Por que alguns ignorantes danam-se na ignorância, enquanto outros são contemplados com o conhecimento, com a fé e com a Igreja.

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

A justa condenação de ignorantes não é um caso de intolerância desmedida, pois, por vezes se dá que no homem a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado. Um justo que seja ignorante por toda a vida, reflete-se algo quase que utópico, pois “quem pratica a verdade aproxima-se da luz” (Jo 3, 21). Ou seja, a sua prática de justiça o encaminhará para a vereda que lhe tirará da ignorância. Assim, para aquele que será contado entre os justos, a ignorância é, ordinariamente, algo passageiro que deve ir se extinguindo quando ele se deixa guiar pelos caminhos da justiça, consumando-se a sua inclusão no Corpo Místico de Cristo antes da morte, ordinária ou prodigiosamente.

O homem sempre está impelido à verdade e é plenamente capaz de conhecer a Deus e suas obrigações para com o Criador. Tal conhecimento se pode adquirir através da busca pela verdade que é recompensada por Deus. Acontece, porém, que muitos desvios são trilhados pelo homem quando põe outros interesses acima da verdade, posto que, quanto à verdade, "acontece também que o próprio homem a evite, quando começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência". (Fides et Ratio, 28)

O ser humano não pode ignorar Deus, já que a Sua existência é manifesta em todas as coisas criadas. No fundo de seu ser, o homem sabe de Deus, e não pode se desfazer da missão de buscá-lo. É pela mística da religião que ele se dispõe a alcançá-lo. Partindo desse pressuposto, todo justo que caminha para Deus não se contenta com propostas religiosas que contradigam ao Deus que se apresenta em uma consciência reta. Por isso o homem em sua busca de Deus é, por natureza, como um cientista em suas pesquisas à busca de comprovar sua intuição. Mesmo um documento pós-conciliar expõe tal analogia:


O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De fato, assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo fenômeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial, só porque não alcançou o seu objetivo; dirá antes, e justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada. (Fides et Ratio, 29)

Da mesma forma que as pesquisas que não apresentam um resultado satisfatório induzem o cientista a buscar respostas mais além, assim é o homem que se deixa conduzir até a verdadeira Igreja (e nos tempos hodiernos à face mais autêntica desta mesma Igreja) porque não se satisfaz com as contradições e erros crassos que facilmente uma consciência reta detecta nas falsas religiões. Mas quando deixa macular sua consciência, acontece que ele se satisfaz com respostas incompletas e se desleixa na busca que lhe garantiria a salvação.

Para além de toda essa teologia, nada se consuma sem a ação efetiva da Providência Divina que oportuniza a condução dos eleitos, os quais, para tanto, respondem positivamente à graça ofertada por Deus.


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