quarta-feira, 27 de setembro de 2017

STF aprova ensino religioso confessional em escolas públicas



Por seis votos a cinco, ministros permitem que professores concentrem aula em religião específica. Com a decisão, representantes de confissões religiosas podem ser admitidos para ministrar a disciplina.

Por seis votos a cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou nesta quarta-feira (27/09) o ensino religioso confessional em escolas públicas. A decisão permite que representantes de confissões religiosas sejam admitidos como professores.

O julgamento do caso teve início no final de agosto. A ação de inconstitucionalidade, movida pela Procuradoria-Geral da República (PGR), argumentava que a disciplina deveria oferecer uma visão plural das religiões, e ao ser baseada somente na religião católica afetaria o princípio constitucional da laicidade.

O relator da ação, o ministro Luís Roberto Barroso, entendeu que a disciplina não poderia ser vinculada a uma religião específica. "Uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar a sua fé. Isso seria uma recaída no velho patrimonialismo brasileiro de apropriação privada do espaço público", argumentou.

Seu voto foi seguido por Rosa Weber, Luiz Fux, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello. Para eles, o ensino religioso deveria se concentrar na exposição histórica, social e doutrinária das diferenças crenças, além do ateísmo e do agnosticismo.

Já os ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes julgaram a ação improcedente e votaram a favor do ensino religioso confessional.

"Você não está ensinando religiosamente aquele que se inscreveu numa determinada fé se você descreve dessa, daquela ou da outra. Isso pode ser inclusive dado como história das religiões, mas não é ensino religioso", defendeu Moraes.

O desempate do placar foi decidido pela presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, que votou pelo ensino religioso confessional. Para ela, a disciplina, que deve ser ofertada em caráter facultativo, justamente por não ser obrigatória, pode ter conteúdo confessional.

O ensino religioso nas escolas públicas é previsto na Constituição como disciplina do ensino fundamental, no entanto, ela é facultativa. O julgamento tratou apenas das diretrizes para a rede pública. Nas escolas particulares, a matéria fica a critério de cada instituição.

CN/abr/ots
Fonte: http://m.dw.com/pt-br/stf-aprova-ensino-religioso-confessional-em-escolas-públicas/a-40716363


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Delimitando margens seguras para falar sobre Ignorância Invencível

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Acerca da hipótese teológica da Ignorância invencível e sua relação com o dogma Fora da Igreja não há salvação, uma palavra que parece impelir todos a aceitá-la como sendo a mais sensata e de margens seguras é a que apresenta as exceções aos dogmas como algo possível, de direta interferência divina. São os milagres. Algo que rompe as leis da natureza por uma força sobrenatural: É dogma que se morre uma só vez. Cristo ressuscitou Lázaro, que voltara a morrer posteriormente. É dogma a transmissão do pecado original. Maria nasceu sem o pecado original. Quando se constata a existência de tais ocorrências, não sobrevém dúvida quanto à vigência e continuidade do dogma, mas somente se endossa a sobrenaturalidade do poder divino na individualidade do caso específico querido por Deus.

Milagres não se sistematizam. Mas, a sobrenatural interferência divina tem incidência durante toda a história da humanidade, mesmo depois de já se ter provas da instalação da Igreja visível na terra, e se ter findado o processo de manifestação da revelação.

É conhecida a promessa de Jesus de que os seus discípulos fariam milagres ainda maiores do que os que Ele fez. Assim se deu potencialmente com os apóstolos e com as gerações mais próximas deles, os quais tinham a necessidade de ratificar que aquela Igreja, que se estabelecia pelo mundo, era a verdadeira. Coisa que nos dias de hoje não se tem mais que provar, pois, o que lhes aconteceu, a humanidade hoje conhece pela autêntica ciência histórica. Aos seus ensinamentos foram somados outros, nada se diminuiu no Depósito da Fé.

Fora da Igreja nunca haverá salvação, pois não há contradição em Deus. Se o Espírito Divino iluminou a Igreja quando ela afirmou e reafirmou o dogma, não se verá da parte de Deus um ato que o desabone. Porém, é plano de Deus a salvação de todo justo.  Poderá, pois, haver uma ação direta de Deus em favor de um justo, caso esteja ele se encaminhando para a morte, sem pertencer à Igreja. O acontecimento de tal ato sobrenatural não vai, a partir de então, colocar em dúvida o dogma. Antes, enaltecerá a grandeza de Deus.

Então, neste caso, não é que se fará com que haja salvação fora da Igreja, mas, pode-se dar que, esta alma que não estava ligada à Igreja e prestes a morrer assim, terá extraordinariamente, antes de findar o processo da morte, sua inclusão entre os membros da Igreja, por único juízo de Deus que a terá como merecedora de tal galardão. Chega-se a conhecer exemplos de tais fatos nos relatos de muitos santos que, através de situações prodigiosas, foram encaminhados a justos que estavam prestes a morrer, evangelizando-os e batizando-os.  Ou seja, por uma visão humana a pessoa não pertenceria à Igreja, mas na visão de Deus a alma de tal pessoa fora incluída prodigiosamente, absolutamente, não afrontando o dogma.

Não convém estender tal entendimento da possibilidade da “salvação sem pertencer à Igreja” - como muito provavelmente se propagaria de forma indevida -, conduzindo-se a um relaxamento que culmine em um jargão mais ou menos nestes moldes: “Ah! Pode-se salvar sim. Basta que Deus queira.”

A hipótese da justificação atingida àquele que se encontra em ignorância invencível não é dogma, é hipótese teológica, a qual toca o dogma. Existindo a real possibilidade de haver um indivíduo invencivelmente ignorante quanto às verdades de fé que se devem saber para se salvar, se tal pessoa deva ser contada como um justo aos olhos de Deus, tem ele o auxílio divino que sobrenaturalmente o provê do necessário para incorporá-lo à Igreja antes que morra, pois que, fora da Igreja não há salvação. Não se trata de uma sistematização de uma possível exceção ao dogma, mas trata-se de verificar a infalível atuação da providência divina aos justos. Tal providência, sim, é um ato sistemático e ordinário de Deus.

Exige-se do ignorante invencível, mesmo em sua condição, o cumprimento da Lei Natural, para que possa pleitear de Deus a qualificação de justo. Não sendo assim, certamente será perdoado do pecado de não crer, mas será condenado justamente pelos outros terríveis pecados que cometeu e que o mantiveram na ignorância, não tendo adentrado na Igreja. 

Poder-se-ia encerrar aqui dizendo que “pelo menos se deve ter boa esperança quanto à eterna salvação de todos os que não se encontram de algum modo na verdadeira Igreja de Cristo”. Mas, por dever de católico, não se pode afirmar tal coisa, pois esta frase é a reprodução literal da condenação nº 17 do Silabo, de Pio IX.

Aos que possam ter como dura demais tal doutrina da Igreja, convém que busquem refletir o versículo 21 do primeiro capítulo da primeira carta de São Paulo aos coríntios, e entender que, visto que o mundo por meio de sua sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que creem.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

RESPOSTA A QUEM PERGUNTOU SOBRE DEUS - Jogral com estrofes em resposta a "Preguntitas sobre Dios", de Atahualpa Yupanqui

PERGUNTAS SOBRE DEUS (Tradução) / RESPOSTA A QUEM PERGUNTOU SOBRE DEUS
por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Um dia eu perguntei
Vovô onde está Deus?
Meu avô ficou triste
E nada me respondeu.

                    Hoje eu vou responder
                    Ao vovô e a quem perguntou
                    Deus está aonde estou
                    E está além do que eu posso ver

Meu avô morreu nos campos
Sem reza sem confissão
E os índios o enterraram
Com flauta de bambu e tambor

                    Triste do seu avô
                    Que morreu sem confessar
                    E sem reza pra alumiar
                    O caminho pr’onde a alma for

Depois de um tempo, eu perguntei
Pai, o que sabes de Deus?
Meu pai ficou sério
E nada me respondeu

                   Ver seu pai assim, também é triste
                   Não saber te orientar
                   Ao menos com fé afirmar
                   Que, sem dúvida, Deus existe!

Meu pai morreu na mina
Sem doutor, nem proteção
Cor de sangue mineiro
Tem o ouro do patrão

                   Quem nasceu, um dia morrerá
                   Ainda que tenha bom patrão
                   Mesmo que viva sem opressão
                   E o ouro, a morte devorará

Meu irmão vive nos montes
E não conhece uma flor
Suor, malária e serpentes
É a vida do lenhador

                   Viver nos montes, sem conhecer
                   Sem numa flor, Deus contemplar
                   Igual doença há que se comparar
                   É viver sem saber viver

E que ninguém lhe pergunte
Se sabe onde está Deus
Por sua casa não passou
Tão importante senhor

                   Também triste do seu irmão

                   Que a Deus não soube buscar
                   Quem poderá o salvar?
                   Sem guiar-se por Sua mão

Eu canto pelos caminhos
E quando estou na prisão
Escuto as vozes do povo
Que canta melhor do que eu

                    Sinto em você, sede de Deus
                    Pois sai à busca, a perguntar
                    Quer a Deus encontrar
                    Agindo nos caminhos teus

Há um assunto na terra
Mais importante que Deus
É que ninguém cuspa sangue
Para que outro viva melhor

                     Não se engane, por um momento
                     Mais importante que Deus não há!
                     Deus em primeiro lugar
                     Eis o primeiro mandamento

Que Deus vela pelos pobres,
Talvez sim, talvez não
Mas é certo que almoça
À mesa do patrão.  

                     Deus vela pelos pobres
                     E pelos ricos também
                     Dá o prêmio ou o castigo
                     Por suma justiça. Amém.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Em meio aos atuais “debates” em torno do homossexualismo, um achado dos escritos do Cardeal Ratzinger

(Caixa de comentários aberta para participações)

O problema do homossexualismo e do juízo ético acerca dos atos homossexuais tornou-se cada vez mais objeto de debate público, [...]

A teologia da criação, presente no livro do Gênesis, fornece o ponto de vista fundamental para a adequada compreensão dos problemas suscitados pelo homossexualismo. Na sua infinita sabedoria e em seu amor onipotente, Deus chama à existência toda a criação, como reflexo da sua bondade. Cria o homem à sua imagem e semelhança, como varão e mulher. Por isto mesmo, os seres humanos são criaturas de Deus chamadas a refletir, na complementariedade dos sexos, [...]

[...] o deterioramento devido ao pecado continua a desenvolver-se na história dos homens de Sodoma (cf. Gn 19, 1-11). Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso contra as relações homossexuais. Em Levítico 18, 22 e 20, 13, quando se indica as condições necessárias para se pertencer ao povo eleito, o Autor exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.

Tendo como tela de fundo esta legislação teocrática, São Paulo desenvolve uma perspectiva escatológica, dentro da qual repropõe a mesma doutrina, elencando também entre aqueles que não entrarão no reino de Deus os que agem como homossexuais (cf. 1 Cor 6, 9). Em outra passagem do seu epistolário, baseando-se nas tradições morais dos seus ancestrais, mas colocando-se no novo contexto do confronto entre o cristianismo e a sociedade pagã do seu tempo, ele apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade. Tomando o lugar da harmonia original entre Criador e criatura, o grave desvio da idolatria levou a todo tipo de excessos no campo moral. São Paulo aponta o exemplo mais claro desta desarmonia exatamente nas relações homossexuais (cf. Rm 1, 18-32). Enfim, em perfeita continuidade com o ensinamento bíblico, na lista dos que agem contrariamente à sã doutrina, são mencionados explicitamente como pecadores aqueles que praticam atos homossexuais (cf. 1 Tm 1, 10).

A Igreja, obediente ao Senhor que a fundou e a enriqueceu com a dádiva da vida sacramental, celebra no sacramento do matrimônio o desígnio divino da união do homem e da mulher, união de amor e capaz de dar a vida. Somente na relação conjugal o uso da faculdade sexual pode ser moralmente reto. Portanto, uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
Optar por uma atividade sexual com uma pessoa do mesmo sexo equivale a anular o rico simbolismo e o significado, para não falar dos fins, do desígnio do Criador a respeito da realidade sexual. [...]

Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus. [...]

Joseph Card. Ratzinger – EXCERTOS DA CARTA AOS BISPOS DA 
IGREJA CATÓLICA SOBRE O ATENDIMENTO PASTORAL DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS - 
Congregação para a Doutrina da Fé, 01/10/1986.


sábado, 16 de setembro de 2017

Amor aos inimigos: nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma


O que Cristo Nosso Senhor manda observar neste preceito tem por fim promover nossa paz com todos os homens. Ele mesmo disse, na explicação deste preceito: “Se ao levares tua oferta te ocorrer que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferenda diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois virás oferecer o teu sacrifício.”(Mt 5,23). E veja-se o mais que diz a mesma passagem. Na explicação destas palavras, precisa o pároco ensinar que nossa caridade deve abranger todos os homens, sem exceção alguma. Quando pois, explicar este Preceito, o pároco fará o que estiver ao seu alcance, para concitar os fiéis à prática dessa caridade, porque nela resplandece, sobremaneira, a virtude do amor ao próximo. Sendo o ódio expressamente proibido por este Preceito, porque “é homicida aquele que odeia a seu irmão”(I Jo 3, 15), segue-se necessariamente que isso também inclui o preceito do amor e da caridade .
Mas, ordenando o amor e a caridade, este preceito impõe também todos os deveres e traças, que costumam nascer da caridade. ''A caridade é paciente", diz São Paulo (I Cor 13, 4). Logo, aqui há para nós o preceito da paciência, pela qual havemos de possuir nossas almas, conforme ensina o Nosso Salvador. 
Benignidade e beneficência
Depois, uma companheira inseparável da caridade é a beneficência, porque a "caridade é benigna". Ora, a virtude da benignidade e da beneficência é de ampla atuação. Seu fito principal consiste, para nós, em dar de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede, de vestir aos que estão nus; em usar de maior largueza a generosidade, na medida que alguém mais precisar de nossa assistência.
Amor aos inimigos
Estes serviços de caridade e bondade, nobres por sua natureza, tornam-se muito mais grandiosos, quando são prestados aos inimigos. Pois Nosso Salvador declarou: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Mt 5, 41). O mesmo conselho dá o Apóstolo: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer. Se tiver sede, dá-lhe de beber. Fazendo assim, amontoarás brasas vivas sobre a cabeça dele. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”(Rm 12, 20 ss). Enfim, se considerarmos o preceito da caridade, enquanto esta é benigna, reconheceremos que ela nos obriga a praticar tudo o que se refira à mansidão, à brandura, e a outras virtudes semelhantes.
Perdão das injúrias
Um dever que, de muito, supera todos os mais, abrangendo em si toda a plenitude da caridade, e ao qual nos cumpre aplicar nosso maior esforço, consiste em esquecermos e perdoarmos, de bom coração, todas as injúrias recebidas. Para o conseguirmos na realidade, as Sagradas Escrituras nos exortam e aconselham muitas vezes, não só chamando bem-aventurados os que perdoam sinceramente (Mt 5, 4; 9, 44), mas também afirmando que eles já alcançaram de Deus o perdão de seus pecados; e que não alcançam perdão os que deixam de perdoar de fato, ou não querem fazê-lo de maneira alguma (Mt 6, 15; 18, 34). Ora, estando quase que arraigado no coração dos homens o instinto de vingança, faça o pároco todo o possível, não só para ensinar que o cristão deve perdoar e esquecer as injúrias, como também por deixar os fiéis plenamente persuadidos de tal obrigação. Desse ponto falam muito os escritores eclesiásticos. Deve o pároco consultá-los, a fim de poder quebrar a pertinácia daqueles que se obstinaram e empederniram no desejo de vingança. Tenha sempre à mão aqueles fortíssimos e oportuníssimos argumentos que os Santos Padres usavam com religiosa convicção, quando tratavam da presente matéria.
Motivação dessa caridade:
o sofrimento vem de Deus...
Para esse fim, são três as principais razões que o pároco deve desenvolver. A primeira é conseguir de quem se julga ofendido a firme persuasão de que a primeira causa de seu dano ou ofensa não é a pessoa, da qual deseja vingar-se. Assim procedeu Jó, aquele varão admirável que, sendo gravemente lesado pelos Sabeus, Caldeus, e pelo próprio demônio, não lhes atribuiu nenhuma responsabilidade; mas, como homem justo e sobremaneira piedoso, proferiu as acertadas palavras: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou” (Jó 1, 21). Pela palavra e pelo exemplo desse varão pacientíssimo, tenham os cristãos, como absoluta verdade, que tudo quanto sofremos nesta vida vem de Nosso Senhor, Pai e Autor de toda a justiça e misericórdia.
Os homens são meros instrumentos de Deus
Em Sua bondade, Ele não nos castiga, como se fôssemos Seus inimigos; pelo contrário, como a filhos é que nos educa e corrige. Se bem atendermos, os homens nestas coisas não deixam de ser realmente ministros e como que instrumentos de Deus. Pode o homem nutrir profundo ódio contra seu semelhante, e desejar a sua ruína total, mas não poderá absolutamente fazer-lhe mal algum, sem a permissão de Deus. Compenetrado desta verdade, aturou José, com paciência, as ímpias maquinações de seus irmãos, e Davi os doestos que lhe dirigia Semei (Gn 45, 4 ss.; 2Sm 16, 10 ss). Aqui vem a propósito um pensamento que São João Crisóstomo desenvolveu, com grande insistência e igual erudição: Ninguém pode ser lesado senão por si próprio. Pois os que se julgam mal tratados por outrem, quando examinarem a coisa com isenção de espírito, hão de descobrir que de outros não receberam nenhuma ofensa ou dano. Com serem injuriados por agentes exteriores, são eles que causam a si mesmos o maior dano, se por isso maculam o próprio coração com o pecado do ódio, da vingança e da inveja.
O perdão das ofensas traz vantagens
A segunda razão está em duas imensas vantagens, reservadas aos que, por filial amor a Deus, perdoam as ofensas de bom coração. A primeira vantagem é que Deus promete perdão dos próprios pecados a quem perdoa as ofensas de seus semelhantes. De tal promessa transparece o quanto Deus se compraz nesse ato de caridade.
A segunda vantagem é que assim conseguimos certa nobreza e perfeição da alma. Pois o perdão das injúrias nos torna, de certo modo, semelhantes a Deus, “que faz nascer o Seu sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos”.
Castigos da implacabilidade
A terceira razão para ser explicada, está nos castigos que havemos de incorrer, se não quisermos perdoar as injúrias que nos forem feitas. Às pessoas obstinadas em negar perdão aos inimigos, ponha-lhes o pároco diante dos olhos não só que o ódio é grave pecado, mas também que se incrusta cada vez mais na alma, quanto mais se prolongar a sua duração. Pois, quando tal sentimento de ódio se apoderou da alma, a pessoa fica sequiosa do sangue de seu inimigo, nutre plena esperança de poder vingar-se, vive dia e noite numa funesta agitação que a persegue continuamente. Assim parece que não abandona um instante sequer a ideia de homicídio ou de outra proeza nefasta. Acontece, pois, que tal pessoa nunca, ou só com muita dificuldade, se decide a perdoar plenamente, ou pelo menos em parte, as ofensas recebidas. Seu estado de alma, com razão, se compara ao de uma ferida em que o dardo permanece cravado.
O ódio engendra outros pecados

Muitos são os males e pecados que, por certa conexão, se ligam necessariamente a este pecado único de ódio. Por isso, foi nesse sentido que dizia São João: "Quem odeia seu irmão está em trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2, 14). Logo, é fatal que caia muitas vezes. Do contrário, como poderia alguém fazer justiça às palavras e ações de uma pessoa, se nutre ódio contra ela? Daí nascem, portanto, os juízos temerários e injustos, as iras, as invejas, as detrações, e outros pecados semelhantes, que costumam envolver também as pessoas que a ela se ligam por parentesco e amizade. Deste modo acontece, muitas vezes, que de um só pecado nascem muitos outros. E não é sem cabimento que este pecado se chama “pecado do demônio” (1Jo 3, 10-11), porque o demônio foi homicida desde o início. Por esta razão é que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os fariseus queriam dar-lhe a morte, declarou que eles tinham por pai o demônio.
Retirado do Catecismo Romano

sábado, 9 de setembro de 2017

O Católico Verdadeiro e o Herege – por São Vicente de Lerins

Parece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e a Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica. Não antepõe nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia. Mas exatamente desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente acreditou.

Sabe que toda doutrina nova e nunca antes ouvida, insinuada por uma só pessoa, fora ou contra a doutrina comum dos fiéis, não tem nada a ver com a religião, e que constitui, antes, uma tentação, instruído especialmente pelas palavras do Apóstolo Paulo: “Pois é conveniente que até haja heresias, para que também os que são de uma virtude provada sejam manifestados entre vós”. Como se dissesse: Deus não extirpa imediatamente os autores de heresias para que os que são de uma virtude provada se manifestem, isto é, para mostrar até que ponto se é tenaz, fiel e constante no amor à fé católica.

São Vicente de Lerins, na obra Comonitório

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Necessidade se entender as orações e as cerimônias da Santa Missa

Extraído do Catecismo da Santa Missa
É necessário conhecer profundamente a Missa?
Um ato de religião praticado com tanta frequência, tão precioso em suas graças, e tão consolador em seus frutos, é desejoso que se conheça o mais possível, na medida das nossas capacidades.
Como podemos conhecer mais profundamente a Santa Missa?
Podemos conhecê-la mais profundamente estudando seus mistérios, seus dogmas, a moral que ela encerra, e até os menores detalhes de suas cerimônias e orações.
Para que devemos conhecer tudo isto?
Para que a Missa, que é o centro do culto católico, desperte os mais vivos sentimentos de religião e de piedade.
Que mais devemos conhecer da Missa?
Devemos conhecer suas palavras sagradas em que encontramos todo o sabor da unção de que estão repletas; cada ação e cada movimento do sacerdote; cada palavra que ele pronuncia para lembrar nossa alma e nosso coração que um Deus se imola para nós, e que nós também devemos nos imolar com Ele e por Ele.
Com que estado de espírito devemos assistir a Santa Missa?
Devemos deixar fora do santuário a indiferença e o tédio, a dissipação e o escândalo, e sermos, no templo, adoradores em espírito e verdade.
Deus exige de todos os fiéis uma instrução profunda e detalhada da Missa?
Não. Deus supre a sensibilidade da fé ao conhecimento que não foi possível adquirir e jamais irá desprezar o sacrifício de um coração arrependido e humilhado. (Sl 50, 19)
Quais as disposições essenciais e suficientes para aproveitarmos do santo sacrifício da Missa?
Devemos assistir a Santa Missa com a alma penetrada de dor pelas faltas cometidas, e nos aproximarmos confiadamente deste trono da graça, unindo-nos à vítima, Nosso Senhor Jesus Cristo, e à intenção da Igreja, na pessoa do sacerdote, e por seu ministério.
Que mais é salutar conhecer?
Devemos saber as grandes vantagens espirituais que um conhecimento mais íntimo da Santa Missa proporciona aos fiéis, com a explicação literal de suas orações e cerimônias.
A Igreja, acaso, ocultaria aos fiéis algum mistério da Santa Missa?
Não. Na Igreja nada há de oculto e ela jamais pretendeu ocultar qualquer mistério aos fiéis, seja da Santa Missa, como de qualquer outra cerimônia litúrgica, como será demonstrado neste Catecismo.
Qual a principal preocupação da Igreja quanto aos mistérios da Missa?
A Igreja somente teme que o pouco discernimento sobre os mistérios possa causar má interpretação às palavras neles contidas.
Como a Igreja procura evitar possíveis más interpretações?
Apresentando sempre explicações claras dos mistérios aos fiéis.
Há orientação explícita da Igreja para explicar os mistérios da Missa aos fiéis?
Sim. Os Concílios de Mogúncia, de Colônia e de Trento, como mais adiante veremos, ordenaram claramente que se prestassem aos fiéis as explicações necessárias para o melhor entendimento possível dos mistérios da Santa Missa, evitando, assim, más interpretações.
Que outras medidas tomou a Igreja para facilitar o entendimento dos mistérios da Missa?
A Igreja colocou à disposição de todos os fiéis o ordinário da Missa, e impôs como dever dos sacerdotes a explicação das orações e das cerimônias da Santa Missa.
Além do ordinário da Missa, há outras obras específicas sobre o Santo Sacrifício?
Sim; há inúmeras obras ao alcance dos fiéis sobre a Santa Missa, publicadas através dos séculos.
A explicação da Missa é dever somente dos sacerdotes?
Não. Além dos sacerdotes é dever também dos fiéis, e seremos felizes mesmo se, com pouco conhecimento, colocarmos algumas pedras nos muros de Jerusalém, enquanto outros manejam com mão hábil a espada da palavra santa para cuidar da sua defesa.
Qual o melhor método para nos aprofundarmos no conhecimento da Santa Missa?
Para compreendermos exatamente o verdadeiro sentido das orações da Santa Missa, é necessário conhecermos todas, palavra por palavra, o significado de cada termo, dos dogmas e dos mistérios nelas contidos.
Que mais é necessário conhecer sobre as orações?
É preciso, também, conhecer os objetivos da Igreja ao estabelecer as orações, bem como deduzir ao máximo possível as intenções dos santos padres, dos antigos escritos eclesiásticos e da tradição. Para isto torna-se necessária também uma explicação histórica, literal e dogmática de tudo o que constitui a Missa. 
Fonte: Almanaque Tradição Católica

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A proporção entre o pecado grave e o castigo do inferno

O inferno é o castigo por uns aspectos passageiros de paixão, não carece ele de proporção?

Qual é, pois, o castigo devido ao pecado grave, com que  Deus deve vingar a sua majestade ultrajada?

Só pode ser o castigo do inferno eterno!

Está provado, pelo dogma da Redenção, que o pecado grave é a maior ofensa, infidelidade, revolta e traição contra Deus, constituindo uma culpa infinita. Ora, sendo o homem um ser limitado, e não cabendo nele um castigo infinito por intensidade, deve ele sofrer um castigo que seja infinito pela duração, como é o castigo do inferno. É bem verdade que os nossos sentimentos não querem admitir castigo tão horrendo. Muitos criminam a Deus por faltar à proporção devida num castigo sem fim, infinito, para um crime passageiro, tantas vezes de um só momento, cometidos por um homem miserável. Entretanto, a sã razão tem de admitir forçosamente o castigo do inferno eterno, em virtude de raciocínios, como rigorosamente exigido pela natureza do pecado grave.

Objeção

Até neste mundo há castigos análogos, por crimes semelhantes, porém incomparavelmente inferiores. Como é que são ás vezes vingadas e castigadas as infidelidade deste mundo? Por exemplo, a infidelidade conjugal, a revolta contra um príncipe, contra um rei, a traição à pátria? Às vezes pela morte! Ora, essas e outras infidelidades contra homens são incomparavelmente menores do que as infidelidades contra Deus; e, contudo, ninguém duvida da legitimidade do castigo pela pena capital, tirando-se por ela a vida para sempre do convívio da família, e até da sociedade humana. Ainda que o assassino se fizesse num momento, julga-se universalmente ser o castigo apropriado e equivalente só a morte ou reclusão perpétua do assassino.
A gravidade do pecado não se avalia só pelo fato praticado, mas também, e principalmente,  pela intenção que a ele preside. O pecado mortal é o ato de aversão a Deus e de conversão à criatura; é uma desobediência e ofensa grave, cuja consequência é a separação de Deus, o rompimento e a inimizade com Ele. Para cometer um pecado grave não é preciso atacar a Deus pessoalmente, levantar a mão contra Ele, injuriá-lo, revoltar-se contra Ele e resistir-lhe formal e obstinadamente. Basta transgredir uma lei grave, estabelecida por Ele; basta saber que Ele o proibiu, e querer assim mesmo fazê-lo.  

O pecado grave pode-se cometer num mínimo de tempo, num instante. Sabendo-se que se trata de uma lei, de uma proibição séria e grave, é ele perpetrado no momento em que a vontade se resolve definitivamente a transgredi-la. O pecado grave merece, sem dúvida alguma, o inferno eterno, ainda que tenha sido cometido num simples momento, ou em pensamento. Mas – pergunta-se – onde está a proporção entre o ato e a pena eterna? Está na          LEIA TODO  O TEXTO

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Devoção ao Santo Nome de Maria

         
O Santo Nome de Maria foi antigamente tão venerado em certos países, que era proibido às mulheres o tomá-lo. Temia-se, por assim dizer, profanar o nome da Mãe de Deus, caso se desse a outras criaturas. Afonso IV, rei de Castella, estando para desposar-se com uma jovem Moura, declarou que o não faria, senão com a condição de que não havia de tomar no batismo o nome de Maria. Casimiro I, rei da Polônia, que se desposou com Maria, filha do Duque da Rússia, exigiu que a princesa mudasse para outro o seu nome de Maria; e segundo o costume estabelecido naquele reino, mulher nenhuma se podia chamar Maria. Este uso já não subsiste. Pelo contrário, por devoção à Mãe de Deus, e para se colocarem debaixo de sua proteção de um modo especial, é que tantas pessoas tomam hoje o nome de Maria. Por certo serão felizes, se não contentes de ter o nome da Rainha do Céu, trabalharem também por imitar suas virtudes.

Santo Estevão, rei de Hungria, não menos célebre por sua terna devoção à Santíssima Virgem, do que pelas qualidades verdadeiramente reais, que levou ao trono, tinha um tão profundo respeito para com o sagrado nome de Maria que nem ousava pronunciá-lo. Chamava-lhe de ordinário a grande Senhora. Todos seus vassalos, imitando este exemplo, lhe davam o mesmo título; e se acontecia que em sua presença se proferisse o santo nome de Maria, todos no mesmo momento caíam de joelhos e se inclinavam até ao chão para mostrarem a grande veneração em que tinham tão augusto nome.

O Beato Hermano, segundo refere Surio, pronunciava muito frequentemente o santo nome de Maria, e esta prática lhe produzia efeitos prodigiosos. Quando estava só, prostrava-se por terra, e nesta posição se comprazia em repetir sem cessar: Maria!... Maria !... Maria !... Um de seus amigos, que era também muito devoto da Santíssima Virgem, encontrando-o em um desses momentos que ele consagrava a honrar o nome de sua amável Mãe, ficou admirado de o ver tanto tempo e tão profundamente recolhido. "Que fazeis desse modo, lhe diz, e que sentimentos vos ocupam?" — "Colho, respondeu Hermano, mas com uma incrível consolação, colho os frutos deliciosos do nome de Maria. Quando o pronuncio, parece-me que todas as flores, todos os mais raros perfumes se reúnem em torno de mim para embalsamar o ar, ao mesmo tempo que uma certa virtude, que eu ignoro, enche o meu coração de uma celeste alegria. Aqui descanso de todos os meus trabalhos, esqueço todas as amarguras da vida. Quisera, se fora possível, não sair nunca desta posição, nunca cessar de repetir o santo e amável nome de Maria".

Fonte: Novíssimo Mês de Maria, consagrado à glória da Mãe de Deus

domingo, 3 de setembro de 2017

A Igreja Católica e a credibilidade da fé cristã

por Tanquerey

Sem a fé é impossível agradar a Deus e chegar a ser contado no número de seus filhos, por isso sem ela ninguém jamais conseguiu a justificação, nem conseguirá a vida eterna se não perseverar nela até ao seu fim.
E para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e de nela perseverar constantemente, Deus por seu Filho unigênito instituiu a igreja e a dotou com sinais manifestos da sua instituição, para que todos a pudessem conhecer como guarda e mestra da palavra revelada, pois somente à Igreja Católica pertencem todos os caracteres tão numerosos e admiráveis, estabelecidos por Deus para tornar evidente a credibilidade da fé cristã. [...]
Daqui resulta que ela mesma, como um estandarte levantado no meio das nações, não só convida os incrédulos a entrarem no seu grêmio, mas também assegura aos seus filhos que a fé que professam repousa sobre o mais firme fundamento. Ao mencionado testemunho acresce sem dúvida alguma o eficaz auxílio do poder do alto.
Porquanto nosso misericordiosíssimo Senhor excita e ajuda com a sua graça aqueles que vagueiam no erro, par que possam chegar ao conhecimento da verdade. E enquanto aos crentes confirma-os com a sua graça para que perseverem.
Não há pois paridade entre a condição daqueles que, pelo dom celeste da fé, abraçaram a verdade católica, e a daqueles que, levados por opiniões humanas, seguem uma religião falsa, pois o que receberam a fé sob o magistério da Igreja não podem jamais ter razão alguma justa de mudar ou de pôr em dúvida esta mesma fé, e por isso dando graças a Deus Pai, que nos fez dignos de participarmos, na sua luz, da sorte dos Santos, não desprezemos tão grande vantagem, mas pondo os olhos em Jesus, autor e consumador da fé, conservemos o testemunho inabalável da nossa esperança.
Compêndio de Teologia Dogmática – Especial - 
Segundo a mente de São Tomás de Aquino, acomodada aos tempos atuais



sábado, 2 de setembro de 2017

Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas?...

Como se deve amar a Deus?
Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma, e com todas as nossas forças.
Que quer dizer: amar a Deus sobre todas as coisas?
Amar a Deus sobre todas as coisas quer dizer: preferi-Lo a todas as criaturas mais caras e mais perfeitas, e estar disposto a perder tudo antes que ofendê-Lo ou deixar de amá-Lo.
Que quer dizer: amar a Deus com todo o nosso coração?
Amar a Deus com todo o nosso coração quer dizer: consagrar-Lhe todos os nossos afetos.
Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa mente?
Amar a Deus com toda a nossa mente quer dizer: dirigir para Ele todos os nossos pensamentos.
Que quer dizer: amar a Deus com toda a nossa alma?
Amar a Deus com toda a nossa alma quer dizer: consagrar-Lhe o uso de todas as potências da nossa alma.
Que quer dizer: amar a Deus com todas as nossas forças?
Amar a Deus com todas as nossas forças quer dizer: esforçar-se por crescer cada vez mais no amor dEle, e proceder de maneira que todas as nossas ações tenham por motivo e por fim o seu amor e o desejo de Lhe agradar.
(Retirado do Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A pena eterna devida a uma culpa temporal contraria a Justiça Divina?


Não contradiz à justiça divina sofrer alguém a pena perpétua, porque nem as leis humanas exigem que as penas sejam medidas pelo tempo para serem adequadas à culpa. Ora, para os pecados de adultério, de homicídio, cometidos que são em breve tempo, a lei humana impõe, às vezes, o exílio perpétuo, ou até mesmo a morte, pela qual para sempre o criminoso é afastado da sociedade. Se o exílio não é perpétuo, isso é por acidente, porque a vida humana não é perpétua, mas parece que a intenção do juiz é punir o criminoso perpetuamente. Por isso, também não é injusto se, para um pecado feito momentaneamente no tempo, Deus impuser uma pena eterna.
Deve-se também considerar que ao pecador é infligida a pena eterna, mas somente àquele que não se arrepende do pecado, e, assim, nele, o pecado perdura até a morte. E porque na sua intenção peca para sempre, é razoável que Deus o puna eternamente.
Além disso, cada pecado cometido contra Deus tem um certo grau infinito, se considerarmos que ele é cometido contra Deus. É certo que quanto mais importante é a pessoa contra quem se peca, tanto mais grave é o pecado: considera-se de maior gravidade dar uma tapa num militar, que num camponês; e, de muito maior gravidade, se for dada num príncipe ou no rei. Ora, sendo Deus de grandeza infinita, a ofensa contra Ele cometida, é, de certo modo, infinita. Logo, a pena devida a essa ofensa deve ser também, de certo modo, infinita.
Essa pena, porém, não pode ser infinita de modo intensivo, porque nada de criado é infinito em intensidade. Resta, por conseguinte, que ao pecado mortal é devida uma pena de duração infinita.
Ademais, ao que pode ser corrigido, a pena temporal lhe é imposta para a correção ou purificação. Se, portanto, alguém não mais pode ser corrigido do pecado, porque a sua vontade está obstinadamente firme no pecado, como acontece com os condenados acima descritos, a sua pena não pode também ter fim.

Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino, Capítulo CLXXXIII



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Hino em homenagem a Santo Agostinho


 por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Refrão

Santo Agostinho,  Doutor da Graça
No rude caminho,  a fé nos alcança

Estrofes

Foste perfeita
Tua conversão
Alma eleita
Pela oração

Com seu firme báculo
Hereges dobrou
Sendo um sustentáculo
Do que Cristo pregou


Tornou-se modelo
De santidade
Vivendo com zelo
E amor à verdade 


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sábado, 26 de agosto de 2017

O número dos Anjos

Santo Atanásio na questão sexta, cita a opinião de alguns, que tiveram para si, que os homens eram iguais em número aos Anjos, movidos por aquelas palavras do Deuteronômio, como traduziram os Setenta Intérpretes, registrou o número dos povos, conforme ao número dos Anjos. Outros há, que tem para si, que os homens excedem em número aos Anjos e movem-se por este argumento. Porque dos homens tantos se hão de escolher para a glória, quantos são os Anjos que caíram da glória e consta no Apocalipse na figura do dragão (que trouxe consigo a 3ª parte das estrelas), que a 3ª parte dos Anjos caiu, e conforme a isto parece que entende São Bernardo sobre os Cantares, aquelas palavras do Salmo: “Julgará os homens e com eles proverá os lugares vagos no céu”. Donde deduz-se, que não se salvando nem a décima parte, contando todos os infiéis é muito maior o número de todos os homens que o de todos os Anjos. Porém, nenhuma destas opiniões tem fundamento, porque no Deuteronômio, considerando bem o que Moisés vai dizendo, não se trata do número de Anjos; somente mostra o particular cuidado que Deus teve de seu povo na divisão geral das terras que Deus fez a várias nações. Porque quando, ou conforme aos Hebreus, quando repartia as terras do mundo pelas nações, logo então marcou a terra de Canaã a sete nações, não tanto por a possuírem, mas por a cultivarem e depois de cultivada a entregar aos filhos de Israel, quando saíssem do Egito. Quer dizer que a estas sete nações assinalou os termos da que por eles repartiu, como se dissesse, que não tinha os olhos naqueles a quem as dava, se não no seu povo de Israel, cujos colonos eram os povos e nas demarcações olhavam para o que convinha aos israelitas para os agasalhar no que mostrava grande amor a seu povo, dando-lhe as terras cultivadas e a todas as outras nações, incultas e bravas. E segue-se logo, como se dissera as outras nações, deu terras em herança, mas para si tomou este povo por herança própria. Este é o sentido literal que os expositores comumente dão ao lugar do Deuteronômio.
O Apocalipse não fala da queda dos Anjos, se não dos fiéis, no tempo do Anticristo. Por onde não há fundamento para duvidar, ainda que ponhamos os olhos na grande máquina do mundo e na multidão de criaturas que nele há, se haverá tantos Anjos em número, que nasceram e nascerão? Porque é tão copioso o número dos Anjos (como afirma São Dionísio Areopagita) que excede e é muito maior que o número de todas as coisas corporais e materiais. E São Tomás e outros Doutores escolásticos, da proporção que há entre os corpos superiores e da que há entre os inferiores, agrupam a multidão dos Anjos, por que se vemos que tão grande multidão de criaturas corporais é necessária para responder e encher à distância que há entre a mais vil criatura e entre o homem, a mais nobre do todas as corporais, quão grande número será necessário para responder a distância que há entre o Anjo e mesmo a Deus? Porque como Deus, Nosso Senhor nesta formosíssima e admirável máquina do mundo, pretende principalmente à perfeição dele, se não é limitado seu poder, se não infinito e imenso (criou as coisas em tanto maior número e abundância, quanto elas são mais perfeitas em si). Daí vemos, que todas as coisas baixas e corruptíveis que estão debaixo da Lua, são quase um ponto em comparação dos céus, que são corpos mais perfeitos e nobres. E nos mesmos céus o mais alto e superior excede muito ao inferior e o supremo a todos os demais.
Por esta razão algumas estrelas do firmamento que nos parecem aos olhos tão pequenas, são muito maiores que toda a terra composta de todas as coisas inferiores. Esta mesma proporção há nas coisas espirituais e naqueles supremos espíritos a respeito das coisas corporais as quais excede não em quantidade, se não em número, pois é certo que a alteza no lugar dos corpos responde à nobreza da essência nos espíritos e ao excesso da quantidade, responde a multiplicação do número. E vê-se claramente ser assim, porque se cada um dos homens desde nosso primeiro pai Adão, até o derradeiro, que haverá no mundo, tem seu Anjo da guarda eleito para sua defesa, sem exceção de bom ou de mal, nem de fiel ou infiel, nem de bárbaro Etíope, ou nobre político ( pois todos enquanto homens participam deste beneficio necessariamente havemos de confessar, que os Anjos do derradeiro coro – do qual se provê a guarda dos homens - são mais que todos os homens que houve e haverá até o fim do mundo. Então, qual será o número dos outros coros se for assim como temos provado, que tanto maior é o número deles, quanto sua ordem é mais alta e sua perfeição mais elevada? Isto se conclui da escritura sagrada, a qual falando da multidão dos Anjos, diz: "milhares de milhares serviam o Senhor e dez vezes cem mil o assistiam". Pelo qual entendem os Padres e Doutores, uma multidão de espíritos celestiais em certo modo infinita.
Para confirmação do mesmo, trazem alguns autores uma revelação, que com o favor da Virgem Nossa Senhora, se fez a Santa Brígida, a qual com muita segurança afirma, que os Anjos excedem em número aos homens em dez partes por estas palavras: “Se se compararem todos os homens que nasceram de Adão até ao derradeiro que há de nascer no fim do mundo, achar-se-á que, a cada homem respondem mais de dez Anjos". E a autoridade desta Santa é de muita estima. Porque o Papa Bonifácio IX na Bula de sua Canonização, acredita e autoriza muito o espirito de profecia desta Santa. Nesta conformidade, dizem alguns Doutores, que a cada Anjo respondem dez Arcanjos e a cada Arcanjo dez principados; e assim como os coros e hierarquias vão subindo, se vai multiplicando o número dos Anjos superiores. Ao que temos dito se pode acrescentar o que tem São Hilário, São Cirilo e outros, aos quais afirmam que os Anjos excedem aos homens em noventa e nove partes. Pela ovelha da parábola, diz o Santo, se há de entender o primeiro homem e por este todos os mais homens, mas no pecado de um só Adão se perdeu todo o gênero humano. De onde se compreende, que pelas noventa e nove ovelhas que não se perderam se há de entender a multidão dos Anjos, que no céu tem o cuidado e alegria pelo bem e salvação dos homens. O mesmo diz Santo Atanásio conforme alegado acima, que muitos tiveram para si que a proporção que tem os Anjos para com os homens em número é a mesma que tem noventa e nove para um; ou nove para um. E resume isto das parábolas, a das noventa e nove ovelhas, que o pastor deixou no deserto guardadas para buscar sua perdida e das nove dracmas seguras e uma perdida, porque na ovelha e dracma perdida se representam os homens e nas mais os Anjos. De onde veio Santo Ambrósio sobre o capitulo 15 de São Lucas, a dizer: o rico e grosso pastor de quem nós somos a centésima parte das ovelhas, tem inumeráveis rebanhos de Anjos e de Arcanjos, Dominações, Potestades e de outros semelhantes que deixou nos montes. De onde vem a dizer alguns Doutores, que mais fácil é contar as estrelas do céu e as gotas do mar e as folhas das árvores e as ervas da terra, que compreender a multidão dos Anjos a qual ainda que para Deus seja finita e contada, com tudo em nosso ponto de vista parece infinita.
E São Bernardino de Siena falando do amor misericordioso de Deus e dos meios que a ele nos hão de levar, diz assim: "A segunda coisa que havemos de contemplar, diz São Bernardino, é a multidão dos Anjos", porque diz São Dionísio no livro da hierarquia que só os Anjos que estão no paraíso são mais do que as estrelas, as areias do mar e da terra, que as folhas e ervas e mais que todas as coisas criadas. Por esta causa disse bem Jó falando de Deus: "Por ventura os soldados do Senhor podem se contar"? O que nos declara a glória e soberana majestade do Senhor que nos criou e se serve deles, como de seus criados e soldados. Porque é grande honra de um rei ter muitos ministros nobres e poderosos e família luzida de criados que o acompanham e sirvam que por isso disse o Espirito Santo: A dignidade e majestade do Rei se conhece na multidão de seus ministros e ter poucos vassalos e afronta do príncipe. E é coisa notável que com os Anjos serem tantos, São Tomás tem para si – posto que muitos têm o contrário – que nenhum há entre eles que não seja de diferente espécie de todos e de cada um dos outros. E assim como seria formosíssima coisa e maravilhosa se em um campo ou prado povoado de infinitas flores, não houvesse entre elas, duas que fossem da mesma espécie, se não que cada flor fosse da sua e diferente de todas as outras nas cores, na figura, na forma, porque umas teriam as cores singelas, já brancas, já vermelhas, já amarelas, já roxas, já verdes, outras as teriam todas misturadas umas com as outras, em tal proporção que a mistura e composição de cada uma acrescenta-se notável graça a todas semeando à natureza e matizando com diferentes variedades e proporção a cada uma para em todas resultar mais perfeição, mais arte e mais graça natural. (Estando na opinião de São Tomás) naquele copiosíssimo e abundantíssimo campo do céu - a que com razão podemos chamar Jardim de Flores em que há inumeráveis Anjos que como formosíssimas flores o aformoseiam e vestem com singular graça e majestade. Não há dois deles que tenham a mesma espécie, pois em cada um achareis diferentes perfeições, diferente lustre e diferente ser, comunicado do autor de todo o bem e pego infinito de perfeições.

Fonte: Almanaque Tradição Católica

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Esmola


1 - Porque razão Deus, que é o Pai comum e Benfeitor de todos os homens, faz nascer uns na pobreza e outros na opulência? Porque, diz Santo Agostinho, uma vez  estabelecida a ordem atual das coisas, esta desigualdade é necessária para a sua conservação. Efetivamente, se não houvesse pobres, não haveria nem trabalho, nem indústria, nem obediência, nem mando; de onde se conclui que a opulência e a pobreza são dois laços que unem o gênero humano.
2 - Mas o Pai celeste não esqueceu por isso seus filhos pobres, que são objeto das suas mais caras complacências, pois que ele mesmo quis que seu filho nascesse, vivesse e morresse pobre.
3- No mesmo modo que Deus remedia a secura da terra com o orvalho e abundantes chuvas, também quer que o supérfluo dos ricos remedie a indigência dos pobres. Aquele que reparte com os pobres o supérfluo, não lhe faz um dom ou favor, mais cumpre um dever imposto por esse Deus, que é o pai previdente e o senhor absoluto do pobres.
4 - Há duas qualidades de supérfluo: uma diz respeito ao que nos é necessário para viver, outra diz respeito às exigências do nosso estado; a primeira devemos emprega-la nas necessidades extremas do próximo, a segunda nas suas ordinárias necessidades e com maior razão nas suas graves precisões.
5 - Cada qual tem o direito de viver com a decência correspondente ao seu estado; mas esta conveniente decência não forma um todo indivisível, pois ainda que a este estado se acrescentem muitas coisas, dele não se sai, assim como ainda que dali se tiverem muitas outras, não nos aviltamos.
6 - Daqui resulta que não se pode estabelecer uma regra uniforme e invariável para determinar na prática o que é supérfluo; por isso depende de muitas circunstâncias reunidas, e é por esta razão que, segundo São Tomás, em tais matérias devemos seguir a opinião de uma pessoa sábia e prudente.
7 - É certo, algumas vezes, que o que não é necessário ao sustento da vida e às exigências do nosso estado, deve ser considerado como supérfluo: porém devemos fazer isto, quando tenhamos examinado o nosso estado segundo as regras da moderação cristã, da qual a nenhum fiel é lícito apartar-se.
8 - Muitos ricos há que não conhecem nada de supérfluo no seu estado, porque se entregam a um luxo, que devora todas as suas riquezas. Aquele que quiser viver como o rico avarento de que fala o Evangelho, não achará nunca nem pão nem ao menos uma migalha para dar a Lázaro.
9 - Estes ricos tornam inútil o grande preceito da esmola, e são culpados de um grave roubo, sacrificando a sua cega e sórdida ambição o patrimônio destinado por Deus a sustentar os pobres. Tertuliano chama-lhes ricos predestinados ao inferno, para diferença dos ricos caritativos, que são predestinados à glória. O caminho do céu para o pobre é o sofrimento; o caminho do céu para o rico é a esmola.
10 - O deixar uma quantia razoável para as necessidades ordinárias e extraordinárias da vida não é amontoar supérfluo; mas sim proceder conforme manda a prudência. Assim como toda a comida é temperada com sal, assim toda a virtude deve ser temperada com a prudência e precaução.
11 - O que acabamos de dizer aplica-se sobre tudo aos pais, que devem poupar tudo que é necessário para bem educar seus filhos, e dar às suas filhas um dote segundo o seu estado e meios. Fazer isto, não é amontoar supérfluo; mas sim prover ao necessário; pois aos pais ou aqueles que os substituem são obrigados, por dever de justiça, a dar a seus filhos essa educação e dote.
12 - Mas para ser previdente para com seus filhos não é necessário ser cruel para com os pobres. De todas as heranças que podeis deixar a vossos filhos, a mais bela é o exercício da caridade. A família do homem caritativo será sempre abençoada por aquele Deus, que manda dar esmola.
13 - O dever da esmola não obriga a renunciar aquilo que o nosso estado ou condição exige. A virtude como já dissemos no princípio deste livro com Santo Agostinho, não é outra coisa senão a ordem: logo, aquilo que não é bem ordenado não é virtude.
14 - Há certas pessoas que para darem mais abundantes esmolas faltam ao reconhecimento e à generosidade para com aqueles de quem receberam serviços ou favores: isto é um erro. As virtudes respeitam-se mutuamente e dão-se as mãos; nenhum exige o que é devido a outra.
15 - Não cuides que tendes obrigação de socorrer todos os necessitados; isso não é possível. Quando tiverdes distribuído um numero de esmolas, que segundo o juízo de uma pessoa prudente, é proporcionado aos vossos meios, tereis satisfeito ao vosso dever para com Deus e para com o próximo, e deveis viver sossegados.
16 - É necessário usar de prudência na repartição das esmolas. É impossível imaginar quantas pessoas fingem necessidade ou exageram, para serem socorridas. Cumpre pois evitar a demasiada credulidade e ser prudente no exercício desta obra de misericórdia, para que a esmola caia na mão do que é verdadeiramente necessitado, e não na daquele que se finge pobre, como acontece muitas vezes. Se todas as esmolas fossem bem repartidas, não haveria tantos verdadeiramente necessitados. Muitos pessoas para não errarem em matéria tão difícil, confiam a distribuição das esmolas, em todo ou em parte, ao seu pároco ou diretor, porque estes em razão do seu ministério são ordinariamente os que estão mais no caso de saber onde está a verdadeira miséria.
17 - Lembrai-vos do grande conselho que dão os santos: É mister que aquele que tem muito dê muito; que o que tem pouco dê pouco; e que aquele que nada tem possua ao menos o desejo de dar: pois diante de Deus a boa vontade daquele que dá ou deseja dar tem mais merecimento que a mesma dadiva. O pequeno donativo da viúva, de que nos fala o Evangelho, foi mais agradável a Deus que as pomposas ofertas feias pelos ricos faustosos.
18 - Amai também a esmola espiritual. Um prudente conselho, uma virtuosa exortação, uma consolação salutar, uma visita a um enfermo, a proteção dada a uma viúva ou a um órfão, a uma pessoa abandonada ou perseguida, são esmolas tanto mais meritórias diante de Deus, quanto ordinariamente são menos brilhantes aos olhos dos homens.
Almanaque Tradição Católica

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