segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A HORA DE DEUS

por Padre Christian Bouchacourt
 
Durante o sermão pronunciado por ocasião das ordenações diaconais e sacerdotais em Ecône no dia 29 de junho passado, Dom Fellay anunciou que as conversas com Roma, com vistas a um eventual entendimento com a Fraternidade, regressaram ao ponto de partida, quer dizer, como no dia seguinte às consagrações episcopais de 1988.

De fato, Roma queria que, como preâmbulo da regularização canônica da Fraternidade São Pio X, aceitássemos os documentos promulgados durante o último concílio e reconhecêssemos a legitimidade, e por consequência a bondade, do Novus Ordo Missæ. Tal aceitação seria uma traição pura e simples ao combate que Dom Lefebvre e sua Fraternidade levaram adiante por mais de 40 anos. Assim sendo, por uma razão doutrinal, o Superior Geral e o seu Conselho, apoiados pelo Capítulo Geral da FSSPX, recusaram as últimas proposições de Roma.

A situação atual pode nos contristar pois nos faz constatar que o câncer do modernismo continua corroendo a Igreja desde dentro, enquanto o Papa e as autoridades romanas se recusam a apontar a origem dos males que pesam sobre a Igreja desde algumas décadas, isto é, o Concílio Vaticano II. Os tempos ainda não estão maduros para uma normalização das nossas relações com Roma. Diante desta situação, uma questão pode nos vir à nossa mente: “Mas o que Deus espera para nos tirar desta situação tão difícil?”

Deus espera a sua hora! Se abrirmos o Evangelho, poderemos ler que Nosso Senhor sempre quis agir no seu próprio ritmo e não segundo o seu entorno. Quantas vezes disse “a minha hora ainda não chegou”? É o próprio Cristo quem decide o momento da sua Paixão e o instante da sua morte: “Ninguém me tira a vida, mas eu por mim mesmo a dou”. Nesse sentido, Deus continua sendo Senhor do tempo e dos acontecimentos. Ele pode intervir diretamente ou indiretamente sobre eles segundo sua vontade.

Talvez alguns poderiam se desanimem pela duração da prova que pesa sobre a Igreja. Outros poderiam se decepcionar pela FSSPX deixar passar essa ocasião de regularizar a sua situação. Enfim, outros poderiam crer que a situação se endureceu definitivamente e que se perdeu toda esperança de restauração da Tradição na Igreja.

Nenhuma dessas atitudes é satisfatória! Por isso me parece oportuno lembrar alguns princípios importantes que poderão ajudá-los a compreender a situação presente e encorajá-los a guardar a virtude da santa esperança.

1º princípio: Nada acontece que Deus não tenha previsto desde toda a eternidade e que Ele não tenha querido ou pelo menos permitido. Esta crise que a Igreja atravessa não escapa à onipotência de Deus. Desde toda a eternidade, Deus a permitiu assim como permitiu a Paixão do seu Filho, a traição de Judas e a negação de São Pedro. Estes tempos difíceis em que vivemos não podem ser compreendidos e suportados a não ser sob a luz da fé.

2º princípio: Deus não pode querer ou permitir algo a não ser com vistas ao fim que Ele se propôs ao criar, quer dizer, a manifestação da sua bondade, das suas perfeições divinas e com vistas à glória de Deus feito homem, Jesus Cristo, seu Filho. Esta crise, que tem origem em grande parte no Concílio Vaticano II, sem nenhuma dúvida permitiu àqueles que queriam permanecer fiéis à Tradição da Igreja estudar com mais intensidade a doutrina e a liturgia que os nossos antepassados nos transmitiram e que a tempestade conciliar quis sepultar para sempre. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Igreja entrou, de fato, em uma espécie de torpor que a deixou mais vulnerável aos seus inimigos internos e externos.

De uma maneira insidiosa, como a minhoca na maçã, apesar da firmeza de Pio XII, o modernismo solapou e corrompeu todos os graus da Igreja como uma gangrena. Essa enfermidade poderia ter sido fatal, mas Deus suscitou Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, que souberam se opor com um espírito de sacrifício heroico a essa revolução conciliar. A Providência velava, e assim Nosso Senhor mostrou que Ele queria ser fiel à sua promessa de proteger sua Igreja até o fim dos tempos. Deus continua sendo o Senhor dos acontecimentos!

O 3º princípio decorre do 2: Como diz São Paulo: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus”. Naqueles que quiseram permanecer fiéis à Tradição, Deus suscitou um espírito de sacrifício meritório para se preservarem dos múltiplos erros que se espalhavam pela Igreja. A FSSPX fundou seminários, priorados, escolas, etc. Religiosos e religiosas fundaram comunidades tradicionais por quase todas as partes do mundo. Assim se salvou a Tradição católica. Esta santa reação provocou um impulso de fervor com uma generosidade admirável. Os seminários tradicionais se encheram, santas famílias se formaram. Pouco a pouco se assistiu à reconstituição do tecido católico, na espera de que um dia Roma reconheça a legitimidade da aparente desobediência que nos anima.

Contudo, estes três princípios que acabamos de recordar não nos dispensam, evidentemente, de fazer o que pudermos, no lugar onde a Providência nos colocou, para cumprir a vontade de Deus significada pelos seus preceitos e pelos conselhos que nos são prodigalizados e nos submetermos aos acontecimentos pelos quais Ele quis nos conduzir. Deus não deixará de nos conceder as graças que precisamos para permanecermos firmes na fé e para acelerar a chegada do fim deste tempo de provas.

O resultado desta crise não depende de nós, evidentemente, mas da cabeça da Igreja e mais precisamente do Papa quando este, por graça de Deus, retomar aquilo que seus predecessores fizeram e ensinaram durante quase 2000 anos e abandonar os princípios conciliares que conduziram a Igreja à beira do precipício.

Esta graça virá, não duvidemos disso nunca! Quando? Só Deus sabe, mas Ele mesmo, desde toda a eternidade, conta com nossas orações e nossos sacrifícios para nos conceder o socorro que tanto desejamos. Será então a sua hora. “É próprio do auxílio celeste (...) chegar no momento exato e de apresentar-se ao homem no momento mais conveniente. Auxiliar inteligente, se o Senhor Deus dos exércitos estende sua mão forte à criatura, sempre faz que seu favor apareça no momento crítico e decisivo; e pode-se dizer que a eficácia principal da intervenção divina consiste ordinariamente na sua absoluta oportunidade”.

É assim que a onipotência de Deus e sua misericórdia se manifestarão, de tal modo que nenhum homem poderá se atribuir essa vitória futura. Esta verdade deve nos encher de esperança e de confiança como exprime tão bem São Paulo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

A respeito das provas da vida, e particularmente daquelas que a Igreja atravessa, é preciso que vivamos o tempo presente sem buscar nos adiantarmos à hora de Deus, sem forçar a Providência.

Guardemos no fundo das nossas almas uma firme confiança nesse socorro que nunca nos faltará se nos comportarmos como bons filhos de Deus. Voltemos a ler no Antigo Testamento o livro de Daniel, capítulo 13: Deus salva a vida da casta Susana e a recompensa por sua confiança justamente quando a situação parecia perdida por causa dos falsos testemunhos dos dois anciãos, que foram finalmente condenados no lugar dela. Consideremos a realização da promessa de Nosso Senhor que tinha anunciado aos Apóstolos e aos discípulos que enviaria “outro Consolador para que ficasse eternamente convosco, o Espírito de verdade (...) que vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”. E de fato o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes.

Meditem também na oração que nos ensinou Nosso Senhor. Ele nos convida a pedir o pão de cada dia, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e não o que vamos a necessitar dentro de um mês ou de um ano. Pensemos também na promessa que fez aos que sofreriam por Ele: “Não estejais com cuidado de que modo respondereis ou que direis, porque o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que deveis dizer”. O provérbio popular “antes da hora ainda não é a hora” se inspira nessa promessa. Assim sendo, guardemos a paz e nos mantenhamos longe das inquietudes que perturbam a alma e a afastam do essencial.

Um dia, então, quando soar a hora de Deus, Roma manifestará à FSSPX seu reconhecimento por sua fidelidade e se apoiará nela para reconstruir a cristandade. Para acelerar a chegada desse dia, permaneçamos firmes na fé, sem compromissos com os erros que pululam na Igreja. Cumpramos nosso dever de estado, façamos penitência, estudemos a nossa santa religião e tenhamos confiança como Nossa Senhora à espera da ressurreição do seu Filho no dia seguinte à Sexta-Feira Santa.

Terminarei estas considerações deixando-lhes esta oração composta por Madame Elizabeth, irmã do Rei Luís XVI. Sabendo que seria condenada pela Revolução por ódio à fé, ela se preparava para os acontecimentos trágicos que a esperavam. Morreu, de fato, na forca, depois de ter recitado cada dia esta oração que lhe foi de grande ajuda e que poderíamos fazer nossa: “Desconheço, Senhor, o que me acontecerá hoje. Tudo o que sei é que nada do que me acontecer virá sem que tenhais previsto desde toda a eternidade. Isso me basta, meu Deus, para estar tranquila. Adoro os vossos desígnios eternos e me submeto de todo o coração; quero tudo, aceito tudo, faço-vos o sacrifício de tudo. Uno este sacrifício ao de vosso amado Filho, meu Salvador, pedindo-vos, por seu Sagrado Coração e por seus méritos infinitos, a paciência diante dos males e a perfeita submissão que vos é devida em tudo o que desejais e permitis”.

Que Deus os abençoe!
Padre Christian Bouchacourt
Superior de Distrito América del Sur

Editorial da Revista Iesus Christus nº 139

sábado, 27 de outubro de 2012

Utilidade das obscuridades da Bíblia



Os que lêem a Escritura inconsideramente enganam-se com as múltiplas obscuridades e ambigüidades, tomando um sentido em lugar de outro. Nem chegam a encontrar, em algumas passagens, alguma interpretação. E assim, projetam sobre os textos obscuros as mais espessas trevas.

Não duvido de que a obscuridade dos Livros santos seja por disposição particular da Providência divina, para vencer o orgulho do homem pelo espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade.

Como se explica que se alguém disser: “Graças a uma vida de bons costumes, há homens santos e perfeitos. Isso se dá porque a Igreja de Cristo retira das superstições os que vêm a ela e os incorpora a si, caso imitem os bons. Esses justos, como fiéis e verdadeiros servos de Deus, ao depositar o fardo do século, aproximam-se do banho sagrado do batismo e, erguendo-se de lá, sob a ação fecundante do Espírito Santo, produzem o fruto do duplo amor – o de Deus e o do próximo.”

Ora – perguntava eu - como se explica que ao redizer isso, o fiel deleita-se menos do que ao ouvir as mesmas idéias expostas com a expressão do Cântico dos cânticos. Aí se diz para a Igreja, louvando-a como uma bela mulher: “ Os teus dentes são como os rebanhos das ovelhas tosquiadas ao subir do lavatório, todas com dois cordeirinhos gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas” (Ct 4,2).

Acaso, o fiel aprende aí outra coisa do que ouvira há pouco, expresso em termos bem despojados, sem o auxílio dessas comparações? Entretanto, não sei a razão, mas contemplo com mais atração os justos, quando os imagino como dentes da Igreja que arrancam os homens do erro, e depois de os ter mastigado e triturado, a fim de amolecer sua dureza, introduzem-nos no corpo da Igreja. Também me agrada muito quando contemplo as ovelhas tosquiadas. Elas deixaram sua lã como se fossem os fardos deste mundo, e sobem do lavatório, isto é, do Batismo, e dão à luz dois cordeirinhos gêmeos, isto é, o duplo preceito do amor. E nenhuma é estéril desse fruto.

Santo Agostinho, A Doutrina Cristã – Manual de exegese e formação cristã. Paulus. pp. 90-91.

sábado, 20 de outubro de 2012

O ESTADO TEM DEVERES EM RELAÇÃO AO NOSSO SENHOR E À RELIGIÃO?


Do mesmo modo que todos os homens têm o dever de honrar a Deus, seu Criador, e por isso de abraçar a Verdadeira Fé, logo que a conheçam (sua salvação pessoal depende da aceitação ou da recusa de Jesus Cristo), o Estado também. “A felicidade do Estado não decorre de outra fonte que a dos indivíduos, visto que uma cidade não é outra coisa senão um conjunto de particulares vivendo em harmonia.

A sociedade política deve honrar a Deus publicamente? Não basta que o façam os indivíduos?

Leão XIII explica: “Os homens unidos pelos laços de uma sociedade comum, não dependem menos de Deus do que quando tomados isoladamente. Tanto como o indivíduo, a sociedade deve dar graças a Deus, de Quem obteve sua existência (...) É por isso que, do mesmo modo que não é permitido a ninguém  negligenciar seus deveres para com Deus – e que o maior de todos os deveres é o de abraçar a verdadeira religião (não aquela que cada um prefira, mas a que Deus prescreveu e a que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas) – as sociedades políticas não podem, sem crime, se conduzir como se Deus não existisse de nenhum modo, ou dispensar a religião como inútil, ou admitir uma conforme seu bel-prazer.

Para honrar a Deus publicamente, a sociedade temporal deve necessariamente se submeter à Religião Católica?

Jesus Cristo – que é o único Mediador entre os homens e Deus – nunca é facultativo. E a Igreja Católica, que é a única Igreja de Cristo, muito menos. Leão XIII ensina: “Honrando a Divindade, as sociedades políticas devem seguir estritamente as regras e o modo segundo os quais  Deus, ele mesmo, declarou querer ser honrado.

Mas o Estado é competente em matéria religiosa?

O Estado não é competente para legislar a seu alvitre em matéria religiosa. Mas o é  para reconhecer a Verdadeira Religião a partir de seus sinais de verdade, e para se submeter a esta. Leão XIII afirma: “pois é necessário professar uma religião na sociedade, é necessário professar aquela que é a única verdadeira e que se reconhece facilmente, sobretudo nos países católicos, pelos sinais de verdade, cujo caráter reluzente leva consigo mesma. Essa religião, os chefes de Estado devem portanto conservar e proteger.
O Estado tem outros deveres religiosos além do culto público a Deus?
Sim. O Estado deve, sempre permanecendo em sua própria seara, favorecer a salvação eterna de seus cidadãos.

Não é dever da Igreja – e não do Estado – fazer com que se atinja a Felicidade Eterna?

Deus  quis criar uma sociedade propriamente religiosa (a Santa Igreja), distinta da sociedade temporal. O homem deve, portanto, pertencer a essas duas direções de uma vez. Ora, a vida temporal lhe é dada para preparar a vida eterna. O Estado, cujo domínio próprio é o temporal, não pode, pois, organizá-lo independentemente do seu fim último. Não está diretamente encarregado da Felicidade Eterna, mas deve contribuir para ela, indiretamente. Se a negligenciar, abandona a parte mais importante do bem comum. Tal é o ensinamento dos Padres da Igreja, de Santo Tomás e dos papas.
Fonte: Catecismo Católico da Crise na Igreja
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