quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O prazer de reler: meu artigo sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho
Por esses dias morreu o conhecido ator Robin Williams. A Rede Globo andou reprisando uma de suas grandes atuações, o filme Sociedade dos Poetas Mortos. E eu, também andei relendo e, por achar oportuno, posto aqui novamente meu artigo-resenha sobre tal filme.


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Sociedade dos Poetas, digo, da educação morta


Quem estudou Pedagogia ou área correlata e ainda não teve que fazer uma resenha do filme Sociedade dos Poetas Mortos? Em geral, o intento do professor é apresentar o filme como sendo inevitável caminho a ser percorrido para o total rompimento com os velhos paradigmas da educação, fazendo-se alcançar a evolução de tal ciência. Eis a minha resenha. Veja o filme, leia o texto e compare.

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         “Sociedade dos Poetas Mortos” conta a história de uma escola, de um professor, de um aluno. A escola é um modelo de colégio interno tradicional regido por normas rígidas. O professor, John Keating, é um profissional que rompeu com as amarras do método de lecionar daquela época (1959) tido como arcaico, levando os alunos a seguirem seus sonhos. O aluno, Neil, foco principal da turma, se deixa levar pela filosofia apresentada pelo eloqüente professor e passa a viver um dilema entre a busca de seus sonhos e a vontade dos pais.
         Os métodos de ensino pouco convencionais do professor Keating envolvem a turma. Atitudes como mandar rasgar páginas dos livros fazem de Keating um modelo pretendido, chegando a receber dos alunos a expressão “Ó Capitão! Meu Capitão”. A maneira inusitada de “ensinar a pensar” induz aquela gente ainda sem uma personalidade definida a lançar-se a um mundo muitas vezes fantasioso e desconhecedor da crua realidade do mundo. Os alunos tomam conhecimento da “Sociedade dos Poetas Mortos” vivida pelo mestre em sua juventude e, num espírito aventureiro, fazem renascer a sociedade que tem como centro a poesia.
         O papel do professor como orientador foi por demais usado para incutir nos alunos a sua única ideologia, em detrimento do conhecimento amplo a que se possa chegar quando se prova das inúmeras formas de pensar e se busca na fonte de vários autores e várias correntes filosóficas. A criatividade estimulada nos alunos era dirigida e direcionada para nova concepção de vida que assumiriam e que já deveria viver dentro de cada um.
         O filme em pouco coaduna com a moral e a ética cristã, mas simplesmente enaltece o direito de se ter sonhos e de pretensamente vivê-los a qualquer custo.

         Verdadeiro e realista ao seu final, o filme apresenta o resultado já imaginável das conseqüências às quais se podem chegar ao se por em prática tal ideologia de vida: Mais alienado do que antes, e incapaz de conceber que na vida nem sempre os sonhos são produto de um imediatismo do querer, mas que pode advir da luta incessante para se conquistar tal intento com maturidade, perseverança e temor a Deus, as quais são virtudes supressas do roteiro, o aluno, Neil, desiste de batalhar por seu sonho da maneira mais banal e impensada para uma pessoa dotada de inteligência e faculdades normais. Ele suicida-se, falseando uma vitória sobre a dita opressão dos pais. Essa falsa vitória que se tentou apresentar ao final não deve ser uma válvula de escape para aqueles que foram educados para a vida.
Ps.: Nos noticiários, dizem, a morte do ator Robin Williams foi suicídio.

domingo, 10 de agosto de 2014

O fim e o que convém



por Santo Agostinho

Tu sabes muito bem que não é do ponto de vista dos convenientes, mas dos fins, que cabe distinguir as virtudes dos vícios. O conveniente é o que se deve fazer; o fim é aquilo por que se deve fazer. Portanto, quando alguém fez uma coisa que não parece ser pecado, se aquilo por que fez não é aquilo por que se deve fazer, este alguém é réu de pecado. Tu não atentas; tu separas pois os fins dos convenientes e pretendes  que se deva considerar como virtudes verdadeiras convenientes sem seus fins.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pode a Igreja morrer?

 por Dom Lourenço Fleichman

[...] Muitos já escreveram sobre a Paixão da Igreja. De Gustavo Corção, na década de 70, a Dom Marcel Lefebvre, nos anos 80, e depois, na pluma de muitos padres da Tradição

Parece claro que Nosso Senhor quis levar a sua Esposa, a Santa Igreja, a sofrer algo semelhante ao que Ele mesmo sofreu em sua Paixão. Como Jesus Cristo, a Igreja está sendo desfigurada há mais de 50 anos. Apresenta-se de tal forma flagelada em todo o seu Corpo, que mais parece uma Esposa das Dores, sem beleza, irreconhecível. 

Parece, de fato, possível, descrever a Paixão da Igreja nos mesmos moldes usados por Isaías para profetizar sobre a Paixão de Cristo, ou na descrição impressionante do Salmo 21 sobre o Cristo padecente. Assim vive a Igreja desde os anos 60, desde a morte do papa Pio XII, ocorrida em outubro de 1958.

Nesse ponto nos deparamos com o medo terrível de alguns autores de lidar com esta situação que me parece ser mais real do que metafórica. Nesse ponto desviam a atenção da realidade, afirmando que "as portas do Inferno não prevalecerão sobre ela" (S. Mateus, 16, 18), logo a crise há de passar e tudo voltará ao normal.

Me parece que não podemos agir assim. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, é mais divino do que a sua Igreja. Ele aceitou sofrer a Paixão medonha e iníqua para nos salvar. Mas foi além. Aceitou a morte. Ora, afirmar que a Igreja não pode morrer porque as portas do Inferno teriam prevalecido sobre ela, é o mesmo de afirmar que as portas do Inferno prevaleceram contra Cristo, o que seria uma grande heresia e uma blasfêmia.

Nós sabemos que Cristo morreu por nossos pecados, ressuscitou ao terceiro dia, e a morte não terá mais império sobre ele. Logo, podemos sim, afirmar que a Igreja poderá passar pela morte, já que é evidente que ela passa pela Paixão.

A questão seria, pois, de compreender em que consiste essa morte da Igreja. Morte de tal forma eficaz e fecunda que representaria para a vida social do Corpo Místico de Cristo, o que a morte física de Nosso Senhor representou para o início do Cristianismo. Porque Cristo morreu no início da obra da nossa Redenção; a Igreja morreria no fim dela. Jesus Cristo morreu para apagar e extirpar do mundo o Pecado original e suas consquências; a Igreja morreria para apagar e extirpar do mundo o Pecado terminal, essa realidade imaginada pelo gênio de Gustavo Corção no final do seu livro O Século do Nada, e que consistiria na obra da grande apostasia, último lance do demônio antes do grande combate de Nosso Senhor contra o Anti-Cristo.

Levemos nossa reflexão adiante, e consideremos que a morte de Nosso Senhor foi um acontecimento da sua natureza humana. De fato, Deus não morre. Jesus não morreu enquanto Deus, mas apenas enquanto homem. Morreu depois de ter ficado completamente desfigurado, irreconhecível, sem beleza, ou seja, sem que nada no seu Corpo manifestasse a Divindade que permanecia ali escondida, apagada, mas viva. Nessa hora Jesus lança seu último brado, oferece ao Pai o seu espírito, dá o último sopro de sua vida natural. Morre a natureza humana.

Levemos, pois, essa comparação à vida da Igreja. Como dissemos, há 50 anos que a Igreja é flagelada, desfigurada, cuspida, pregada a uma dura Cruz, que foi apagando dela toda beleza, ou seja, toda manifestação da sua seiva divina, da sua santidade, do seu sacerdócio, dos seus Sacramentos. Tudo isso foi demolido, vilipendiado, rebaixado e dessacralizado. A Paixão da Igreja nos mostra a Esposa de Cristo nua como Cristo na Cruz. Seus sacramentos já não são integralmente católicos, a pregação dos padres já não converte ninguém, a vida sacerdotal e religiosa está muito longe da santidade, e tudo se resume num amálgama rasteiro e sem vida sobrenatural.

Nesse momento, a morte da Igreja poderia advir pelo extermínio do sopro de vida humana que ainda lhe restaria. Cristo morreu assim, a Igreja pode, muito bem, morrer também. No momento em que a vida divina já não aparece mais, basta cessar a vida natural e humana, e a Igreja já não viveria mais.

Ora, me parece que a obra do papa Francisco consiste em tirar do resto de vida que ainda restava na Igreja, seu sopro natural. Levantou-se este estranho papa contra tudo o que é natural, as únicas coisas que ainda restavam na pregação dos seus predecessores.

Sobre o aborto, ele afirmou que não devemos mais tratar desse assunto; Sobre o adultério, ele afirmou que não se deve mais imputar o pecado, podendo comungar os divorciados que vivem em novo casamento.

Sobre a família, ele afirmou, ao aplaudir o discurso do Card. Kasper, que é preciso aceitar essa nova família do mundo moderno, regida pelo divórcio.

Sobre os graves pecados contra a natureza, ele induziu a sua prática ao afirmar que um padre não pode julgar o pecado de homossexualidade.

Sobre a Religião, sobre o culto que se deve prestar ao único e verdadeiro Deus, ele confirmou o ecumenismo de João Paulo II e de Bento XVI, retirando da Igreja até mesmo o pouco de prevalência que os outros ainda guardavam para ela.

Os papas que o precederam na obra nefasta de Vaticano II não ousaram negar a verdade da natureza das coisas. Demoliram a seiva sobrenatural, mas guardaram, ao menos tentaram guardar, a família, a luta contra o aborto, a condenação dos atos sexuais contra a natureza etc.

O que restava de vida natural na Igreja está desaparecendo. E não restará mais nada.

Nossa Esperança sobrenatural, no entanto, não nos permite desanimar. Ao contrário. Não sejamos fracos como foram os Apóstolos, que fugiram diante da morte de Cristo, e iam tristes pelo caminho, ou se esconderam no Cenáculo com medo dos judeus. Porque Cristo ressuscitou ao terceiro dia. A Igreja, ela também ressuscitará. A vida divina que não a abandona, mesmo quando o Corpo humano da Igreja morre como Cristo morreu, ressurgirá da morte para uma vida nova. 

Então estaremos no júbilo e na alegria. A Santa Igreja se apresentará a nós em seu Corpo glorioso, como Jesus se apresentou diante dos Apóstolos e de seus discípulos. Então terá chegada a hora do derradeiro combate contra o Anti-Cristo, e Jesus o derrotará, enfim, com o sopro da sua boca.

Trecho Retirado de: http://permanencia.org.br/drupal/node/4627

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A vigilância e a mortificação


PIO XII
  
[..] Tal vigilância de todos os instantes e em todas as circunstâncias é absolutamente necessária, "porque a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne" (Gl 5,17). Se cedemos, pouco que seja, às seduções do corpo depressa seremos levados até essas "obras da carne" enumeradas pelo Apóstolo (cf. Gl 5,1921), que são os vícios mais vergonhosos da humanidade. 


Por este motivo, é preciso vigiar primeiramente os movimentos das paixões e dos sentidos, e dominá-los com uma vida voluntariamente austera e com a mortificação corporal, para os submeter à reta razão e à lei divina: "Os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os vícios e concupiscências" (Gl 5,24). O apóstolo das gentes confessa de si mesmo: "Castigo o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser réprobo" (1Cor 9,27). Todos os santos e santas assim vigiaram os seus sentidos e reprimiram-lhes os movimentos, às vezes muito violentamente, segundo as palavras do divino Mestre: "Digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. E se o teu olho direito te serve de escândalo, arranca-o e lança-o para longe de ti, porque é melhor para ti que se perca um dos teus membros, do que ser o teu corpo lançado no inferno" (Mt 5,28-29). Essa recomendação mostra bem que nosso Redentor exige antes de tudo que não consintamos nunca no pecado, nem por pensamento, e que com a maior energia cortemos em nós tudo o que poderia, mesmo levemente, manchar esta virtude belíssima. Nesta matéria, nenhuma vigilância nem severidade é excessiva. E se má saúde ou outras razões não nos permitem pesadas austeridades corporais, nunca elas nos dispensam da vigilância e da mortificação interior.
(SACRA VIRGINITAS)

terça-feira, 1 de abril de 2014

A aversão ao sacrifício e as lições dos mistérios dolorosos

Papa Leão XIII

Mal funestíssimo, que Nós nunca deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e ruinosamente envenena as almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as adversidades.

De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam, a serena liberdade de espírito como um prêmio para quem exercita a virtude e suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma quimérica perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as comodidades terrenas.

Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda debilita fatalmente as almas, que, mesmo quando não se arruínam totalmente, ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem vergonhosamente em face dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.

Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que, pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.

Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoador da fé", começou a fazer e a ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.

Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os clamores de todo um povo.

Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espadácia dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das dores.

Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com paciência.

É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que, depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.

A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu programa, mais com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e morramos com Ele" (Jo. 11, 16).

Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais, a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.

Trecho da Encíclica Laetitiae Sanctae, do Papa Leão XIII

quarta-feira, 19 de março de 2014

“O moderno e o eterno”: Lançado novo livro escrito pelo editor do blog Arena da Teologia, Claudiomar Filho


Teólogo e pós-graduado em História, Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho está lançando seu segundo livro, intitulado de “O moderno e o eterno – A reforma litúrgica de 1969: um pouco de história acerca da mudança no rito da Santa Missa”. A obra, extrato de uma pesquisa histórica desenvolvida a partir da visão dos católicos ditos tradicionalistas, retrata a motivação, fatos e consequências da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II para o catolicismo.

Episódios pouco conhecidos dos católicos são trazidos à tona, bem como se tenta desvendar os reais motivos para a realização de uma reforma na celebração da Santa Missa, algo tido como acontecimento improvável para o mundo católico após a promulgação da Bula Quo Primum Tempore, um documento do Papa São Pio V que, em 1570, tornava definitiva a forma com a qual se deveria celebrar a Santa Missa a partir de então.

Claudiomar é fiel católico, membro da Capela de Santo Agostinho, de  Tradição Católica na cidade de Parnaíba - PI, comunidade amiga da Fraternidade São Pio X. Também escreve poesias, tendo lançado seu primeiro livro "A Conversão do Poeta" em 2008, uma coletânea de poesias que refaz sua caminhada na descoberta do catolicismo tradicional.


O livro pode ser adquirido através do site Clube de Autores no link:
http://clubedeautores.com.br/book/160525--O_Moderno_e_o_Eterno?topic=religion#.UynFeYXErIU
 

Boa leitura a todos.

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domingo, 16 de março de 2014

A santidade dos santos



"Se eu não for santo, minha vida não valeu nada.”- São Domingos Sávio.

“Se estivermos unidos à vontade divina em todas as tribulações, é certo, vamos nos tornar santos e seremos os mais felizes do mundo” – Santo Afonso de Ligório

“A santidade consiste: primeiro numa verdadeira renúncia de si mesmo; segundo, numa total mortificação das próprias paixões; terceiro, numa perfeita conformidade com a vontade de Deus” – Santo Afonso de Ligório

“Os santos consideram como presentes as doenças e as dores que Deus lhes manda” – Santo Afonso de Ligório

“Quero que sejais santos. Tudo que vos acontece tem essa finalidade” – Santa Catarina de Sena

“Quem procura a perfeição deve evitar dizer: fizeram-me isto sem razão. Se queres carregar a cruz, mas somente aquela que se apóia na razão, a santidade não é para ti” – Santa Tereza d’Ávila.

“Nossa perfeição consiste em saber que não somos perfeitos” – Santo Agostinho

“Se podes ser melhor do que és, é evidente que ainda não és tão bom como deves”. - Santo Agostinho

“Quem deseja de verdade a perfeição nunca deixa de progredir nela, se não ficar desanimado vai consegui-la” – Santo Afonso de Ligório.

“Na caminhada para Deus, quem não avança sempre retrocede arrastado pela correnteza de nossa natureza corrompida”. Santo Afonso de Ligório

“Ninguém se aproxima tanto do conhecimento da verdade como quem compreende que, tratando-se das realidades divinas, mesmo se já progrediu bastante, resta-lhe sempre algo a aprender” – São Leão Magno.

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terça-feira, 11 de março de 2014

A obrigação que têm os cristãos de tender à perfeição

Adolph Tanquerey

Examinemos se há para nós verdadeira obrigação de progredir nesta vida, ou se não basta guardá-la preciosamente como se guarda um tesouro.

Exporemos: 1° a obrigação em si mesma; 2° os motivos que tornam este dever mais fácil.

A obrigação propriamente dita

Em matéria tão delicada importa usar da maior exatidão possível. É certo que é necessário e suficiente morrer em estado de graça, para ser salvo; parece, pois, que não haverá para os fiéis outra obrigação estrita mais que a de conservar o estado de graça. Mas, precisamente, a questão é saber se pode alguém conservar por tempo notável o estado de graça, sem se esforçar para fazer progressos. Ora, a autoridade e a razão iluminada pela fé mostram-nos que, no estado de natureza decaída, ninguém pode permanecer muito tempo no estado de graça, sem fazer esforços para progredir na vida espiritual, e praticar de vez em quando alguns dos conselhos evangélicos.

O argumento de autoridade

1° A Sagrada Escritura não trata diretamente esta questão: depois de assentado o princípio geral da distinção entre os preceitos e os conselhos, não diz geralmente o que nas exortações de Nosso Senhor Jesus Cristo, é obrigatório ou não. Mas insiste tanto na santidade que convém aos cristãos, põe-nos diante dos olhos um ideal tão algo de q perfeição, prega tão abertamente a todos a necessidade da abnegação e da caridade, elementos essenciais da perfeição, que, para qualquer espírito imparcial, se infere a convicção de que, para salvar a alma, é necessário, em certos momentos fazer mais do que o estritamente mandado, e, por conseqüência, esforçar-se por progredir.

A) Assim, Nosso Senhor apresenta-nos como ideal de santidade a mesma perfeição do nosso Pai celestial: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”[1]; assim pois, todos os que têm a Deus por Pai, devem-se aproximar da perfeição divina; o que não se pode evidentemente fazer sem algum progresso. E, em última análise, todo o sermão do monte não é mais que o comentário, o desenvolvimento deste ideal. — o caminho para isso é o da abnegação, da imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo e do amor de Deus: “Se alguém vem a mim, e não odeia (isto é, não sacrifica) o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos, os seus irmãos e até mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo[2]. É necessário, pois, em certos casos, preferir Deus e a sua vontade ao amor de seus pais, de sua mulher, de seus filhos, de sua própria vida e sacrificar tudo, para seguir a Jesus: o que supõe coragem heróica, que não se possuirá no momento crítico, se a alma se não foi preparando para isso por meio de sacrifícios de superrogação. Não há dúvida que este caminho é estreito e dificultoso, e muitos poucos o seguem; mas Jesus quer que se façam sérios esforços para entrar pela porta estreita [3]. Não será isto reclamar que tendamos à perfeição?

B) Os Apóstolos não usam de linguagem diversa; S. Paulo lembra muitas vezes aos fiéis que foram escolhidos para serem santos”[4]: o que certamente não podem fazer, sem se despojarem do homem velho e revestirem do novo, isto é, sem mortificarem as tendências da natureza perversa e sem se esmerarem em reproduzir as virtudes de Jesus Cristo. Ora isso é lhes impossível, ajunta São Paulo, sem se esforçarem por chegar “à medida do completo crescimento da plenitude de Cristo”[5]; o que quer dizer que estando incorporados em Cristo, somos seu complemento, e a nós nos cumpre pelo progresso na imitação das suas virtudes, fazê-lo crescer, completá-lo. São Pedro quer também que todos os seus discípulos sejam santos como aquele que os chamou à salvação”[6]. Podem-no acaso ser, se não progridem na prática das virtudes cristãs? São João, no último capítulo do Apocalipse, convida os justos a não cessarem de praticar a justiça e os santos a santificarem-se ainda mais [7].

C) É isto mesmo o que se infere ainda da natureza da vida cristã que, no dizer de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus discípulos, é um combate, em que a vigilância e a oração, a mortificação e o exercício positivo das virtudes são necessários para alcançar a vitória: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentação[8]... Tendo de lutar não somente contra a carne e o sangue, isto é, contra a tríplice concupiscência, senão ainda contra os demônios que a atiçam em nós, necessitamos de nos armar espiritualmente e combater com valor. Ora, numa luta prolongada, a derrota é quase fatal para quem se conserva unicamente na defensiva; é mister, pois, recorrer aos contra-ataques, isto é, a prática das virtudes, à vigilância, à mortificação, ao espírito da fé e confiança. 
É esta exatamente a conclusão que tira São Paulo, quando, depois de haver descrito a luta que temos de sustentar, declara que devemos estar armados dos pés à cabeça, como o soldado romano, os rins cingidos da verdade, revestidos da couraça da justiça, e as sandálias nos pés, prontos a anunciar o Evangelho da paz, com o escudo da fé, o capacete da salvação e a espada do Espírito[9]... E com isto nos mostra que, para triunfar dos nossos adversários, é necessário fazer mais do que o estritamente prescrito.

2° A Tradição confirma esta doutrina. Quando os Santos Padres querem insistir sobre a necessidade da perfeição de todos, dizem-nos que no caminho que conduz a Deus e à salvação, não se pode ficar estacionário: é forçoso avançar ou recuar. 
Assim, Santo Agostinho, fazendo notar que a caridade é ativa, adverte-nos que não devemos parar no caminho, precisamente porque, parar é recuar[10], e o seu adversário, Pelágio, admitia o mesmo princípio; tal é a sua evidência! E o último dos Padres, São Bernardo, expõe esta doutrina de forma empolgante. “Não queres progredir?  — Não — Queres então recuar? — De modo nenhum. — Que queres então? — Quero viver de tal maneira que fique no ponto aonde cheguei... — Queres o impossível, pois que neste mundo nada permanece no mesmo estado...”[11]. E noutra parte acrescenta: “É absolutamente necessário subir ou descer; se se tenta parar, cai-se infalivelmente”[12]. E assim o Papa Pio XI, na sua Encíclica de 26 de janeiro de 1932, sobre São Francisco de Sales, declara peremptoriamente que todos os cristãos, sem exceção, têm obrigação de tender à santidade”[13].

O argumento da razão

A razão fundamental, pela qual nos é necessária tender à perfeição, é sem dúvida a que nos dão os Santos Padres.

1° Toda a vida, sendo como é um movimento, é essencialmente progressiva, neste sentido que, quando cessa de crescer, começa a enfraquecer. E a razão disto é que há, em todo o ser vivo, forças de desagregação que, se não são neutralizadas, acabam por produzir a doença e a morte. O mesmo se passa em nossa vida espiritual: ao lado das tendências que nos levam para o bem, há outras, muito ativas, que nos arrastam para o mal; para as combater, o único meio eficaz é aumentar em nós as forças vivas, isto é, o amor de Deus e as virtudes cristãs; então as tendências más vão enfraquecendo.

Mas, se deixamos de fazer esforços por avançar, os nossos vícios acordam, retomam forças, atacam-nos com mais viveza e freqüência; e, se não despertamos do nosso torpor chega o momento em que, de capitulação em capitulação, caímos no pecado mortal.[14] É esta, infelizmente, a história de muitas almas, como bem o sabem os diretores experimentados.
Uma comparação no-lo fará compreender. Para alcançarmos a salvação, temos que vencer uma corrente mais ou menos violenta, a das nossas paixões desordenadas, que nos levam para o mal. Enquanto fizermos esforço para impelir a nossa barca para a frente, conseguiremos subir a corrente ou ao menos contrabalançá-la; no dia em que cessarmos de remar, seremos arrastados pela corrente, e recuaremos para o Oceano, onde nos esperam as tempestades, isto é, as tentações graves e talvez quedas lamentáveis. 

2° Há preceitos graves que não se podem observar em certos momentos senão por meio de atos heróicos. Ora, em conformidade com as leis psicológicas, ninguém é geralmente capaz de praticar atos heróicos, se não se foi antecipadamente preparando para isso com alguns sacrifícios, ou, por outros termos, com atos de mortificação. Para tornarmos esta verdade mais tangível, demos alguns exemplos. Tomemos o preceito da castidade, e vejamos o que ele exige de esforços generosos, por vezes heróicos, para ser guardado toda a vida. Até o casamento (e muitos jovens não se casam antes dos 28 ou 30 anos), é a continência absoluta que é necessário praticar sob pena de pecado mortal. Ora, as tentações graves começam para quase todos com os anos da puberdade, às vezes antes; para lhes resistir vitoriosamente, é preciso orar, abster-se de leituras, representações, ou relações perigosas, penitenciar-se das menores capitulações e aproveitar-se dos seus desfalecimentos, para se levantar imediata e generosamente, e tudo isto durante um longo período da vida. Não supõe acaso tudo isto esforços mais que ordinários, algumas obras de super rogação? Contraído que for o matrimonio, ninguém fica ao abrigo das tentações graves. Há períodos em que é força praticar a continência conjugal; ora, para o fazer, é preciso coragem heróica, que não se adquire senão com o longo hábito da mortificação do prazer sensual, e pelo exercício constante da oração.

Tomem-se agora as leis da justiça nas transações financeiras, comerciais e industriais, e reflita-se no sem-número de ocasiões, que se apresentam, de a violar, na dificuldade de praticar a honradez perfeita num meio em que a concorrência e a cobiça fazem subir os preços além dos limites permitidos, e ver-se-á que, para um homem permanecer simplesmente honrado, precisa duma soma de esforços e de abnegação mais que ordinária. Será porventura capaz desses esforços quem se acostumou a não respeitar mais que as prescrições graves, quem se permitiu com a sua consciência pactuações, a princípio leves, depois mais sérias e por fim perturbadoras? Para evitar esse perigo, não será necessário fazer um pouco mais do que é estritamente mandado, a fim de que a vontade, fortificada por estes atos generosos, tenha vigor suficiente para não se deixar arrastar a atos de injustiça?

Verifica-se, pois, de todos os lados esta lei moral que para não cair em pecado, é necessário evitar o perigo por meio de atos generosos, que não são diretamente objeto de preceito. Por outros termos, para acertar no alvo, é mister fazer a pontaria mais alto; e, para não perder a graça, é necessário fortificar a vontade contra as tentações perigosas por meio de obras de super-rogaçao, numa palavra, aspirar a uma certa perfeição.

Os motivos que tornam este dever mais fácil

Os numerosos motivos, que podem levar os simples fiéis a tender à perfeição, reduzem-se a três principais: 1° o bem da própria alma; 2° a glória de Deus; 3° a edificação do próximo.

1° O bem da própria alma é, antes de tudo, a segurança da salvação, a multiplicação dos méritos, e por fim as alegrias da consciência.

A) A grande obra que temos de levar a cabo na terra, a obra necessária, e, a bem dizer, a única necessária, é a salvação da nossa alma. Se a salvarmos, ainda quando percamos todos os bens da terra, parentes, amigos, reputação, riqueza, tudo fica salvo; no céu encontraremos, centuplicado, tudo quanto perdemos, e para toda a eternidade. Ora, o meio mais eficaz para assegurar a salvação da alma, é tender à perfeição, cada um segundo o seu estado; quanto mais o fazemos, com discrição e constância, tanto mais nos afastamos, por isso mesmo, do pecado mortal, única força que nos pode condenar. E na verdade, é evidente que, quando alguém se esforça sinceramente por se ir aperfeiçoando, desvia por isso mesmo as ocasiões de pecado, fortifica a vontade contra as surpresas que o espiam, e, chegado o momento da tentação, a vontade, já aguerrida pelo esforço para conseguir a perfeição, acostumada a orar para assegurar a graça de Deus, repele com horror o pensamento do pecado grave. Quem, pelo contrário, se permite a si mesmo tudo o que não é falta grave expõe-se a cair, quando se apresentar uma violenta e longa tentação: habituado a ceder ao prazer em coisas menos graves, é de recear que, arrastado pela paixão, termine por sucumbir, como o homem que vai costeando continuamente o abismo acaba por se despenhar.
Para não corrermos perigo de ofender a Deus gravemente, o melhor meio é afastar-nos das bordas do precipício, fazendo mais do que é preceituado, esforçando-nos por avançar para a perfeição; quanto mais a ela tendermos com prudência e humildade, tanto mais segura teremos a salvação eterna.

B) Por esse meio aumentam-se também cada dia os graus de graça habitual que se possuem e os de glória a que se tem direito. Vimos, efetivamente, que todo o esforço sobrenatural, que por Deus faz uma alma em estado de graça lhe granjeia um aumento de méritos. Quem não se importa da perfeição e cumpre o seu dever com mais ou menos desleixo, poucos merecimentos adquire, como dissemos, n° 24. Quem tende, porém, à perfeição e se esforça por avançar, alcança larga cópia de merecimentos. Assim, cada dia aumenta o capital de graça e de glória; os seus dias de méritos: cada esforço tem como recompensa um aumento de graça na terra e mais tarde um peso imenso de glória[15].

C) Se se quer prelibar um pouco de felicidade na terra, nada melhor que a piedade que, como diz São Paulo, “é útil para tudo e tem promessas para a vida presente e futura”[16].

A paz da alma, a alegria da boa consciência, a felicidade de estar unido a Deus, de progredir em seu amor de chegar a maior intimidade com Nosso Senhor Jesus Cristo, tais são algumas das recompensas com que Deus favorece desde agora os seus fiéis servos, no meio das suas provações, com a esperança tão confortada da eterna felicidade.

2° A glória de Deus. Nada mais nobre que procurá-la, nada mais justo, se nos lembrarmos do que Deus fez e não cessa de fazer por nós. Ora, uma alma perfeita dá mais glória a Deus que mil almas vulgares porque multiplica de dia para dia os seus atos de amor, reconhecimento e reparação, orienta nesse sentido a sua vida inteira pelo oferecimento muitas vezes renovado das suas ações ordinárias, e assim glorifica a Deus, de manhã até a noite.

3° A edificação do próximo. Para fazer bem à roda de nós, converter alguns pecadores ou incrédulos e confirmar no bem as almas vacilantes, não há nada mais eficaz que os esforços que se emprega para melhor viver o Cristianismo: quanto a mediocridade da vida atrai sobre a religião as crítica dos incrédulos, tanto a verdadeira santidade excita a sua admiração para com uma religião que é capaz de produzir tais efeitos: É pelo fruto que se conhece a árvore[17]. A melhor apologética é a do exemplo, quando se lhe sabe juntar a prática de todos os deveres sociais. E é também um excelente estímulo para os medíocres, que adormeciam na indolência, se os progressos das almas fervorosas os não viessem arrancar do seu torpor.

Muitas almas hoje em dia são acessíveis a este motivo: neste século de proselitismo, os leigos compreendem melhor que outrora a necessidade de defender e propagar a fé pela palavra e pelo exemplo. Compete aos sacerdotes favorecer este movimento, formando à sua roda um escol de cristãos esforçados que, não contentes duma vida medíocre e vulgar, se esmerem por avançar cada dia no cumprimento de todos os seus deveres, deveres religiosos em primeiro lugar, mas também deveres cívicos e sociais. Serão excelentes colaboradores que, penetrando em meios pouco acessíveis a religiosos e sacerdotes, os auxiliarão eficazmente no exercício do apostolado.

(Adolph Tanquerey, A Vida Espiritual Explicada e Comentada, cap. IV, art. I)

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Notas:

[1] Mt. 5, 48.
[2] Lc. 14, 26-27; cf. Mt. 10,37-38.
[3] Lc. 13, 24; Mt. 7, 13-14.
[4] Ef. 1, 4.
[5] Ef. 4, 10-16 Ler todo esse passo.
[6] I Pd1, 15.
[7] Ap. 22, 11.
[8] Mt. 26, 41.
[9] Ef. 6, 14-17.
[10] Sermo CLXIX n. 18.
[11] Epist. CCLIV ad abbatem Suarinum, n. 4.
[12] Epist. XCI ad abates Suessione congregatos, n. 3.
[13] “Nec vero quisquam putet ad paucos quosdam lectissimos id pertinere, ceterisque in inferiore quodam virtutis gradu licere consistere. Tenentur enim hac lege omnes, nullo excepto”. (A. A. S. XV, 50).
[14] É esta a doutrina comum dos teólogos, que assim resume Suarez, De Religione, t. IV, L. I, c. 4, n. 12: “Vix potest moraliter contingere ut homo etiam saecularis habbeat firmum propositum nunquam peccandi mortaliter, quin consequenter nonnula opera supererogationis faciat, et habeat formale vel virtuale propositum illa faciendi”.
[15] II Cor. 4, 17.
[16] I Tim. 4, 8.
[17] Mt. 7, 20.

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