O Desejo Implícito de se Unir à Igreja e a Necessidade do Batismo

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Observando o catecúmeno que segue a lei natural, há de se convir que, entre ele e a Igreja já se verifica uma determinada relação de afinidade. Ele já manifestamente deseja o batismo, a Igreja desde sempre deseja tê-lo como membro. Uma morte abrupta desse catecúmeno antes do lavacro ordinário ao qual se dirigia não parece ser potente o suficiente para romper o desejo de ambos. Se tal acometimento é, aparentemente, o bastante para impedir a ação normal da Igreja, certamente não o é para uma ação sobrenatural.

Sabe-se que Deus submete todos os acontecimentos deste mundo à sua divina providência, porém não é sensato imaginar que tal catecúmeno estaria imune de qualquer sinistro que atente contra sua vida, até que venha a se consumar seu batismo pelas vias normais. Muito pareceria "amarrar" Deus a uma única forma de agir, além de ser como que uma automática e mágica proteção que não indica ser apropriada para Deus. Eis, pois, que a providência divina atua infalivelmente e, Deus, misericordioso e justo, provê o necessário, ainda que de maneiras desconhecidas.

Muito se pode ouvir a alegação de que Deus salvaria um justo que morreu não-católico, usando de suas prerrogativas de ser soberano. Mas, por que se insiste aqui em apontar para uma ação sobrenatural que se consuma antes da morte e não após ela? Responde-se lembrando que é em vida que se dispõe do tempo da graça, e no caso do sacramento do batismo entende-se ser necessária uma ação prática que de fato se realize sensivelmente. Não se entende que possa acontecer após a morte a consumação daquilo que parece se identificar com o chamado batismo de desejo, o qual deve ter seus efeitos antes da morte. Ainda que se afirme que a ligação ao Corpo Místico de Cristo possa se dá no momento da morte, tal efeito batismal efetiva-se antes de findar o processo do morrer. Com sensatez, não convém imaginar que possa existir uma alma partícipe da Igreja celeste sem ter passado pela Igreja militante.

Há, certamente, um único Sacramento do Batismo (cf. Ef 4, 5), que se dá visivelmente pela água, e que tem seus efeitos consumados na alma, ainda que extraordinariamente, por Deus diante de um desejo digno e capaz, e que pode culminar com o martírio. Não obstante, observe-se que o ensinamento consensual advindo da produção dos teólogos, sobretudo daqueles que adotam os métodos escolásticos, dão sustentação às doutrinas do batismo de sangue e do batismo de desejo, tais como são assumidas na prática atual da Igreja.

Não é uma situação corriqueira se encontrar pessoas de proceder justo, desconhecedoras dos preceitos da fé, mas que cumprem a lei natural, a ermo e fora da Igreja Católica. Imagine-se um tal indivíduo tentando ser fiel àquilo que Deus lhe apresenta no coração: ao se deparar com tantos e tais disparates seja onde for que se encontre, em um país mulçumano, em uma tribo de índios ou em uma aldeia esquimó, certamente esse ignorante da fé católica se inquietará, visto que repugnará por sua racionalidade tais atrocidades que se chocam com sua consciência reta. Assim enfatiza o cônego José Luiz Villac: "Se já é tão difícil para nós, católicos, com todo o socorro dos ensinamentos e dos sacramentos da Igreja, nos mantermos fiéis a Deus e à sua lei, quanto mais difícil será para aqueles que não têm a dita de pertencer à Igreja católica".    

São Paulo, aos coríntios, alerta dizendo: "quando vos dirijo a palavra, não existe um sim e depois um não. O Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós, Silvano, Timóteo e eu, vos temos anunciado, não foi sim e depois não, mas sempre foi sim. Porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus". (II Cor 2, 18b-20). Todavia, infelizmente há um pensar teológico dos dias atuais onde se diz que "é inclusive algo muito forte de temática de discussões dentro da Igreja hoje a questão de que só se salvará aquele que for batizado. Definição essa, terminologia essa muito usada pela Igreja e que hoje a Igreja faz uma avaliação".

Na encíclica Humani Generis, Pio XII expõe que "quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais possível o significado dos dogmas e libertá-los da maneira de exprimi-los já tradicional na Igreja".

Ora, é dogma que o batismo é necessário à salvação, como se vê na incólume doutrina católica que perpassa todas as gerações sendo ensinada desde Jesus Cristo até os papas mais recentes, donde, no princípio, se ouviu do próprio Filho de Deus que "aquele que crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado" (Mc 16, 16), e, vinte séculos depois, continua-se ouvindo da Igreja: "O batismo, necessário para a salvação, é sinal e instrumento do amor da parte de Deus, que nos liberta do pecado original e comunica a participação na vida divina: por si, o dom destes bens às crianças não deve ser adiado" (grifou-se). 

Convém citar com maior ênfase o Concílio de Trento, que explicitamente decreta: "Se alguém disser que o Batismo é facultativo, isto é, não necessário para a salvação – seja excomungado" (grifou-se).

 
Notas:
VILLAC, José Luiz. É possível a salvação fora da Igreja Católica? Disponível em:
     <http://www.lepanto.com.br/DCSalv.html>. Acesso em: 11 nov. 2008.
2 MOTA, Gilza. Pronunciamento por ocasião da defesa de monografia do bacharelando em
teologia Raimundo Rodrigues Moraes intitulada "Uma visão cristã sobre o Batismo como
porta dos sacramentos na visão católica parnaibana", realizada em 25 out. 2008 no
auditório do Colégio Diocesano, em Parnaíba – PI. Disponível em vídeo-gravação de Pro-
Line Studio, registrado sob nº 0001 na biblioteca do curso de bacharelado em teologia da
Universidade Federal do Piauí em convênio com a Diocese de Parnaíba-PI.
3 PIO XII. Encíclica Humani Generis. Disponível em:
<http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_pxii_enc_
12081950_humani-generis_po.html>. Acesso em: 13 nov. 2008.
4 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução Pastoralis Actio. In: DENZINGER-
HÜNERMANN. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Marino. São Paulo: Loyola, 2007, n. 4674, p. 1103.
5 CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão VII: Sobre os sacramentos. n. 861, cân. 5. In: Concílio de
Trento (1543-1563): XIX Concílio Ecumênico (contra os inovadores do século XVI).
Disponível em: <http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=
concilios&artigo=trento&lang= bra#sessao7>. Acesso em: 6 nov. 2008.
 

Um comentário:

  1. Prezado,

    Escrevi uma carta aberta a Dom Demétrio, Bispo de Jales, contra o artigo que ele escreveu defendendo a Dilma Roussef e atacando os Bispos que pediam para não se votar nela.

    Gostaria que me comunicasse seu e-mail particular para eu enviar ainda hoje o texto que lhe peço que publique por caridade, tanto mais em vista das eleições que rapidamente se aproximam.

    O quanto puder divulgá-lo também me faria muito grato.

    AMDG.

    apologista_@hotmail.com

    Diogo Ferreira

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