segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A HORA DE DEUS

por Padre Christian Bouchacourt
 
Durante o sermão pronunciado por ocasião das ordenações diaconais e sacerdotais em Ecône no dia 29 de junho passado, Dom Fellay anunciou que as conversas com Roma, com vistas a um eventual entendimento com a Fraternidade, regressaram ao ponto de partida, quer dizer, como no dia seguinte às consagrações episcopais de 1988.

De fato, Roma queria que, como preâmbulo da regularização canônica da Fraternidade São Pio X, aceitássemos os documentos promulgados durante o último concílio e reconhecêssemos a legitimidade, e por consequência a bondade, do Novus Ordo Missæ. Tal aceitação seria uma traição pura e simples ao combate que Dom Lefebvre e sua Fraternidade levaram adiante por mais de 40 anos. Assim sendo, por uma razão doutrinal, o Superior Geral e o seu Conselho, apoiados pelo Capítulo Geral da FSSPX, recusaram as últimas proposições de Roma.

A situação atual pode nos contristar pois nos faz constatar que o câncer do modernismo continua corroendo a Igreja desde dentro, enquanto o Papa e as autoridades romanas se recusam a apontar a origem dos males que pesam sobre a Igreja desde algumas décadas, isto é, o Concílio Vaticano II. Os tempos ainda não estão maduros para uma normalização das nossas relações com Roma. Diante desta situação, uma questão pode nos vir à nossa mente: “Mas o que Deus espera para nos tirar desta situação tão difícil?”

Deus espera a sua hora! Se abrirmos o Evangelho, poderemos ler que Nosso Senhor sempre quis agir no seu próprio ritmo e não segundo o seu entorno. Quantas vezes disse “a minha hora ainda não chegou”? É o próprio Cristo quem decide o momento da sua Paixão e o instante da sua morte: “Ninguém me tira a vida, mas eu por mim mesmo a dou”. Nesse sentido, Deus continua sendo Senhor do tempo e dos acontecimentos. Ele pode intervir diretamente ou indiretamente sobre eles segundo sua vontade.

Talvez alguns poderiam se desanimem pela duração da prova que pesa sobre a Igreja. Outros poderiam se decepcionar pela FSSPX deixar passar essa ocasião de regularizar a sua situação. Enfim, outros poderiam crer que a situação se endureceu definitivamente e que se perdeu toda esperança de restauração da Tradição na Igreja.

Nenhuma dessas atitudes é satisfatória! Por isso me parece oportuno lembrar alguns princípios importantes que poderão ajudá-los a compreender a situação presente e encorajá-los a guardar a virtude da santa esperança.

1º princípio: Nada acontece que Deus não tenha previsto desde toda a eternidade e que Ele não tenha querido ou pelo menos permitido. Esta crise que a Igreja atravessa não escapa à onipotência de Deus. Desde toda a eternidade, Deus a permitiu assim como permitiu a Paixão do seu Filho, a traição de Judas e a negação de São Pedro. Estes tempos difíceis em que vivemos não podem ser compreendidos e suportados a não ser sob a luz da fé.

2º princípio: Deus não pode querer ou permitir algo a não ser com vistas ao fim que Ele se propôs ao criar, quer dizer, a manifestação da sua bondade, das suas perfeições divinas e com vistas à glória de Deus feito homem, Jesus Cristo, seu Filho. Esta crise, que tem origem em grande parte no Concílio Vaticano II, sem nenhuma dúvida permitiu àqueles que queriam permanecer fiéis à Tradição da Igreja estudar com mais intensidade a doutrina e a liturgia que os nossos antepassados nos transmitiram e que a tempestade conciliar quis sepultar para sempre. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Igreja entrou, de fato, em uma espécie de torpor que a deixou mais vulnerável aos seus inimigos internos e externos.

De uma maneira insidiosa, como a minhoca na maçã, apesar da firmeza de Pio XII, o modernismo solapou e corrompeu todos os graus da Igreja como uma gangrena. Essa enfermidade poderia ter sido fatal, mas Deus suscitou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, que souberam se opor com um espírito de sacrifício heroico a essa revolução conciliar. A Providência velava, e assim Nosso Senhor mostrou que Ele queria ser fiel à sua promessa de proteger sua Igreja até o fim dos tempos. Deus continua sendo o Senhor dos acontecimentos!

O 3º princípio decorre do 2: Como diz São Paulo: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus”. Naqueles que quiseram permanecer fiéis à Tradição, Deus suscitou um espírito de sacrifício meritório para se preservarem dos múltiplos erros que se espalhavam pela Igreja. A FSSPX fundou seminários, priorados, escolas, etc. Religiosos e religiosas fundaram comunidades tradicionais por quase todas as partes do mundo. Assim se salvou a Tradição católica. Esta santa reação provocou um impulso de fervor com uma generosidade admirável. Os seminários tradicionais se encheram, santas famílias se formaram. Pouco a pouco se assistiu à reconstituição do tecido católico, na espera de que um dia Roma reconheça a legitimidade da aparente desobediência que nos anima.

Contudo, estes três princípios que acabamos de recordar não nos dispensam, evidentemente, de fazer o que pudermos, no lugar onde a Providência nos colocou, para cumprir a vontade de Deus significada pelos seus preceitos e pelos conselhos que nos são prodigalizados e nos submetermos aos acontecimentos pelos quais Ele quis nos conduzir. Deus não deixará de nos conceder as graças que precisamos para permanecermos firmes na fé e para acelerar a chegada do fim deste tempo de provas.

O resultado desta crise não depende de nós, evidentemente, mas da cabeça da Igreja e mais precisamente do Papa quando este, por graça de Deus, retomar aquilo que seus predecessores fizeram e ensinaram durante quase 2000 anos e abandonar os princípios conciliares que conduziram a Igreja à beira do precipício.

Esta graça virá, não duvidemos disso nunca! Quando? Só Deus sabe, mas Ele mesmo, desde toda a eternidade, conta com nossas orações e nossos sacrifícios para nos conceder o socorro que tanto desejamos. Será então a sua hora. “É próprio do auxílio celeste (...) chegar no momento exato e de apresentar-se ao homem no momento mais conveniente. Auxiliar inteligente, se o Senhor Deus dos exércitos estende sua mão forte à criatura, sempre faz que seu favor apareça no momento crítico e decisivo; e pode-se dizer que a eficácia principal da intervenção divina consiste ordinariamente na sua absoluta oportunidade”.

É assim que a onipotência de Deus e sua misericórdia se manifestarão, de tal modo que nenhum homem poderá se atribuir essa vitória futura. Esta verdade deve nos encher de esperança e de confiança como exprime tão bem São Paulo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

A respeito das provas da vida, e particularmente daquelas que a Igreja atravessa, é preciso que vivamos o tempo presente sem buscar nos adiantarmos à hora de Deus, sem forçar a Providência.

Guardemos no fundo das nossas almas uma firme confiança nesse socorro que nunca nos faltará se nos comportarmos como bons filhos de Deus. Voltemos a ler no Antigo Testamento o livro de Daniel, capítulo 13: Deus salva a vida da casta Susana e a recompensa por sua confiança justamente quando a situação parecia perdida por causa dos falsos testemunhos dos dois anciãos, que foram finalmente condenados no lugar dela. Consideremos a realização da promessa de Nosso Senhor que tinha anunciado aos Apóstolos e aos discípulos que enviaria “outro Consolador para que ficasse eternamente convosco, o Espírito de verdade (...) que vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”. E de fato o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes.

Meditem também na oração que nos ensinou Nosso Senhor. Ele nos convida a pedir o pão de cada dia, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e não o que vamos a necessitar dentro de um mês ou de um ano. Pensemos também na promessa que fez aos que sofreriam por Ele: “Não estejais com cuidado de que modo respondereis ou que direis, porque o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que deveis dizer”. O provérbio popular “antes da hora ainda não é a hora” se inspira nessa promessa. Assim sendo, guardemos a paz e nos mantenhamos longe das inquietudes que perturbam a alma e a afastam do essencial.

Um dia, então, quando soar a hora de Deus, Roma manifestará à FSSPX seu reconhecimento por sua fidelidade e se apoiará nela para reconstruir a cristandade. Para acelerar a chegada desse dia, permaneçamos firmes na fé, sem compromissos com os erros que pululam na Igreja. Cumpramos nosso dever de estado, façamos penitência, estudemos a nossa santa religião e tenhamos confiança como Nossa Senhora à espera da ressurreição do seu Filho no dia seguinte à Sexta-Feira Santa.

Terminarei estas considerações deixando-lhes esta oração composta por Madame Elizabeth, irmã do Rei Luís XVI. Sabendo que seria condenada pela Revolução por ódio à fé, ela se preparava para os acontecimentos trágicos que a esperavam. Morreu, de fato, na forca, depois de ter recitado cada dia esta oração que lhe foi de grande ajuda e que poderíamos fazer nossa: “Desconheço, Senhor, o que me acontecerá hoje. Tudo o que sei é que nada do que me acontecer virá sem que tenhais previsto desde toda a eternidade. Isso me basta, meu Deus, para estar tranquila. Adoro os vossos desígnios eternos e me submeto de todo o coração; quero tudo, aceito tudo, faço-vos o sacrifício de tudo. Uno este sacrifício ao de vosso amado Filho, meu Salvador, pedindo-vos, por seu Sagrado Coração e por seus méritos infinitos, a paciência diante dos males e a perfeita submissão que vos é devida em tudo o que desejais e permitis”.

Que Deus os abençoe!
Padre Christian Bouchacourt
Superior de Distrito América del Sur

Editorial da Revista Iesus Christus nº 139

sábado, 27 de outubro de 2012

Utilidade das obscuridades da Bíblia



Os que lêem a Escritura inconsideramente enganam-se com as múltiplas obscuridades e ambigüidades, tomando um sentido em lugar de outro. Nem chegam a encontrar, em algumas passagens, alguma interpretação. E assim, projetam sobre os textos obscuros as mais espessas trevas.

Não duvido de que a obscuridade dos Livros santos seja por disposição particular da Providência divina, para vencer o orgulho do homem pelo espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade.

Como se explica que se alguém disser: “Graças a uma vida de bons costumes, há homens santos e perfeitos. Isso se dá porque a Igreja de Cristo retira das superstições os que vêm a ela e os incorpora a si, caso imitem os bons. Esses justos, como fiéis e verdadeiros servos de Deus, ao depositar o fardo do século, aproximam-se do banho sagrado do batismo e, erguendo-se de lá, sob a ação fecundante do Espírito Santo, produzem o fruto do duplo amor – o de Deus e o do próximo.”

Ora – perguntava eu - como se explica que ao redizer isso, o fiel deleita-se menos do que ao ouvir as mesmas idéias expostas com a expressão do Cântico dos cânticos. Aí se diz para a Igreja, louvando-a como uma bela mulher: “ Os teus dentes são como os rebanhos das ovelhas tosquiadas ao subir do lavatório, todas com dois cordeirinhos gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas” (Ct 4,2).

Acaso, o fiel aprende aí outra coisa do que ouvira há pouco, expresso em termos bem despojados, sem o auxílio dessas comparações? Entretanto, não sei a razão, mas contemplo com mais atração os justos, quando os imagino como dentes da Igreja que arrancam os homens do erro, e depois de os ter mastigado e triturado, a fim de amolecer sua dureza, introduzem-nos no corpo da Igreja. Também me agrada muito quando contemplo as ovelhas tosquiadas. Elas deixaram sua lã como se fossem os fardos deste mundo, e sobem do lavatório, isto é, do Batismo, e dão à luz dois cordeirinhos gêmeos, isto é, o duplo preceito do amor. E nenhuma é estéril desse fruto.

Santo Agostinho, A Doutrina Cristã – Manual de exegese e formação cristã. Paulus. pp. 90-91.

sábado, 20 de outubro de 2012

O ESTADO TEM DEVERES EM RELAÇÃO AO NOSSO SENHOR E À RELIGIÃO?


Do mesmo modo que todos os homens têm o dever de honrar a Deus, seu Criador, e por isso de abraçar a Verdadeira Fé, logo que a conheçam (sua salvação pessoal depende da aceitação ou da recusa de Jesus Cristo), o Estado também. “A felicidade do Estado não decorre de outra fonte que a dos indivíduos, visto que uma cidade não é outra coisa senão um conjunto de particulares vivendo em harmonia.

A sociedade política deve honrar a Deus publicamente? Não basta que o façam os indivíduos?

Leão XIII explica: “Os homens unidos pelos laços de uma sociedade comum, não dependem menos de Deus do que quando tomados isoladamente. Tanto como o indivíduo, a sociedade deve dar graças a Deus, de Quem obteve sua existência (...) É por isso que, do mesmo modo que não é permitido a ninguém  negligenciar seus deveres para com Deus – e que o maior de todos os deveres é o de abraçar a verdadeira religião (não aquela que cada um prefira, mas a que Deus prescreveu e a que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas) – as sociedades políticas não podem, sem crime, se conduzir como se Deus não existisse de nenhum modo, ou dispensar a religião como inútil, ou admitir uma conforme seu bel-prazer.

Para honrar a Deus publicamente, a sociedade temporal deve necessariamente se submeter à Religião Católica?

Jesus Cristo – que é o único Mediador entre os homens e Deus – nunca é facultativo. E a Igreja Católica, que é a única Igreja de Cristo, muito menos. Leão XIII ensina: “Honrando a Divindade, as sociedades políticas devem seguir estritamente as regras e o modo segundo os quais  Deus, ele mesmo, declarou querer ser honrado.

Mas o Estado é competente em matéria religiosa?

O Estado não é competente para legislar a seu alvitre em matéria religiosa. Mas o é  para reconhecer a Verdadeira Religião a partir de seus sinais de verdade, e para se submeter a esta. Leão XIII afirma: “pois é necessário professar uma religião na sociedade, é necessário professar aquela que é a única verdadeira e que se reconhece facilmente, sobretudo nos países católicos, pelos sinais de verdade, cujo caráter reluzente leva consigo mesma. Essa religião, os chefes de Estado devem portanto conservar e proteger.
O Estado tem outros deveres religiosos além do culto público a Deus?
Sim. O Estado deve, sempre permanecendo em sua própria seara, favorecer a salvação eterna de seus cidadãos.

Não é dever da Igreja – e não do Estado – fazer com que se atinja a Felicidade Eterna?

Deus  quis criar uma sociedade propriamente religiosa (a Santa Igreja), distinta da sociedade temporal. O homem deve, portanto, pertencer a essas duas direções de uma vez. Ora, a vida temporal lhe é dada para preparar a vida eterna. O Estado, cujo domínio próprio é o temporal, não pode, pois, organizá-lo independentemente do seu fim último. Não está diretamente encarregado da Felicidade Eterna, mas deve contribuir para ela, indiretamente. Se a negligenciar, abandona a parte mais importante do bem comum. Tal é o ensinamento dos Padres da Igreja, de Santo Tomás e dos papas.
Fonte: Catecismo Católico da Crise na Igreja

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Declaração do Capítulo da FSSPX a Roma


No final do Capítulo Geral da Fraternidade São Pio X, reunidos junto ao túmulo de seu venerado fundador, Dom Marcel Lefebvre, e unidos com o seu Superior Geral, nós, os participantes, bispos, superiores e os membros mais antigos da Fraternidade, queremos elevar ao céu as nossas mais vivas ações de graças pelos quarenta e dois anos de tão maravilhosa proteção divina sobre a nossa obra, no meio de uma Igreja em plena crise e de um mundo que se afasta cada dia mais de Deus e da sua lei.
Expressamos a nossa profunda gratidão a todos os membros da Fraternidade, padres, irmãos, irmãs, terciários, às comunidades religiosas amigas e também aos nossos queridos fiéis por sua dedicação diária e fervorosas orações por ocasião do presente Capítulo, que teve francas trocas de ponto de vista e um trabalho muito frutuoso. Todos os sacrifícios, todas as penas aceitadas com generosidade certamente contribuíram para superar as dificuldades que a Fraternidade enfrentou ultimamente. Voltamos a encontrar nossa união profunda na sua missão essencial: manter e defender a fé católica, formar bons sacerdotes e trabalhar pela restauração da Cristandade. Determinamos e aprovamos as condições necessárias para uma eventual normalização canônica. Foi estabelecido que, nesse caso, um Capítulo extraordinário deliberativo seria convocado previamente. Mas nunca podemos esquecer que a santificação das almas começa sempre com a nossa própria. Ela é o fruto de uma fé vivificada e operante pela caridade, conforme as palavras de São Paulo: “Porque não temos nenhum poder contra a verdade, temos apenas em favor da verdade” (II Cor. XIII, 8) e também: “Cristo amou a sua Igreja e se entregou por ela… a fim de que ela seja santa e sem mancha” (cf. Ef. V, 25 s.).
O Capítulo considera que o primeiro dever da Fraternidade no serviço que pretende oferecer à Igreja é continuar, com a ajuda de Deus, a professar a fé católica em toda a sua pureza e integridade, com uma determinação proporcional aos ataques que esta mesma fé não deixa de padecer hoje.
Por essa razão parece-nos oportuno reafirmar a nossa fé na Igreja Católica e Romana, única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, fora da qual não há salvação nem possibilidade de encontrar os meios que a ela conduzem; nossa fé na sua constituição monárquica, querida por Nosso Senhor, quem fez que o poder supremo de governo sobre toda a Igreja coubesse somente ao Papa, Vigário de Cristo na terra; nossa fé na Realeza universal de Nosso Senhor Jesus Cristo, criador das ordens natural e sobrenatural, a quem todo homem e toda sociedade devem se submeter.
Quanto a todas as inovações do Concílio Vaticano II que permanecem manchadas de erros e quanto às reformas que dele se seguiram, a Fraternidade não pode fazer outra coisa senão continuar a aderir às afirmações e ensinamentos do Magistério constante da Igreja; ela encontra sua guia neste Magistério ininterrupto que, por seu ato de ensino, transmite o depósito revelado em perfeita harmonia com tudo o que a Igreja inteira professou sempre e em todos os lugares.
Igualmente a Fraternidade encontra sua guia na Tradição constante da Igreja, que transmite e transmitirá até o final dos tempos o conjunto dos ensinamentos necessários para manter a fé e para a salvação, na espera de que um debate aberto e sério, buscando o retorno das autoridades eclesiásticas à Tradição, o torne possível.
Unimo-nos com os demais cristãos perseguidos nos diferentes países do mundo que sofrem por causa da fé católica, muitas vezes até o martírio. Seu sangue, derramado em união com a Vítima dos nossos altares, é a garantia da renovação da Igreja in capite et membris (na cabeça e em seus membros), de acordo com o velho ditado “sanguis martyrum semen christianorum” (o sangue dos mártires é semente de cristãos).
“Por fim, dirigimo-nos à Virgem Maria, tão zelosa dos privilégios do seu divino Filho, zelosa da sua glória, do seu Reino na terra como no Céu. Quantas vezes Ela interveio para a defesa, mesmo com armas, da Cristandade contra os inimigos do Reino de Nosso Senhor! Suplicamos a Ela que intervenha hoje para expulsar os inimigos internos que buscam destruir a Igreja mais radicalmente do que os inimigos externos. Que Ela se digne manter na integridade da fé, no amor da Igreja, na devoção ao Sucessor de Pedro, todos os membros da Fraternidade São Pio X e todos os padres e fiéis que trabalham com os mesmos sentimentos, a fim de que Ela nos proteja e nos preserve tanto do cisma como da heresia.
“Que São Miguel Arcanjo nos comunique o seu zelo pela glória de Deus e a sua força para combater o demônio.
“Que São Pio X nos faça participar da sua sabedoria, da sua ciência e da sua santidade para discernir a verdade do erro e o bem do mal, nestes tempos de confusão e de mentiras.” (Dom Marcel Lefebvre, Albano, 19 de outubro de 1983).
Ecône, 14 de julho de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Maria é um mar de graças sobrenaturais!


O nascimento de Maria Santíssima é todo cheio de glória para ela, e todo cheio de vantagem para nós. Para ela foi o princípio de sua grandeza, e para nós foi a origem de nossa felicidade. Se contemplamos o nosso nascimento e o de Maria, que total diferença? No nosso tudo motivos de tristeza, lágrimas e temor, e no de Maria tudo motivos de prazer, consolação e esperanças.

Como entramos nós todos neste mundo? Como principiamos os nossos dias? Amaldiçoados pelo pecado original, nós aparecemos neste mundo escravos do demônio, marcados com o selo de sua maldade, aborrecidos aos olhos do nosso Criador, excluídos de ver a Deus e de o gozarmos jamais, enfim, inteiramente desgraçados. Tudo isto são motivos de tristeza, lágrimas e temor.

Mas já não acontece assim com o nascimento de Maria Santíssima, nem pode temer-se coisa alguma semelhante. Conhecida por Deus desde a eternidade como a mais fiel às suas graças e mais obediente à sua lei, ele a encheu de bênçãos logo desde o princípio e a fez feliz e bem-aventurada logo no seu nascimento. O dragão infernal nunca teve império sobre ela. Nunca foi infeccionada de culpa, porque o Criador a privilegiou logo na sua origem, e a enriqueceu de graças ainda mesmo antes dela nascer. Tantas foram estas graças, que excedem as de todos os Santos e Anjos, diz São Vicente.

Santificada por Deus dentro ainda do ventre de sua mãe Santa Ana, ela recebeu graça, não gota a gota, mas sim em grande enchente. Quando Deus escolhe alguém para algum empreendimento raro, Ele lhe concede as graças proporcionadas, assim o diz São Vicente. Logo que grande multidão de graças não derramaria Deus sobre Maria, logo desde seu nascimento, se o mesmo Deus a escolhera para o mais alto empreendimento, isto é, para Mãe do Divino Salvador?! Ah! É por isso que o Arcanjo Gabriel a saudou, dizendo: - Deus vos salve, cheia de graça. Sim, Maria é cheia de graça, é um brilhante raio da luz eterna e um espelho sem mancha da divina Majestade.

Nasce Maria, nasce uma flor toda bela e engraçada. Sempre cheirosa e imarcescível, que desde a sua origem brilha mais do que a rosa entre os espinhos. Nasce Maria, e nasce a glória de Jerusalém, a alegria de Israel e honra do seu povo. Nasce Maria, e nasce a brilhante aurora que dissipa as trevas da medonha noite da culpa. Nasce a luminosa estrela da manhã, que com os seus luminosos raios das melhores virtudes há de mostrar o caminho da salvação: nasce Maria finalmente, nasce uma menina cheia de bênçãos e luzes do Céu, com o seu Criador a enriqueceu por um raro privilégio.

Dizem muitos Santos Padres, que Maria logo na sua conceição recebeu de Deus um perfeito uso de razão, uma grande luz divina correspondente à graça de que foi enriquecida. De sorte que podemos acreditar que Maria, logo desde sua conceição, conhecia as verdades eternas, a beleza das virtudes, a bondade infinita de Deus, o direito que Deus tem de ser amado, principalmente por ela, por causa das imensas graças que já lhe tinha concedido. Já eram imensas as graças que Maria recebera na sua conceição, e como desde então ela nunca esteve ociosa, como faria frutificar este tão grande capital de graças?! Ah, Maria é um mar de graças sobrenaturais! Desde a sua conceição toda aplicada em amar a Deus, ela o amava sempre e com todas as forças do seu espírito, crescia sempre no amor divino e nas mais sublimes virtudes. Finalmente crescia mais na virtude e na perfeição, do que no corpo e na idade!...

Maria, quantas mais graças recebia, tanto mais se adiantava em perfeição e santidade, de sorte que se no primeiro momento ela recebeu mil graus de graça, no segundo recebeu dois mil, no terceiro três mil, no quarto quatro mil, e assim em graças bem como em virtudes! Ó Virgem Santíssima, com toda a razão podeis dizer: Eu sendo pequenina já comecei a agradar ao Altíssimo... Imitai, meninos, imitai Maria Santíssima nos seus primeiros anos. Ela logo desde pequenina ia aumentando sempre nas virtudes, e vós? Vós sempre aumentando nos vícios, por meio de modas indecentes, por via de pragas e más palavras, por desobediência aos vossos pais e mães ou mestres, já irados, já teimosos, cheios de preguiça, finalmente por estes e outros pecados já tereis perdido a inocência, já sereis amigos e aliados do demônio, deserdados do Céu, e herdeiros do inferno. Ó, quão cedo começastes a dar passos para o inferno! Que bem depressa perdestes a inocência! Vós deveis imitar a vossa Mãe Santíssima nos seus primeiros anos, no amor de Deus, na obediência, na humildade, no silêncio, na diligência, na pureza, e nas demais virtudes. Mas já vedes que não a tendes imitado: logo que há de ser de vós? Que deveis agora fazer, e nós todos? Arrepender-nos do passado e emendar-nos para o futuro, imitando-a daqui por diante, amando sempre a Deus, praticando sempre a virtude, e fugindo do vício: sobretudo consagremo-nos a ela, tomemo-la por nossa Mãe, sem nunca deixarmos de lhe rezar a sua coroazinha todos os dias.
por  Pe. Manoel José Gonçalves Couto, na obra "MIssão abreviada".

terça-feira, 1 de maio de 2012

Intrigante entrevista de um teólogo aderido à Tradição Católica formado em uma moderna faculdade de teologia do Brasil: Eu mesmo!


Resolvi postar aqui o texto de uma entrevista a que fui submetido há algum tempo não por um jornalista, mas por uma acadêmica de Bacharelado em Teologia da mesma faculdade em que fui formado. A colega trabalhou em sua monografia uma pesquisa de campo para traçar o perfil dos teólogos que o curso “pôs no mercado”. São interessantes questões respondidas por um teólogo aderido à Tradição Católica que, por intrigante que pareça, foi formado numa moderna faculdade de teologia desse nosso Brasil do início do séc. XXI. O tom das palavras e dos argumentos reflete o momento ora vivido, bem como a necessidade do uso de termos e fontes inteligíveis ao se dirigir aos que estão plenamente inseridos no contexto da face modernizada da Igreja e totalmente alheios à luta pela Tradição Católica.

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Nome do Teólogo: CLAUDIOMAR FERREIRA DE MEDEIROS FILHO

1 - Porque escolheu o curso de teologia?
   Para preenchimento pessoal. Já tendo formação em outra área e emprego estabilizado, buscava eu, enquanto católico, aprofundar-me no conhecimento das coisas de Deus e da Igreja através da doutrina católica exposta pela teologia católica.

2 - Que efeitos o curso deixou?
Principalmente deixou claro que a Igreja passa por grande crise motivada pela atividade de diversas correntes modernistas que a atingiram em seu seio.     
Ficou bem evidente que a teologia apresentada no curso, em geral, está impregnada pela teologia modernista condenada por Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis.
Está exposto no Código de Direito Canônico que a atividade educacional provida pela igreja católica nas faculdades e universidades deve observar fielmente os princípios da doutrina católica, o que não se verifica com o referido curso, que comporta outras linhas ideológicas de teólogos desprendidos da doutrina católica e que relativizam as verdades católicas. Tal confirmação se tem ao ser analisada a bibliografia adotada, onde, autores como Leonardo Boff (que foi proibido de ensinar em nome da Igreja) sendo livremente adotado, enquanto as obras de santos doutores que sempre deram suporte à teologia católica, como São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, são quase totalmente ignoradas. O pluralismo teológico que não salvaguarda a unidade da fé não é legítimo, é o que expõe a instrução Donum Veritatis.

3 - Onde e como pretende efetivar seus conhecimentos de teologia?
De minha parte posso avaliar que a maior parte do conhecimento teológico que adquiri durante o curso não foi especificamente absorvida em sala de aula devido ao conteúdo apresentado ser bastante heterodoxo, basicamente de autores que fomentam a teologia modernista que em muitos aspectos se distancia dos dogmas católicos. Mas acessei bons conteúdos de autêntica teologia católica indo à fonte do Magistério da Igreja, nos textos dos catecismos, nos escritos dos papas, pelo ensinamento dos santos doutores da igreja e por autores que velam pela ortodoxia.
Os conhecimentos adquiridos pelo estudo dessa ciência teológica de caracteres católicos, os devo usar em proveito da conquista da minha salvação e, por extensão, dos demais a quem posso levar tal auxílio. Já os conhecimentos oriundos da vertente moderna da teologia que se desvincula dos ensinamentos católicos, devem não apenas serem desprezados, mas combatidos.
4 - O que você entende por teologia?
Não posso entender diferente daquilo que a Igreja entende. A teologia é uma ciência, cuja função é, peculiarmente, adquirir em comunhão com  o magistério um conhecimento sempre mais profundo da palavra de Deus contida na escritura, inspirada e transmitida pela Tradição da Igreja.

5 - Diante dos desafios da humanidade como deve se comportar um teólogo?
Referindo-se a um teólogo católico, que deve ser o que se refere a questão, deve-se comportar como um cooperador do magistério eclesial, como dispõe a instrução Donum Veritatis, publicada sob o pontificado de João Paulo II. O teólogo deve ser ainda um evangelizador potencializado para propagar o conhecimento sobre Deus, não esquecendo que ele mesmo faz parte do povo de Deus.

6 - Qual a função da teologia no mundo em que vivemos?
Respondo reiterando a resposta da questão anterior, referindo-se à teologia católica, que deve ser a que se refere a questão: a teologia deve ser uma ciência que coopere com o magistério eclesial, absolutamente não assumindo uma espécie de magistério paralelo, mas dando adesão aos ensinamentos do Magistério da Igreja e trabalhando através de seus recursos para que o povo tenha uma maior absorção destes ensinamentos.

7 - Como a teologia pode atuar nesse mundo hodierno?
sobretudo nos dias atuais a teologia pode contribuir muito para com o reinado social de Jesus Cristo, mas para isso ela deve se purificar das muitas linhas ideológicas que a envenenam, como abordou o Papa Pio X na mesma encíclica Pascendi Dominici Gregis.

8 - O que leva milhões de pessoas a mudanças de religião várias vezes na vida?
Poderia apontar duas principais causas: uma ascendente, outra descendente.
A primeira engloba aquela pessoa que nasceu em ambiente não católico, e, sem culpa, desconhecia a fé autêntica. É bíblico que "quem pratica a verdade aproxima-se da luz" (Jo 3, 21), então, essa pessoa se tiver um proceder justo, buscando a Deus sinceramente,  sua mente justa se inquietará com as constantes incoerências das falsas religiões por onde passar, e, portanto, permutará de religião em busca de encontrar aquela fundada por Deus que conduz os justos. "amo os que me amam, e aqueles que me procuram me encontrarão" (Pr 8, 17).
A segunda compreende aqueles que não querendo submeter-se às exigências de um Deus que impõe seus preceitos no íntimo de cada pessoa através da Lei Natural, aventuram-se em busca de uma religião que lhe seja viável, ao seu gosto, que pregue aquilo que desejam ser verdade. Tal proceder certamente potencializa que experimentem  várias religiões.

9 - Você aconselharia alguém a se tornar teólogo? Por quê?
Sim, mas somente se o curso onde buscasse se formar fosse um curso estritamente de teologia católica não influenciada pelos erros modernistas condenados por São Pio X.
Não quero dizer com isso que não se estude o que diz respeito à teologia e à doutrina dos outros segmentos religiosos, mas que não os equipare à verdade católica. Não se deve ter tais segmentos como aliados na mera construção de um mundo sem guerras, mas os veja como perigo para a salvação de muitas almas, porque falseiam a autêntica fé instaurada por Deus que se revelou ao homem. Ou seja, que se estude esses segmentos como aquilo que de fato são: falsas doutrinas.

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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os soldados dividiram as vestes de Jesus Cristo, e sortearam-nas. Que isto quer dizer?



Os soldados dividiram as vestes de Jesus Cristo, e sortearam-nas. Que isto quer dizer? O que isto significa? Quem divide entre nós as vestes de Jesus Cristo, ou quem mesmo até despedaça o sagrado corpo de Jesus Cristo? São aqueles que não conservam a caridade, a paz e harmonia com o seu próximo. São aqueles correios do inferno, que andam a levar e a trazer, dizendo coisas que lhes não devem dar cuidado algum, introduzindo deste modo a raiva, o ódio e a discórdia entre as famílias e os povos. Raivas e ódios que muitas vezes duram meses e anos inteiros, despedaçando desta sorte não as vestes, mas até o sagrado corpo de Jesus Cristo, porque corações desunidos já não podem ter união com Jesus Cristo, nem formar com Ele um só corpo.
Poderá dizer a queixosa: “Essa fulana com quem não falo e a quem tenho raiva, falou de mim, levantou-me um testemunho falso, roubou-me o meu crédito, fez-me uma grave injúria, por isso agora hei de ter-lhe muito amor?! Hei de mostrar-lhe grande graça e amizade?! Se eu assim me portar, até as minhas vizinhas diriam que tinha eu muito pouca vergonha em tornar-me a meter-me com ela!”
Sobre isso o que te digo é: esses não são os sentimentos de um verdadeiro cristão. Quem tem lá esses timbres, por certo que não observa o Santo Evangelho, nem imita a Jesus Cristo. Quanto mais, Deus manda amar os próprios inimigos, Deus manda fazer bem a quem nos fizer mal, Deus manda perdoar as injúrias, Deus manda sofrer. Além disto os teus pecados não são também graves injúrias que tu fizeste a Deus, e então muitas mais e muito maiores? Que podes tu esperar de Deus, se não amas, nem perdoas, nem sofres o teu próximo como Deus manda? Desengana-te. Deus só te tem tanto amor,  como tu tens à tua inimiga, aos teus inimigos. Porque se tu estás queixosa, Deus ainda o está mais de ti.
Levantou-me um testemunho falso, dizes tu. Então assim como Jesus Cristo os sofreu por teu amor, não deves tu também sofrê-los por amor de Jesus Cristo? Desacreditou-me, dizes também. E tu sofrendo com paciência, não vales o mesmo diante de Deus, ou ainda mais por teres adquirido esses grandes merecimentos? Que te importam lá esses juízos do mundo? As minhas vizinhas depois riem-se de mim, e dizem que não tenho vergonha. Sim? E então quem te há de julgar lá no dia do juízo são as tuas vizinhas, ou é Deus? Quem é que te pôs os preceitos, e a quem deves obedecer? Está bem, se tu ainda olhas para o que dirão, também te não dou cinco reis pela alma, e porquê? Porque não a salvas. Ora pois, meus irmãos, se algum de vós está diferente com o seu próximo, vá já reconciliar-se com ele, porque enquanto não se reconciliar com ele, não pode se reconciliar com Deus.
por  Pe. Manoel José Gonçalves Couto, na obra "MIssão abreviada".

sábado, 24 de março de 2012

Por que devemos amar o nosso próximo?


Por que devemos amar o nosso próximo? Porque é amado por Deus. Com toda a razão o apóstolo S. João chama de mentiroso quem diz que ama a Deus, e entretanto odeia a seu próximo. Jesus Cristo disse que há de olhar como feito a si mesmo o bem que fizermos ao mínimo de seus irmãos; “Em verdade, vos digo, o que fizestes um de meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40). Do que conclui S. Catarina de Gênova que, para se conhecer quanto alguém ama a Deus, basta examinar-se quanto ama ao próximo.
A caridade cristã é um dos frutos mais preciosos da redenção. O profeta Isaías a predisse com as palavras: “Então habitará o lobo com o cordeiro e o leopardo se alojará junto ao carneiro... e não prejudicará umao outro, nem o matará”(Is 11, 6). Com isso queria dizer que os futuros discípulos de Jesus Cristo, ainda que tendo inclinações e caracteres diversos e pertencendo a várias nacionalidades, haveriam de viver em toda a paz um com o outro, já que cada um cuidaria de se amoldar, pela caridade, à vontade e inclinação do outro. E na realidade, assim viviam os primeiros cristãos. “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma” (At 4, 32). Isso foi o resultado da oração do divino Salvador dirigida a seu Eterno Pai antes de sua morte: “Pai santo, conservai em vosso nome aqueles que me destes, para que sejam um, como nós o somos” (Jô 17, 11).

Da obra “ESCOLA DA PERFEIÇÃO CRISTÔ , compilada dos escritos de Santo Afonso de Ligório pelo Pe. Saint-Omer, C.SS.R..

sexta-feira, 16 de março de 2012

É impossível amar a Deus sem amar ao mesmo tempo ao próximo

Necessidade e excelência do amor do próximo

É impossível amar a Deus sem amar ao mesmo tempo ao próximo. O mesmo mandamento que nos obriga ao amor de Deus nos impõe o amor do próximo. “Temos este mandamento de Deus, que quem ama a Deus ame igualmente a seu próximo” ( 1 Jo 4, 21).
S. Tomás de Aquino conclui dessas palavras do Apóstolo que a única virtude da caridade abrange não só o amor de Deus, como também o amor do próximo, pois a única e mesma caridade faz que amemos não só a Deus, como também ao amor do próximo, pois a única e mesma caridade faz que amemos não só a Deus, como também o próximo por amor de Deus (II-II, q. 25, a. 1). Assim se explica o que S. Jerônimo (In ep. Ad Gall., c. 6) narra de S. João Evangelista. Perguntado por seus discípulos por que recomendava tão repetidas vezes a caridade fraterna, respondeu: Porque é o preceito do Senhor e a sua observância só basta para a bem-aventurança eterna.
S. Catarina de Gênova disse uma vez ao Senhor: Ó meu Deus, vós me mandais amar a meu próximo, e eu não posso amar senão a vós. Ao que lhe respondeu o Senhor: Minha filha, quem me ama, ama tudo que eu amo. De fato, quando se ama uma pessoa ama-se também seus parentes, seus servos, seu retrato e até suas vestes, e por quê? Porque são estimadas pela pessoa amada.

Da obra “ESCOLA DA PERFEIÇÃO CRISTÔ , compilada dos escritos de Santo Afonso de Ligório pelo Pe. Saint-Omer, C.SS.R..

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Nota: Com esta postagem damos início à publicação, através de textos em série, do Capítulo IV de tão magnífica obra com os ensinamentos do grande Doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, que abrange a temática “Do amor ao próximo”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O mundo está pronto


Se viver mergulhado no mundo não leva ninguém para o inferno, pergunto: porque a porta do céu é tão estreita? Porque N. Senhor insiste com essa ideia, ao dizer que é mais fácil um camelo entrar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no céu? É claro que não se trata aqui, apenas de um homem que possui muitos bens. Rico é aquele apegado às coisas, aos bens materiais, ao conforto, ao mundo. Um homem que centraliza sua vida nas coisas desse mundo. Fica, de fato, quase impossível entrar no céu carregado de tantos apegos, vaidades, orgulhos e vícios.

Do seu lado, os santos insistem sempre: levem uma vida piedosa; o católico deve guardar sua vista, seus sentidos para evitar todo pecado; vivam com modéstia, na castidade.
Não é bem esta a prática atual, onde os católicos não diferem em nada dos mundanos. Assistem aos mesmos programas de televisão, frequentam os mesmos shows, as mesmas festas; gastam seu dinheiro no mesmo comércio anunciado pela mídia: Natal com Papai Noel, Páscoa com ovos e coelhinhos, e essa gama impressionante de festas inventadas para ocupar o lugar das tradicionais festas religiosas e dos santos: dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, dia da criança, dia do zumbi, dia do black power, dia das bruxas...  Quando acabaram com os feriados nos dias santos de guarda, diziam que atrapalhava o trabalho. Como mentem! Mentem e manipulam as cabeças de todos, mesmo daqueles que leem jornais cults todos os dias e compram o "Código da Vinci". Grandes culturas! São porquinhos mansos indo pelo curral em direção à morte. E não percebem nada.

Naquele tempo se praticava virtudes

Houve época em que o mundo se pautava pela prática das virtudes. Que o homem fosse católico ou não, o critério de sua vida seria o mesmo: cada qual trabalhava para ser reconhecido pela sociedade como pessoa honesta, honrada, homem de palavra, fiel. Virtudes como a coragem, a castidade, a piedade estava na pauta do dia. Se era católico, praticava essas virtudes voltadas para a vida eterna, virtudes sobrenaturais. Se não era católico, praticava essas mesmas virtudes sem a marca divina, eram as virtudes naturais. Não diferem em si das primeiras, apenas nessa qualidade divina que dá à virtude sobrenatural uma nova força, vinda de Deus, que conduz o homem ao seu fim último, em Deus. Que ele fosse um médico ou um jurista, soldado ou quitandeiro, dono de terras ou colono, todos se gabavam de dar a seus filhos a boa educação, de corrigir seus filhos malcriados, de ensinar aos filhos a prática das virtudes. Qual o pai que não se orgulhava de ver sua filha prendada tomar bom marido, recomeçando assim o ciclo virtuoso da família decente? Não eram santos, por certo. Mas quando pecavam ficavam com a consciência culpada diante de Deus e tinham medo de serem malvistos na sociedade.

O drama que estamos vivendo vem do fato de que o mundo atual não se pauta por estes critérios de vida. Homens "iluminados" introduziram um novo eixo no pensamento da humanidade. Este novo eixo levou Gustavo Corção a entender o mundo moderno como "antropo-excêntrico", ou seja, um mundo que trocou o seu eixo1.

Hoje se pratica a liberdade

O polo desarticulador do mundo veio da falsificação da liberdade. A prática da virtude passou a ser vista como obstáculo à liberdade. No pensamento greco-católico, a liberdade é uma faculdade do espírito inteligente que o faz mover-se para o bem por um movimento interior da própria pessoa, e não empurrada por alguma outra força. Ora, só existe verdadeira liberdade quando nos inclinamos para o bem. Quando os homens passam a ensinar que a inclinação para o mal também é válida, estabelecem as bases para uma nova civilização: o mundo sem Deus, o mundo sem virtudes, sem piedade.

O resultado é catastrófico. Nada ficou de pé na nova civilização. Não somente a Igreja Católica foi alijada de qualquer influência no pensamento moderno2, como a simples prática das virtudes naturais perdeu qualquer respaldo. Se perguntarmos como vivem os homens deste nosso século, logo teremos uma lista das novas atitudes: 

- o reino do sexo  livre, sem qualquer tipo de limite tanto pela natureza quanto pela cultura. Forma-se uma pressão sobre todos para que se acostumem a romper com os limites da própria consciência. Esta pressão vem pelos programas de televisão, pelos filmes, pela presença constante diante dos olhos, de imagens sensuais espalhadas pelas cidades. É um dado positivo (no sentido de afirmativo) que vem somar a uma impressionante propaganda negativa que há décadas faz uma verdadeira lavagem cerebral, convencendo a todos que a castidade seria uma doença.

- o reino do erro livre, onde todos têm razão e ninguém é dono da verdade porque expulsaram a verdade. Expulsaram das suas vidas a autoridade divina, pois todas as religiões passam a se valer; expulsaram a autoridade paterna, pois um pai não pode mais corrigir seu filho, educá-lo na prática das virtudes condenando seus erros. O mundo onde cada qual constrói sua própria verdade é um mundo esquizofrênico. Como a inteligência humana se alimenta da verdade dos objetos que conhece, entra em colapso quando é forçada a criar verdades de dentro para fora, sua própria consciência passando a dar vida às coisas, o que é propriamente “tornar-se como deuses”.3

- o reino da desonestidade livre, pois é evidente que não cabe no mundo tantas verdades individuais opondo-se umas às outras. Por isso o colapso da verdade gera o ódio, a guerra, inimizades. Não pensem que algum tipo de governo ou de partido poderá escapar da corrupção. Ela é endêmica, faz parte essencial da vida onde a liberdade é deusa. Lá onde a verdade movia os homens ao amor, temos hoje o erro movendo os homens ao ódio. Na política como dentro das empresas, nas famílias como no mundo jurídico.

- o reino da infidelidade livre, pois a falsa noção de verdade e o falso amor geram uma relação social evolutiva, chacoalhante, em constante movimento. Nada fica de pé, nada tem aparência de duração, de solidez, de eternidade. Neste mundo não há lugar para a família. Por isso podemos dizer que o Divórcio foi a bomba de retardo lançada no mundo todo, que detonou a seu tempo sobre os alicerces da família, base da antiga sociedade.

Tudo isso está invadindo as casas há mais de cinquenta anos, sem que os católicos reajam. O liberalismo já tinha minado as bases da família. Poderíamos dizer que o liberalismo fez o trabalho de sapa e a liberdade enlouquecida fez o trabalho de restauração da casa destruída, com novas bases. O pior de tudo não é o mundo ser assim; o pior é ver os católicos vivendo no meio disto sem enxergar; cegos, surdos, sem forças, marionetes burrificadas por cinquenta anos de estupidez televisiva.

Na formação deste impressionante “Reino” do mal, algumas armas foram usadas de modo mais constante:
- a imagem, essa rainha da falsidade que escraviza a nossa imaginação, marca, fere, choca, tirando dela toda reação possível.
- o som, que trouxe ao mundo vários tipos de música que simplesmente destrói na alma qualquer capacidade de raciocínio, de concentração.
- a ocupação, escravizando o homem numa avalanche de preocupações, de trabalhos, de excitações que o obriga a estar 24 horas por dia "ligado" na coisa material. Ao mesmo tempo, através de décadas de mentiras, arrancaram a mulher do seu trabalho materno, do seu lar, onde sua presença era a maior garantia da boa educação dos filhos.
- a diversão, que vem preencher o resto de tempo que os pobre-coitados ainda poderiam dispor: agora é hora de malhar, de correr, de praticar esportes cada dia mais exigentes. E tem o show alucinante, a festa que termina pela manhã, a praia, a viagem, o carnaval.
Pobre gente. Já não conseguem entender as coisas mais banais. Já não percebem que os frutos dessa nova civilização já estão estabelecidos como práticas consagradas:
- o aborto que mata a criança inocente, contraponto dos famigerados "estatutos" da criança que protege o marginal de baixa idade.
- a eutanásia, que é o aborto dos velhos, tão indesejados pelo "custo" quanto os filhos. Temos como exemplo gritante desta prática o assassinato de Terri Schiavo no início de 2005, executada pela fome e pela sede com carimbos dos juízes e da polícia.
- o casamento homossexual, que choca a natureza, contraponto das vantagens que a lei outorga aos concubinatos. Chegamos ao ponto mais baixo na destruição da sociedade.
- vários detalhes da chamada bio-(sem)ética, onde homens levam o delírio até experimentos com genética humana, verdadeiros alucinados brincando de Deus. Seria o caso de perguntarmos: porque querem matar as crianças inocentes e, ao mesmo tempo, gerar artificialmente seres humanos? Não podemos deixar de incluir aqui a aberração dos embriões congelados que ninguém quer, seres humanos que sofrem sem piedade e que serão destruídos cruelmente.

Em todos esses exemplos a família aparece destruída. Já não é mais a base da sociedade. Os homens que construíram isto que está aí detestam a família, odeiam qualquer cheiro de tradição familiar, de fidelidade conjugal, de casa cheia de crianças.
Ora, se esses são os critérios e as práticas da nova civilização anticristã, então somos obrigados a constatar: o mundo está pronto para o Anticristo!

O mundo  está pronto para o Anticristo

Sempre me pareceu impressionante a facilidade com que a humanidade segue apaixonadamente o Anticristo, que é uma das bestas, no relato divino do Apocalipse.4 Dizia-me: como pode ser que os homens se entreguem a uma vida completamente enganadora e destruidora de tudo? Hoje ficou mais claro para mim. E muito me impressionou ao encontrar no Pe. Castellani, grande pensador argentino, uma descrição feita em 1953 disso tudo que só hoje estamos vivendo:
“... porque o Homem do Pecado tolerará e se aproveitará de um cristianismo adulterado...Imporá por todas as partes o reino da iniquidade e da mentira, o governo puramente exterior e tirânico, a “Liberdade” desenfreada dos prazeres e diversões, a exploração do homem; e seu modo de proceder hipócrita e sem misericórdia. Haverá em seu Reino uma estrondosa alegria falsa e exterior, cobrindo o mais profundo desespero.
Em seu tempo acontecerão os mais estranhos distúrbios cósmicos, como se os elementos se houvessem revoltado. A humanidade estará numa grande expectativa e reinará grande confusão e dissipação entre os homens. Rompidos os laços de família, de amizade, de lealdade e bom relacionamento, os homens não poderão confiar em ninguém, e correrá no mundo como um tremor frio, um universal e ímpio “salve-se quem puder”. Será atropelado o que há de mais sagrado e nenhuma palavra terá mais fé, nem pacto algum terá vigor, senão pela força. A caridade heroica de alguns fiéis, transformada em amizade até a morte, manterá no mundo ilhotas de fé; porém mesmo ali, ela estará continuamente ameaçada pela traição e pela espionagem. Ser virtuoso será um castigo em si mesmo e como uma espécie de suicídio”.
5
Parece-me evidente que os processos políticos atuais geraram um mundo sem lideranças. Não há verdadeira liderança nos atuais países porque todo o jogo político local obedece a ordens que não entendemos nem ouvimos. E não há, também, uma liderança mundial, porque o lugar ainda está vago. É o lugar dele, do Anticristo. Quando este homem do pecado determinar que chegou a hora de aparecer, será certamente ovacionado por toda a humanidade, pois falará a mesma linguagem, terá o mesmo pensamento de todos, sobre tudo isso que citei acima. Sua ideologia, sua política, sua ciência, tudo corresponderá ao que os homens pensam e praticam já hoje. Por isso podemos dizer sem medo de errar. O mundo está pronto.
Não estou aqui a dizer que o fim do mundo está próximo, ou que o Anticristo seja tal ou tal pessoa. O que me interessa nestas linhas é que os verdadeiros católicos tenham consciência do perigo que correm se mergulharem no mundo. Se acharem que podem viver com estes critérios que lhes são impostos, correm o grave risco de serem enganados pelo grande líder, quando este chegar. Algumas pessoas poderiam objetar que podemos conviver com todos e permanecermos católicos. Mas eu os alerto para essa diferença radical entre o mundo de hoje e o mundo de cinquenta anos atrás: lá, no final da civilização cristã, ainda era possível viver assim porque os homens tinham aquele critério da prática das virtudes, para suas próprias vidas e para os seus filhos. Mas hoje já não é assim. Portanto, estejam armados, de espada em punho, pois aquele que não combater, que não desviar seu pensamento das falsas ideias, que não fugir das práticas absurdas, blasfematórias, ultrajantes para Deus e sua Igreja, pode enredar-se na fina malha que já foi lançada sobre os homens e que os arrasta para o reino do Anticristo, que não é outro que o reino das trevas. Está na hora de reler algumas páginas dos santos e doutores da Igreja:

“Estas são as marcas da vinda do Anticristo:
Quando os velhos não tiverem nem bom senso nem prudência,
Quando os cristãos estiverem sem fé,
Quando o povo estiver sem amor,
Quando os ricos forem sem misericórdia.
Quando os jovens não tiverem respeito,
Quando os pobres forem sem humildade,
Quando as mulheres tiverem perdido o pudor,
Quando, no casamento, não houver mais continência,
Quando os clérigos forem sem honra e sem santidade,
Quando os religiosos não tiverem verdade nem austeridade,
Quando os bispos não se inquietarem de sua administração e não tiverem piedade,
Quando os mestres da terra não tiverem misericórdia nem liberdade”.
6

E o Padre Emmanuel, grande espiritual do sec. XIX:

“Apresentar-se-á como cheio de respeito pela liberdade dos cultos, uma das máximas e uma das mentiras da besta revolucionária. Dirá aos budistas que é um Buda; aos muçulmanos, que Maomé é um grande profeta... Talvez até irá dizer, em sua hipocrisia, como Herodes seu precursor, que quer adorar Jesus Cristo. Mas isso não passará de uma zombaria amarga. Malditos os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável Salvador seja posto lado a lado com Buda e Maomé em não sei que panteon de falsos deuses”
7.

Impotentes que somos diante de tal situação, só podemos olhar para a Virgem Maria, para seu Coração Imaculado, e suplicar a ela que nos proteja contra toda influência do maligno. Que nos dê a mão, que nos acolha em seu Coração. É preciso fincar o pé, recusar ser arrastado como um cordeirinho para a destruição de nossa personalidade, de nossa fé, de nosso espírito. É preciso ler, estudar, conhecer a verdade objetiva, clara, de Deus, do mundo, do pensamento. É preciso amar. Amar na ordem da Caridade, ou seja, amar como Deus nos ordena, praticando os mandamentos, cumprindo nosso dever. E nossos deveres são de três ordens: para com Deus, para nós mesmos, para com o próximo.
É preciso, com toda urgência, praticar a devoção reparadora dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria. Fazer os Primeiros sábados do mês, rezar o Terço todos os dias, para que, ao chegar o Anticristo, estejamos recolhidos e protegidos por nossa Mãe do Céu. Com a espada em punho, lançaremos contra o rosto tenebroso do homem do pecado o grito de Viva Cristo Rei! Imaculado Coração de Maria, salvai-nos! E Jesus Cristo o vencerá “com o sopro da sua boca”.
 
  1. 1. Corção, Gustavo, Dois Amores, Duas Cidades, Agir, 1967, Tomo II, parte 3 – A civilização do Homem-Exterior
  2. 2. Diga-se de passagem que o Concílio Vaticano II amordaçou a Igreja, retirando o último obstáculo para conter a avalanche.
  3. 3. Foi a primeira mentira proferida na face da terra, do demônio a Eva. “Sereis como deuses” se desobedecerem a Deus.
  4. 4. “E toda a terra, cheia de admiração, seguiu a besta” (Apoc. XIII, 3)
  5. 5. Castellani, Leonardo, Los Papeles de Benjamin Benavides, Buenos Aires, 1953,  Caderno 4, cap. 2.
  6. 6. São Boaventura
  7. 7. Pe. Emmanuel-André, O drama do fim dos tempos, Revista Permanência 198-199.
 
Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/2724
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