sábado, 26 de março de 2011

Sem a graça o homem pode conhecer a verdade?

por São Tomás de Aquino
   
Discute-se assim. — Parece, que sem a graça o homem não pode conhecer a verdade.
   
1. — Pois, sobre aquilo da Escritura. — Ninguém pode dizer Senhor Jesus, senão pelo Espírito Santo — diz a Glosa de Ambrósio: Quem quer que diga a verdade, pelo Espírito Santo a diz. Ora, o Espírito Santo habita em nós pela graça. Logo, sem esta não podemos conhecer a verdade.
   
2. Demais. — Agostinho diz: As mais certas doutrinas são as por assim dizer, iluminadas pelo sol, de modo a serem vistas. Deus, porém é que ilumina, sendo a razão, para o espírito, o que é a vista para os olhos; mas os olhos do espírito são os sentidos da alma. Ora, os sentidos do corpo, por mais puros que sejam, não podem ver nada sem a luz do sol. Logo, também a mente humana, por perfeita que seja, não pode, raciocinando, conhecer a verdade, sem a iluminação divina, que é auxílio da graça.
   
3. Demais. — Não pode a mente humana conhecer a verdade, senão pensando, como claro está em Agostinho. Ora, o Apóstolo diz (2 Cor 3, 5): Não que sejamos capazes de nós mesmos de ter algum pensamento como de nós mesmos. Logo, o homem não pode conhecer a verdade, por si mesmo, sem auxílio da graça.
   
Mas, em contrário, diz Agostinho: Não aprovo o que disse numa oração — Deus, que só aos puros permitiste conhecer a verdade. Pois, poderia alguém objetar, que muitos, embora impuros, conhecem muitas verdades. Ora, pela graça, o homem se torna puro, conforme a Escritura (Sl 50, 12): Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova nas minhas entranhas um espírito reto. Logo, sem a graça, o homem pode, por si mesmo, conhecer a verdade.
   
SOLUÇÃO. — Pelo uso ou por um ato da luz intelectual, é que conhecemos a verdade; pois, segundo o Apóstolo (Ef 5, 13), tudo o que se manifesta é luz. Ora, qualquer uso implica movimento, tomando o movimento em acepção lata, no qual se consideram movimentos o inteligir e o querer, segundo o Filósofo claramente o diz. Vemos porém, que o movimento dos seres corpóreos implica, não só a forma, que é o princípio dele ou da ação, mas também a moção do primeiro móvel. Ora, o primeiro móvel, na ordem material, é o corpo celeste. Assim, por perfeito que seja o calor do fogo, não poderia aquecer senão pela moção do corpo celeste. Ora, é manifesto, que todos os movimentos corpóreos se reduzem ao do corpo celeste, como ao primeiro motor corpóreo. Pois, assim também todos os movimentos, tanto os corpóreos como os espirituais, reduzem-se ao primeiro móvel absoluto, que é Deus. E portanto, por perfeita que se suponha uma natureza corpórea ou espiritual, ela não pode se atualizar se não for movida por Deus. E esse movimento depende da ordem da sua providência e não, da necessidade natural, como o do corpo celeste. Nem só, porém todo movimento procede de Deus, como primeiro motor; mas também dele, como do ato primeiro, procede toda perfeição formal. Por onde, o ato intelectual, bem como o de todo ser criado, depende de Deus, de dois modos: por haurir nele a perfeição ou a forma pela qual age; e por ser movido por ele à ação.
   
Mas, toda forma inerente às coisas criadas por Deus tem a sua eficiência relativa a um ato determinado, que lhe é próprio, e além do qual não pode ir senão reforçado por outra forma superveniente. Assim, a água não pode aquecer senão aquecida pelo fogo. Ora, a forma do intelecto humano é o lume inteligível, suficiente, em si mesmo, para conhecer certos inteligíveis, a saber, aqueles cujo conhecimento podemos obter por meio dos sensíveis. O que porém é superior à sua capacidade o intelecto humano não pode conhecer senão fortalecido pelo lume da graça; p. ex., pelo lume da fé ou da profecia, chamado lume da graça, por ser acrescentado à natureza. Por onde, devemos dizer que para conhecer qualquer verdade o homem precisa do auxílio de Deus que o move ao seu ato. Não precisa porém, para conhecer a verdade, em todos os casos, de nova iluminação acrescentada à iluminação natural, mas só nos casos que lhe excedem o conhecimento natural. E contudo, algumas vezes milagrosamente, pela sua graça, instrui a certos, relativamente ao que podem conhecer pela razão natural; assim como, algumas vezes, faz milagrosamente certas coisas que a natureza pode fazer.
   
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Toda verdade, seja dita por quem for, provém do Espírito Santo, como lume, que naturalmente a infunde e move a compreender e falar a verdade. Não porém como habitando na pessoa pela graça santificante ou como conferindo algum dom habitual acrescentando ao da natureza. Pois isto só se dá no conhecimento e na expressão de certas verdades e, sobretudo, nas que respeitam à fé, ao que se refere o texto citado do Apóstolo.
   
RESPOSTA À SEGUNDA. — O sol material ilumina exteriormente, ao passo que o sol inteligível, que é Deus, interiormente. Por onde, o lume natural infuso na alma é, em si mesmo, iluminação de Deus, que permite ao conhecimento natural atingir o seu objeto. E para isto não é necessária outra iluminação, senão só para os objetos excedentes ao conhecimento natural.
   
RESPOSTA À TERCEIRA. — Sempre precisamos, para qualquer pensamento, do auxílio divino que move o intelecto à ação; pois inteligir alguma coisa, atualmente, é pensar, como claramente o diz Agostinho.
São Tomás de Aquino - Suma Teológica - Ia IIae pars - Tratado da Graça - Questão 109: Da necessidade da graça.

 

sábado, 19 de março de 2011

Por que alguns ignorantes danam-se na ignorância, enquanto outros são contemplados com o conhecimento, com a fé e com a Igreja.

por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

A justa condenação de ignorantes não é um caso de intolerância desmedida, pois, por vezes se dá que no homem a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado. Um justo que seja ignorante por toda a vida, reflete-se algo quase que utópico, pois “quem pratica a verdade aproxima-se da luz” (Jo 3, 21). Ou seja, a sua prática de justiça o encaminhará para a vereda que lhe tirará da ignorância. Assim, para aquele que será contado entre os justos, a ignorância é, ordinariamente, algo passageiro que deve ir se extinguindo quando ele se deixa guiar pelos caminhos da justiça, consumando-se a sua inclusão no Corpo Místico de Cristo antes da morte, ordinária ou prodigiosamente.

O homem sempre está impelido à verdade e é plenamente capaz de conhecer a Deus e suas obrigações para com o Criador. Tal conhecimento se pode adquirir através da busca pela verdade que é recompensada por Deus. Acontece, porém, que muitos desvios são trilhados pelo homem quando põe outros interesses acima da verdade, posto que, quanto à verdade, "acontece também que o próprio homem a evite, quando começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência". (Fides et Ratio, 28)

O ser humano não pode ignorar Deus, já que a Sua existência é manifesta em todas as coisas criadas. No fundo de seu ser, o homem sabe de Deus, e não pode se desfazer da missão de buscá-lo. É pela mística da religião que ele se dispõe a alcançá-lo. Partindo desse pressuposto, todo justo que caminha para Deus não se contenta com propostas religiosas que contradigam ao Deus que se apresenta em uma consciência reta. Por isso o homem em sua busca de Deus é, por natureza, como um cientista em suas pesquisas à busca de comprovar sua intuição. Mesmo um documento pós-conciliar expõe tal analogia:


O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De fato, assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo fenômeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial, só porque não alcançou o seu objetivo; dirá antes, e justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada. (Fides et Ratio, 29)

Da mesma forma que as pesquisas que não apresentam um resultado satisfatório induzem o cientista a buscar respostas mais além, assim é o homem que se deixa conduzir até a verdadeira Igreja (e nos tempos hodiernos à face mais autêntica desta mesma Igreja) porque não se satisfaz com as contradições e erros crassos que facilmente uma consciência reta detecta nas falsas religiões. Mas quando deixa macular sua consciência, acontece que ele se satisfaz com respostas incompletas e se desleixa na busca que lhe garantiria a salvação.

Para além de toda essa teologia, nada se consuma sem a ação efetiva da Providência Divina que oportuniza a condução dos eleitos, os quais, para tanto, respondem positivamente à graça ofertada por Deus.


quarta-feira, 16 de março de 2011

Ai do cristão! Porque se um infiel se perde, e merece um inferno, o cristão merece mil infernos!

Disse Jesus Cristo: "A luz veio ao mundo, porém os homens amaram mais as trevas do que a luz".

Jesus Cristo, meus irmãos, vivendo no mundo, praticou as virtudes todas; e enviando o Espírito Santo sobre os seus discípulos, eles se encheram de luzes divinas; depois saíram por toda a parte, publicando sua santa doutrina, e assim ficou o mundo também cheio de luz; desde então puderam os homens conhecer perfeitamente o caminho do Céu, os meios de conseguir a salvação eterna, e também os perigos da condenação; finalmente, puderam conhecer como haviam de viver para serem espirituais, e estarem unidos a Deus por amor...

No entanto, Jesus Cristo, como sabia de tudo, conheceu o que havia de acontecer, isto é, conheceu a ingratidão dos homens, e disse: "A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz". Agora pergunto eu:

Não se tem isto verificado, e está se verificando?
O que nos diz a experiência?

O que vemos e observamos?

Em que se diferencia, nesse mundo, a maior parte dos cristãos, daqueles que não tem a verdadeira e Santa Religião?

Nos costumes e nas ações não fazem o mesmo, ou talvez ainda pior?

Não vivem quase todos nas trevas do erro e do engano; quase todos cegos com as suas paixões desordenadas?

As almas puras, justas e emendadas não são tão raras como os cachos na vinha depois de feita a colheita?

Ó, que grande cegueira! Que grande miséria! E até que vergonha! Um católico ter tantos desenganos dos confessores, dos pregadores, e na leitura dos livros sagrados; Um católico que pode ver o caminho do Céu seguido por tantos Santos, e continuado por essas almas justas, que todos os dias estão a dar exemplos de virtude e santidade, e apesar de tudo isto viver mais cego do que um infiel; é ainda mais criminoso que um herege!...

Que desgraça, meus irmãos! Tantas almas no regaço da Santa Igreja, nutridas com o sagrado corpo de Jesus Cristo, e então nas trevas do pecado, perdidas de todo, e condenadas ao inferno!...

Ai do cristão! Porque se um infiel se perde, e merece um inferno, o cristão merece mil infernos! E por quê? Tem muitos desenganos; porque despreza muitas graças divinas; finalmente, porque já não peca por ignorância.

É isto, pecador, desengana-te; a tua consciência está muito criminosa; ela tem gritado sempre, e está gritando contra ti. Como dizes tu, lá no silêncio das tuas paixões, quando consideras?

Ah! Dizes tu: eu não vou bem; isto não é bom; nestas obras não agrado a Deus; este caminho, que levo, não é o do Céu; o meu coração não está para Deus, nem os meus amores estão em Deus; de verdade estou perdido; as coisas de Deus já me aborrecem, nem gosto da oração, nem da confissão, nem de pessoas de virtude; por certo que estou perdido, e não me salvo.

Ó desgraçado! Que melhor desengano queres? Pois dizes desse modo, e esperas perdão de Deus sem reformar e emendar essa má vida em que vives? Olha como estás enganado, sem talvez o teres conhecido! Não sabes tu que vão muitas almas ao inferno, vivendo em uma falsa paz, sem algum peso ter? E tu ouves gritar a tua consciência, o confessor, o pregador, e a mim mesmo que agora te falo, e ainda te fazes surdo? Ainda queres continuar nas tuas culpas? Ah! Não digas que queres salvar-te!

Dois Bispos da Ásia tinham uma vida que parecia santa, não havia que lhes notar, pareciam até uns Anjos, e Deus os achou em pecado mortal! Moisés, só por bater duas vezes no rochedo, duvidando da primeira, não entrou na terra da Promissão; e tu, pecador, ouves gritar tudo contra ti, e ainda te divertes, comes, bebes e dormes no pecado? Não sejas louco; volta-te já para Deus enquanto ele te oferece a sua misericórdia, quando não, podes contar com a tua condenação eterna.

Texto adaptado da INSTRUÇÃO EXTRAÍDA DO EVANGELHO - 
Pelo Padre Manoel José Gonçalves Couto, no livro "Missão Abreviada".

quarta-feira, 9 de março de 2011

Esgotado o tempo da penitência, todo arrependimento será inútil

À entrada dos quarenta dias consagrados à penitência, a Igreja assume a voz severa dos profetas, para nos exortar à renovação na graça de Deus. Felizes as almas que respondem ao solene convite; pois aproxima-se a data em que a trombeta do arcanjo anunciará o fim das provações terrestres. Ter-se-á, então, esgotado o tempo da penitência, todo arrependimento será inútil. Façamos agora sem dilação o que, no último dia, desejaríamos ter feito. "Agora é a ocasião, propícia, diz o apóstolo, dias de graça e de salvação". Roguemos a Deus que em nós excite o arrependimento de nossas faltas e que nos conceda um coração contrito e humilde.

A penitência não consiste unicamente em abstinências e mortificações corporais; visa sobretudo o coração, a vontade e a conduta. Fazer penitência é afastar nosso amor de toda afeição viciosa, para amar puramente a Deus; é renunciar a todas as satisfações passageiras, para obedecer filialmente à vontade de Deus; é reformar as imperfeições de nossa conduta, para viver santamente segundo a lei de Deus; em suma, fazer penitência é trabalhar para a destruição do homem caduco, para auxiliar a ressurreição do homem novo. Mas o espírito de penitência não poderia reanimar os que julgam justos e virtuosos, mas tão somente àqueles que a título de pecadores, imploram a misericórdia do Senhor. Sirvamo-nos das palavras de Davi para pedir a Deus o espírito de penitência e se não podemos empregar austeridades voluntárias para nos castigarmos, ao menos aceitemos de bom grado as aflições, trabalhos, acidentes e sacrifícios que a Providência nos impõe.

Migalhas evangélicas, pelo Pe. Teodoro Ratisbonne, editora Vozes, 1941

Sermão sobre a Quaresma - São Leão Magno (Evangelho: S. Mateus 4, 1-11)


Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo.

Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu Mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas manobras.

Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências do passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos em um combate de santidade.

Então preparemos nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por nossa salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas Aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa força vem d'Aquele em quem pomos nossa confiança.

Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-Lo. Ele venceu seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha.

A vida se passa no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. Eis porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho, quando entras para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação (Eclo. 2,1).

Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar seus golpes.
 

sábado, 5 de março de 2011

Batismos prodigiosos - Os Caminhos Conhecidos por Deus que Levam à Fé e o exemplo do batismo da escrava Augustina


Por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho

São palavras de Jesus: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10, 16).

Por vezes, a Providência Divina age de forma extraordinária para conduzir o rebanho. A doutrina da Igreja diz que Deus pode, por caminhos dele conhecidos, levar à fé todos os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. A íntegra do capítulo décimo do livro dos Atos dos Apóstolos (o envio de Pedro até o centurião Cornélio) compreende um desses episódios onde Deus assim age prodigiosamente, para que o batismo, necessário para a salvação, seja administrado a um justo prestes a morrer.

Catalogam-se abundantes casos de batismos prodigiosos nos escritos de Santo Isaac Jogues, São Francisco Xavier, São Patrício, São Gregório Nazianzeno, São Felipe Néri, São Pedro Claver, São Columbano, São Francisco de Sales, entre outros. Convém que sejam citados para conhecimento e maior divulgação, episódios que existiram na caminhada da Igreja, que dão indícios de como se configuram tais caminhos conhecidos por Deus que levam à fé, dentre os quais transcreve-se:


O caso da escrava Augustina, que serviu na casa do Cap. Vicente de Villalobos, foi um dos mais estranhos na vida de Claver...Quando Augustina estava em sua última agonia Villalobos foi a busca de Claver. Quando Claver chegou o corpo já estava sendo preparado para a mortalha e estava frio. Sua expressão mudou repentinamente e ele supreendeu a todos gritando alto, "Augustina, Augustina." Ele jogou água benta sobre o corpo dela, ajoelhou-se e orou por uma hora. Repentinamente a supostamente morta começou a se mexer... Todos se ajoelharam. Augustina fixou os olhos em Claver, e como se despertando de um profundo sono ela disse, "Jesus, Jesus, como estou cansada". Claver lhe disse para rezar de todo seu coração e arrepender-se dos seus pecados, mas aqueles que estavam perto, movidos pela curiosidade, suplicaram a ele que perguntasse a ela de onde ela veio. Ele perguntou, e ela respondeu: "Estou vindo de uma viagem ao longo de uma longa estrada. Era uma linda estrada, e depois de ter partido pelo caminho encontrei um homem branco de grande beleza que se colocou diante de mim e disse, 'Pare você não pode seguir'. Perguntei o que eu deveria fazer, e me respondeu, 'Volte pelo caminho que você veio, à casa que você deixou'. "E foi o que fiz, mas não sei dizer como." Ouvindo isto Claver pediu a eles para deixarem a sala e deixá-lo a sós com ela por que desejava ouvir sua confissão. Ele a preparou e contou-lhe que uma completa confissão dos seus pecados era de imensa importância se ela quisesse entrar naquele paraíso do qual ela teve um vislumbre. Ela o obedeceu, e ele ouviu sua confissão que tornou claro para Claver que ela não era batizada. Ele imediatamente mandou trazer água, uma vela e um crucifixo. Seus donos responderam que tinham Augustina em sua casa há vinte anos e que comportou-se em toda coisa por si mesma. Tendo ido à confissão, a Missa, e cumpria com todos os seus deveres cristãos e, portanto ela não precisaria do Batismo, nem poderia recebê-lo. Mas Claver tinha certeza de que estavam errados e ele insistiu, batizando-a na presença de todos, para a grande alegria da alma dela e da sua, alguns minutos depois ela recebeu os sacramentos e faleceu na presença de toda a família. (Cf. VALLTIERA, Angel. Peter Claver: Saint of the Slaves, London: Burns and Oates, 1960, p. 221-222).

Arrebatamento, bilocação, encaminhamento a lugares ermos e outras tantas ações místicas prodigiosas são constantemente encontradas nos relatos da vida dos santos, sobremaneira aqueles afetos à missionariedade.
 

Exercícios para a mortificação cristã V - Mortificações para praticar em nossas relações com o próximo

1º Suporte os defeitos do próximo: faltas de educação, de espírito, de caráter. Suporte tudo o que nele lhe desagrada: seu modo de andar, sua atitude, seu tom de voz, seu sotaque, e todo o resto;

2º Suporte tudo a todos e suporte até o fim e cristãmente. Não se deixe levar jamais por essas impaciências tão orgulhosas que fazem dizer: Que posso fazer de tal o qual? Em que me concerne o que diz? Para que preciso o afeto, a benevolência ou a cortesia de uma criatura qualquer, e desta em particular? Nada é menos segundo Deus que estes desprendimentos altaneiros e estas indiferenças depreciativas; melhor seria, certamente, uma impaciência;

3º Encontra-se tentado a irar-se? Pelo amor a Jesus, seja manso. De vingar-se? Devolva bem por mal. Diz-se que o segredo de chegar ao coração de Santa Teresa, era fazer-lhe algum mal. De mostrar a alguém uma cara má? Sorria com bondade. De evitar seu encontro? Busque-o por virtude. De falar mal dele? Fale bem. De falar-lhe com dureza? Fale doce e cordialmente;

4º Ame fazer o elogio de seus irmãos, sobretudo daqueles a quem sua inveja se dirige mais naturalmente;

5º Não diga acuidades em detrimento da caridade;

6º Se alguém se permite em sua presença palavras pouco convenientes, ou mantém conversações próprias para danificar a reputação do próximo, poderá às vezes repreender com doçura a quem fala, mas mais frequentemente será melhor distanciar habilmente a conversação ou manifestar por um gesto de descontentamento ou de desatenção querida que o que se está dizendo o desagrada;

7º Quando lhe custe fazer um favor, ofereça-se a fazê-lo: terá duplo mérito;

8º Tenha horror de apresentar-se diante de si mesmo ou dos demais como uma vítima. Longe de exagerar suas cargas, esforce-se em encontrá-las leves. O são em realidade muito mais frequentemente do que parece, e o seriam sempre se tivesse um pouco mais de virtude.
 
Conclusão

Em geral, saiba negar à natureza o que pede sem necessidade.
Saiba fazer-lhe dar o que ela nega sem razão. Seus progressos na virtude, disse o autor da Imitação de Cristo, serão proporcionais à violência que saiba fazer-se.
Dizia o santo Bispo de Genebra: "Há que morrer afim de que Deus viva em nós: porque é impossível chegar à união da alma com Deus por outro caminho que pela mortificação. Estas palavras: Há que morrer! são duras, mas serão seguidas de uma grande doçura, porque não se morre a si mesmo senão para unir-se a Deus por esta morte".
Quisera Deus que pudéssemos aplicar-nos com pleno direito as seguintes palavras de São Paulo: "Em todas as coisas sofremos a tribulação... Trazemos sempre em nosso corpo a morte de Jesus, afim de que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Cor. 4, 10)


Livre-tradução do Artigo "La mortificación cristiana" do Cardeal Desidério José Mercier publicado em "Cuadernos de La Reja" número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX, retirado site da FSSPX-BRASIL.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Exercícios para a mortificação cristã IV - Mortificações que há que praticar em nossas ações exteriores

1º Deve ser o mais exato possível em observar todos os pontos de sua regra de vida, obedecer sem demora, lembrando-se de São João Berchmans, que dizia: "Minha maior penitência é seguir a vida comum"; "Fazer o maior caso das menores coisas, tal é o meu lema"; "Antes morrer que violar uma só de minhas regras!";

2º No exercício de seus deveres de estado, trate de estar muito contente com tudo o que parece feito de propósito para desagradá-lo e molestá-lo, lembrando-se também aqui da frase de São Francisco de Sales: "Nunca estou melhor quando não estou bem";

3º Não conceda jamais um momento à preguiça; da manhã à noite, esteja ocupado sem descanso;

4º Se sua vida se passa dedicada, ao menos em partes, ao estudo, aplique os seguintes conselhos de Santo Tomás de Aquino aos seus alunos: "Não se contentem com receber superficialmente o que leem ou escutam, senão tratem de penetrar e aprofundar seu sentido. - Não fiquem nunca com dúvidas sobre o que podem saber com certeza. - Trabalhem com uma santa avidez em enriquecer seu espírito; classifiquem com ordem em sua memória todos os conhecimentos que possa adquirir. - Sem embargo, não tratem de penetrar os mistérios que estão por acima de sua inteligência";

5º Ocupe-se unicamente da ação presente, sem voltar ao que precedeu nem adiantar-se pelo pensamento ao que vem a seguir; diga com São Francisco: "Enquanto faço isto, não estou obrigado a fazer outra coisa"; "Apressemo-nos com bondade: será tão logo tanto quanto esteja bom";

6º Seja modesto em sua compostura. Nenhum porte era tão perfeito como o de São Francisco; tinha sempre a cabeça direita, evitando igualmente a ligeireza que a gira em todos os sentidos, a negligência que a inclina adiante e o humor orgulhoso e altivo que a levanta para trás. Seu rosto estava sempre tranquilo, livre de toda preocupação, sempre alegre, sereno e aberto, sem ter sem embargo uma jovialidade indiscreta, sem risadas ruidosas, imoderadas ou demasiado frequentes;

7º Quando se encontrava só mantinha-se em tão boa compostura como diante de uma grande assembleia. Não cruzava as pernas, não apoiava a cabeça no encosto. Quando rezava, ficava imóvel como uma coluna. Quando a natureza lhe sugeria seus gostos, não a escutava em absoluto;

8º Considere a limpeza e a ordem como uma virtude, e a sujeira e a desordem como um vício: evite os vestidos sujos, manchados ou rasgados. Por outra parte, considere como um vício ainda maior o luxo e o mundanismo. Faça de modo de ao ver sua vestimenta e adereços, ninguém diga: está desarrumado; nem: está elegante; senão que todo o mundo possa dizer: está decente

Livre-tradução do Artigo "La mortificación cristiana" do Cardeal Desidério José Mercier publicado em "Cuadernos de La Reja" número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX, retirado site da FSSPX-BRASIL.  
 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Exercícios para a mortificação cristã III - Mortificação do espírito e da vontade

1º Mortifique seu espírito proibindo-lhe todas as imaginações vãs, todos os pensamentos inúteis ou alheios que fazem perder o tempo, dissipam a alma, e provocam o desgosto do trabalho e das coisas sérias;

2º Deve distanciar de seu espírito todo pensamento de tristeza e de inquietude. O pensamento do que poderá suceder no futuro não deve preocupá-lo. Quanto aos maus pensamentos que o molestam, deve fazer deles, distanciando-os, matéria para exercer a paciência. Se são involuntários, não serão para você senão uma ocasião de méritos;

3º Evite a teimosia em suas idéias, e a obstinação em seus sentimentos. Deixe prevalecer de boa vontade o juízo dos demais, salvo quando se trate de matérias em que você tem o dever de pronunciar-se e falar;

4º Mortifique o órgão natural de seu espírito, ou seja, a língua. Exerça-se de boa vontade no silêncio, seja porque sua Regra o prescreve, seja porque você o impõe espontaneamente;

5º Prefira escutar os demais do que falar você mesmo; mas, sem embargo, fale quando convenha, evitando tanto o excesso de falar demasiado, que impede os demais expressar seus pensamentos, como o de falar demasiado pouco, que denota indiferença que fere ao que dizem os demais;

6º Não interrompa nunca quem fala, e não corte com uma resposta precipitada quem lhe pergunta;

7º Tenha um tom de voz sempre moderado, nunca brusco nem cortante. Evite os "muito", os "extremamente", os "horrivelmente", etc.: não seja exagerado em seu falar;

8º Ame a simplicidade e a retidão. A simulação, os rodeios, os equívocos calculados que certas pessoas piedosas se permitem sem escrúpulo, desacreditam muito a piedade;

9º Abstenha-se cuidadosamente de toda palavra grosseira, trivial ou inclusive ociosa, pois Nosso Senhor nos adverte que nos pedira conta delas no dia do Juízo;

10º Acima de tudo, mortifique sua vontade; é o ponto decisivo. Adapte-a constantemente ao que sabe ser do beneplácito divino e da ordem da Providência, sem ter nenhuma conta nem de seus gostos nem de suas aversões. Submeta-se inclusive a seus inferiores nas coisas que não interessam para a glória de Deus e os deveres de seu cargo;

11º  Considere a menor desobediência às ordens e inclusive aos desejos de seus Superiores como dirigida a Deus;

12º Lembre-se de que praticará a maior de todas as mortificações quando ame ser humilhado e quando tenha a mais perfeita obediência àqueles a quem Deus quer se se submeta;

13º Ame ser esquecido e ser tido por nada: é o conselho de São João da Cruz, é o conselho da Imitação: não fale apenas de si mesmo nem para bem nem para mal, senão busque pelo silêncio fazer-se esquecer;

14º Diante de uma humilhação ou repreensão, se sente tentado a murmurar. Diga como Davi: "Melhor assim! Me é bom ser humilhado!";

15º Não entretenha desejos frívolos: "Desejo poucas coisas, e o pouco que desejo, o desejo pouco", dizia São Francisco;

16º Aceite com a mais perfeita resignação as mortificações chamadas de Providência, as cruzes e os trabalhos unidos ao estado em que a Providência o pôs. "Quanto menos há de nossa eleição, mais há de beneplácito divino", dizia São Francisco de Sales. Queríamos escolher nossas cruzes, ter outra distinta da nossa, levar uma cruz pesada que tivesse ao menos algum brilho, antes que uma cruz ligeira que cansa por sua continuidade: Ilusão! Devemos levar nossa cruz, e não outra, e seu mérito não se encontra em sua qualidade, senão na perfeição com que a levamos;

17º Não se deixe turbar pelas tentações, pelos escrúpulos, pelas aridezes espirituais: "o que se faz durante a sequidão é mais meritório diante de Deus do que o que se faz durante a consolação", dizia o santo bispo de Genebra;

18º Não devemos entristecer-nos demasiado por nossas misérias, senão mais bem humilhar-nos. Humilhar-se é uma coisa boa, que poucas pessoas compreendem; inquietar-se e impacientar-se é uma coisa que todo o mundo conhece e que é má, porque nesta espécie de inquietude e de despeito o amor próprio tem sempre a maior parte;

19º Desconfiemos igualmente da timidez e do desânimo, que fazem perder as energias, e da presunção, que não é mais do que o orgulho em ação. Trabalhemos como se tudo dependesse de nossos esforços, mas permaneçamos humildes como se nosso trabalho fosse inútil.

Livre-tradução do Artigo "La mortificación cristiana" do Cardeal Desidério José Mercier publicado em "Cuadernos de La Reja" número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX, retirado site da FSSPX-BRASIL.

 
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