terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Desejo Implícito de se Unir à Igreja e a Necessidade do Batismo

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Observando o catecúmeno que segue a lei natural, há de se convir que, entre ele e a Igreja já se verifica uma determinada relação de afinidade. Ele já manifestamente deseja o batismo, a Igreja desde sempre deseja tê-lo como membro. Uma morte abrupta desse catecúmeno antes do lavacro ordinário ao qual se dirigia não parece ser potente o suficiente para romper o desejo de ambos. Se tal acometimento é, aparentemente, o bastante para impedir a ação normal da Igreja, certamente não o é para uma ação sobrenatural.

Sabe-se que Deus submete todos os acontecimentos deste mundo à sua divina providência, porém não é sensato imaginar que tal catecúmeno estaria imune de qualquer sinistro que atente contra sua vida, até que venha a se consumar seu batismo pelas vias normais. Muito pareceria "amarrar" Deus a uma única forma de agir, além de ser como que uma automática e mágica proteção que não indica ser apropriada para Deus. Eis, pois, que a providência divina atua infalivelmente e, Deus, misericordioso e justo, provê o necessário, ainda que de maneiras desconhecidas.

Muito se pode ouvir a alegação de que Deus salvaria um justo que morreu não-católico, usando de suas prerrogativas de ser soberano. Mas, por que se insiste aqui em apontar para uma ação sobrenatural que se consuma antes da morte e não após ela? Responde-se lembrando que é em vida que se dispõe do tempo da graça, e no caso do sacramento do batismo entende-se ser necessária uma ação prática que de fato se realize sensivelmente. Não se entende que possa acontecer após a morte a consumação daquilo que parece se identificar com o chamado batismo de desejo, o qual deve ter seus efeitos antes da morte. Ainda que se afirme que a ligação ao Corpo Místico de Cristo possa se dá no momento da morte, tal efeito batismal efetiva-se antes de findar o processo do morrer. Com sensatez, não convém imaginar que possa existir uma alma partícipe da Igreja celeste sem ter passado pela Igreja militante.

Há, certamente, um único Sacramento do Batismo (cf. Ef 4, 5), que se dá visivelmente pela água, e que tem seus efeitos consumados na alma, ainda que extraordinariamente, por Deus diante de um desejo digno e capaz, e que pode culminar com o martírio. Não obstante, observe-se que o ensinamento consensual advindo da produção dos teólogos, sobretudo daqueles que adotam os métodos escolásticos, dão sustentação às doutrinas do batismo de sangue e do batismo de desejo, tais como são assumidas na prática atual da Igreja.

Não é uma situação corriqueira se encontrar pessoas de proceder justo, desconhecedoras dos preceitos da fé, mas que cumprem a lei natural, a ermo e fora da Igreja Católica. Imagine-se um tal indivíduo tentando ser fiel àquilo que Deus lhe apresenta no coração: ao se deparar com tantos e tais disparates seja onde for que se encontre, em um país mulçumano, em uma tribo de índios ou em uma aldeia esquimó, certamente esse ignorante da fé católica se inquietará, visto que repugnará por sua racionalidade tais atrocidades que se chocam com sua consciência reta. Assim enfatiza o cônego José Luiz Villac: "Se já é tão difícil para nós, católicos, com todo o socorro dos ensinamentos e dos sacramentos da Igreja, nos mantermos fiéis a Deus e à sua lei, quanto mais difícil será para aqueles que não têm a dita de pertencer à Igreja católica".    

São Paulo, aos coríntios, alerta dizendo: "quando vos dirijo a palavra, não existe um sim e depois um não. O Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós, Silvano, Timóteo e eu, vos temos anunciado, não foi sim e depois não, mas sempre foi sim. Porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus". (II Cor 2, 18b-20). Todavia, infelizmente há um pensar teológico dos dias atuais onde se diz que "é inclusive algo muito forte de temática de discussões dentro da Igreja hoje a questão de que só se salvará aquele que for batizado. Definição essa, terminologia essa muito usada pela Igreja e que hoje a Igreja faz uma avaliação".

Na encíclica Humani Generis, Pio XII expõe que "quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais possível o significado dos dogmas e libertá-los da maneira de exprimi-los já tradicional na Igreja".

Ora, é dogma que o batismo é necessário à salvação, como se vê na incólume doutrina católica que perpassa todas as gerações sendo ensinada desde Jesus Cristo até os papas mais recentes, donde, no princípio, se ouviu do próprio Filho de Deus que "aquele que crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado" (Mc 16, 16), e, vinte séculos depois, continua-se ouvindo da Igreja: "O batismo, necessário para a salvação, é sinal e instrumento do amor da parte de Deus, que nos liberta do pecado original e comunica a participação na vida divina: por si, o dom destes bens às crianças não deve ser adiado" (grifou-se). 

Convém citar com maior ênfase o Concílio de Trento, que explicitamente decreta: "Se alguém disser que o Batismo é facultativo, isto é, não necessário para a salvação – seja excomungado" (grifou-se).

 
Notas:
VILLAC, José Luiz. É possível a salvação fora da Igreja Católica? Disponível em:
     <http://www.lepanto.com.br/DCSalv.html>. Acesso em: 11 nov. 2008.
2 MOTA, Gilza. Pronunciamento por ocasião da defesa de monografia do bacharelando em
teologia Raimundo Rodrigues Moraes intitulada "Uma visão cristã sobre o Batismo como
porta dos sacramentos na visão católica parnaibana", realizada em 25 out. 2008 no
auditório do Colégio Diocesano, em Parnaíba – PI. Disponível em vídeo-gravação de Pro-
Line Studio, registrado sob nº 0001 na biblioteca do curso de bacharelado em teologia da
Universidade Federal do Piauí em convênio com a Diocese de Parnaíba-PI.
3 PIO XII. Encíclica Humani Generis. Disponível em:
<http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_pxii_enc_
12081950_humani-generis_po.html>. Acesso em: 13 nov. 2008.
4 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução Pastoralis Actio. In: DENZINGER-
HÜNERMANN. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Marino. São Paulo: Loyola, 2007, n. 4674, p. 1103.
5 CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão VII: Sobre os sacramentos. n. 861, cân. 5. In: Concílio de
Trento (1543-1563): XIX Concílio Ecumênico (contra os inovadores do século XVI).
Disponível em: <http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=
concilios&artigo=trento&lang= bra#sessao7>. Acesso em: 6 nov. 2008.
 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ora, vamos! O concílio se enganou!




Em 1987, Dom Lefebvre já tinha, numa entrevista, reclamado que se esclarecessem as contradições, mesmo os erros [do concílio]. 

Perguntaram-lhe então: «[...] a única solução do "caso" Lefebvre que podeis aceitar parece ser uma desautorização pública do Vaticano II pelo Soberano Pontífice. Mas, pensa ver o Papa, numa manhã de Domingo, anunciar aos fiéis, na Praça de São Pedro que, depois de mais de vinte anos, concluiu-se que o concílio se enganou e que é necessário, pelo menos, anular dois decretos votados pela maioria dos Padres e aprovados pelo Papa?»

Ele respondeu: «Ora, vamos! Em Roma, saberiam muito bem encontrar uma modalidade mais discreta… O Papa poderia afirmar, com autoridade, que alguns textos do Vaticano II têm necessidade de serem melhor interpretados à luz da Tradição, de modo que é preciso mudar algumas frases, para os tornar mais conformes ao Magistério dos Papas precedentes. Seria necessário que se dissesse, claramente, que o erro não pode ser senão "tolerado", mas que não pode ter "direitos"; e que o Estado neutro no âmbito religioso não pode, nem deve, existir.»

Trecho do texto retirado de Fideliter, n° 194, Mar-Abr 2010, APUD Semper – revista da FSSPX de Portugal
Adaptado ao português do Brasil
Fonte: http://www.fsspx.com.br/exe2/?p=1208
 
 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja, poderia salvar-se?

A pergunta e sua devida resposta são do Catecismo de São Pio X, de 1905. A reflexão  ilustrada por uma analogia é uma tentativa de expormos uma breve explicação.

"Mas quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja, poderia salvar-se? Quem, encontrando-se sem culpa sua - quer dizer, em boa fé - fora da Igreja, tivesse recebido o batismo, ou tivesse desejo, ao menos implícito, de o receber e além disso procurasse sinceramente a verdade, e cumprisse a vontade de Deus o melhor que pudesse, ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma dEla, e portanto no caminho da salvação".

Nessa exposição catequética, distinguem-se duas situações diferentes: "tivesse recebido o batismo" e "ou tivesse o desejo, ao menos implícito, de o receber". Importa reconhecer que ambas possam possibilitar a um mesmo encaminhamento, qual seja, de estarem "no caminho da salvação". Percebe-se que falta algo a cada um. Certamente que o batismo, por si só, não garante a salvação, mas é um requisito indispensável que não dispensa a busca sincera pela verdade e o cumprimento da vontade de Deus o melhor que possa. Da mesma forma, quem tem apenas o desejo implícito ou explícito do batismo, subtendendo-se como aquele que já busca sinceramente pela verdade e cumpre a vontade de Deus o melhor que possa, falta-lhe o batismo. Uma analogia pode ser apresentada aqui para ilustrar a reflexão: Duas pessoas têm a missão de percorrer um longo caminho que dá para uma porta que se deve entrar. A primeira já tem a chave que abre a porta, porém é necessário deslocar-se pelo caminho para chegar até a porta. A segunda já está se deslocando rumo à porta, mas é preciso que alguém lhe dê a chave que a permitirá abri-la.
 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sobre a Ignorância Invencível: Passagens Bíblicas que Abordam a Temática da Ignorância


        Percebem-se diversas palavras da Bíblia seguindo o mesmo tom dos textos magisteriais que não aplicam atenuantes quanto às falhas praticadas por ignorância. E vão ainda além, como nas citações seguintes:
  1. Deus priva alguns homens de certos conhecimentos: 

    "Por esse tempo, pôs-se Jesus a dizer: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos". (Mt 11,25).

  2. A ignorância afasta da vida de Deus: 

    "Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da vida de Deus". (Ef 4, 17-18).

  3. Não é justificada a mentira cometida por ignorância, mas deve ser motivo de envergonhar-se: 

    "Não contradigas de nenhum modo a verdade, envergonha-te da mentira cometida por ignorância". (Eclo 4, 30).


  4. Preces insistentes para ser preservado da ignorância: 

    "Senhor, meu pai e soberano de minha vida, não me abandoneis ao conselho de meus lábios, e não permitais que eles me façam sucumbir. Quem fará sentir o chicote em meus pensamentos, e em meu coração a doutrina da sabedoria, para eu não ser poupado nos pecados por ignorância, a fim de que esses erros não apareçam? Para que não aumentem as minhas omissões, e não se multipliquem as minhas ignorâncias, e eu não caia diante de meus adversários, e não escarneça de mim o meu inimigo?" (Eclo 23, 1-3).


  5. Deus tira da ignorância os dignos de confiança, e não simplesmente os perdoa por causa dela:

    "Dou graças àquele que me deu forças, Jesus Cristo, nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança e me chamou ao ministério, a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância". (Tm 1, 12-13).


  6. A garantia de que a voz de Deus é ouvida em todo o mundo:

    "Por toda a terra correu a sua voz, e até os confins do mundo foram as suas palavras (Sl 18,5)."


  7. E ainda, a certeza de que conhecem a Deus aqueles que são Suas ovelhas: 

    "Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim" (Jo 10,14. Grifou-se).
     

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O termo "Ignorância" nos textos doutrinários

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

Coloquemos em relevo alguns aspectos acerca do termo "ignorância", quando utilizado em documentos do magistério. A sua aplicação em geral atribui severas e devidas conseqüências aos ditos ignorantes. Excetuando-se os textos que tratam especificamente da ignorância invencível, busque-se encontrar aqui o sentido ao qual o Magistério recorre ao utilizar o termo ignorância em seus escritos formais.
  1. Nas palavras do Santo Papa Pio X, os ignorantes padecem sua perpétua desgraça: "Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padecem sua perpétua desgraça por ignorar os mistérios da fé que necessariamente se devem saber e crer para que alguém se conte entre os eleitos". (grifou-se).

  2. Na Instrução Fidei Donum, tem-se que as almas dos ignorantes têm uma sorte lastimável: "E, finalmente, entristeçam-se com a sorte lastimável de inúmeras almas; em especial dos jovens que, vítimas dos ateus de nossos tempos, crescem, tristemente mantidos na ignorância das coisas divinas". (grifou-se).

  3. O Papa João XXIII, afirma que a ignorância é a causa e a raiz de todos os males: "A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade" (grifou-se).

  4. Na Adiutricem Populi, encontra-se que se deve preservar da ignorância: "Fizemos observar que não última entre as vantagens do santo Rosário é fornecer ao cristão um meio prático e fácil para alimentar a sua fé e preservá-la da ignorância e do perigo do erro." (Grifou-se).

  5. Na Magnae Dei Matris, a constatação de que a ignorância é antes um perigo que um atenuante de culpa:

    E já por toda parte o campo do Senhor, como que talado por uma terrível peste, quase se asselvaja, pela ignorância da religião, pelo erro e pelos vícios. [...] Para preservar seus filhos deste gravíssimo perigo da ignorância, a Igreja não descura nenhum dos meios que a sua vigilância e a sua solicitude lhe sugerem (grifou-se).

  6. No Motu Proprio Boni Pastoris, o Papa faz exigências, não isentando aqueles que tentam em contrário, ainda que o faça por ignorância: 

    Isto declaramos e estabelecemos, decretando que a presente Carta seja sempre e permaneça firme, válida e eficaz; tenha sempre pleno efeito, e que agora e no futuro sirva plenamente a todos a quem isto interesse ou possa vir a interessar; que assim se deve legitimamente julgar e definir; e que a partir deste momento, deve considerar-se nulo e inválido tudo quanto, cientemente ou por ignorância, por qualquer pessoa e em virtude de qualquer autoridade, fosse tentado em contrário (grifou-se).

  7. Leitura análoga vê-se ao final da Divini Amoris Scientia, de João Paulo II :

    Tendo realizado isto no modo devido, estabelecemos que esta Carta Apostólica seja religiosamente acolhida e tenha pleno efeito, tanto agora como no futuro: além disso, seja considerado como julgado e definido legitimamente, e seja nulo e sem fundamento quanto de diverso a respeito disto possa ser atentado por alguém, qualquer que seja a autoridade, de modo consciente ou por ignorância (grifou-se).

sábado, 18 de setembro de 2010

Ignorância Invencível: Doutrina Dedutiva ou Revelação?

Observando-se o dogma "Fora da Igreja não há salvação", que posicionamento coerente com a fé deve-se assumir diante dos casos dos que ignoram o evangelho?

Pode-se encarar a doutrina da ignorância invencível como sendo aquela que trata de buscar uma resposta exigida para uma situação, no mínimo, escandalosa para a mente humana: A possibilidade de que alguém possa ser condenado sem conhecer a Deus, a Igreja e a doutrina que se deve seguir.

Ainda que se reconheça a existência e a atualidade do dogma Fora da Igreja não há salvação, a doutrina da ignorância invencível pleiteia a possibilidade de poder vir a salvar-se aquela alma que, não tendo tido absolutamente a oportunidade de conhecer em vida os preceitos e obrigações relativos à fé, tenha vivido sobre os ditames da consciência e da lei natural infusa no homem, mesmo sem pertencer à Igreja. Supõe-se que esta proposta possa ter sido o resultado da seguinte dedução: Deus, que é justo, não condenará aquele "bom homem" que não teve culpa por não saber o que deveria ter feito.

Ora, uma doutrina que, de tão próxima, chega a tocar o dogma, não pode estagnar-se em uma conclusão simplista. No histórico de desenvolvimento da doutrina da Igreja, não se enumera a ignorância invencível entre os artigos de fé revelados. Verifica-se mesmo que até meados do século XVI não havia documento magisterial algum que contemplasse potencialmente o tema da possibilidade da salvação daqueles que não se uniram à Igreja porque a desconheciam.

Resta, então, que se tenha a ignorância invencível como uma doutrina que, por natureza, deva caminhar harmoniosamente com o dogma. E não poderia ser de outra forma. Ainda que se exija grande exercício teológico, é necessário que a ignorância invencível deva se constituir em doutrina que respeite a doutrina dos dogmas, a eles não ferindo absolutamente.

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