quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O LEGADO DE FÉ E MORAL DOS SANTOS AOS FIÉIS DE HOJE (Artigo)

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Resumo

Que falta ao católico de hoje? Responder-se-ia com grande sensatez afirmando que, substancialmente, falta-lhe conhecer e viver com maior profundidade a autêntica catolicidade presente na vida daqueles que são dignos exemplos na fé. Questões de fé e moral propagadas vigilantemente pela Igreja e vivenciadas pelos santos nos seus vinte séculos, são por demais ignoradas e relativizadas na sociedade moderna. No presente artigo, busca-se apresentar uma amostra do rico conteúdo produzido por tantos santos, para motivar os leitores a incorporarem no seu cotidiano ações que beneficiem a santidade, despertando-os para que se aprofundem nos seus pensamentos e modo de ensinar o evangelho presente nas palavras da Igreja hoje. Após uma rápida varredura nos dois mil anos da Igreja, foi possível montar um breve esquema sobre sólidas palavras desses heróis da fé.  Fraqueja o católico hoje por não viver sob os padrões vivenciados pelos santos. Mas, revigora-se aquele que vai à busca de nortear-se nos ensinamentos daqueles que apontam o Cristo iluminando o caminho do homem rumo à salvação.




Introdução

A prudência e a decência, o amor a Deus e o temor de Deus, o desprendimento material e a coragem de defender a fé, são exemplos de virtudes impregnadas na vida dos santos por toda a história da Igreja. O modo de viver em busca da santidade pela prática das virtudes protagonizado por eles, tornou-se paradigma absolutamente aplicável aos homens e mulheres cristãos de todas as épocas e tradições culturais. É exatamente por isso que a Igreja se vê impulsionada a guardar e difundir o legado deixado por tantos santos, incorporando-o na doutrina, na cultura e na devoção da Igreja, apresentando suas vidas, palavras e aspirações, como sendo uma prova cabal de que é possível viver potencialmente o evangelho. É essa moral perene que norteia o homem cristão em quaisquer circunstâncias da vida em sociedade.
Percebe-se, porém, que grande maioria dos fiéis do século atual ignora muito da sabedoria deixada por aqueles que são dignamente aclamados como exemplos de cristãos. Em uma breve exposição, se buscará aqui propiciar um pequeno impulso àqueles que, desabrochando renovado ardor na busca da santidade, se sintam motivados a adentrarem nessa seara de sabedoria a que se chega, quando se acede os escritos dos santos da Igreja.

O autêntico desejo de santidade incompreendido por muitos

Existe um determinado padrão de vida desejado pela grande massa da sociedade que sempre diferiu do modo de vida assumido pelos santos. Gera-se, então, grande incompreensão por parte das pessoas quando se tem um projeto de vida que tenha por objetivo maior alcançar a santidade. Há, pois, uma generalizada manifestação de sentimento que classifica tal postura como sendo um desperdício, por não aproveitar-se dos prazeres materiais da vida.
Desejar a santidade é estar disposto a sofrer com alegria, porque é o próprio sofrer que traz a alegria. E sofre-se, entendendo plenamente o sentido de tal sofrimento. Santa Teresa do Menino Jesus é um ícone nesse aspecto.

Martírio! Eis o sonho de minha juventude! O sonho que cresceu comigo à sombra dos claustros do Carmelo... Aí, também, percebo que meu sonho é loucura, pois não conseguiria limitar-me a desejar um só gênero de martírio... Para me satisfazer, precisaria de todos eles... Quisera, como tu, meu adorado Esposo, ser flagelada e crucificada... Como São Bartolomeu, quisera morrer esfolada... Como São João, quisera ser escaldada em azeite a ferver. Quisera submeter-me a todos os tormentos que se infligiam aos mártires... Com Santa Inês e Santa Cecília, quisera apresentar meu pescoço à espada, e, como Joana D'Arc, minha querida irmã, quisera sobre a fogueira murmurar teu nome, ó JESUS... Pensando nos tormentos que serão a sorte dos cristãos na era do Anticristo, sinto o coração alvoroçar-se, e quisera que tais tormentos me fossem reservados... Jesus, Jesus, quisesse escrever todos os meus desejos, ser-me-ia necessário pedir emprestado teu Livro da Vida, onde se relatam todos os feitos dos Santos, e quereria tê-los praticado por amor a Ti...[1]

Une-se nesse mesmo ideal São João da Cruz, que se reclamava por achar não ter sofrido, ainda que apenas por um dia, defendendo que sofrer por Deus é melhor que fazer milagres. Aqui se consuma a loucura de Deus frente à sabedoria dos homens, como expôs o apóstolo Paulo. Falta aos homens de hoje descobrir o bem espiritual que advém do sofrimento, para então desejá-lo ou, ao menos, não rejeitá-lo.
De fato, o querer o sofrimento é uma constante na vida dos santos, como defendeu Santo Afonso de Ligório: “para fazer-nos santos devemos sofrer, sofrimentos internos e externos, e seria uma loucura querer tornar-se santo sem sofrer. Todos os santos andaram pelo caminho do sofrimento e da cruz, e assim chegaram a ser santos”.[2]
A mortificação é um exercício para se chegar à santidade. Mas é comum que o ser humano busque ele mesmo determinar o sofrimento ao seu gosto. São Francisco de Sales mostra algo além: “As melhores mortificações não são as que nós escolhemos, mas as que Deus escolhe pra nós”[3]

A missão do santo em vida

Entende-se que Deus tenha planejado a existência dos santos e a aplicação da veneração a estes pela Igreja. Sendo elemento de fundamental importância na propagação da doutrina cristã, o exemplo do santo faz comprovar que é plenamente possível viver o evangelho com maior ardor e sem temer as conseqüências dessa opção de vida, pois mais vale a ele a alegria descoberta no venturoso caminhar escolhido.
Pode-se atribuir que o número de santos reconhecidos e canonizados pela Igreja é proporcional ao número de santos ocultos, desconhecidos da devoção popular, que se espelharam nos primeiros, que viveram de fato grande santidade em vida, mas que não tiveram processos formalizados na Congregação para Causa dos Santos.
Os santos visavam o céu, não o altar. Não eram alienados, pois tinham uma ampla consciência de seu papel na Igreja e o encaravam com serenidade. Do grande doutor Santo Agostinho se extrai a lucidez de um missionário de Deus:

Corrigir os indisciplinados, confortar os pusilânimes, amparar os fracos, refutar os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprovação aos bons, tolerar os maus e - ai de mim! - amar a todos.[4]

Não é sem razão que enfrentem com resignada dedicação essa missão clara a seus olhos como sendo um chamado de Deus ao qual não se pode responder com um não.

A verdadeira caridade para com o próximo

Os santos também viveram para o próximo, se doaram na tarefa de aclarar as coisas da fé a seus irmãos. Amaram com amor autêntico, o qual objetiva primordialmente a conversão e a salvação da alma, não apenas uma mera amizade. Por isso tiveram que falar coisas muito duras aos seus. Falando da recompensa de Deus reservada aos bons enquanto convertidos, e da justiça divina aos que, embora sendo maus, praticam atos bons, Santa Catarina de Sena não abrandava a admoestação:

Toda boa obra será remunerada, como todo mal terá seu prêmio. Quando praticada no estado de graça, a boa obra merece o céu; quando feita em pecado, embora sem merecimento, terá sua paga de várias maneiras: umas vezes, Deus concede vida mais longa ou inspira a seus servidores contínuas orações em favor, com o que tais pessoas se convertem, outras vezes, em lugar de vida mais longa e das orações, concede bens materiais. Neste caso, os pecadores são como animais de engorda para o matadouro. Se recusam converter-se através dos meios acima citados, com que os chamo, vida mais longa, preces, Deus recompensa o pouco de bem que fazem; Dá-lhes bens temporais, com os quais “engordam”. Não havendo mesmo conversão, vão para o inferno.[5]

O remédio na dose necessária, a advertência e o aconselhamento que brotavam em suas palavras provinham do maior desejo de encaminhar eficazmente as almas ao mais reto caminho de Deus.
A mensagem que lançam nos corações não se limita a um conselho que pode ser seguido ou desmerecido, mas expande-se de tal forma que impele à conversão e à adequação das atitudes ao plano divino para cada pessoa, como bem expressa São Luis Maria Grignion de Montfort:
           
Como farás, ó alma? Quais os meios que escolherás para subir aonde Deus te chama? Os meios de salvação e de santificação, conhecidos de todos, indicados no Evangelho explicados pelos mestres da vida espiritual, e praticados pelos santos, são necessários aos que se querem salvar e atingir a perfeição: a humildade de coração, a oração contínua, o abandono à Divina Providência, a conformidade com a vontade de Deus. [6]
           
Dessa forma os santos apontaram o Cristo, vivenciando a fé que pregavam.

A vida de oração e a repulsa ao pecado

A vida devotada na oração traduz uma fiel imagem de um diálogo íntimo, verdadeiro e constante com Deus. Aos santos isso se dá em elevadíssima proporção. Orar passa a ser algo vital. Santa Faustina expôs em seu diário o lugar que a oração deve ocupar na vida do cristão:

É pela oração que a alma se arma para toda espécie de combate. Em qualquer estado em que se encontre, a alma deve rezar. Tem que rezar a alma pura e bela, porque de outra forma perderia a sua beleza; deve rezar a alma que está buscando essa pureza, porque de outra forma não a atingiria; deve rezar a alma recém-convertida, porque de outra forma cairia novamente; deve rezar a alma pecadora, atolada em pecados, para que possa levantar-se. E não existe uma só alma que não tenha a obrigação de rezar, porque toda a graça provém da oração.[7]

Santo Afonso de Ligório resume em poucas palavras, dizendo que “sem oração não há vitória”.[8]
Nada tão necessário para os homens que buscam a santidade que imitar os santos nas atitudes de repulsa ao pecado. Que grandeza de alma at[9]ingirá aquele que, como São Domingos Sávio, adotar como lema de vida “Antes morrer do que pecar”. Utopia aos olhos de tantos, tal ideologia de vida arde como brasa nos ouvidos de quem relativiza os preceitos que devem ser cumpridos para se chegar à salvação.
São Jerônimo desvela a ilusão do pecador quando diz que “nada há mais infeliz do que a felicidade dos que pecam!”.[10] E São João Maria Vianney alerta como age o demônio: “O demônio só tenta as almas que querem sair do pecado e as que estão em estado de graça. As outras são dele, ele não precisa tentá-las”.[11]

A magnânima maneira de traduzir a autêntica doutrina católica

Os santos são portadores de uma peculiar capacidade de traduzir as verdades evangélicas em expressões de fácil intelecção e de uma potência arrebatadora. São João Maria Vianney, ao falar do valor da Santa Missa, apresenta uma verdade de fé de uma forma pouca observada atualmente: “O martírio nada é em comparação com a Missa, porque o martírio é o sacrifício do homem a Deus, mas a Missa é o sacrifício de Deus pelo homem”.[12]
Para expressar a realidade da Santa Eucaristia como sendo o verdadeiro corpo, sangue, alma e divindade de Cristo, Santo Agostinho expressa que “sendo Deus onipotente, não pôde dar mais; sendo sapientíssimo, não soube dar mais; e sendo riquíssimo, não teve mais o que dar”.[13] Que feliz ensinamento acerca de um Deus inesgotável, que praticamente esgotou-se para doar-se na Eucaristia.
No seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luis Maria Grignion de Montfort, esclarece a doutrina de Nossa Senhora como medianeira de todas as graças, recorrendo também ao ensinamento de São Bernardo sobre tal questão:

Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças diretamente de suas mãos divinas, dá-as a Maria, a fim de obtermos por ela o que ele nos quer dar; e também redunda em glória para ele, receber pelas mãos de Maria o reconhecimento, o respeito e o amor que lhe devemos por seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos o procedimento de Deus, a fim de que a graça volte a seu autor pelo mesmo canal por onde veio.[14]

A santidade dos que professam a doutrina cristã e a heróica fortaleza dos mártires são tidas como provas da verdade cristã[15]. Eis, certamente, um forte argumento apologético para a fé católica, possuidora de tal privilégio.

Conclusão

O céu é para os santos. Desejar o céu é desejar ser santo.
Os santos canonizados – aqueles conhecidos e reconhecidos como tais pela Igreja - em suas práticas de virtudes promoveram um acúmulo de ensinamentos de grandes proporções. Eis que, sabiamente, a Igreja então proclama como exemplos de fé aqueles que foram expoentes cristãos durante toda a história, utilizando-se dos seus escritos para difundir o evangelho e mesmo motiva-lhes a veneração, o culto de dulia.
Dentre as muitas palavras de sabedoria protagonizadas pelos santos, elaborou-se um roteiro amostral demonstrando desde o modo de viver assumido por eles radicalmente oposto aos deleites da vida material, o empenho na oração e a caridade para com o próximo, expandindo-se até a forma como expunham a doutrina e a firme repulsa ao pecado.
Consolidando este texto, segue, do mesmo autor deste artigo, uma poesia que enaltece o ser santo:

SER SANTO

Ser santo
É ser de Deus
Que santifica os seus
Cada um o seu tanto

Ser santo
É ir para o céu
Não ir é tornar-se réu
E viver eterno pranto

Ser santo
É se arrepender
Pelo erro de ofender
A Deus tanto e tanto

Ser santo
É saber aonde vai
É voltar-se ao Pai
Ao fazer tudo e quanto

Ser santo
É tudo que eu quero
É tudo que espero
Por isso esse canto.





[1] TERESA DO MENINO JESUS, Santa. História de uma alma: manuscristos autobiográficos. 22. ed. São
   Paulo: Paulus, 2002, p. 212.
[2] LIGÓRIO. Santo Afonso de. In: ORESTE, Pe. Gregorio. Assim Pensava Santo Afonso. Tradução,
  subtítulos e ed. PDF de CASTRO, F. Aparecida: 2004, p.10.
[3] SALES, São Francisco de Sales. In: AQUINO, Filipe Rinaldo Queiros de. Na escola dos santos doutores.
  6ª ed. Lorena: Cléofas, 2008, p. 128.
[4] AGOSTINHO, Santo. In: BENTO XVI. Carta Encíclica Spe Salvi. Disponível em: . Acesso em: 01 jul. 2009.
[5] SENA, Catarina de. apud ROLDÃO, José. A fé morta dos pecadores. Disponível em:
. Acesso em: 10 nov. 2008.
[6] MONTFORT, São Luis Maria Grignion de. O grande segredo para se chegar à santidade. Niterói:
  Edições Eletrônicas Permanência, 2008, p.3.
[7] FAUSTINA, Santa. apud SILVA, Vagner C. da.  A importância da Oração e Meditação.  Disponível em
  . Acesso em: 25 jun. 2009.
[8] LIGÓRIO. Santo Afonso de. In: AQUINO, Filipe Rinaldo Queiros de. Na escola dos santos doutores. 6.
  ed. Lorena: Cléofas, 2008, p.169.
[9] Cf. AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. apud Sede Santos, porque eu sou Santo. Disponível em:
    . Acesso em: 30
    jun. 2009.
[10] JERÔNIMO, Santo. apud ANDRÉ, Daniel. Alegria da Cidade dos Homens. Disponível em:
    . Acesso em: 01 jul.
    2009.
[11] VIANNEY, S. J. BATISTA MARIE. Homilia sobre o Evangelho do I Domingo da Quaresma. In:
    MONNIN, A. Cura d´Ars. Campos: Ontem Hoje Sempre, [s.a], p. 97.
[12] VIANNEY, São João Maria. In: AQUINO, Felipe. Ensinamento dos Santos. 3ª. Ed. Lorena: Cleofas, 2003,
    p. 31.
[13] AGOSTINHO, Santo. In: AQUINO, Felipe.Ricos Ensinamentos sobre a Eucaristia. Disponível em:
   . Acesso em: 30 jun.
   2009.
[14] MONTFORT, São Luis Maria Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 38ª
    ed. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 137.
[15] Cf. PIO X. Catecismo maior de São Pio X. Anápolis: Edições Santo Tomás, 2005, n. 9, p. 38.
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