quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A rapidez do tempo

Por Pe. P. Huguet

Os anos temporais passam. Os seus meses reduzem-se em semanas. As semanas em dias, os dias a horas. As horas a momentos, que são os únicos que possuímos, mas que não gozamos senão à medida que acabam e tornam a nossa natureza mortal, a qual no entanto deve para nos ser amável. E visto esta vida estar cheia de miséria, não poderíamos ter consolação mais sólida do que a de estarmos certos de que aquela se vai dissipando para dar lugar à santa eternidade, que nos  está preparada na abundância da misericórdia de Deus, e à qual a nossa alma aspira incessantemente por contínuos pensamentos que sua própria natureza lhe sugere, embora não possa esperar senão por outro pensamento mais elevado que o autor da natureza sobre ela derrama.

Eu não estou atento à eternidade senão com muita suavidade, porque, digo eu, como é que a minha alma poderá estender o seu pensamento a este infinito se não tivesse alguma proporção com ele? Porém, quando conheço que o meu desejo corre com o meu pensamento para esta mesma eternidade, a minha alegria cresce sobremaneira. Porque sei que desejamos com um verdadeiro desejo senão coisas possíveis. O meu desejo de certificar-me pois de que posso ter a eternidade. Que me resta pois senão esperar possuí-la? E isto concede-se-me pela infinita bondade daquele que não criaria uma alma capaz de pensar e tender para a eternidade se não quisesse dar-lhe os meios de a conseguir.

Digamos pois muitas vezes: tudo passa, e após poucos dias desta vida mortal que nos restam, virá a infinita eternidade. Pouco nos importa que tenhamos aqui comodidades ou não, contanto que sejamos felizes por toda a eternidade. Seja esta eternidade santa que nos espera, a nossa consolação, e o sermos cristãos, membros de Jesus Cristo, regenerados com o seu sangue, porque só consiste a nossa glória neste divino Salvador ter morrido por nós.

Uma alma grande eleva os seus melhores pensamentos, afetos e desejos ao infinito da eternidade, e visto que é eterna, reputa em pouco o que não é. Tem por pequeno o que não é infinito, e elevando-se acima de todas as delícias, ou antes vis joguetes que esta vida nos apresenta, tem os olhos fixos na imensidade dos bens e anos eternos.

Ó, quanto é desejável a eternidade comparada com estas miseráveis e perecíveis vicissitudes! Deixemo-nos correr o tempo, com o qual corremos a pouco e pouco para sermos transformados na glória dos filhos de Deus. Ah! Quando penso como empreguei o tempo de Deus, aflige-me o pensar que ele não me queira dar a sua eternidade, pois que só a dará aos que empregaram bem o tempo.

Ó, Deus! Os anos correm imperceptivelmente uns após outros, e terminando a sua duração, terminam a nossa vida mortal, e acabando, acabam a nossa vida. Ó, como é incomparavelmente mais amável a eternidade! [...] Possais vós possuir este bem admirável da santa eternidade em tão alto grau quanto eu vos desejo! Que felicidade para a minha alma se Deus concedendo-lhe misericórdia, lhe patenteasse esta doçura.

Extraído da obra "Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales"

Clique aqui e COMENTE

domingo, 23 de agosto de 2015

A crise por que passa a Igreja e a confiança na Providência Divina


por Pe Christian Bouchacourt

A respeito das provas da vida, e particularmente daquelas que a Igreja atravessa, é preciso que vivamos o tempo presente sem buscar nos adiantarmos à hora de Deus, sem forçar a Providência. Guardemos no fundo das nossas almas uma firme confiança nesse socorro que nunca nos faltará se nos comportarmos como bons filhos de Deus.

Voltemos a ler no Antigo Testamento o livro de Daniel, capítulo 13: Deus salva a vida da casta Susana e a recompensa por sua confiança justamente quando a situação parecia perdida por causa dos falsos testemunhos dos dois anciãos, que foram finalmente condenados no lugar dela. Consideremos a realização da promessa de Nosso Senhor que tinha anunciado aos Apóstolos e aos discípulos que enviaria “outro Consolador para que ficasse eternamente convosco, o Espírito de verdade (...) que vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”. E de fato o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes.

Meditem também na oração que nos ensinou Nosso Senhor. Ele nos convida a pedir o pão de cada dia, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, e não o que vamos a necessitar dentro de um mês ou de um ano. Pensemos também na promessa que fez aos que sofreriam por Ele: “Não estejais com cuidado de que modo respondereis ou que direis, porque o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que deveis dizer”. O provérbio popular “antes da hora ainda não é a hora” se inspira nessa promessa. Assim sendo, guardemos a paz e nos mantenhamos longe das inquietudes que perturbam a alma e a afastam do essencial.

Um dia, então, quando soar a hora de Deus, Roma manifestará à FSSPX seu reconhecimento por sua fidelidade e se apoiará nela para reconstruir a cristandade. Para acelerar a chegada desse dia, permaneçamos firmes na fé, sem compromissos com os erros que pululam na Igreja. Cumpramos nosso dever de estado, façamos penitência, estudemos a nossa santa religião e tenhamos confiança como Nossa Senhora à espera da ressurreição do seu Filho no dia seguinte à Sexta-Feira Santa.

Terminarei estas considerações deixando-lhes esta oração composta por Madame Elizabeth, irmã do Rei Luís XVI. Sabendo que seria condenada pela Revolução por ódio à fé, ela se preparava para os acontecimentos trágicos que a esperavam. Morreu, de fato, na forca, depois de ter recitado cada dia esta oração que lhe foi de grande ajuda e que poderíamos fazer nossa: “Desconheço, Senhor, o que me acontecerá hoje. Tudo o que sei é que nada do que me acontecer virá sem que tenhais previsto desde toda a eternidade. Isso me basta, meu Deus, para estar tranquila. Adoro os vossos desígnios eternos e me submeto de todo o coração; quero tudo, aceito tudo, faço-vos o sacrifício de tudo. Uno este sacrifício ao de vosso amado Filho, meu Salvador, pedindo-vos, por seu Sagrado Coração e por seus méritos infinitos, a paciência diante dos males e a perfeita submissão que vos é devida em tudo o que desejais e permitis”.

Que Deus os abençoe!

Padre Christian Bouchacourt
Superior do Distrito da América do Sul da FSSPX

Trecho final do editorial da Revista Iesus Christus nº139

sábado, 22 de agosto de 2015

Contra os hereges

Manuel Botelho de Oliveira
Que Lei segue, soberbo Calvinista?
que Igreja formas, cego Luterano?
que Deus adoras, pérfido Ariano?
que fé procuras, vário Donatista?

Não sabes tu que na imortal conquista
quem é Cristão submete o ser humano:
e se um Deus reconhece soberano,
na unidade da fé também se alista.

Não queiras obstinado que se veja
tua fé, tua lei, sem forma alguma
com que o Juízo teu em vão peleja.

Olha que a fé e a Igreja há de ser uma,
mas se tens outra Lei, tens outra Igreja,
e se tens várias, fé não tens nenhuma.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Em busca do verdadeiro catolicismo

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

No embate que hoje há entre o novo e o “de sempre”, no confronto do moderno contra o eterno, muitas implicações recaem sobre aquilo em que se deve crer. O avanço das novas doutrinas assumindo o lugar das verdades eternas, gerou dúvidas e incertezas em grande parte dos fieis, mesmo naqueles que se sentiam seguros na fé. E o mais desalentador para aquele que deseja ser um autêntico católico é ter que lançar-se no meio de tantas variantes doutrinais e práticas religiosas em busca do verdadeiro catolicismo.

São Vicente de Lerins, na obra Comonitório, expõe que “parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica – nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia – mas que, desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.”

A partir desse ensinamento, natural é ver que toda doutrina nova, desconexa da doutrina já estabelecida, não tem nada a ver com a religião revelada do céu.

Em nossa época, porém, um olhar atento faz perceber o quanto estamos rodeados de tantas e novas doutrinas, frutos de novas teologias e novas hermenêuticas provenientes de um novo “espírito”, que incita os fieis a se atualizarem na fé, abandonando doutrinas antigas, tentando fazer acreditar que estas já não são apropriadas para o nosso tempo.
Ao verdadeiro católico, não há motivo para envergonhar-se de ser membro de uma Igreja de vinte séculos, de sentir-se ultrapassado frente ao mundo moderno. Pelo contrário, só uma Igreja de vinte séculos de existência liga-se no tempo a Jesus Cristo, e nos indica ter sido fundada pelo próprio Deus que se fez homem.

Da mesma forma, não há porque desmerecer seus autênticos ensinamentos e práticas mais antigas. São Vicente de Lérins nos deixou uma eficaz regra outrora utilizada para saber se uma doutrina é verdadeiramente católica: Basta verificar se ela foi crida sempre, em toda parte e por todos os católicos. Portanto, são exatamente as novas doutrinas, que se espalham por aí, que não passam nesta regra.

É de temer e tremer quando vislumbramos tão explícito desprezo às palavras do apostolo Paulo “Ó Timóteo, guarda o depósito da fé, evitando as novidades profanas de palavras, e as contradições duma ciência de falso nome, professando a qual alguns se  desviaram da fé” (I Tm 6, 20-21).



Avancemos, pois, no conhecimento da Tradição Católica, a doutrina de sempre.

(Editorial de Tradição Católica nº03)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...