fez atravessar o mar Vermelho, como por terreno seco, ao passo que os egípcios que se atreveram a persegui-los foram afogados.
Foi pela fé que desabaram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias.
Foi pela fé que Raab, a meretriz, não pereceu com aqueles que resistiram, por ter dado asilo aos espias.
Que mais direi? Faltar-me-á o tempo, se falar de Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e dos profetas.
Graças à sua fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, viram se realizar as promessas. Taparam bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio de espada, triunfaram de enfermidades, foram corajosos na guerra e puseram em debandada exércitos estrangeiros.
Devolveram vivos às suas mães os filhos mortos. Alguns foram torturados, por recusarem ser libertados, movidos pela esperança de uma ressurreição mais gloriosa.
Outros sofreram escárnio e açoites, cadeias e prisões.
Foram apedrejados, massacrados, serrados ao meio, mortos a fio de espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelha e de cabra, necessitados de tudo, perseguidos e maltratados,
homens de que o mundo não era digno! Refugiaram-se nas solidões das montanhas, nas cavernas e em antros subterrâneos.
E, no entanto, todos estes mártires da fé não conheceram a realização das promessas!
Porque Deus, que tinha para nós uma sorte melhor, não quis que eles chegassem sem nós à perfeição (da felicidade).


Carta de São Paulo aos Hebreus, capítulo 11

sábado, 14 de maio de 2011

O que é VENCER NA VIDA? - Meu discurso de formatura em Bacharelado em Teologia


Tive a grata coincidência de, ao vasculhar meus arquivos de computador, encontrar meu discurso de formatura do Curso de Bacharelado em Teologia pela Universidade Federal do Piauí – UFPI em convênio com a Diocese de Parnaíba, quando se completam exatos dois anos de nossa graduação.
 
Seguem, então, aos colegas e demais partícipes do 15 de maio de 2009, como pequena lembrança uma foto e alguns trechos do discurso.


Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
 
...

 
“Este é um dia que ficará marcado em nossas lembranças pelo resto de nossas vidas. Sentimentos de diversos matizes afloram agora em nosso ser. Eis que alegria e tristeza, sonhos e projetos, expectativas e incertezas, risos e lágrimas nunca estiveram tão ativos em um único momento.


É preciso agora ter coragem e aceitar que se findou uma etapa da nossa vida e que já iniciamos outra. Conseguimos! Galgamos aquilo que um dia partimos em busca. Somos vencedores!

 
Somos vencedores? O que é vencer na vida?

 
Para nós formandos, o momento de agora assume as mais diversas definições.
O MOMENTO DE AGORA é diferente para cada um de nós...

 
Para um significa ter chegado onde queria... para outro é apenas um pequeno passo na caminhada.
É a consagração de uma carreira estudantil ainda com tenra idade e juventude... mas é também poder estar diante dos netos provando que nunca é tarde para conhecer.
Entre nós teve aquele que foi um estudante profissional... e teve o profissional que acreditou que ainda podia ser estudante.
É o momento da conquista do primeiro canudo... ou mesmo do terceiro.
É ter se preenchido com o conhecimento das coisas de Deus...  é ter entendido que Deus nos limita no conhecimento.

 
Padre Maurílio Penido, grande teólogo brasileiro do século passado, no seu livro “O Mistério da Igreja” já disse: “Sem fé sobrenatural não há Teologia cristã”. De fato, pois que já tínhamos fé, por isso militamos expor aquilo que acreditamos traduzido em expressões de certa intelecção. Decerto, por ofício de pesquisador, chegamos a tocar aquilo que é mistério, questionamos, ponderamos e por fim aceitamos. Pela fé. Não pela ciência teológica. Mas pela ciência teológica provamos a realidade da fé. E a necessidade da fé.

É bom se ter alguma explicação possível das coisas de fé, e a teologia vai à busca disso. Mas, a fé já basta e mesmo dispensa qualquer mera pedagogia humana. Prova disso é que para que se tenha uma frutífera participação no maior dos Mistérios - a Santa Missa, independe se seja um grande sábio doutor, ou uma humilde senhora iletrada.


Entre tantas e tantas ciências nas quais o homem pode formar-se, preferimos aquela ciência que tem o sublime objetivo de potencializar e contribuir para a saúde, o bem estar e o desenvolvimento, não essencialmente da vida humana, mas de algo superior: da alma do ser humano. Sim, embora o mundo erradamente enalteça a vida humana como maior bem que se pode ter, nós devemos sustentar que maior que a vida na terra é a vida eterna no céu. Imitando São Domingos Sávio buscamos força para repetir: “Antes morrer do que pecar”.

 
Nossa vivência sob os valores cristãos também faz com que percebamos à nossa volta um incomensurável número de irmãos e irmãs que vivem à margem da dignidade humana. 

 
[...]

 
Mas, se nós aprendemos mesmo o que de mais sublime nos ensina a Teologia, então retorno com a pergunta: Podemos hoje dizer que VENCEMOS NA VIDA?

 
Quem dentre os que estão aqui – concludentes, professores e demais pessoas – poderá ousar afirmar convicto: 'EU VENCI NA VIDA'?

 
Ora, um sensato técnico de futebol jamais ousaria dizer que seu time venceu uma disputadíssima partida, sem antes ouvir o estridar do apito final do juiz. Como ousaríamos, então, dizer que vencemos nesta atribulada vida se ainda militamos nesta terra?

 
Parece-nos que o que falta estar bem claro é, de fato, saber que troféu é esse reservado aos homens VENCEDORES. Pois vencedor, não é aquele que galgou qualquer título, honra, ou qualquer êxito temporal como o que logramos hoje, mas aquele que superar o seu pecado e for justamente coroado após a morte com o indescritível prêmio da visão beatífica de Deus: o viver no céu!

 
Colegas, ainda não vencemos. Mas convém buscarmos caminhar com esperança inigualável rumo à vitória. Certos de estarmos certos. Na única Igreja que Cristo fundou para levar as almas ao céu. Esta Igreja que muito poderemos contribuir em sua missão, também colaborando com a construção de uma sociedade mais justa, se não privilegiarmos apenas nosso amor a si próprio, para bradar sem leviandade: Amo a Deus sobre todas - SOBRE TODAS AS COISAS - e amo o meu próximo como a mim mesmo. Obrigado!
"
  

Vitória certa de Deus

Papa São Pio X, na encíclica E supremi Apostolatus

“Qual venha a ser o desfecho desse combate travado contra Deus por uns fracos mortais, nenhum espírito sensato pode pô-lo em dúvida. Certamente, ao homem que quer abusar da sua liberdade lícito é violar os direitos e a autoridade suprema do Criador; mas ao Criador fica sempre a vitória. E ainda não é dizer o bastante: a ruína paira mais de perto sobre o homem justamente quando mais audacioso ele se ergue na esperança do triunfo. É o de que o próprio Deus nos adverte nas Sagradas Escrituras. Dizem elas que Ele fecha os olhos sobre os pecados dos homens (Sab 11,24), como que esquecido do seu poder e da sua majestade; mas em breve, após essa aparência de recuo, acordando como um homem cuja força a embriaguez aumentou (Sl 77,65), Ele quebra a cabeça dos seus inimigos (Sl 67,22), afim de que todos saibam que o Rei de toda a terra é Deus (Sl 46,8), e afim de que os povos compreendam que não passam de homens (Sl 9,20).”

 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Missa em Latim: Repercussão da nova instrução na mídia

 

Interessante perceber como a grande mídia vê de duas maneiras amplamente antagônicas a nova instrução sobre a Missa em Latim. Será que o próprio documento favorece tal discrepância de ponto de vista, ou o quê?

Segue amostra de duas manchetes que dão o tom de como a mídia recebeu a nova instrução Universae Ecclesiae:

O Globo (Via REUTERS) : 
Vaticano aumenta a pressão para adoção de missas em latim 

Alguns trechos da matéria:

“O Vaticano disse a bispos católicos de todo o mundo nesta sexta-feira que eles têm que obedecer a ordem papal que permite aos padres rezar a missa em latim no estilo antigo para católicos tradicionalistas.” O GLOBO / REUTERS
“A instrução do departamento doutrinal do Vaticano, a Congregação pela Doutrina da Fé, deixa claro em cinco páginas que o papa exige que os bispos sigam as suas ordens.”
“Ainda que em uma linguagem educada e institucional, a instrução afirma que as paróquias locais precisam adicionar uma missa em latim dentro das suas agendas litúrgicas se os fiéis tradicionalistas quiserem.”
“... o comunicado diz que os padres precisam mostrar "um espírito de generosa boas vindas" para aqueles que querem a missa no estilo antigo e precisam "permitir esse tipo de celebração”.

Jornal do Brasil (Via AFP FRANCE-PRESSE): 
Vaticano pede que fiéis não sejam contrários à autoridade do Papa 

Alguns trechos da matéria:

“Os fiéis que pedem a celebração das missas em latim - retomadas em 2007 por Bento XVI - "não devem ser contrários à autoridade do Papa", diz um comunicado do Vaticano divulgado nesta sexta-feira.”
“A explicação é especialmente dirigida às correntes tradicionalistas da Igreja Católica [...] que rejeita as abertura e modernização decididas durante o II Concílio do Vaticano (1962-1970)”
“Em alguns países, como a França, onde o movimento lefebvrista é seguido por muitos fiéis, a celebração da missa seguindo o antigo rito gerou conflitos entre grupos de fiéis e bispos, que consideram esse gesto uma espécie de "provocação".”

...

Links das matérias citadas na postagem:

A devoção à Santíssima Virgem será especialmente necessária nesses últimos tempos - São Luís Maria Grignon de Montfort



Papel especial de Maria nos últimos tempos

Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus lhe havia ornado a aparência exterior. São Dionísio, o Areopagita, o confirma numa página que nos deixou22 e em que diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido, pois já não subsistem as razões que levaram o Espírito Santo a ocultar sua esposa durante a vida e a revelá-la só pouco depois da pregação do Evangelho.

Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos:

1º Porque ela se ocultou neste mundo, e, por sua humildade profunda, se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos apóstolos e evangelistas, não ser quase mencionada.

2º Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em baixo, pela graça, como no céu, pela glória, ele quer que, por ela, os viventes o louvem e glorifique sobre a terra.

3º Visto ser ela a aurora que precede e anuncia o Sol da justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo o seja.

4º Pois que é a via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira vez, ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo diferente.

5º Pois que é o meio seguro e o caminho reto e imaculado para se ir a Jesus Cristo e encontrá-lo plenamente, é por ela que as almas, chamadas a brilhar em santidade, devem encontrá-lo. Quem encontrar Maria encontrará a vida (cf. Prov 8, 35), isto é, Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Mas não pode encontrar Maria quem não a procura; quem não a conhece, e ninguém procura nem deseja o que não conhece. É preciso, portanto, que Maria seja, mais do que nunca, conhecida, para maior conhecimento e maior glória da Santíssima trindade.

6º Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar, como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e desviados que se converterão e voltarão ao seio da Igreja católica; em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, com promessas e ameaças, todos os que lhes forem contrários. Deve, enfim, resplandecer em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que pugnarão por seus interesses.

7º Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente n esses últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do demônio.

(Gn 3, 15): Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.

Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrira malícia desta velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus. Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos.

O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.

Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.

Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo. Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo.

São Luís Maria Grignon de Montfort, na obra "TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM".

 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Como Deus Governa o Mundo — A Divina Providência

“Mas a Vossa providência, ó Pai, é que governa” (Sb, 14, 3).
 
É preciso antes de tudo entender como convém a Deus a providência. Pois existem dois modos de se entender este governo das coisas.

Nós constatamos que as coisas criadas possuem um bem que é sua própria substância, criada e posta por Deus na existência. Mas cada coisa possui também outro bem que é sua orientação para seu fim, fim natural e limitado e fim ultimo que é Deus. Deus cria as coisas e as orienta nos seus efeitos. Isso é propriamente a Divina Providência.

Na vida moral, sabemos que a orientação para o fim, é dada pela virtude de Prudência, que nos ajuda a escolher os meios para alcançar este fim. Assim vemos como a Divina Providência se relaciona com a Prudência. Inclusive por ser uma operação conjunta da inteligência e da vontade de Deus, como a Prudência é uma virtude ao mesmo tempo intelectual e moral.

Mas a prudência pode agir em relação ao seu próprio sujeito, pessoa prudente, como pode também agir em relação aos seres subordinados ao sujeito, como na família, no trabalho ou na sociedade. Em ambos os casos a prudência ajudará a alcançar o fim, parcial ou último. Ora, em Deus não pode haver tendência a alcançar seu próprio fim, visto ser ele mesmo o fim supremo de tudo. Logo a Divina Providência só atua em relação aos subordinados. Como toda criatura depende de Deus, ela atua sobre todas as criaturas.

A Divina Providência é a concepção da orientação dos seres para seu fim, preexistente em Deus. E, portanto, dogma de fé, que Deus protege e governa por sua Providência tudo o que existe. (Concílio Vaticano I, 1870)

A Sagrada Escritura é toda ela cheia de menções à Divina Providência e ao governo de Deus.

Sb 6, 8 – “Porque Deus fez tanto o pequeno quanto o grande, e tem igualmente cuidado de todos”.

S. Mateus 6, 25 e seguintes – “...olhai os lírios dos campos, que não tecem nem fiam... (vale a pena ler toda a passagem)

Os padres da Igreja também escreveram muito sobre a Providência Divina, contra o fatalismo pagão, a astrologia e o dualismo gnóstico e maniqueu. Ver Confissões de Santo Agostinho.

No segundo artigo da questão 22, da Prima Pars, Santo Tomás prova cientificamente que a Providência se estende a todos os seres criados, e não apenas aos seres inteligentes. Dado um agente qualquer, ele só agirá com vistas a um fim. Logo a influência do agente deverá se estender até a orientação dos efeitos da ação para que estes correspondam ao fim da ação. Se um efeito escapasse da direção do fim, isto se daria por uma outra causa que estaria desviando aquele efeito da intenção dada pelo agente. Assim é necessário que todos os seres sejam dirigidos a seus fins por Deus.

Fonte: Curso de Religião – Capela N. S. da Assunção

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