Por que se tem colocado aspas no dogma Fora da Igreja Não Há Salvação


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho


Foto parcial da página 243 do Catecismo da Igreja Católica, 11. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

Após a promulgação explicita de uma fórmula dogmática, os pronunciamentos magisteriais posteriores devem impreterivelmente, ao tocar o dogma, apenas endossar o enunciado dogmático já conhecido e refutar tese oposta. Jamais devem dar outro entendimento, acrescer, reduzir, modificar ou substituir o seu sentido, para que tal pronunciamento não seja vencido frente à maior potência do discurso dogmático.

Uma observação mesmo intrigante se tem notado: O surgimento do uso de aspas no enunciado, sugerindo a necessidade de uma clarificação de significado. Como exemplo, cita-se a versão editada em português do Catecismo da Igreja Católica onde se vê tal uso. Ressalte-se que, quando formulado, o dogma veio sem aspas. Pergunta-se, pois: é realmente preciso entender algo mais do que se lê explícito na fórmula do dogma? Por quê?

Atualmente, nos discursos das pessoas da Igreja não se encontram tão facilmente respostas para tais questionamentos. Entretanto, é certo que o Magistério, após séculos de caminhada com o dogma incorporado à sua pregação, tem dedicado alguns textos apresentando uma espécie de explicação do dogma, que parece ter ido além da pedagogia adotada em catecismos de outrora. Cita-se, p. ex., o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica publicado em 2005: 

O que significa a afirmação: "Fora da Igreja não há salvação"? Significa que toda salvação vem de Cristo Cabeça por meio da Igreja, que é o seu corpo. Portanto, não podem ser salvos os que, conhecendo a Igreja como fundada por Cristo e necessária à salvação, nela não entrarem e nela não perseverarem. Ao mesmo tempo, graças a Cristo e à sua Igreja, podem conseguir a salvação eterna todos os que, sem culpa, ignoram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas procuram sinceramente a Deus, e, sob influência da graça, se esforçam por cumprir a vontade dele, conhecida por meio do ditame da consciência. (COMPÊNDIO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2005. n.171.)

Bem claro está que, em pronunciamentos dogmáticos a Igreja nunca disse o enunciado contrário ao dogma, nos termos de "Fora da Igreja salvação". Essa postura revigora um ar de manutenção da hermenêutica original. No mais, os enunciados dogmáticos são de leitura direta e objetiva, sem margens para dúvidas. É algo que já se apresenta explicado semanticamente, tornando-se insensatez abrir mão do que se lê em um pronunciamento infalível para aderir a uma explicação que se lê em pronunciamentos falíveis. A explicação que se pode propor acerca do dogma não é para o sentido das palavras, mas para o sentido teológico. Não é explicar o que a Igreja disse, mas por quê a Igreja disse.
 
Quando a Igreja pela primeira vez asseverou o dogma, a sua proposta foi entendida e aceita pelos católicos, que reconheciam que efetivamente se traduzia aquilo que a Igreja teve a intenção de definir. A partir de então, nada mais poderá atentar contra esta verdade. Insinuar algo diferente é querer apagar a luz de Cristo.
 

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