Delimitando margens seguras para falar sobre Ignorância Invencível

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Acerca da hipótese teológica da Ignorância invencível e sua relação com o dogma Fora da Igreja não há salvação, uma palavra que parece impelir todos a aceitá-la como sendo a mais sensata e de margens seguras é a que apresenta as exceções aos dogmas como algo possível, de direta interferência divina. São os milagres. Algo que rompe as leis da natureza por uma força sobrenatural: É dogma que se morre uma só vez. Cristo ressuscitou Lázaro, que voltara a morrer posteriormente. É dogma a transmissão do pecado original. Maria nasceu sem o pecado original. Quando se constata a existência de tais ocorrências, não sobrevém dúvida quanto à vigência e continuidade do dogma, mas somente se endossa a sobrenaturalidade do poder divino na individualidade do caso específico querido por Deus.

Milagres não se sistematizam. Mas, a sobrenatural interferência divina tem incidência durante toda a história da humanidade, mesmo depois de já se ter provas da instalação da Igreja visível na terra, e se ter findado o processo de manifestação da revelação.

É conhecida a promessa de Jesus de que os seus discípulos fariam milagres ainda maiores do que os que Ele fez. Assim se deu potencialmente com os apóstolos e com as gerações mais próximas deles, os quais tinham a necessidade de ratificar que aquela Igreja, que se estabelecia pelo mundo, era a verdadeira. Coisa que nos dias de hoje não se tem mais que provar, pois,
o que lhes aconteceu, a humanidade hoje conhece pela autêntica ciência histórica. Aos seus ensinamentos foram somados outros, nada se diminuiu no Depósito da Fé.

Fora da Igreja nunca haverá salvação, pois não há contradição em Deus. Se o Espírito Divino iluminou a Igreja quando ela afirmou e reafirmou o dogma, não se verá da parte de Deus um ato que o desabone. Porém, é plano de Deus a salvação de todo justo.  Poderá, pois, haver uma ação direta de Deus em favor de um justo, caso esteja ele se encaminhando para a morte, sem pertencer à Igreja. O acontecimento de tal ato sobrenatural não vai, a partir de então, colocar em dúvida o dogma. Antes, enaltecerá a grandeza de Deus.

Então, neste caso, não é que se fará com que haja salvação fora da Igreja, mas, pode-se dar que, esta alma que não estava ligada à Igreja e prestes a morrer assim, terá extraordinariamente, antes de findar o processo da morte, sua inclusão entre os membros da Igreja, por único juízo de Deus que a terá como merecedora de tal galardão. Chega-se a conhecer exemplos de tais fatos nos relatos de muitos santos que, através de situações prodigiosas, foram encaminhados a justos que estavam prestes a morrer, evangelizando-os e batizando-os.  Ou seja, por uma visão humana a pessoa não pertenceria à Igreja, mas na visão de Deus a alma de tal pessoa fora incluída prodigiosamente, absolutamente, não afrontando o dogma.

Não convém estender tal entendimento da possibilidade da “salvação sem pertencer à Igreja” - como muito provavelmente se propagaria de forma indevida -, conduzindo-se a um relaxamento que culmine em um jargão mais ou menos nestes moldes: “Ah! Pode-se salvar sim. Basta que Deus queira.”

A hipótese da justificação atingida àquele que se encontra em ignorância invencível não é dogma, é hipótese teológica, a qual toca o dogma. Existindo a real possibilidade de haver um indivíduo invencivelmente ignorante quanto às verdades de fé que se devem saber para se salvar, se tal pessoa deva ser contada como um justo aos olhos de Deus, tem ele o auxílio divino que sobrenaturalmente o provê do necessário para incorporá-lo à Igreja antes que morra, pois que, fora da Igreja não há salvação. Não se trata de uma sistematização de uma possível exceção ao dogma, mas trata-se de verificar a infalível atuação da providência divina aos justos. Tal providência, sim, é um ato sistemático e ordinário de Deus.

Exige-se do ignorante invencível, mesmo em sua condição, o cumprimento da Lei Natural, para que possa pleitear de Deus a qualificação de justo. Não sendo assim, certamente será perdoado do pecado de não crer, mas será condenado justamente pelos outros terríveis pecados que cometeu e que o mantiveram na ignorância, não tendo adentrado na Igreja. 

Poder-se-ia encerrar aqui dizendo que “pelo menos se deve ter boa esperança quanto à eterna salvação de todos os que não se encontram de algum modo na verdadeira Igreja de Cristo”. Mas, por dever de católico, não se pode afirmar tal coisa, pois esta frase é a reprodução literal da condenação nº 17 do Silabo, de Pio IX.

Aos que possam ter como dura demais tal doutrina da Igreja, convém que busquem refletir o versículo 21 do primeiro capítulo da primeira carta de São Paulo aos coríntios, e entender que, visto que o mundo por meio de sua sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que creem.

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