sábado, 29 de maio de 2010

Da necessidade da oração para a salvação

Quando se observa atentamente a condição em que se encontram as almas, fica-se impressionado com a fraqueza, para não dizer coisa pior, com a fraqueza de suas orações. Reza-se pouco, reza-se mal, ou não se reza nada.

A maior parte dos homens não reza, o que é evidente; muitos cristãos rezam mal, seja porque o fazem ou sem fé, ou sem estar entendendo o que fazem, ou sem desejar receber qualquer coisa de Deus.

E mesmo os que rezam, rezam muito pouco.

Parece-nos, pois, que o somatório das orações está longe, muito longe, de corresponder à soma das necessidades; e apenas isto basta para que compreendamos porque vemos ininterruptamente o bem se debilitar e o mal crescer.

Outrora, os cristãos rezavam mais e melhor. As igrejas eram casas de oração e os domingos dias de orações. Hoje, nós vemos as igrejas quase desertas e os dias santos profanados.
Será que é possível encontrar a causa de tão grande mal?

O problema é difícil, porém, vamos nos esforçar na procura da solução.
Por volta do final do século XV, foram introduzidas na Igreja muitas novidades, e até mesmo doutrinas novas que ainda existem, e que aparentemente nada têm a ver com a situação que nós deploramos.

Outrora, todos os cristãos oravam para pedir a Deus sua graça; a graça de O conhecer, de O servir, de O amar, a graça da Fé, da Esperança e da Caridade; a graça de observar os seus divinos mandamentos, a graça da perseverança final. A Igreja reza ainda com esses mesmos propósitos e com as mesmas orações, porém, os cristãos, que antigamente assimilavam a finalidade das preces da Igreja sua mãe, hoje, não entendem mais o sentido dessas orações, pois agora eles estão imbuídos do sentido das doutrinas modernas, largas e fáceis; tão largas e tão fáceis que, com elas, não há mais necessidade de rezar. Como se diz, basta somente querer para ter.

Quando outrora acreditava-se com São Paulo que a Fé não é dada a todos, “non enim omnium est fides” (2 Ts 3, 2), dava-se à Fé o devido valor e rezava-se a Deus para lhe agradecer a graça de no-la haver dado, e rezava-se para lhe pedir a graça de a dar àqueles que não a tinham.

Quando Santo Agostinho ensinava que “a graça não é dada a todos; e quando ela é dada, não é dada segundo nossos méritos mas sim por pura misericórdia; e quando a graça não é dada, isto se deve a um justo juízo de Deus”, os cristãos, que entendiam esta doutrina, aprendiam a orar, a se humilhar e a reconhecer os dons de Deus1 

Hoje o entendimento é diferente, e se diz que Deus dá sua graça a todos, e para recebê-la basta querer. É fácil deduzir a conseqüência destas novas opiniões: é desnecessário pedir, uma vez que Deus dá tão generosamente.

Há sobretudo um ponto, e um ponto capital a partir do qual as novas opiniões lançaram muitas almas no erro; referimo-nos à graça que é necessária para a vontade.

Dando Deus sua graça tão copiosamente a todos os homens, imagina-se hoje, não há mais necessidade de pedir a Ele a graça de querer o bem. A boa vontade qualquer um se a dá, se lhe apraz e quando lhe agrada; aceita a graça que Deus dá a todos, a faz por assim dizer sua, e em seguida avança e se faz a si mesmo um homem de boa vontade. Assim sendo, não é mais necessário rezar; basta que a vontade humana se mova.

Não era assim que os nossos pais pensavam, pois eles pediam a Deus a graça de querer o bem. 

As preces da Igreja são nossas testemunhas e são testemunhos fiéis. Dentre todas as que nós poderíamos citar, eis aqui algumas:

- “ Ó Deus, que unistes a diversidade das nações na confissão do vosso nome, fazei-nos querer e poder o que Vós nos ordenais...”2
- “Ó Deus, fazeis vossos povos amar o que ordenais e desejar o que prometeis...”3
- “Ó Deus, força dos que em Vós esperam, atendei com bondade as nossas orações e, porque sem Vós nada pode a fraqueza humana, fazei que, com o auxílio da vossa graça, Vos agrademos por vontade e por obras, no cumprimento dos vossos mandamentos”4
Seria preciso citar todas as orações da Igreja, pois todas pedem a deus a graça da inteligência que esclarece e a graça da vontade que fortalece.
Na última das orações que citamos acima, a Igreja pede a Deus que lhe agrademos pela vontade e pelas obras. Portanto, a Igreja nos ensina a pedir a Deus não apenas as graças de saber, de poder e de querer, mas também a graça especial de fazer obras agradáveis a Deus.
Como estão longe de pensar assim muitos cristãos que imaginam que, fazer o bem depende apenas deles e que, tendo feito qualquer coisa para Deus, se gabam a si mesmo pelo que fizeram, como se o bem fosse obra deles e como se pudessem se vangloriar não somente a seus próprios olhos, mas também diante do próprio Deus.
Deus não ordena coisas impossíveis, mas daí não é lícito concluir que a oração não é necessária.
O Concílio de Trento diz: “Deus não ordena coisas impossíveis, mas ao ordenar, Ele vos adverte que deveis fazer o que podeis e pedir o que não podeis, e ele ajudará a fim de que possais” (Sess. VI, cap. XI).
O Concílio entende, pois, que nem sempre temos os meios suficientes, e aquele que se encontra em tal situação sabe a quem pedir aquilo que lhe falta. O resultado desta doutrina é que a oração é necessária para que os mandamentos de Deus possam ser observados.
“Porém, diz um sábio autor, se alguns, mesmo pedindo, não conseguem, muito menos conseguirão o que não pedem e que nem mesmo querem pedir, e que não reconhecem Aquele a quem é preciso pedir”5
Precedendo o ensinamento do Concílio de Trento, Santo Agostinho dizia: “Os pelagianos acreditam que fizeram uma grande descoberta, quando nos dizem que Deus não ordenaria aquilo que Ele sabe ser impossível aos homens. Quem é que ignora isto? Porém, ele nos ordena certas coisas que nós não podemos fazer, a fim de que nós saibamos o que lhe devemos pedir”6
A ordem nos é, então, dada, para que busquemos a ajuda Daquele que nos comanda. Daí a necessidade da oração e é uma necessidade tão grande que, sem a prece, é impossível a um cristão resistir às tentações, obedecer aos mandamentos e se salvar.
“É certo, diz ainda Santo Agostinho, que nós observamos os mandamentos se queremos, mas, como é o Senhor que opera na vontade, é preciso lhe pedir que nós queiramos tanto quanto é preciso, para que, querendo, façamos o que está ordenado”7

* * *
 Oração para a salvação da nossa liberdade
A oração que se segue foi impressa em Roma em 1695, com permissão dos superiores, com o título:
“Oração da fraqueza humana e da humildade cristã”
“Deus qui habes humanorum cordium quo tibi placet inclinandorum omnipotentissimam potestatem; tu intus in me age; tu cor meum tene; tu cor meum move; tuque me voluntas mea quam ipse in me operaris, ad te trahe.
Per Christum Dominum nostrum. Amen.”
“Ó Deus, que tendes o poder onipotente de fazer pender os corações dos homens para onde desejais; agi, Senhor, em mim; tomai o meu coração; movei Senhor, o meu coração; por minha vontade que operais em mim, atraí-me para Vós;
 Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amén.”
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  1. 1. Scimus gratiam Dei Nec parvulis Nec majoribus secundum merita nostra dari. Scimus non omnibus hominibus dari; et quibus datur, non solum secundum merita operum dari, sed Nec secundum merita voluntatis eorum quibus datur, quod máxime apparet in parvulis. Scimus eis quibus datur, misericórdia Dei gratuita dari. Scimus eis quibus non datur, justo judicio Dei non dari. (S. Aug. Epist. Ad Vitalem, cv.).
  2. 2. Oração do Sábado Santo, depois da Profecia X.
  3. 3. Oração do 4º. Domingo depois da Páscoa.
  4. 4. Oração do 1º. Domingo depois de Pentecostes.
  5. 5. Si autem petentes quidam nondum possunt, quanto minus possunt non petentes, imo nec petere volentes, nec eum a quo petatur agnoscentes (Estius)
  6. 6. Magnum aliquid Pelagiani se scire putant quando dicunt non juberet Deus quod sciret ab homine non posse fieri. Quis hoc nesciat? Sed ideo jubet aliqua quae non possumus, ut noverimus quid ab illo petere debeamus (De gratia et libero arbítrio, c. XVI).
  7. 7. Certum est nos mandata servare si volumus: sed qui preparatur voluntas a Domino, ab illo petendum est ad tantum velimus quantum sufficit ut volendo faciamus (id. ib).
Fonte: http://sitenovo.permanencia.org.br/drupal/node/1073

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Por que se tem colocado aspas no dogma Fora da Igreja Não Há Salvação


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho


Foto parcial da página 243 do Catecismo da Igreja Católica, 11. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

Após a promulgação explicita de uma fórmula dogmática, os pronunciamentos magisteriais posteriores devem impreterivelmente, ao tocar o dogma, apenas endossar o enunciado dogmático já conhecido e refutar tese oposta. Jamais devem dar outro entendimento, acrescer, reduzir, modificar ou substituir o seu sentido, para que tal pronunciamento não seja vencido frente à maior potência do discurso dogmático.

Uma observação mesmo intrigante se tem notado: O surgimento do uso de aspas no enunciado, sugerindo a necessidade de uma clarificação de significado. Como exemplo, cita-se a versão editada em português do Catecismo da Igreja Católica onde se vê tal uso. Ressalte-se que, quando formulado, o dogma veio sem aspas. Pergunta-se, pois: é realmente preciso entender algo mais do que se lê explícito na fórmula do dogma? Por quê?

Atualmente, nos discursos das pessoas da Igreja não se encontram tão facilmente respostas para tais questionamentos. Entretanto, é certo que o Magistério, após séculos de caminhada com o dogma incorporado à sua pregação, tem dedicado alguns textos apresentando uma espécie de explicação do dogma, que parece ter ido além da pedagogia adotada em catecismos de outrora. Cita-se, p. ex., o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica publicado em 2005: 

O que significa a afirmação: "Fora da Igreja não há salvação"? Significa que toda salvação vem de Cristo Cabeça por meio da Igreja, que é o seu corpo. Portanto, não podem ser salvos os que, conhecendo a Igreja como fundada por Cristo e necessária à salvação, nela não entrarem e nela não perseverarem. Ao mesmo tempo, graças a Cristo e à sua Igreja, podem conseguir a salvação eterna todos os que, sem culpa, ignoram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas procuram sinceramente a Deus, e, sob influência da graça, se esforçam por cumprir a vontade dele, conhecida por meio do ditame da consciência. (COMPÊNDIO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2005. n.171.)

Bem claro está que, em pronunciamentos dogmáticos a Igreja nunca disse o enunciado contrário ao dogma, nos termos de "Fora da Igreja salvação". Essa postura revigora um ar de manutenção da hermenêutica original. No mais, os enunciados dogmáticos são de leitura direta e objetiva, sem margens para dúvidas. É algo que já se apresenta explicado semanticamente, tornando-se insensatez abrir mão do que se lê em um pronunciamento infalível para aderir a uma explicação que se lê em pronunciamentos falíveis. A explicação que se pode propor acerca do dogma não é para o sentido das palavras, mas para o sentido teológico. Não é explicar o que a Igreja disse, mas por quê a Igreja disse.
 
Quando a Igreja pela primeira vez asseverou o dogma, a sua proposta foi entendida e aceita pelos católicos, que reconheciam que efetivamente se traduzia aquilo que a Igreja teve a intenção de definir. A partir de então, nada mais poderá atentar contra esta verdade. Insinuar algo diferente é querer apagar a luz de Cristo.
 

terça-feira, 25 de maio de 2010

O dogma Fora da Igreja Não Há Salvação e sua conexão com outros dogmas



A fé católica é um todo composto por verdades conexas entre si, um sistema perfeito como que de engrenagens que, comunicando-se, fazem resultar um produto de magnífica coerência. Um dogma não pode ferir outro, não pode enfraquecer outro, não pode questionar outro. Eles convergem, cada um com sua potência, para um único fim último. Ao dogma Fora da Igreja não há Salvação estão fortemente ligados, entre outros, os dogmas da necessidade do batismo, do pecado original, do Corpo Místico e da unicidade da Igreja.

De fato, bem se sabe que é pelo batismo que se apaga o pecado original, o qual impede de se ver a Deus face a face. O batismo é, pois, necessário para que se seja incorporado à Igreja, que é única e que é o Corpo Místico de Jesus Cristo. Resulta-se que, sem o batismo não se pode salvar-se.

Não há possibilidade de uma alma provar das bem-aventuranças eternas sem ter um vínculo com Deus. Uma alma, taxativamente, não tem potência para, sozinha, ter um existir agradável. Tampouco não existe na eternidade outra fonte para lhe nutrir de bons sentimentos. Assim se aceita irrefutavelmente que é preciso estar ligada ao Corpo Místico de Cristo, a Igreja.

Se, pois, alguém esquivar-se de dar assentimento à asserção de que fora da Igreja não há salvação, por certo atingirá outro(s) dogma(s). Para que isso não aconteça – ou pelo menos não soe assim – uma manobra é bastante usada por grande parte dos teólogos modernos que, reconhecendo o enunciado do dogma, o apresentam como tendo provado de um progresso que fez ampliar seu sentido. Ainda que muito se difunda tal idéia, não passa de tese sem fundamento no magistério da Igreja e plenamente combatida por doutrina anteriormente estabelecida. A Igreja entende seus dogmas pelas mesmas palavras que Ela uma vez declarou, e nunca deverá haver desvio deste sentido. Um texto do apóstolo Paulo solidifica essa postura:

Deus é testemunha de que quando vos dirijo a palavra, não existe um sim e depois um não. O Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós, Silvano, Timóteo e eu, vos temos anunciado, não foi sim e depois não, mas sempre foi sim. Porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus. Por isso, é por ele que nós dizemos Amém à glória de Deus. (2Cor 1, 18-20).

A convicção da Igreja ao expor a doutrina deve estar transparente ao fiel. Ela assim faz porque é a única detentora autêntica de tal missão.

domingo, 23 de maio de 2010

Explicação real: Noção dos Sacramentos


CATECISMO ROMANO – II PARTE: DOS SACRAMENTOS - excertos

Explicação real: Noção dos Sacramentos

Embora haja várias explicações boas e admissíveis, nenhuma iguala à justa e luminosa definição de Santo Agostinho, perfilhada mais tarde por todos os teólogos escolásticos. "Sacramento, diz ele, é o sinal de uma coisa sagrada". Noutros termos, que exprimem a mesma idéia: "Sacramento é o sinal visível de uma graça invisível, instituído para a nossa justificação". 

O sinal sacramental
Para melhor compreensão, devem os pastores decompor o definido em suas partes. Comecem por explicar que as coisas de percepção sensível se reduzem a duas classes principais. Umas são feitas exclusivamente como sinais de alguma coisa. Outras não são sinais de coisa nenhuma, mas têm em si mesmas toda a razão de ser. Nesta categoria se enquadram quase todas as coisas, produzidas pela natureza. À primeira pertencem o nome das coisas, a escrita, as bandeiras, as imagens, as trombetas, e outros objetos congêneres. Se tirarmos às palavras a função de significar algum sentido, sem dúvida perderiam a finalidade,para a qual são formadas. Tais coisas são sinais propriamente ditos.
No sentir de Santo Agostinho, sinal é tudo aquilo que, além de atuar por si em nossos sentidos, nos leva também ao conhecimento de outra coisa concomitante. Assim, pelos vestígios impressos na terra, facilmente conhecemos que ali passou alguém, sujas pegadas aparecem.

Designativo de um efeito interior

Isto posto, é muito claro que os Sacramentos pertencem à categoria dos sinais, porquanto nos mostram exteriormente, por certa imagem e semelhança, o que Deus opera interiormente, em nossa alma, pelo Seu poder invisível.
Um exemplo esclarece melhor a nossa explicação. No Batismo, recebemos uma ablução do corpo, acompanhada de certa fórmula sacramental. Ora, essa ablução é o sinal de que, pela virtude do Espírito Santo, se lava interiormente toda mancha e torpeza do pecado, e que nossas almas são ornadas e enriquecidas com o elevado dom da justiça celestial. Como mais adiante se dirá, essa ablução do corpo produz simultaneamente, na alma, o efeito por ela simbolizado.

Como prova da bondade divina

Grande vantagem haverá em saberem os fiéis que os Sacramentos pertencem à classe dos sinais, pois assim lhes será mais fácil compenetrar-se dos santos e sublimes efeitos, que simbolizam, encerram e produzem. Levados por esta convicção, os fiéis prestarão maior culto e adoração à bondade de Deus para conosco.

Não é sinal natural

Agora vem a explicação dos termos "coisa sagrada", que constituem a segunda parte da definição. Será mais cômodo fazê-la, se ampliarmos ligeiramente a penetrante análise, que Santo Agostinho fez das várias espécies de sinais.
Uns se chamam sinais naturais. Além da impressão de si mesmos dão-nos a idéia de outra coisa a mais. Ora, como já se demonstrou, isto é um caráter comum de todos os sinais. Assim, onde há fumaça, conclui-se logo que ali há também fogo. Este sinal se chama natural, porque a fumaça faz lembrar o fogo, não por uma convenção arbitrária, mas pela experiência natural de que nos basta enxergar fumaça, para logo concluirmos que por ali há fogo em ação, embora não apareça ainda à nossa vista.

Nem convencional

Outros sinais há, que não o são por natureza, mas por invenção e instituição humana, para que os homens possam comunicar-se entre si, transmitir a outrem suas próprias idéias, e conhecer as idéias e intenções de seus semelhantes.
Grande é seu número e variedade, como se vê pelo fato que alguns sinais são próprios para a vista, muitos pra os ouvidos, e os restantes para os outros sentidos. Por exemplo, quando acenamos a alguém, ou erguemos um pendão, é lógico que tais
sinais se destinam à percepção da vista; assim como os sons de trombetas, flautas e cítaras, que se empregam não só para deleitar, mas também para exprimir alguma coisa convencional, são sinais acomodados ao ouvido. É também pelo ouvido que principalmente nos chegam as palavras, como os meios mais eficazes de exprimir as íntimas sensações de nossa alma.

Mas instituído por Deus

Além destes sinais já considerados, que se baseiam em convenção humana, existe ainda uma terceira categoria de sinais, instituídos diretamente por Deus. Na opinião unânime dos teólogos, subdividem-se em várias espécies.
Uns foram dados por Deus aos homens, só para lhes significarem ou recordarem alguma coisa. De tal simbolismo eram as purificações legais, o pão ázimo, e muitas outras cerimônias, que faziam parte do culto mosaico.

Com a força de produzir o que simboliza

Outros, porém, Deus os instituiu com a virtude, não só de simbolizar, mas também de produzir alguma coisa. A este número de sinais pertencem, sem contestação, os Sacramentos da Nova Aliança. São sinais de instituição divina, que não de invenção humana; possuem também a virtude de produzir os santos efeitos que simbolizam. Assim o cremos com fé inabalável. 

A "coisa sagrada" por ele designada: 

A santificação da alma

Como os sinais são múltiplos, pelo que acabamos de ver, assim também a "coisa sagrada" pode ter vários sentidos. Na definição de "Sacramento", por "coisa sagrada" entendem os teólogos a graça de Deus, que nos santifica e nos reveste com o hábito de todas as virtudes sobrenaturais. Com razão concordam em darem, a esta graça, o nome de "coisa sagrada", visto que por sua mediação nossa alma se consagra e se une a Deus.
Para chegarmos a uma definição mais explícita, devemos dizer que Sacramento é uma coisa sensível que, por instituição divina, tem em si a virtude não só de significar, mas também de produzir a santidade e a justiça.
Por conseguinte, todos convirão em que as imagens de Santos, as cruzes, e outros objetos semelhantes, são sinais de coisas sagradas, mas nem por isso, podem, [por definição], chamar-se Sacramentos.

Mediante qualquer Sacramento

Seria rápido aferir a justeza de nossa definição pelo exemplo de todos os Sacramentos, averiguando se neles se opera um processo análogo ao que já vimos antes no Batismo. Dizíamos então que a
ablução sacramental do corpo era, ao mesmo tempo, sinal e causa eficiente de uma "coisa sagrada" que, interiormente, se produzia pela virtude do Espírito Santo.
Outro caráter importante destes sinais místicos, obras de Deus, é que foram instituídos para significar não só uma coisa, mas também várias outras ao mesmo tempo. 

Motivos para se instituir os Sacramentos
 
A fraqueza do espírito humano

Ora, para ensinar a maneira de se fazer bom uso dos Sacramentos, o meio mais eficaz é expor cuidadosamente as razões determinantes de sua instituição.
Entre as muitas que se costumam alegar, a primeira é a natural fraqueza do espírito humano. Consta, por experiência, ser ele tão limitado, que o homem não pode chegar ao conhecimento de coisas puramente intelectuais, senão por intermédio de percepções sensíveis. Assim, com o intuito de nos facilitar a compreensão das operações invisíveis de Sua infinita sabedoria, manifestar essa oculta virtude [dos Sacramentos] por meio de sinais sensíveis, que fossem também uma prova de Seu amor para conosco.
São João Crisóstomo diz com toda a clareza: "Se o homem não tivera corpo, os bens espirituais lhe seriam propostos a descoberto, sem nenhum véu que os ocultasse. Mas, desde que a alma se acha unida ou corpo, era de todo necessário que, para a compreensão daqueles bens, ela se valesse de objetos adaptáveis aos sentidos".

Maior confiança nas promessas divinas

A segunda razão é que nosso espírito dificilmente põe fé nas promessas que nos são feitas. Por isso é que, desde o início do mundo, Deus sempre tornava a anunciar seus desígnios por meio da palavra. Mas, às vezes, quando decretava alguma obra, cuja grandeza podia abalar a confiança em Sua promessa, acrescentava às palavras ainda outros sinais, que não raro tinham o caráter de milagres.
Ora, assim como Deus fizera no Antigo Testamento, confirmando por sinais a firmeza de Suas promessas: assim também Cristo Nosso Senhor, quando nos prometeu na Nova Lei a remissão dos pecados, a graça santificante, a comunicação do Espírito Santo, instituiu simultaneamente certos sinais sensíveis, nos quais víssemos empenhada a Sua palavra, de molde a excluir toda dúvida na realização do prometido.

Pronta medicação da alma pela Paixão de Cristo

No dizer de Santo Ambrósio, a terceira razão é que os Sacramentos deviam proporcionar, como os remédios do Samaritano no Evangelho, uma pronta medicação que nos restituísse, ou conservasse a saúde da alma.
A virtude que dimana da Paixão de Cristo, isto é, a graça que nos mereceu no altar da Cruz, deve chegar-nos dos Sacramentos, como que por uns canais de comunicação. Sem estes meios, não restaria nenhuma esperança de salvar-nos eternamente.
Levado de grande clemência, Nosso Senhor empenhou Sua palavra, e quis deixar à Igreja os Sacramentos. De nossa parte, temos a firme obrigação de crer que eles realmente nos comunicam os frutos de Sua Paixão, contanto que cada um de nós use tais remédios, com a devida fé e piedade.

Senha e divisa para distinguir os fiéis

Existe uma quarta razão, pela qual se pode julgar necessária a instituição dos Sacramentos. Deviam servir de senha e divisa para os fiéis se reconhecerem entre si. Conforme disse Santo Agostinho, nenhum grupo de homens pode constituir um corpo jurídico, a título de verdadeira ou falsa religião, se os membros componentes se não ligarem entre si, pela convenção de alguns sinais distintivos da sociedade. Ora, os Sacramentos da Nova Lei satisfazem essa dupla exigência, porquanto distinguem dos infiéis os seguidores da fé cristã, e unem os fiéis entre si, mediante um vínculo sagrado.

Profissão de fé pública

Outra razão ponderável para a instituição dos Sacramentos vem expressa nas palavras do Apóstolo: "Crê-se de coração para ser justificado. Mas, para ser salvo, se faz confissão de boca (Rm 10, 10). Ora, pelos Sacramentos são de grande eficácia, não só para ativar e nutrir a fé em nossos corações, mas também para inflamar aquela caridade, pela qual devemos amar uns aos outros; porquanto nos recordam que, pela participação dos mesmos Mistérios, nos unimos aos outros pelos laços mais estreitos, e nos tornamos membros de um só corpo.

Repressão do orgulho

Há, por último, uma razão de suma importância para a vida cristã. Os Sacramentos domam e reprimem o orgulho do espírito humano. São para nós uma escola de humildade, pois que nos obrigam a submeter-nos a elementos sensíveis, em obediência a Deus, de quem nos havíamos impiamente separado, para nos fazermos escravos das coisas deste mundo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Requisitos Necessários à Salvação do Homem Encontrados na Bíblia



Desvinculados da reta doutrina, e entregues à própria sorte por não se submeterem à fiel interpretação das Escrituras Sagradas realizada pela Igreja, os protestantes, em geral, enaltecem um único preceito suficiente para se fazer jus à salvação: "Portanto, se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Jo 10, 9). Ora, não somente isso, mas outros preceitos devam também ser cumpridos para que se conquiste a salvação, pois também são palavras encontradas neste mesmo evangelho (Jo 6, 51-58):

Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente.

Tem-se então a obrigação de se alimentar da Eucaristia para poder ser salvo. E a Eucaristia só existe na Igreja Católica Apostólica Romana.* Além do mais, outras obrigações ainda dispoem as Sagradas Escrituras para tornar-se o homem apto à salvação:


  • É preciso crer em Deus: "Disseram-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família." (At 16, 31); "Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna." (Jo 6, 47);


  • É preciso perseverar até o fim: "Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo." (Mt 24, 13); "Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo." (Mt 10, 22);


  • É preciso aceitar o sofrimento: "Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim." (Mt 10, 38). É o mesmo que se afirma no evangelho de Marcos (Mc 8, 34-36): Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?


  • É preciso ser batizado: "Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado." (Mc 16, 16). "Quando Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água. Esta água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós." (Tt 3, 20-21a);


  • O evangelista Mateus diz que é preciso guardar todos os mandamentos e praticar a justiça (Mt 5, 19-20): 

    Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus.
    f) É preciso ouvir a Pedro (O Papa): "Este nos referiu então como em casa tinha visto um anjo diante de si, que lhe dissera: Envia alguém a Jope e chama Simão, que tem por sobrenome Pedro. Ele te dirá as palavras pelas quais serás salvo tu e toda a tua casa." (At 11, 13-14). Leia-se para o mesmo entendimento (At 15, 7): "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e lhes disse: Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a palavra do Evangelho e cressem." 

    Tal conjunto de requisitos necessários à salvação encontrados na Bíblia, só a Igreja católica preenche. E isso é fato! Uma cabal confirmação que leva ao claro entendimento de que é através dessa Igreja que se percorre o caminho da salvação, encontra-se no livro dos Atos dos Apóstolos (At 2, 44-47):

    Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação.

    Ao contrário, aqueles pertencentes a outras denominações religiosas, afastam perigosamente da salvação as almas que se lhes deixam ouvir, pois que não têm o poder de ensinar e não se submetem à interpretação autêntica das Sagradas Escrituras realizada pela Igreja: "Há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína" (2 Pd 3, 16).

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os desejos (3ª parte, capítulo XXXVII do Livro Filotéia, escrito por São Francisco de Sales (1567-1622)


Todos sabem que não se deve desejar nada de mal, porque o desejo de uma coisa ilícita torna o coração mau. Mas eu acrescento, Filotéia, que não se deve desejar nada que é perigoso para a alma, como bailes, jogos e outros divertimentos, honras e cargos importantes, visões e êxtases; tudo isso traz muita vaidade consigo e é sujeito a muitos perigos e ilusões. Não desejes também as coisas que ainda estão por vir num futuro remoto, como fazem muitos, dissipando e cansando inutilmente o coração e expondo-o continuamente a muitas inquietações. Se um jovem ambiciona ardentemente ocupar um cargo precocemente, de que lhe poderá servir este desejo? Se uma mulher casada deseja entrar no convento: a que propósito? Se pretendo comprar a propriedade de outrem antes que ele queira ma ceder, não é isto perder o meu tempo? Se estando doente, desejo pregar, dizer Missa ou visitar enfermos ou fazer exercícios dos que têm saúde, não são estes desejos vãos, posto que nada disso está em meu poder? Entretanto estes desejos inúteis ocupam o lugar doutros que deveria ter e que Deus manda que se efetuem, como os de ser paciente, mortificado, obediente e manso em meus sofrimentos. Mas em geral os nossos desejos se parecem com os das mulheres grávidas, que no outono desejam cerejas frescas e uvas novas na primavera.

Não aprovo absolutamente que uma pessoa ande a aspirar a um gênero de vida incompatível com os seus deveres, ou exercícios inconvenientes ao seu estado, porque as pretensões vãs dissipam o coração, atenuando-lhe as forças para os exercícios necessários. Eu perderia meu tempo, se me pusesse a desejar a solidão dos Cartuxos e esta aspiração tomaria o lugar da que eu deveria ter, de preencher bem os meus deveres atuais. Tão pouco quisera que desejasses ter maior engenho, porque são desejos frívolos e estariam em lugar daquele que todos devem ter, de cultivar o seu assim como é; ou, enfim, que desejasses meios que se não possuem de servir a Deus, em vez de empregar fielmente os que se têm à mão. Tudo isso há de se entender dos desejos que se apossam do coração, porque os simples e passageiros não prejudicam muito, visto não serem permanentes.

Quanto às cruzes, é bom desejá-las somente na proporção e sob a condição de que saibas suportar bem aquelas que tens. É um absurdo desejar o martírio e não poder suportar uma pequenina injúria. O inimigo nos engana muitas vezes, inspirando-nos desejos para coisas grandes que estão ainda longe ou mesmo nunca se hão de realizar, a fim de afastar o nosso coração das presentes, que, por menores que sejam, seriam para nós uma fonte abundante de virtudes e merecimentos. Combatemos na mente os monstros da África e nos deixamos matar pelas pequeninas serpentes que rastejam no caminho, por não lhes prestarmos a atenção necessária.

Não desejes também ter tentações, que isto seria temeridade; mas prepara-te para resistir-lhes vigorosamente, quando vierem.

A variedade e a quantidade das iguarias sobrecarregam o estômago e, se é fraco, o arruínam; do mesmo modo a quantidade de desejos para coisas espirituais embaraçam sempre o coração e, se são de coisas mundanas, o corrompem inteiramente. Nossa alma, uma vez purificada de suas más inclinações, sente um grande anelo de coisas espirituais; anseia por mil espécies de exercícios de piedade, de humildade, de oração. Esta fome espiritual, Filotéia, é um sinal muito bom; mas na convalescença de uma doença é preciso examinar se se pode digerir tudo o que se apetece. Discerne, pois, e escolhe os teus desejos, segundo o conselho de teu diretor espiritual, e procura aqueles que ele aprovar; fazendo assim, Deus te enviará outros oportunamente, quando forem úteis para o teu adiantamento espiritual. Não digo que se perca alguma espécie de desejos bons, mas que sejam regulados e que se deixe amadurecer no coração os que ainda não estão de vez, aplicando a pôr em prática os que já estão maduros. Há de se entender isto mesmo dos desejos de coisas mundanas, porque não há outro meio de se livrar do desassossego e inquietação.

 

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Fiéis acreditam na validade dos sacramentos administrados pelo falso padre do Morumbi

Que mais falta a acontecer à Igreja nesses tempos tão atribulados? Conforme noticiado na Folha, o falso padre José Francisco de Lima, que atuava há cerca de dois anos na Igreja de São Pedro e São Paulo, no Morumbi, foi afastado pelo Bispo Dom Luiz Antônio Guedes após investigação realizada a partir do alerta de um dos fiéis.

Lê-se na reportagem que: "A igreja tratou logo de tranquilizar as pessoas que receberam sacramentos. 'Todos que foram assistidos pelo ministério do falso padre Francisco Albuquerque de Lima no tocante aos sacramentos do Batismo, do Matrimônio e da própria Penitência, podem ficar tranquilos quanto à validade porque neste caso a boa-fé dos fiéis é contemplada'."
 
A reportagem da Folha ouviu também a CNBB, através do Pe. Geraldo Martins Dias, responsável pela área de comunicação da entidade, informando que "Para ele, os sacramentos ministrados por falsos padres não têm validade."

Dentre os fiéis não faltou quem caracterizasse o falso padre como portador de "homilias lindíssimas", ou mesmo, quem tendo confessado com o falso padre aceite a validade do sacramento pois "o perdão veio de Cristo", o sacerdote é só um instrumento. Ou ainda, relatos como "quem buscou a Deus foi abençoado da mesma forma"

Link da matéria na Folha On Line: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u735868.shtml
 

Tradição católica e tradições protestantes: os ensinamentos seguidos fora da Bíblia


por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Os protestantes são enfáticos em afirmar que somente a Bíblia é bastante para nortear a fé do homem. Alegam que o Espírito Santo dá a cada um o dom de interpretá-la. Esquecem eles que cada uma das dezenas de milhares de doutrinas hoje existentes, distintas entre si, são resultado da inconseqüente iniciativa de cada um de seus fundadores em atribuir para si o poder de interpretar plenamente as Sagradas Escrituras. Mas como é possível que o Espírito Santo possa fazer com que se interprete um mesmo texto de diversas formas? E, diante de tantas interpretações diferentes, qual deve ser seguida?


Eis que tendo formulada toda uma linha doutrinária, cada fundador busca expô-la através de não poucos escritos, para, assim, fazer expandir sua mais nova igreja, pregando toda a "verdade que só ela contém". Os seguidores dessa doutrina, os seus pastores e líderes de comunidades afiliadas recorrem a tais escritos e os tem como guia para caminhar de acordo com a linha teológica que define as verdades a serem pregadas. Ora, é tão óbvio deduzir-se que em tal situação se consuma o uso de uma tradição seguida com base nos ensinamentos desses homens, e por conseqüência, busca-se absorver os ensinamentos da Bíblia guiados por exposições contidas fora dela.

Partindo desse fato, temos duas afirmações, das quais apenas uma pode ser dada como verdadeira: Ou os protestantes mantêm submissão aos ensinos doutrinários de seus fundadores, o que caracteriza manter sua tradição; Ou desviam-se dos ensinos destes homens ao longo da história e culminam na infeliz conclusão de que tais ensinamentos não eram verdadeiros, portanto, sem razão de terem acontecido.

Sendo a última opção o desmoronamento dessa doutrina, nos detenhamos à primeira hipótese: Pois, se os seguidores dessa denominação religiosa mantêm tais ensinamentos doutrinários e os tem como esclarecedores e auxiliares na interpretação da Bíblia mas que foram formulados muitos séculos após o início do Cristianismo, por que não haveremos de reconhecer os escritos daqueles que estiveram com o próprio Jesus, presenciando os milagres, caminhando com Ele em sua missão? Se os escritos de Lutero, Calvino, Ellen White e demais cisores são estudados e levados em consideração na manutenção das doutrinas de suas correspondentes denominações religiosas dos dias de hoje, por que se reluta em afirmar que apenas os católicos seguem ensinamentos não explícitos na Bíblia?

De fato, nenhuma doutrina sobrevive sem sua tradição. É este conceito de tradição que aplicamos à Sagrada Tradição dos ensinamentos dos Apóstolos e seus sucessores, que não estão consignados diretamente na Bíblia, mas que nós, católicos, reconhecemos como dignos de fé, pois se é inevitável que se deva seguir alguma tradição, com certeza esta deve ser a Sagrada Tradição daqueles que receberam do próprio Jesus a missão de perpetuar o "Depósito da Fé" e a cumprem em todos os tempos. Eles foram incumbidos por Jesus para expandir toda a Revelação Divina e demais ensinamentos advindos por sugestão do Espírito Santo a todas as gerações ao longo da História.

Diante deste horizonte, há que se perguntar se esta sã Tradição possa ter sido corrompida no tempo. Em tempos de grande apostasia, de fato, não é tão difícil se verificar que somam um grande número as pessoas da Igreja que se deixaram afastar da imemorial tradição advinda de Cristo e dos apóstolos. Não caberia, entretanto, afirmar aqui que a Tradição bimilenar da Santa Igreja já não seja possível ser encontrada em seu seio nos tempos atuais, isto seria mais uma inconseqüente suposição, pois se estaria afirmando que Cristo foi incapaz de cumprir sua promessa de que estaria com sua Igreja até a consumação dos tempos. Nesses tempos difíceis de encontrar a verdadeira fé, é pelos consagrados ensinamentos contidos Sagrada Tradição da Igreja Católica que mais eficazmente se visualiza o caminho por onde se deva trilhar em busca do céu. 

(Revisado e republicado)

domingo, 16 de maio de 2010

A ladainha de Nossa Senhora



Na ladainha invocamos Nossa Senhora sucessivamente em cinco prerrogativas distintas que aliás se completam: sob seus títulos de mãe e de virgem, como obra prima de Deus designada em figuras e símbolos, como socorro em toda espécie de aflições e finalmente como rainha por excelência.
 
Algumas dessas desinências pedem uma palavra de esclarecimento. Espelho de justiça: o termo justiça é usado no sentido bíblico de santidade; se diz da Virgem que ela é espelho de justiça por ser ela quem melhor reflete a santidade de Deus. O termo vaso, três vezes repetido, tem também sentido bíblico. Neste caso parece legítimo dar-lhe a significação de ser, de criatura. Maria é vaso espiritual porque é a criatura, a única e singular criatura humana, que foi sempre residência do Espírito Santo. É vaso honorífico no sentido de que é digna de toda honra mais do que qualquer criatura no céu e na terra. Finalmente como Nossa Senhora nunca deixou de ser devotada aos desígnios de Deus — ao seu mais alto desígnio que é a encarnação redentora — reconhecemos ser ela animada por insigne devoção: eis a serva do senhor. Ninguém ignora que a rosa é símbolo de amor. Já que Maria é cheia de graça e de amor nós a proclamamos rosa mística. Maria nos protege com força e inteligência de mãe contra a Serpente infernal e seus sequazes, por isso pode ser comparada à uma torre. Ela nos protege tanto mais firmemente contra os liames do pecado porque ela própria nunca a eles deu a menor deixa, é pura, imaculada, é o que sugere, embora palidamente, a cor do marfim. Pureza e proteção estão sempre conexas nas intervenções de Nossa Senhora, por isso é torre de marfim. Em seu seio virginal Maria deu ao Filho de Deus a natureza humana, é comparada, então, a uma moradia de beleza inestimável: casa de ouro. A arca da aliança abrigava somente as Tábuas da Lei, mas Maria abrigou aquele que o céu e a terra não podem conter.
 
Maria se avizinha de Deus muito mais do que o mais sublime dos anjos já que é mãe de Deus; se avizinha de Deus mais próxima de um outro modo, porque deu corpo ao Filho de Deus e se acha então mais elevada que os anjos, tem sobre eles autoridades e estes ficam radiantes por serem súditos de seu império, e se sentem honrados de executar suas ordens. Ela é verdadeiramente a Rainha dos Anjos. Os patriarcas e os profetas que esperavam e anunciavam o Messias, o Redentor da humanidade culpada, deviam inevitavelmente levantar os olhos para a Mãe do Messias, Aquela que finalmente iria esmagar a cabeça da Serpente. Esta espera que se prolongou por séculos, começara no coração de Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, logo após o primeiro pecado e o primeiro perdão do Pai Celeste. A espera e a esperança, o anúncio profético ficaram mais precisos ao longo do Antigo Testamento. E assim os Patriarcas e Profetas anunciaram ao mesmo tempo o Redentor e Rei dos reis e a Virgem Santíssima que o traria ao mundo e reinaria à sua direita (Salmo 44: astitit Regina a dextris tuis). Com toda a propriedade Maria é invocada como Rainha dos Patriarcas e dos Profetas.
 
Depois ela veio na véspera do dia em que iria começar a plenitude dos tempos, na primeira autora que precederia imediatamente o dia de nossa libertação, eis que sobre o galho de Jessé uma flor se abria. Apareceu enfim no mundo a meninazinha que os Patriarcas e Profetas tanto esperavam, a filha de Joaquim e Ana, a filha de Adão e Eva que não tinha vestígios sequer de pecado dos primeiros pais.
 
Ela veio cheia de graça e de santidade, mais santa do que jamais seriam os santos na Igreja do Santo dos santos. Ela está na linhagem de santidade só a ela reservada: a santidade de mulher bendita que deveria dar a natureza humana a uma Pessoa divina; santidade daquela que podendo dizer a Deus, com toda propriedade, meu Filho é introduzida por isso mesmo na intimidade da Trindade muito além do que qualquer outra criatura. Situada numa linha de santidade absolutamente própria e reservada, por ser tão próxima do Redentor ao ponto de ser sua Mãe, é inevitável que ela possua em super-abundância a graça e a caridade que forma os santos. Sua pré-excelência em relação a eles é coisa necessária. Foi ela quem melhor penetrou os segredos do Evangelho, meditou-os em seu coração com mais fervor e inteligência que os Apóstolos e os evangelistas. Eis porque, sem ter pregado o Evangelho, é chamada de Rainha dos Apóstolos. Sua união à dolorosíssima paixão de Jesus foi mais dilacerante do que os suplícios dos maiores mártires, logo é Rainha dos Mártires. Sem ter nunca celebrado os santos mistérios nem ter confessado a fé à maneira comum dos confessores, testemunhou desta fé na presença de Deus, dos anjos e dos bons homens com a força e a constância de santa Mãe de Deus; logo é com toda a justeza que podemos aclamá-la, Rainha dos Confessores. Enfim, sua virgindade foi de tal modo humilde, transparente e penetrada de caridade para com Deus, que mereceu tornar-se mãe de Deus permanecendo virgem; de algum modo o Verbo de Deus se obriga a consagrar a virgindade daquela que lhe dava a natureza humana: verdadeiramente Rainha das Virgens, Rainha de todos os santos.

 Fonte: Revista Permanência, nos.128-129

 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ato de Consagração a Nossa Senhora – São Luís de Montfort


São Luís Maria Grignion de Montfort
 
Ó Sabedoria Eterna e Encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho único do Pai Eterno e de Maria sempre Virgem!

Eu vos adoro profundamente no seio e nos esplendores do vosso Eterno Pai, durante a eternidade, e no seio de Maria vossa Mãe Santíssima, no tempo de vossa Encarnação.


Agradeço-vos terde-vos aniquilado, tomando a forma de um escravo, para me arrancardes à cruel escravidão do demônio. Eu vos louvo e glorifico por vos terdes querido submeter a Maria, vossa Santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me tornardes por Ela vosso fiel escravo.


Mas, ai de mim, ingrato e infiel que sou! Não guardei os votos e as promessas que tão solenemente vos fiz no meu Batismo. Não cumpri com minhas obrigações, não mereço ser chamado vosso filho nem vosso escravo, e, como nada há em mim que não mereça senão vossas repulsas e vossa cólera, já não ouso por mim mesmo aproximar-me de vossa santa e augusta Majestade.


É por essa razão que recorro à intercessão de vossa Mãe Santíssima, que me deste por Medianeira junto de Vós, e é por seu intermédio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e a conservação da Sabedoria.


Eu vos saúdo, pois, ó Maria Imaculada, Tabernáculo vivo da Divindade, onde a Sabedoria Eterna escondida quer ser adorada dos anjos e dos homens!


Eu vos saúdo, ó Rainha do céu e da terra, a cujo império está sujeito tudo o que existe abaixo de Deus!


Eu vos saúdo, ó refúgio seguro dos pecadores, cuja misericórdia jamais a ninguém faltou!

Atendei aos desejos que nutro pela Divina Sabedoria e recebei para isto os votos e ofertas que minha baixeza Vos apresenta.


Eu, (nome de quem se consagra), pecador infiel, renovo e ratifico hoje, entre vossas mãos, os votos de meu Batismo.


Renuncio para sempre a Satã, suas pompas e suas obras.


E me entrego inteiramente a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, para levar minha cruz em seu seguimento, todos os dias de minha vida, e para que eu seja mais fiel do que lhe tenho sido até agora.


Eu Vos escolho hoje, ó Maria, na presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Mestra. Eu vos abandono e consagro, na qualidade de vosso escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o valor mesmo de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-Vos inteiro e pleno direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção segundo o vosso beneplácito, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.


Recebei, ó Virgem benigna, esta pequenina oferta de minha escravidão, em honra e união à submissão que a Sabedoria Eterna se dignou manifestar à vossa Maternidade, em homenagem ao poder que Vós ambos tendes sobre este pequeno verme e miserável pecador, em ação de graças pelos privilégios com que a Santíssima Trindade Vos favoreceu.


Eu protesto querer daqui por diante, como vosso verdadeiro escravo, procurar vossa honra e obedecer-Vos em todas as coisas.


Ó Mãe admirável, apresentai-me a vosso caro Filho, na qualidade de escravo eterno, a fim de que, tendo-me resgatado por Vós, por Vós também me receba.


Ó Mãe de misericórdia, fazei-me a graça de obter de Deus a verdadeira Sabedoria, e de me colocar para isso no número daqueles a quem amais, ensinais, conduzis, nutris e protegeis como a vossos filhos e vossos escravos.


Ó Virgem fiel, tornai-me em todas as coisas um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedora Encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho, que eu chegue por vossa intercessão e a exemplo vosso à plenitude de sua idade na terra e de sua glória nos céus. Amém.

Os sinais da falsa e da verdadeira devoção à Santíssima Virgem – São Luís de Montfort


Os falsos devotos e as falsas devoções à Santíssima Virgem
 

Conheço sete espécies de falsos devotos e falsas devoções à Santíssima Virgem: 1º os devotos críticos, 2º os devotos escrupulosos, 3º os devotos exteriores, 4º os devotos presunçosos, 5º os devotos inconstantes, 6º os devotos hipócritas, 7º os devotos interesseiros.


Os devotos críticos


Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa-fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narrados por autores dignos de fé, ou inseridos em crônicas de ordens religiosas, atestando as misericórdias e o poder da Santíssima Virgem. Repugna-lhes ver pessoas simples e humildes ajoelhadas diante de um altar ou de uma imagem da Virgem, às vezes no recanto de uma rua, rezando a Deus; chegam a acusá-las de idolatria, como se estivesse adorando a pedra ou a madeira. Dizem que, de sua parte, não apreciam essas devoções exteriores e que seu espírito não é tão fraco que vá dar fé a tantos contos e historietas que se atribuem à Santíssima Virgem. Quando alguém lhes repete os louvores admiráveis que os Santos Padres dão à Santíssima Virgem, respondem que são flores de retórica, ou exagero, que aqueles escritores eram oradores; ou dão, então, uma explicação má daquelas palavras.

Esta espécie de falsos devotos e orgulhosos e mundanos é muito para temer e eles causam um mal infinito à devoção à Santíssima Virgem, dela afastando eficazmente o povo, sob pretexto de destruir-lhes os abusos.


Os devotos escrupulosos


Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desonrar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-lo se a exaltarem demais. Não podem suportar que se repitam à Santíssima Virgem aqueles louvores justíssimos que lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicos, e como se os que rezam à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio dela. Não querem que se fale tão freqüentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a ela.

Algumas frases eles as repetem a cada momento: Para que tantos terços, tantas confrarias e devoções exteriores à Santíssima Virgem? Vai nisso muito de ignorância! É fazer da religião uma palhaçada. Falai-me, sim, dos que são devotos de Jesus Cristo (e eles o nomeiam, muitas vezes, sem se descobrir, digo-o sem parêntesis): cumpre recorrer a Jesus Cristo, pois é ele o nosso único medianeiro; é preciso pregar Jesus Cristo, isto sim que é sólido!

Em certo sentido é verdade o que eles dizem. Mas, pela aplicação que lhe dão, é bem perigoso e constitui uma cilada sutil do maligno, sob o pretexto de um bem muito maior, pois nunca se há de honrar mais a Jesus Cristo, do que honrando a Santíssima Virgem, desde que a honra que se presta a Maria não tem outro fim que honrar mais perfeitamente a Jesus Cristo, e que só se vai a ela como ao caminho para atingir o termo que é Jesus Cristo.

A santa Igreja, como o Espírito Santo, bendiz primeiro a Santíssima Virgem e depois Jesus Cristo: "benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui Iesus". Não porque a Santíssima Virgem seja mais ou igual a Jesus Cristo: seria uma heresia intolerável, mas porque, para mais perfeitamente bendizer Jesus Cristo, cumpre bendizer antes a Maria. digamos, portanto, com todos os verdadeiros devotos de Maria, contra seus falsos e escrupulosos devotos: Ó Maria, bendita sois vós entre todas as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!


Os devotos exteriores


Devotos exteriores são as pessoas que fazem consistir toda a devoção à Santíssima Virgem em práticas exteriores; que só tomam interesse pela exterioridade da devoção à Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; que recitarão às pressas uma enfiada de terços, ouvirão, sem atenção, uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar de vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção, sem interesse pela parte sólida. Se suas práticas não lhes afetam a sensibilidade, acham que não há nada mais a fazer, ficam desorientados, ou fazem tudo desordenadamente. O mundo está cheio dessa espécie de devotos exteriores e não há gente que mais critique as pessoas de oração que se dedicam à devoção interior sem desprezar o exterior de modéstia, que acompanha sempre a verdadeira devoção.


Os devotos presunçosos


Os devotos presunçosos são pecadores abandonados a suas paixões, ou amantes do mundo, que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc.; que dormem placidamente em seus maus hábitos, sem violentar-se muito para se corrigir, alegando que são devotos da Virgem; que prometem a si mesmos que Deus lhes perdoará, que não hão de morrer sem confissão, e não serão condenados porque recitam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à confraria do santo Rosário ou do Escapulário, ou a alguma congregação; porque trazem consigo o pequeno hábito ou a cadeiazinha da Santíssima Virgem, etc.

Quando alguém lhes diz que sua devoção não é mais do que ilusão e uma presunção perniciosa capaz de perdê-los, recusam-se a crer; dizem que Deus é bom e misericordioso e que não nos criou para nos condenar; que não há homem que não peque; que eles não hão de morrer sem confissão; que um bom peccavi à hora da morte basta; de mais a mais que eles são devotos da Santíssima Virgem, cujo escapulário usam; e em cuja honra dizem, todos os dias, irrepreensivelmente e sem vaidade (isto é, com fidelidade e humildade) sete Pai-nossos e sete Ave-Marias; que recitam mesmo, uma vez ou outra, o terço e o ofício da Santíssima Virgem; que jejuam, etc. Para confirmar o que dizem e mais aumentar a própria cegueira, relembram umas histórias que leram ou ouviram, verdadeiras ou falsas não importa, em que se afirma que pessoas mortas em pecado mortal, sem confissão, só pelo fato de que em vida tinham feito algumas orações ou práticas de devoção à Santíssima Virgem ressuscitaram para se confessar, ou sua alma permaneceu milagrosamente no corpo até se confessarem, ou, ainda, que, pela misericórdia da Santíssima Virgem, obtiveram de Deus, na hora da morte, a contrição e o perdão de seus pecados, e se salvaram. Eles esperam, portanto, a mesma coisa.

Não há, no cristianismo, coisa tão condenável como essa presunção diabólica; pois será possível dizer de verdade que se ama e honra a Santíssima Virgem, quando, pelos pecados, se fere, se traspassa, se crucifica e ultraja impiedosamente a Jesus Cristo, seu Filho? Se Maria considerasse uma lei salvar essa espécie de gente, ela autorizaria um crime, ajudaria a crucificar e injuriar seu próprio Filho. Que o ousaria pensar?

Digo que abusar assim da devoção à Santíssima Virgem, a mais santa e mais sólida devoção a Nosso Senhor e ao Santíssimo Sacramento, é cometer um horrível sacrilégio, o maior e o menos perdoável, depois do sacrilégio de uma comunhão indigna.

Confesso que, para ser alguém verdadeiramente devoto da Santíssima Virgem, não é absolutamente necessário ser santo ao ponto de evitar todo pecado, conquanto seja este o ideal; mas é preciso ao menos (note-se bem o que vou dizer):

Em primeiro lugar, estar com a resolução sincera de evitar ao menos todo pecado mortal, que ofende tanto a Mãe como o Filho.

Segundo, fazer violência a si mesmo para evitar o pecado.

Terceiro, filiar-se a confrarias, rezar o terço, o santo rosário ou outras orações, jejuar aos sábados, etc.

Isto é maravilhosamente útil à conversão de um pecador, mesmo empedernido; e se meu leitor estiver nestas condições, como que tenha já um pé no abismo, eu lho aconselho, contanto, porém, que só pratique estas boas obras na intenção de, pela intercessão da Santíssima Virgem, obter de Deus a graça da contrição e do perdão dos pecados, e de vencer seus maus hábitos, e não para continuar calmamente no estado de pecado, a despeito dos remorsos de consciência, do exemplo de Jesus Cristo e dos santos, e das máximas do santo Evangelho.


Os devotos inconstantes


Devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem periodicamente, por intervalos e por capricho: hoje são fervorosos, amanhã tíbios; agora mostram-se prontos a tudo empreender em serviço de Maria e logo após já não parecem os mesmos. Abraçam logo todas as devoções à Santíssima Virgem, ingressam em todas as suas confrarias, e em pouco tempo já nem observam as regras com fidelidade; mudam como a lua42, e Maria os esmaga sob seus pés como faz ao crescente, pois eles são volúveis e indignos de ser contados entre os servidores deste Virgem fiel, que têm a fidelidade e a constância por herança. Vale mais não se sobrecarregar de tantas orações e práticas de devoção, e fazer poucas com amor e fidelidade, a despeito do mundo, do demônio e da carne.

A lua, por suas variações, é tomada freqüentemente pelos antigos autores místicos como o símbolo das mudanças da alma inconstante. – Cf. Ecli 27, 27, 12. São Bernardo: "Sermo super Signum Magnum", n.3.


Os devotos hipócritas


Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são.


Os devotos interesseiros


Há ainda os devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para ganhar algum processo, para evitar algum perigo, para se curar de alguma doença ou em qualquer necessidade desse gênero, sem o que a esqueceriam; uns e outros são falsos devotos que não têm aceitação diante de Deus e de sua Mãe Santíssima.

Cuidemos, portanto, de não pertencer ao número dos devotos críticos que em coisa alguma crêem e de tudo criticam; dos devotos escrupulosos que receiam ser demasiadamente devotos da Santíssima Virgem, por respeito a Jesus Cristo; dos devotos exteriores que fazem consistir toda a sua devoção em práticas exteriores; dos devotos presunçosos, que, sob o pretexto de sua falsa devoção continuam marasmados em seus pecados; dos devotos inconstantes que, por leviandade, variam suas práticas de devoção, ou as abandonam completamente à menor tentação; dos devotos hipócritas que se metem em confrarias e ostentam as insígnias da Santíssima Virgem a fim de passar por bons; e, enfim, dos devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para se livrarem dos males do corpo ou obter bens temporais. 


* * *


A verdadeira devoção à Santíssima Virgem.


Depois de descobrir e condenar as falsas devoções à Santíssima Virgem, cumpre estabelecer em poucas palavras a devoção verdadeira, que é: 1º interior, 2º terna, 3º santa, 4º constante, 5º desinteressada.


A verdadeira devoção é interior


Antes de tudo, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é interior, isto é, parte do espírito e do coração. Vem da estima em que se tem a Santíssima Virgem. Da alta idéia que se formou de suas grandezas, e do amor que se lhe consagra.


A verdadeira devoção é terna


Em segundo lugar é terna, quer dizer cheia de confiança na Santíssima Virgem, da confiança de um filho em sua mãe. Impele uma alma a recorrer a ela em todas as necessidades do corpo e do espírito, com extremos de simplicidade, de confiança e de ternura; ela implora o auxílio de sua boa Mãe em todo o tempo, em todo lugar, em todas as coisas: em suas dúvidas, para ser esclarecida; em seus erros, para se corrigir; nas tentações, para ser sustentada; em suas fraquezas, para ser fortificada; em suas quedas, para ser levantada; em seus abatimentos, para ser encorajada; em seus escrúpulos, para ficar livre deles; em suas cruzes, trabalhos e reveses da vida, para ser consolada. Em todos os males do corpo e do espírito, enfim, Maria é o refúgio, e não há receio de importunar esta boa Mãe e desagradar a Jesus Cristo.


A verdadeira devoção é santa


Terceiro, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é santa: leva uma alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem, principalmente sua humildade profunda, sua contínua oração, sua obediência cega, sua fé viva, sua mortificação universal, sua pureza divina, sua caridade ardente, sua paciência heróica, sua doçura Angélica e sua sabedoria divina. Aí estão as dez principais da Santíssima Virgem.


A verdadeira devoção é constante


Quarto, verdadeira devoção à Santíssima Virgem é constante, firma uma alma no bem, e ajuda-a a perseverar em suas práticas de devoção. Torna-a corajosa para se opor ao mundo em suas modas e máximas, à carne, em seus aborrecimentos e paixões, e ao demônio, em suas tentações. Assim, uma pessoa verdadeiramente devota da Santíssima Virgem não é volúvel, nem se deixa dominar pela melancolia, pelos escrúpulos ou pelos receios. Não quer isto dizer que não caia ou não mude, às vezes, na sensibilidade de sua devoção; mas, se cai, levanta-se logo, estende a mão à sua boa Mãe, e, se perde o gosto ou a devoção sensível, não se aflige irremediavelmente, pois o justo e devoto fiel de Maria vive da fé de Jesus e de Maria, e não nos sentimentos naturais.


A verdadeira devoção é desinteressada


A verdadeira devoção à Santíssima Virgem é, finalmente, desinteressada, leva a alma a buscar não a si mesma, mas somente a Deus em sua Mãe Santíssima. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta augusta Rainha por espírito de lucro e de interesse, nem para seu bem temporal ou eterno, corporal ou espiritual, mas unicamente porque ela merece ser servida, e Deus exclusivamente nela; o verdadeiro devoto não ama a Maria precisamente porque ela lhe faz ou ele espera dela algum bem, mas porque ela é amável. Só por isto ele a ama e serve nos desgostos e na aridez, como nas doçuras e no fervor sensível, sempre com a mesma fidelidade; ama-a nas amarguras do Calvário como nas alegrias de Caná. Oh! como é agradável e precioso aos olhos de Deus e de sua Mãe Santíssima, esse devoto, que em nada se busca nos serviços que presta à sua Rainha. Mas, também, quão raro é encontrá-lo agora. E é com o fito de que cresça o número desses fiéis devotos, que empunhei a pena para escrever o que tenho, com particular fruto, ensinado em público e em particular nas minha missões, durante anos e anos.
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